sábado, 18 de março de 2006

Só para moer

O flautista Viriato Figueira da Silva nasceu em Macaé, estado do Rio de Janeiro. Estudou no Conservatório de Música do Rio de Janeiro com Callado, de quem se tornou grande amigo. Foi um dos primeiros a se destacar no Brasil como solista de saxofone. Viajou a São Paulo como integrante da orquestra do Teatro Phoenix Dramática, sob direção do maestro Henrique Alves de Mesquita.

Segundo o flautista Pedro de Assis, Viriato "empreendeu com grande êxito artístico e financeiro uma turnê artística às capitais nortistas alguns anos depois de ter feito a mesma digressão o maior flautista do mundo, o célebre flautista belga André Mateus Reichert".

A polca Só para Moer, de sua autoria, é a primeira em tonalidade menor de que se tem notícia, e uma das músicas mais lindas do repertório do choro. Gravada originalmente por Patápio Silva em 1902, popularizou-se entre os músicos de choro, tornando-se um clássico da obra de Viriato.

Disco 78 rpm - Título da música: Só para moer - Autoria Silva, Viriato Figueira da (Compositor) - Silva, Patápio (Intérprete) - Imprenta [S.l.]: Odeon, 1904-1907 - Nº Álbum 40047 - Gênero musical Choro


Só para moer (Não vê-la mais) (polca, 1877) - Música: Viriato Figueira da Silva / Letra: Catulo da Paixão Cearense

Senhor / Tréguas a meus ais!
Mata-me esta dor / De não vê-la mais
Volve piedoso o teu olhar / Para o meu sofrer
Vê que a padecer / Venho te implorar

Senhor, faze adormecer / Meu peito a doer
Tu que és todo amor! / Tem compaixão
Da minha dor / Pára o coração
Faze-o descansar / Basta de ansiar

Pensar que nunca mais verei / O anjo que adorei
Por quem choro e chorei / E em cujo altar me ajoelhava
E em que em extremos cultuava / E que era tudo quanto amava
E que era tudo quanto amei

Pensar / Em não mais me orvalhar
Não me sacramentar / Nos olhos que adorei
Naqueles olhos que eu magoado / Sobre um leito debruçado
Num suspiro prolongado / Com as minhas mãos fechei

Tão só / O que hei de fazer?
Mais do que gemer / Mais do que gemer
Até que de mim tenhas dó / Volvas teu amor
Teu sagrado amor / Sobre mim Senhor

Em prece, ajoelhado / A sua sepultura
Que lágrimas transuda / Já tenho interrogado
A sepultura é muda / Não quer me responder
Meus Deus, que hei de fazer? / Senhor, meu Deus, que hei de fazer?

Contrito, ajoelhado / Em lágrimas desfeito
Já tenho interrogado / A pedra de seu lado
A pedra friamente / Silêncio só transuda
E impiedosamente muda / Nada diz ao infeliz

Às horas fulgurantes / Das noites palpitantes
A lua macilenta / Tristonha e sonolenta
O azul do firmamento / E a própria solidão
Entendem minhas queixas / E esta dor do coração

Só Tu, Senhor, em calma / Não ouves meus gemidos
Gritando por sua alma / Cansados, languescidos
Em pleno cemitério / Revela-me o mistério
E vem agora me dizer: / O que é viver, o que é morrer?

Senhor / Tréguas a meus ais!
Mata-me esta dor / De não vê-la mais
Volve piedoso o teu olhar / Sobre o meu penar
Vê que a soluçar / Venho te implorar

No bico da chaleira

Diariamente, o Morro da Graça no bairro das Laranjeiras no Rio de Janeiro era frequentado por dezenas de pessoas - senadores, deputados, juízes, empresários ou, simplesmente, candidatos a cargos públicos ou mandatos eletivos. A razão da romaria era que no alto do morro morava o general senador José Gomes Pinheiro Machado, líder do Partido Republicano Conservador, que dominou a política nacional no início do século.

Pois foi para satirizar o comportamento desses bajuladores que o maestro Costa Júnior (Juca Storoni) fez a animada polca "No Bico da Chaleira", sucesso do carnaval de 1909: "Iaiá me deixe subir nessa ladeira / eu sou do grupo que pega na chaleira...". E tamanha foi a popularidade da composição que acabou por consagrar o uso dos termos "chaleira" e "chaleirar" como sinônimos de bajulador e bajular. Isso porque, dizia-se na época, o pessoal que subia a ladeira da Graça disputava acirradamente o privilégio de segurar a chaleira que supria de água quente o chimarrão do chefe.

Com a morte de Pinheiro Machado, assassinado por um débil mental em 1915, deram seu nome à Rua Guanabara, onde começava a subida para sua casa, na qual passou a funcionar o Colégio Sacre Coeur e tempos depois uma empresa construtora.

No bico da chaleira (polca, 1909) - Juca Storoni

Iaiá / me deixa subir esta ladeira / Eu sou do bloco / Mas não pego na chaleira / Na casa do Seu Tomaz / Quem grita / é que manda mais / Que vem de lá / Bela Iaiá / Ó abre alas / Que eu quero passar / Sou Democrata / Águia de Prata / Vem cá mulata / Que me faz chorar

Título da música: No bico da chaleira / Gênero musical: Marcha / Intérprete: Banda da Casa Edison / Compositor: Costa Júnior / Gravadora Odeon / Número do Álbum 108086 / Data de Gravação: 1907-1912 / Lançamento: 1907-1912 / Lado único / Disco 78 rpm:


Neste mesmo ano, Eustórgio Wanderley compôs uma versão mais picante e maliciosa desta polca:  No bico da chaleira - versão II, gravada na Casa Edison pelos Os Geraldos.

Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34

Clélia (Ao desfraldar da vela)

A valsa Clélia é um clássico do repertório seresteiro de nossa música. Considerado um dos maiores trompetistas de sua época, o autor, Luiz de Souza (RJ, 12/03/1865 / 08/12/1920), também conhecido como Souza Pistom, iniciou os estudos de trompete com José Soares Barbosa, autor da famosa polca Que é da chave?. Mais tarde chegou a contramestre da Banda do 23º Batalhão de Caçadores, em Fortaleza, CE.

No Rio de Janeiro, aperfeiçoou-se na Banda do Arsenal de Guerra e fez parte, ao lado de Albertino Pimentel (Carramona), da primeira formação da Banda do Corpo de Bombeiros sob a regência de Anacleto de Medeiros. Foi integrante de orquestras de cinematógrafos, além de fazer parte do rancho Ameno Resedá. Frequentou, no início do século, a loja de música O Cavaquinho de Ouro, ponto de encontro de chorões como Quincas Laranjeiras, Anacleto de Medeiros, Irineu de Almeida, Villa-Lobos, entre outros. Gravou alguns discos com músicas de sua autoria para a Casa Edison, como líder do Grupo Luiz de Souza.

A valsa Clélia foi gravada pela Banda da Casa Edison, pela Banda da Casa Faulhaber e pelo cantor Mário Pinheiro, com letra de Catulo da Paixão Cearense, e reintitulada Ao desfraldar da vela. Parte da programação da Rádio Nacional, nos anos 1940, a valsa recebeu arranjos para orquestra escritos por Radamés Gnattali e Alexandre Gnattali. De 1947 a 1952 o trecho inicial da valsa era executado semanalmente, fazendo parte do prefixo do programa O pessoal da velha guarda, produzido por Almirante na Rádio Tupi, com direção musical de Pixinguinha, com o intuito de valorizar a memória musical brasileira. As partituras desses arranjos se encontram digitalizadas e podem ser consultadas no acervo do Museu da Imagem e do Som.

Clélia (Ao desfraldar da vela) (valsa, 1907) - Catulo da Paixão Cearense e Luiz de Souza - Interpretação: Gilberto Alves



Clélia adeus! / Adeus, minha doce Clélia adeus!
Desce à praia e vem calmar o verde mar
Que em breve irei sulcar além / Clélia, ó vem!
Adeus, vou me separar de ti / Vem. Ó vem meu bem!
Vem ouvir-me aqui

Vou singrar a vastidão do mar / A imensidão do mar, do mar
Vou cantar a minha dor / Sob este céu primaveril
Clélia, adeus! / Que o céu é todo puro anil, gentil
Beija a lua o verde mar / Na areia a se enrolar


Ai, que lancinante é o meu sofrer! 
Ai, pensar em nunca mais te ver!
Ó, são horas de partir meus ais! / A vela a desfraldar
Pede um sorrir, um teu olhar
Ó vem, ó minha Clélia, adeus!
Vai meu coração em chaga / De vaga em vaga
À solidão do mar clamar

Clélia adeus! / Adeus, vem dizer-me o eterno adeus!
Desce à praia e vem calmar o verde mar
Que em breve irei sulcar além / Vem, ó vem!
Por Deus, vem me dar um beijo aqui
Vem, ó vem, Clélia meu bem! / Vem me ouvir aqui



Fonte: MIS Blog - A valsa Clélia, escrita por Luiz de Souza

Três estrelinhas (O que tu és)

Três estrelinhas (O que tu és) (polca, 1906) - Catulo da Paixão Cearense e Anacleto de Medeiros - Interpretação: Gilberto Alves



Se um riso vem / Teus lábios colorir de almo rubor / As almas a teus pés / Vêm prosternar-se com ardor / A luz transluz nos céus / Nos céus dos olhos teus / Saudosos como o luar / No mar a cintilar

Tua alma cheira mais / Que um alvo jasmineiro todo em flor / Onde tu passas fica um aroma a soluçar / Tu és de Deus a obra-prima / Não tens par! / És uma rima singular

Tu és a pérola ideal / Que o mar gerou / Tu és a flor mais aromal / Que Deus sonhou / A mais plangente e meiga lira sons não tira / Como as notas desse teu falar

Teus seios têm o sacro / E doce aroma de um missal / Teus lábios têm a eterna / Sensação da extrema-unção / Tu fazes sem pensar os astros palpitar / Tu fazes sem querer as almas padecer

Tuas tranças cheiram mais / Que as rosas trescalantes de um rosal ; Que a madrugada vem de orvalho perolar / És uma flor da fonte à margem / De cristal / És um poema divinal!

És a mais sonora estrofe do Senhor / És a irradiação mais branca do luar / És a luz solar / Um hino sideral! / Nos olhos tens os raios / De uma estrela vesperal

Nos lábios tens a graça / Inebriante de hidromel / Da imagem do perdão / Tu és a cópia mais fiel / Tu és um coração de orvalho lá do céu / Que um anjo a chorar verteu



Os olhos dela

Mário Pinheiro
Os olhos dela (chótis, 1906) - Catulo da Paixão Cearense e Irineu de Almeida - Interpretação: Mário Pinheiro - Disco 78 rpm - Imprenta [S.l.]: Victor record, 1908-1912 - Nº Álbum 98943



Eu sou capaz de confessar / Aos pés de Deus / Que eu nunca vi em mundo algum / Uns olhos como os teus! / Eu não sei mesmo / Como os hei de comparar, não sei / Eu já tentei cantar / O teu divino olhar

Depois de tanto versejar / Debalde em vão / Depois de tanto apoquentar / A minha inspiração / Cheguei à triste conclusão / De que eu só sei sofrer / E o que teus olhos são / Não sei dizer

Deixa-te estar que quando eu morrer / Irei verter os prantos meus nos céus / Hei de contar em segredo a Deus / As travessuras desses olhos teus / Hei de mostrar ao Senhor Jesus / Ao Pai nos céus, apiedado / Meu coração crucificado / Nos braços teus de luz

Os olhos teus são lágrimas do amor / Os olhos teus são dois suspiros de uma flor / São dois soluços d’alma / São dois cupidos de poesia / Que sinfonia tem o teu olhar / Que até às vezes já nos faz chorar! / Ai, quem me dera me apagar assim / À luz do teu olhar!

Os olhos teus / Quando nos querem castigar / Parecem dois astros de gelo / Que nos vêm gelar / Mas quando querem nos ferir / Direito o coração / Eu não te digo não / O que os teus olhos são

Pois quando o mundo quiser / De vez findar / Basta acendê-lo com um raio / Desse teu olhar / Que os olhos todos das mulheres / Que mais lindas são / Dos olhos teus / Não têm a irradiação


Casinha Pequenina

A modinha, o gênero mais lírico e sentimental de nosso cancioneiro, é também o mais antigo, existindo desde o século XVIII. E entre todas as modinhas surgidas nesse longo espaço de tempo, nenhuma seria tão cantada e gravada como a "Casinha Pequenina".

Lançada em disco por Mário Pinheiro em 1906, teria dezenas de gravações figurando no repertório dos mais variados intérpretes, de Bidu Sayão e Beniamino Gigli a Cascatinha e Inhana, de Sílvio Caldas e Nara Leão aos maestros Radamés Gnattali, Lírio Panicali e Rogério Duprat.

Atribuída a autor desconhecido, a "Casinha Pequenina" teve a origem pesquisada pelo musicólogo Vicente Sales, que acredita ser seu criador o paraense Bernardino Belém de Souza. Carteiro e pianista, Bernardino tocou durante algum tempo em navios que faziam a linha Rio-Manaus, aproveitando as viagens para divulgar suas composições no sul do país. Outra autoria possível, mas não comprovada, seria a dos atores Leopoldo Fróes e Pedro Augusto. Segundo Íris Fróes, biógrafa do primeiro, Leopoldo teria recebido de Pedro a letra da "Casinha Pequenina" pronta, e composto a melodia em 1902. A verdade é que nenhum deles jamais reivindicou a paternidade da canção, apesar do sucesso.

Casinha Pequenina (modinha, 1906) - Folclore Popular - Interpretação: Sílvio Caldas


Tu não te lembras da casinha pequenina / Onde o nosso amor nasceu / Tu não te lembras da casinha pequenina / Onde o nosso amor nasceu / Tinha um coqueiro do lado / Que coitado de saudade já morreu / Tinha um coqueiro do lado / Que coitado de saudade já morreu

Tu não te lembras das juras e perjuras / Que fizeste com fervor / Tu não te lembras das juras e perjuras / Que fizeste com fervor / Do teu beijo demorado prolongado / Que selou o nosso amor / Do teu beijo demorado prolongado / Que selou o nosso amor

Tu não te lembras do olhar que a meu pesar / Dou-te o adeus da despedida / Tu não te lembras do olhar que a meu pesar / Dou-te o adeus da despedida / Eu ficava tu partias tu sorrias / E eu chorei por toda a vida / Eu ficava tu partias tu sorrias / E eu chorei por toda a vida

Letra da música enviada em 24/06/2000 por: Sirley Thaumaturgo Siqueira. Email: sirley73@hotmail.com.

Versão cifrada da Nara Leão:

              Am                  E7 
  Tu não te lembras da casinha pequenina 
                       Am    
Onde o nosso amor   nasceu? 
                              E7 
Tu não te lembras da   casinha pequenina 
                     Am        A7 
Onde o nosso amor nasceu? 
Dm                    Am 
  Tinha um coqueiro do lado 
                  E7 
Que coitado de saudade 
 Am    A7   
Já morreu! 
Dm                      Am 
  Tinha um coqueiro do lado 
              E7 
Que coitado de saudade 
      Am     E7 
Já morreu!    
Am                               E7 
  Tu não te lembras das juras e perjuras 
                 Am 
Que fizeste com fervor? 
Am                               E7         
  Tu não te lembras das juras e perjuras 
                   Am      A7 
Que fizeste com fervor? 
Dm                  Am 
  Daquele beijo demorado, prolongado 
    E7 
Que selou 
         Am   A7 
O nosso amor?   
Dm                  Am           
  Daquele beijo demorado, prolongado 
    E7 
Que selou 
         Am  E7 Am 
O nosso amor...