sábado, 22 de julho de 2006

Vai passar

Francis Hime
Chico Buarque empenhava-se em acertar o refrão do samba “Dr. Getúlio”, para a peça homônima, de Dias Gomes e Ferreira Gullar, quando a partir de uma das linhas melódicas experimentadas começou a surgir a idéia de um novo samba. Este samba, que ele pretendeu dividir com um grupo de compositores, cada um fazendo uma parte, era o “Vai Passar”, que acabou dividido apenas com Francis Hime: “a melodia modulava para cima, sem voltar ao tom original, e o Francis deu uma ajeitada resolvendo o problema”, esclareceu Chico numa entrevista à Rádio JB, em 1990.

A propósito, Francis Hime que, a exemplo de Tom Jobim, sabe explorar com inteligência as possibilidades harmônicas de uma célula melódica, é autor de uma consistente obra, em parceria com nomes ilustres como Vinicius de Moraes, Geraldinho Carneiro e, principalmente, com Chico Buarque, com quem assina canções como “Atrás da Porta”, “Passaredo”, “Trocando em Miúdos”, “Pivete” e outras. “Vai Passar” é um extenso samba-enredo de versos libertários, que comentam de forma alegórica o fim da ditadura:

“Num tempo / página infeliz de nossa história / passagem desbotada na memória / das nossas novas gerações / dormia / a nossa pátria mãe tão distraída / sem perceber que era subtraída / em tenebrosas transações...”

Parece que o Chico não fazia muita fé em “Vai Passar”, pois só o concluiu no estúdio, às vésperas da gravação (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Vai passar (1984) - Chico Buarque e Francis Hime
Tom: G
Intr.: G / G6 / G7M / G6 / G / G6 / G7M / G6 /

A7(9)  D7(13)   G7M         A#º         Bm7  Bbº   Am7  E7(b13)
Vai    passar      Nessa avenida um samba po__pular
  Am7         Am7(b6)         Am6          Am7
Ca___da parale_______lepípedo da velha cida___de
     Am(7M)  D7/4(9) D7(9)             Bm7 E7(b9) Am7 D7(9)
Essa noite   vai            Se arrepiar
A7(9)  D7(13)   G7(9)                          C7M       A7/C#
Ao     lembrar       Que aqui passaram sambas i___mortais
                            G6/D       E7(b9)
Que aqui sangraram pelos nos____sos pés
                           A7(9)        Cm6/Eb D7/4(b9) D7(b9)
Que aqui sambaram nossos an_____cestrais 

    Gm7                              F7
Num tempo Página infeliz da nossa história
                A7/4(9)  A7(9) Am7(9)   A7(9)    D7/4(9) D7(9)
Passagem desbotada na     memória    Das nossas novas gerações
    G7/4(9) G7(9) Gm7     G7(b9)          Cm(7M) Cm Cm(7M) Cm7
Dormi_____a        A nossa pátria mãe tão dis_____traída
                     A7/4(9)   A7(9) Am7(9)   A7(9)        F7
Sem perceber que era sub__traída     Em tenebrosas transações

       Bb6/9                           Dm7(9)
Seus fi_____lhos Erravam cegos pelo continente
                    G7/4(9)  G7(9) Gm7   G7(b9)    Cm7/Eb G7/D
Levavam pedras feito pe_nitentes  Erguendo estranhas catedrais
     Cm7        Ebm6                        Bb7M/F       G7/4(9)
E um dia, afinal     Tinham direito a uma alegri___a fugaz
       G7(b9)       C7/4(9) C7(9)  F7/4(13)      F7(13)     Bb6/9
Uma ofegante epidemi_______a           Que se chamava  carnaval
       A7(9)      D7(13)     G6
O carnaval,  o car______naval   (Vai passar)

                         Bm7(9)                  E7/4(9)     E7(9)
Palmas pra ala dos barões famintos O bloco dos napoleões retintos
Em7(9)        E7(b9)          Am/C E7/B E7
      E os pigmeus  do bulevar
        Am7         Cm6/Eb                   G7M/D       E7/4(9)
Meu Deus,  vem olhar    Vem ver de perto uma cida___de a cantar
      E7/4(b9)      A7/4(9)  D7/4(9)   D7(9)    G7/4(9) G7(b13)
A evolução  da liberda_______de     Até o dia  clarear
             Cm7       C#º              Gm7/D     Eb7M
Ai, que vida boa, olerê    Ai, que vida boa, olará
             A7(b5/b9)    D7(b9)  G7(b9)
O estandarte do       sanatório geral   vai passar
             Cm7       C#º              G6/D     Em7
Ai, que vida boa, olerê    Ai, que vida boa, olará
             A7(9)    D7(13)  G6            D7(13)
O estandarte do   sanatório geral Vai passar

Jorge Maravilha

Chico Buarque
Tom: C
  

Am                    Am7+           Am7
E nada como um tempo após um contratempo
           Am6
Pro meu coração
              F            F#º
E não vale a pena ficar, apenas ficar
  Am                         E7
Chorando, resmungando, até quando, não, não, não
  Am              Am7+       Am7
E como já dizia Jorge Maravilha
            Am6
Prenhe de razão
                F        F#º
Mais vale uma filha na mão
             E7
Do que dois pais voando-oo
                   D7                   Am7
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
                   D7                  Am7
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
               D         C        F        E7           Am
Ela gosta do tango, do dengo, do mengo, domingo e de Costa
               D        C        F          E7           Am
Ela pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca
                   D7                  Am7
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
   Am               Am7+         Am7
E nada como um dia após o outro dia
           Am6
Pro meu coração
              F            F#º
E não vale a pena ficar, apenas ficar
  Am                       E7
Chorando, resmungando até quando, não, não, não
  Am              Am7+       Am7
E como já dizia Jorge Maravilha
           Am6
Prenhe de razão
                F        F#º                      E7
Mais vale uma filha na mão do que dois pais sobrevoando-oo
                  D7                   Am7
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta

Acorda amor



Acorda amor (1974) - Julinho de Adelaide (Chico Buarque)
G    C#m5-/7
Acorda amor
     F#7      Bm7     Dm7
Eu tive um pesadelo agora
  E7/9-       Am7         D7/9-                   
Sonhei que tinha gente lá fora
            Dm7          C#7/9
Batendo no portão, que aflição 
 C7+/9         F7/9             Bm7
Era a dura, numa muito escura viatura 
 E7/9-               A7
minha nossa santa criatura 
 D7/9-                   G6
chame, chame, chame, chame o ladrão 
 C#m5-/7  F#7   
Acorda amor
             Bm7     Dm7  
Não é mais pesadelo nada
 E7/9-          Am7      D7/9-    
Tem gente já no vão da escada
           Dm7         C#7/9            
fazendo confusão, que aflição
  C7+/9   F7/9                      Bm7  Dm7  
São os homens, e eu aqui parado de pijama 
 E7/9              A7
eu não gosto de passar vexame 
        D7/9-            G6
chame, chame, chame, chame o ladrão 
  C#m5-/7       F#7    Bm7  Dm7     E7/9-  Am7   D7  Dm7  G7
Se eu demorar uns  meses convém às vezes você sofrer 
  C7+/9        F7/9         Bm7  
Mas depois de um ano eu não vindo 
  E7/9-           A7       D7       Dm7   G#6/7                                      
ponha roupa de domingo e pode me esquecer
  G7+     C#m5-/7  
Acorda amor
          
       F#7             Bm7    Dm7
que o bicho é bravo e não sossega
          E7/9-   Am7    D7         
se você corre o bicho pega
              Dm7   
se fica não sei não 
    G7     C7+/9  
Atenção, não demora
 F7/9              Bm7   E7/9-                   
dia desses chega sua hora
                    A7
não discuta à toa, não reclame 
          D7              G6  
chame, clame, clame, chame o ladrão 
(Não esqueça a escova, o sabonete e o violão


Cálice

Este é mais um exemplo de letra contra a censura, predominante entre nossos compositores à época (1973) em que a canção foi criada. Na verdade, “Cálice” destinava-se a um grande evento promovido pela PolyGram, que reuniria em duplas os maiores nomes de seu elenco, e no qual deveria ser cantada por Gilberto Gil e Chico Buarque.

No livro Todas as letras, Gil narra em detalhes a história da canção, a começar pelo encontro inicial dos dois no apartamento em que Chico morava, na Lagoa Rodrigo de Freitas, ocasião em que lhe mostrou os versos que fizera na véspera, uma sexta-feira da Paixão. Tratava-se do refrão (“Pai, afasta de mim este cálice/de vinho tinto de sangue”), uma óbvia alusão à agonia de Jesus no Calvário, cuja ambigüidade (cálice / cale-se) foi imediatamente percebida por Chico.

Gil levara-lhe ainda a primeira estrofe (“Como beber dessa bebida amarga / tragar a dor, engolir a labuta / mesmo calada a boca, resta o peito / silêncio na cidade não se escuta / de que vale ser filho da santa / melhor seria ser filho da outra...”), lembrando a “bebida amarga”, uma bebida italiana chamada Fernet, que o dono da casa muito apreciava e sempre lhe oferecia, enquanto “o silêncio na cidade não se escuta” significava que “no barulho da cidade não é possível escutar o silêncio”, ou “não adianta querer o silêncio porque não há silêncio”, ou seja, metaforicamente: “não há censura, a censura é uma quimera”, pois “mesmo calada a boca, resta o peito, resta a cuca”.

Deste e mais outro encontro, dias depois, saíram a melodia e as demais estrofes, quatro no total, sendo a primeira e a terceira (“De muito gorda a porca já não anda...”) de Gil, a segunda (“Como é difícil acordar calado...”) e a quarta (“Talvez o mundo não seja pequeno...”) de Chico. No dia do show, quando os dois começaram a cantar “Cálice” desligaram o microfone. “Tenho a impressão de que ela tinha sido apresentada à censura, tendo-nos sido recomendado que não a cantássemos, mas nós fizemos uma desobediência civil e quisemos cantá-la”, conclui Gil.

Irritadíssimo com o microfone desligado, Chico tentava outro mais próximo, que era cortado em seguida, e assim, numa cena tragicômica, foram todos sendo “calados”, impedindo-o de cantar “Cálice” até o fim. Liberada cinco anos depois, a canção foi incluída no elepê anual de Chico, com ele declarando que aquele não era o tipo de música que compunha na época (estava trabalhando no repertório de “Ópera do Malandro”), mas teria que ser registrado, pois sua tardia liberação (juntamente com “Apesar de Você” e “Tanto Mar”) não pagava o prejuízo da proibição.

Na gravação, as estrofes de Gilberto Gil, que estava trocando a PolyGram pela WEA, são interpretadas por Milton Nascimento, fazendo o coro o MPB 4, em dramático arranjo de Magro (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Cálice (1978) - Chico Buarque e Gilberto Gil
Introd.:E A E B A G# F#m7 C#m7 F#7
B7 E A E B7 E
  E                       Ab
Pai, afasta de mim esse cálice
A
Pai, afasta de mim esse cálice
F#/A#        E/B
Pai, afasta de mim esse cálice
B7             E
De vinho tinto de sangue

REPETE

C#m                    C#m7+
Como beber dessa bebida amarga
C#m7             C#m6
Tragar a dor, engolir a labuta
C#m5+               C#m6
Mesmo calada a boca, resta o peito
B7/13                  E9
Silêncio na cidade não se escuta
C#m                      C#m7+
De que me vale ser filho da santa
C#m7              C#m6
Melhor seria ser filho da outra
C#m5+          C#m6
Outra realidade menos morta
B7/13                E
Tanta mentira, tanta força bruta

REPETE

C#m             C#m7+
Como é difícil acordar calado
C#m7                C#m6
Se na calada da noite eu me dano
C#m5+             C#m6
Quero lançar um grito desumano
B7/13              E9
Que é uma maneira de ser escutado
C#m                C#m7+
Esse silêncio todo me atordoa
C#m7               C#m6
Atordoado eu permaneço atento
C#m5+                   C#m6
Na arquibancada pra a qualquer momento
B7/13                    E
Ver emergir o monstro da lagoa

REPETE

C#m                   C#m7+
De muito gorda a porca já não anda
C#m7                 C#m6
De muito usada a faca já não corta
C#m5+                  C#m6
Como é difícil, pai, abrir a porta
B7/13                     E
Essa palavra presa na garganta
C#m                      C#m7+
Esse pileque homérico no mundo
C#m7               C#m6
De que adianta ter boa vontade
C#m5+                      C#m6
Mesmo calado o peito, resta a cuca
B7/13                   E
Dos bêbados do centro da cidade

REPETE

C#m                   C#m7+
Talvez o mundo não seja pequeno
C#m7              C#m6
Nem seja a vida um fato consumado
C#m5+                 C#m6
Quero inventar o meu próprio pecado
B7/13                   E
Quero morrer do meu próprio veneno
C#m                C#m7+
Quero perder de vez tua cabeça
C#m7              C#m6
Minha cabeça perder teu juízo
C#m5+                   C#m6
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
B7/13                        E
Me embriagar até que alguém me esqueça

Tanto mar

Chico Buarque
C                    G     B7
Foi bonita a festa, pá
          Em
Fiquei contente
       A7/C#         D9               C    D7    G
Ainda guardo renitente um velho cravo para mim
C                         G     B7
Já murcharam tua festa, pá
           Em
Mas certamente
       A7/C#            D/9              C     D7    G
Esqueceram uma semente n'algum canto de jardim
C                        G
Sei que há léguas a nos separar
Bb          F
Tanto mar, tanto mar
Fm                      Eb
Sei, também, como é preciso, pá
C         D7
Navegar, navegar
C                 G
Canta primavera, pá
B7          Em
Cá estou carente
A7/C#            D               C     D7    G
Manda novamente algum cheirinho de alecrim
B7   Em   A7   D   C   D7   G

Construção / Deus lhe pague



O elepê Chico Buarque de Hollanda n°4, lançado em 1970, e que teve as bases gravadas no Brasil e a voz na Itália, é um disco de transição em que ele encerra a fase inicial de sua carreira e anuncia a seguinte, menos lírica e mais preocupada com a realidade. Isso fica claro na faixa “Agora Falando Sério”, em que canta: “Dou um chute no lirismo / um pega no cachorro / e um tiro no sabiá / dou um fora no violino / faço a mala e corro / pra não ver a banda passar.”

Um ano depois, inaugurando a nova fase, Chico lançaria outro disco importante, um verdadeiro marco em sua carreira, no qual se destaca a obra-prima “Construção”. Esta composição tem uma melodia repetitiva, desenvolvida apenas sobre dois acordes, e uma letra extraordinária, de qualidade rara numa canção popular.

É a elegia para um operário morto no exercício da profissão e narra o seu último dia, da saída de casa para o trabalho (“Beijou sua mulher como se fosse a última”), até o momento da queda fatal (“E se acabou no chão feito um pacote flácido”). Nessa letra moderna e requintada, o autor emprega ousados processos de construção poética como, por exemplo, a alternância das proparoxítonas finais, “como se fossem peças de um jogo num tabuleiro”, segundo o próprio Chico em entrevista concedida na época: “Dançou e gargalhou como se ouvisse música / e tropeçou no céu como se fosse um bêbado / (...) / Dançou e gargalhou como se fosse o próximo / e tropeçou no céu como se ouvisse música...”

Apresentando além de “Construção” outras preciosidades, este elepê foi campeão de vendagem, chegando a disputar por várias semanas a primeira colocação nas paradas de sucesso (A Canção no Tempo - Vol. 2 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34).

Construção (1971) - Chico Buarque
Intr/: C5-/F#  Cm5-/F#
                                 Em6/9  Em6/9/B  Em6/9
Amou daquela vez como se fosse a última
Em6/9/B                Em6/9  Em6/9/B Em6/9
Beijou sua mulher como se fosse a última
Em6/9/B               Em/B
E cada filho seu como se fosse o único
Em5-/Bb    Em4/A        Em/G  C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
E atravessou a rua com seu passo tímido
Em6/9  Em6/9/B  Em6/9
Subiu a construção como se fosse máquina
Em6/9/B                Em6/9  Em6/9/B Em6/9
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Em6/9/B             Em/B
Tijolo por tijolo num desenho mágico
Em5-/Bb    Em4/A      Em/G    C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Am   Am/E  Am
Sentou prá descansar como se fosse sábado
Am/E                     Am  Am/E  Am
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Am/E         Am5+/F   C5-/F#
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
C5-/F#  Cm5-/F#
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
Em6/9  Em6/9/B  Em6/9
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
Em6/9/B               Em6/9  Em6/9/B Em6/9
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
Em6/9/B               Em/B
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Em5-/Bb    Em4/A     Em/G  C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
E agonizou no meio do passeio público
Em6/9  Em6/9/B
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
                                 Em6/9  Em6/9/B  Em6/9
Amou daquela vez como se fosse o último
Em6/9/B                Em6/9  Em6/9/B Em6/9
Beijou sua mulher como se fosse a única
Em6/9/B               Em/B
E cada filho seu como se fosse o pródigo
Em5-/Bb    Em4/A        Em/G  C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Em6/9  Em6/9/B  Em6/9
Subiu a construção como se fosse sólido
Em6/9/B                Em6/9  Em6/9/B Em6/9
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Em6/9/B             Em/B
Tijolo por tijolo num desenho lógico
Em5-/Bb    Em4/A      Em/G    C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Am   Am/E  Am
Sentou prá descansar como se fosse um príncipe
Am/E                   Am  Am/E  Am
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Am/E        Am5+/F  C5-/F#
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
C5-/F#  Cm5-/F#
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
Em6/9  Em6/9/B  Em6/9
E tropeçou no céu como se ouvisse música
Em6/9/B             Em6/9  Em6/9/B Em6/9
E flutuou no ar como se fosse sábado
Em6/9/B               Em/B
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Em5-/Bb    Em4/A     Em/G  C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
E agonizou no meio do passeio náufrago
Em6/9  Em6/9/B
Morreu na contramão atrapalhando o público
                                Em
Amou daquela vez como se fosse máquina
Em7+/D#               Em7/D
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Em6/C#                 Em5+/C
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Em4/A                   E/G#
Sentou prá descansar como se fosse um pássaro
Em/G                  Em/B
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
Em5-/Bb    Em4/A        Em/G  C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Em6/9  Em6/9/B
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
Deus lhe pagueEm Em9/F# Em/G Em9/F#                      C7+
Por esse pão prá comer, por esse chão prá dormir
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                    C7+
A certidão prá nascer e a concessão prá sorrir
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                   C7+  C7
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
C6     Em
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                       C7+
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                          C7+
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                       C7+  C7
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
C6   Em
Deus lhe pague
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                    C7+
Pela mulher carpideira prá nos louvar e cuspir
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                    C7+
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                     C7+  C7
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
C6  Em
Deus lhe pague


Sabiá


Cynara e Cybele no III FIC.
A princípio chamava-se “Gávea” e destinava-se ao repertório da soprano Maria Lúcia Godoy. Então seu autor, Tom Jobim, foi convidado a concorrer no III FIC e, só tendo aquela música inédita na ocasião, inscreveu-a, pedindo a Chico Buarque para fazer-lhe uma letra. Jobim, que detestava festivais, já rejeitara um convite do diretor Augusto Marzagão para atuar como jurado e, não querendo parecer grosseiro, sentia-se agora na obrigação de concorrer.

Sem maiores pretensões, é verdade, pois achava a composição — que passara a chamar-se “Sabiá”, depois da letra do Chico — serena demais para impressionar num festival. Em sua concepção, música de festival devia ser movimentada e barulhenta, para causar impacto. Por isso, apostou com Vinicius de Moraes uma caixa de uísque como não ganharia.

Mas, em sua serenidade, “Sabiá” era uma belíssima composição, valorizada pelo poema gonçalviano de Chico Buarque, que a tornou uma espécie de “Canção do Exílio” de nosso tempo: “Vou voltar / sei que ainda vou voltar / para o meu lugar / foi lá / e é ainda lá / que eu hei de ouvir cantar / uma sabiá...” Nada disso, entretanto, comoveu o público do Maracanãzinho que, empolgado pela panfletária “Caminhando”, explodiu na mais furiosa vaia já dirigida a um grande artista brasileiro, quando o resultado foi anunciado. E para azar de Tom Jobim, ele a recebeu sozinho, pois naquela noite Chico Buarque se encontrava a milhares de quilômetros em Veneza. Uma semana depois, atendendo a um apelo angustiado do parceiro, Chico estaria ao seu lado para assistir a uma nova vitória de “Sabiá”, desta vez sem vaia, na fase internacional da competição. E Tom Jobim teve mesmo que pagar a aposta a Vinícius: uma caixa de Johnnie Walker Black Label (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Sabiá (1968) - Chico Buarque e Tom Jobim - Interpretação: Cynara e Cybele
Intro: C G7
  C   Ebo  Dm7         G7   C     Ebo  Dm7
Vou voltar sei que ainda vou voltar
E7    Am   Am7+ Gm7  C7  F7+  Dm7
Para o meu lugar foi lá é ainda lá
E7        Am  Am/G  Am/F#
Que eu hei de ouvir can .... tar
F7+   Am  Am/G Am F#    F7+  C
Uma sabiá       can . . . tar uma sabiá
C    Ebo  Dm7          G7   Eb   F#o  Fm7
Vou voltar sei que ainda vou voltar
Bb7   Ebm           Ebm7/C#   Cm7/11
Vou deitar à sombra de uma palmeira
F7       Bbm  F#7+
Que já não há
Bbm  Eb7/9      Abm7  E7
Colher a flor que já não há
Abm7   C#7      Do       Ebm   Ebm7+
E algum amor talvez possa espantar
C#m7/11    Ab5+  Bb7/12   Am7/11
As noites que eu não queri . . . a
Ab7/12   A7    D7/9 G7  F/G  G7/9/13
Me anun . . . ci . . . ar       o dia
  C   Ebo Dm7      G7   Eb    Ebo    Fm7
Vou voltar sei que ainda vou voltar
Bb7     Eb                    Eb7    Ab7M
Não vai ser em vão que fiz tantos planos
Cm                    Fm7  
De me enganar como fiz enganos de me
Cm
encontrar
Cm7/Bb   Ab7+    C#7+   Cm
Como fiz estradas de me perder
Cm7/Bb  Ab7+  C#7+     Cm
Fiz de tudo e nada de te esquecer
 
 

Senhora das Candeias

Clara Nunes

Senhora das Candeias - Romildo e Toninho

	  C                        Am7
Eu não sou daqui, não sou
          Dm7
Eu sou de lá
             G7
Eu não sou daqui, não sou
          C
Eu sou de lá (2x)
       C   C7
A lua cheia
                 F
Quando bate nas aldeias
     Dm         G7
A menina das candeias
               C
Cirandeia no luar

O seu lamento
        C7         F
Tem um jeito de acalanto
      Dm            G
Que o rio feito um pranto
                   C
Vai levando para o mar
               C7               F
Meu coração é feito de pedra de ouro
       Dm           G7
O meu peito é um tesouro
                   C           G7
Que ninguém pode pegar, eu não sou
C                        Am7
Eu não sou daqui, não sou
          Dm7
Eu sou de lá
             G7
Eu não sou daqui, não sou
          C
Eu sou de lá (2x)
 C       A7           Dm
A noite ficou mais faceira
     G7                      C
Pois dentro da ribeira apareceu
     Am                Dm
Com suas prendas e bordados
                    G7
Seus cabelos tão dourados
Dm    G7           C
Que o sol não conheceu
          C7      F
A menina-moça debutante
      Dm           G7
Que namora pelas fontes
                    C
Que a natureza lhe deu é Oxum
G7  C  A7  Dm  G7
Ê Oxum, ê Oxum
                C
Senhora das candeias
      A7            Dm G7
Que tristeza que me dá
  C             A7             Dm
Saber que suas mãos são tão pequenas
      G            C
Pra matar quem envenena
     G              C             G7
Pra punir que faz o mal, cegar punhal
        C    C7        F
Cegar punhal que fere tanto
        Dm           G7
Pra mostrar que o seu encanto
                C
É uma coisa natural

Pau de arara

Clara Nunes

Pau de arara - Luiz Gonzaga e Guio de Moraes

Intro: Am  
  
Am                           E7  
Quando eu vim do sertão seu moço  
           Am  A7 
Do meu bodocó  
      Dm7  
Meu malote era um saco  
  A7              Dm7  
E o cadeado era o nó  
      G7  
Só trazia a coragem e a cara  
   C                  Am  
Viajando num pau de arara  
      F E               Am  
Eu penei, mas aqui cheguei (2x)  
 G7  
Trouxe o triângulo  
 C  
Trouxe o gonguê  
 B7  
Trouxe o zabumba  
             E7  
Dentro do matulê  
 A7                 Dm7  
Xote, maracatu e baião  
    Am                         E7  
Tudo isso eu trouxe no meu matulão..  

Partido Clementina de Jesus

Clara Nunes

Partido Clementina de Jesus - Candeia

	  A                Bm7
Não vadeia Clementina
    E7            A
Fui feita pra vadiar
          F#7       Bm7
Não vadeia, Clementina
   E7             A             F#7
Fui feita pra vadiar, eu vou...
        Bm7        E7          A           F#7
Vou vadiar, vou vadiar, vou vadiar, eu vou
        Bm7        E7          A
Vou vadiar, vou vadiar, vou vadiar, eu vou
            Bm7
Energia nuclear
  E7             A
O homem subiu à lua
                 A7
É o que se ouve falar
                D
Mas a fome continua

É o progresso, tia Clementina
        D#°      C#m7
Trouxe tanta confusão
    F#7         B7
Um litro de gasolina
        E7           A
Por cem gramas de feijão
                   Bm7
Não vadeia, Clementina...
                        Bm
Cadê o cantar dos passarinhos
   E7                      A
Ar puro não encontro mais não
                    A7
É o preço que o progresso
               D
Paga com a poluição

O homem é civilizado
     D#°                   C#m7
A sociedade é que faz sua imagem
         F#7       B7
Mas tem muito diplomado
       E7            A
Que é pior do que selvagem

Menino Deus


Menino Deus (1974) - Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro - Intérprete: Clara Nunes
F                      E
Raiou, resplandeceu, iluminou
   F              Gm       C7      F
Na barra do dia o canto do galo ecoou
  A7               Dm        Dm7+     Dm7
A flor se abriu, a gota de orvalho brilhou
           G7
Quando a manhã surgiu
    C7
Nos dedos de Nosso Senhor
  Gm7  G#º  F/A           D7
A paz amanheceu sobre o país
    G7          C7      Am5-/7   D7
E o povo até pensou que já era feliz
           Gm7
Mas foi porque
    G#º  F/A       D7
Pra todo mundo pareceu
    G7       C7      F
Que o Menino Deus nasceu

              Dm7         G7/13 G7/5+  G7*
A tristeza se abraçou com a   felici...dade
C7                    F
Entoando cantos de alegria e liberdade
Dm7        G7          C7+  Dm7  Em7  Ebm7
Parecia um carnaval no meio da cidade
Dm7           G7         C7*          C5+/7
Que me deu vontade de cantar pro meu amor
 
 

Homenagem à Velha Guarda

Clara Nunes

Homenagem à Velha Guarda - Sivuca e Paulo César Pinheiro

   Intro: A G F E7 E° E7

A    A5+       Bm   E7
Um chorinho me traz
              A
Muitas recordações
Dm     G  C      C5+  Dm7
Quando o som dos regionais
G            C   Gm7
Invadia os salões
  C7 F Dm              Em7 Am7
E era sempre um clima de festas
             Dm7 G7
Se fazia serestas
                E4 E7
Parando nos portões
                    A
Quando havia os balcões
Db°           Bm7
Sob a luz da Lua
    E7        A   A5+    Bm  E7
E a chama dos lampiões à gás
               A
Clareando os serões
Dm  G   C    C5+     Dm  G7
Sempre com gentis casais
               C   Gm7
Como os anfitriões
C7 F Dm                Em7 Am7
E era uma gente tão honesta
               Dm7   G7
Em casinhas modestas
                  E4  E7
Com seus caramanchões
                A  G#m5-/7
Reunindo os chorões
F#m                Bm
Era uma flauta de prata
            C#7        D7        C#7  F#7
A chorar serenatas, modinhas, canções
                                      F#7 Bm7
Pandeiro, um cavaquinho e dois violões
                                      F#m7
Um bandolim bonito e um violão sete cordas
         G#7     C#7     F#m7 G#m5-/7 C#7
Fazendo desenhos nos bordões
F#m7          Bm7
Um clarinete suave
                  C#7         D7          C#7 F#7
E um trombone no grave a arrastar os corações
                             F#7 Bm
Piano era o do tempo do Odeon

De vez em quando um sax-tenor
       F#m7              G#7        C#7 F#m7 B7 E4 E7
E a abertura do fole imortal do acordeom
 A      A5+    Bm7  E7
Mas já são pra nós
            A
Meras evocações
Dm  G7 C  C5+     Dm   G
Tudo já ficou pra trás
                 C   Gm7
Passou nos carrilhões
C7 F Dm               Em7  Am7
Quase ninguém se manifesta
                  Dm   G7
Pouca coisa hoje resta
                      E4 E7
Lembrando os tempos bons
            A   A Bm5-/7 E7 Am Bm5-/7 E7 Am
Dessas reuniões

Conto de areia


Clara Nunes gravou muita coisa sem importância até encontrar nos gêneros afro-brasileiros o rumo certo para a sua carreira. Então, cantando principalmente músicas de compositores ligados às raízes do samba, ela se tornaria a primeira cantora brasileira a ultrapassar cem mil discos vendidos, quebrando um tabu reverenciado pelas gravadoras. Tal façanha aconteceu com o elepê Alvorecer, lançado em junho de 74, que, tendo “Conto de Areia” como faixa de maior sucesso vendeu 312 mil cópias.

Um belo ponto de macumba estilizado (“É água do mar / é maré cheia, oi... / na areia, oi / na areia...”), “Conto de Areia” inspirou-lhe novas incursões nessa área, que resultaram em sucessos como “O Mar Serenou” e “A Deusa dos Orixás”. Mas, além dos sambas de raiz, Clara cultivava também em seu repertório canções de autores consagrados como Dorival Caymmi, Tom Jobim e Chico Buarque (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Conto de areia (1974) - Romildo S. Bastos e Toninho
Tom: C6/9
C6/9                    F6         G7    C6/9
É água no mar, é maré cheia ô, mareia ô mareia,
é água no mar
C6/9                    F6     G7       C6/9
É água no mar é maré cheia ô mareia ô mareia
A7              Dm
Contam que toda tristeza que tem na Bahia
G7                                    C6/9
Nasceu de uns olhos morenos molhados de mar
A7              Dm
Não sei se é conto de areia ou se é fantasia
G7                       C6/9
Que a luz da candeia alumia pra gente contar
A7                 Dm
Um dia a morena enfeitada de rosas e rendas
G7                                   C6/9
Abriu seu sorriso de moça e pediu pra dançar
A7                   Dm
A noite emprestou as estrelas bordadas de prata
G7                    C6/9
E as águas de Amaralina eram gotas de luar
A7/9-           Dm
Era um peito só cheio de promessa era só
G7               C6/9
Era um peito só cheio de promessa era só
A7                Dm           G7        C6/9
Quem foi que mandou o seu amor se fazer de canoeiro
A7        Dm     G7         C6/9
O vento que rola nas palmas arrasta o veleiro
A7        Dm  G7    C6/9
E leva pro meio das águas de Iemanjá
A7        Dm
E o mestre valente vagueia
G7             C6/9
olhando pra areia sem poder chegar
G7    C6/9 A7/9-    Dm       G7
Adeus amor, adeus meu amor não me espere
C6/9
porque eu já vou me embora
A7/9-       Dm      G7        C6/9
Pro reino que esconde os tesouros de minha senhora
A7/9-      Dm     G7       C6/9
Desfia colares de conchas pra vida passar
A7/9-       Dm
E deixa de olhar pro veleiro
G7                    C6/9
Adeus meu amor eu não vou mais voltar
Dm   G7         C6/9
Foi beira-mar, foi beira-mar quem chamou
A7        Dm     G7      C6/9
Foi beira-mar ê, foi beira-mar

Coisa da antiga

Clara Nunes

Coisa da antiga - Wilson Moreira e Ney Lopes
E       C#m          F#m
Na tina, vovó lavou, vovó lavou
B7                                    E
A roupa que mamãe vestiu quando foi batizada
B7   E                C#m             F#m
E mamãe quando era menina teve que passar,
teve que passar
B7                                 E
Muita fumaça e calor no ferro de engomar
B7 E           C#7       F#
Hoje mamãe me falou de vovó só de vovó
B7                      E          B7
Disse que no tempo dela era bem melhor
C#7                  F#
Mesmo agachada na tina e soprando no ferro de carvão
B7                       E             B7
Tinha-se mais amizade e mais consideração
C#7                   F#
Disse que naquele tempo a palafra de um mero cidadão
B7                             E          B7
Valia mais que hoje em dia uma nota de milhão
E                     C#7
Disse afinal que o que é de verdade
F#
Ninguém mais hoje liga
A  B7    E           B7
Isso é coisa da antiga, ai no tina...
E              C#7                 F#
Hoje o olhar de mamãe marejou só marejou
B7                          E        B7
Quando se lembrou do velho, o meu bisavô
E                   C#7                  F#
Disse que ele foi escravo mas não se entregou
à escravidão
B7                          E         B7
Sempre vivia fugindo e arrumando confusão
E                         C#7            F#
Disse pra mim que essa história do meu bisavô,
negro fujão
B7                               E          B7
Devia servir de exemplo a "esses nego pai João"
E                      C#7
Disse afinal que o que é de verdade
F#
Ninguém mais hoje liga
A      B7   E
Isso é coisa da antiga
B7
Oi na tina...

Canto das três raças

Canto das três raças (1976) - Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro - Intérprete: Clara Nunes
Bm           C#M5-/7        F#
Ninguém ouviu um soluçar de dor
   G           F#
No canto do Brasil.
Em         Bm        
Um lamento triste sempre ecoou
G
Desde que o índio guerreiro
            F#             Bm
Foi pro cativeiro e de lá cantou.
Em   C#M5-/7 Bm Em       C#M5-/7       D7M
Negro entoou um canto de revolta pelos ares
      Em           G                  F#
No Quilombo dos Palmares, onde se refugiou.
Em                      Bm
Fora a luta dos inconfidentes
     C#M5-/7       D7M
Pela quebra das correntes.
G         F#
Nada adiantou.
Em                             Bm
E de guerra em paz, de paz em guerra,
       C#M5-/7    D7M
Todo o povo dessa terra
       G       F#
Quando pode cantar,
    Bm
Canta de dor.
Em                  Bm
E ecoa noite e dia: é ensurdecedor.
C#M5-/7        Bm
Ai, mas que agonia
  G                F#
O canto do trabalhador...
Em                Bm         C#M5-/7     D7M  G/A
Esse canto que devia ser um canto de alegria
        G              F#      Bm
Soa apenas como um soluçar de dor


Basta um dia

Clara Nunes

Basta um dia - Chico Buarque

Intro: G 
 
     G  F#7         Bm   G 
Pra mim    basta um dia 
                D   A#o  
Não mais que um dia 
        Bm  F#7  B7+ 
Um meio-dia 
    G  F#7 Bm     G 
Me dá      só um dia 
          D  A#o   Bm   G#o   D   
Eu faço desatar a minha fantasia 
   Bb A      Dm 
Só um   belo dia 
        Dm7+                  Dm7 
Pois se jura, se esconjura, se ama 
                   Dm6 
E se tortura, se tritura 
              D7/9- 
Se atura e se cura a dor 
      Gm    Bb  A7 Dm B7+ 
Na orgia da luz do    dia 
G    F#7           Gm  G  
É só    o que eu pedia 
        D         A#o       Bm  F#7 
Um dia pra aplacar minha agonia 
          B7   E 
Toda a sangria 
          G            F#7 Bm 
Todo o veneno de um pequeno dia 
   Bb A7      Dm 
Só um   santo dia 
        Dm7+                  Dm7 
Pois se beija, se maltrata, se come 
                Dm6 
Se mata, se arremata, se acata 
     D7/9-          Gm     Bb  A7  D B7 
Se trata a dor na orgia da luz  do dia 
  G F#7           Bm        G 
É só  o que eu pedia, viu ? 
        D         A#o       Bm  F#7 
Um dia pra aplacar minha agonia 
         B7  E 
Toda sangria  
        G            F#7   Bm 
Todo veneno de um pequeno dia.. 

As forças da natureza

Clara Nunes

As forças da natureza - João Nogueira e Paulo César Pinheiro

Introdud: Am E7/G# A7 F#m/5M F6 B7/9 E7/5M  

Am7      Dm7 G7  
Quando o Sol  
                         C7+  
Se derramar em toda sua essência  
F7                      B7/4 B7  E7/G#  
Desafiando o poder da ciê-ê-ncia  
         E7/5M Am7   
Pra combater o mal  
Bm7/5-   G7  
E o mar  
                  C7+  
Com suas águas bravias  
F7                            B7/4 B7  E7/G#  
Levar consigo o pó dos nossos d-i-ias  
           E7/5M A7  
Vai ser um bom sinal  
                Dm7  
Os palácios vão desabar  
G7                C7+  
Sob a força de um temporal  
F7              Bm7/5- 	    E7         A7  
E os ventos vão sufocar o barulho infernal  
                 Dm7  
Os homens vão se rebelar  
G7             C7+  
Dessa farsa descomunal  
F7                 Bm7/5-  
Vai voltar tudo ao seu lugar  
E7 A7   
Afinal  
A7/C#  A7    Dm7  
Vai resplandecer  
G7                              C7+         E7  
Uma chuva de prata do céu vai descer, la la ia  
Am7                     E7/G#    E7  
O esplendor da mata vai renascer  
                           A7  
E o ar de novo vai ser natural  
Dm7      
Vai florir  
E7/G#         E7/5M       Am7             
Cada grande cidade o mato vai cobrir, ô, ô  
                        Bm7/5-  
Das ruínas um novo povo vai surgir  
         A#7    A7  
E vai cantar afinal  
   Dm7                 G7  
As pragas e as ervas daninhas  
   C7+                  A7  
As armas e os homens de mal  
            Bm7/5-               E7/9-  
Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval (2X)  

À flor da pele

Clara Nunes

À flor da pele - Maurício Tapajós, Clara Nunes e Paulo César Pinheiro

Intro: Gm Gm7+ Gm7 C7/9 Eb7/9 Gm7 G#7+ 

Gm Gm7+ Gm7 C7/9 A° D7
    Gm   Gm7+             Gm7  C7/9
Não sei como ou quando começou
                 Eb7/9 D7
Só sei que me alucina
    Gm      Gm7+    Gm7 C7/9
Me perdi do fio condutor
               Eb7/9 D7
Do amor que me domina
   G7
E você me usa a seu favor
       Cm
Igual a mulher de esquina
       A7
E me leva embora traidor
          Eb7/9  D7
Assim que se termina
Gm           Gm7+         Gm7 C7/9
Mas se você quer eu logo vou
           Eb7/9 D7
Sabendo da rotina
      Gm     Gm7+        Gm7 C7/9
Despencamos sobre o cobertor
            Eb7/9 D7
Devasso e libertina
G7
Me diz coisas feias e de amor
            Cm
À luz da lamparina
     A7
Me devora o corpo sedutor
       Eb7/9    D7
Igual fera assassina
  Gm         Gm7+       Gm7 C7/9
E você me arrasta nessa dor
                    Eb7/9 D7
Que aos poucos me arruína
     Gm      Gm7+          Gm7 C7/9
Ando já com meus nervos à flor
           Eb7/9 D7
Da pele já mofina
G7
Tenho olheiras fundas e palor
                   Cm
De álcool e de nicotina
 A7
Minhas noites durmo com pavor
            Eb7/9 D7
À base de aspirina
G7
Sei que estou secando ao seu dispor
Cm
Sei que estou ficando sem valor
A°                          D7
Sei que você vai sumir e eu vou
      Gm
Vou cumprir minha sina
Bb7 Eb7/9 D7               Gm
Ah, ah, vou cumprir minha sina

Portela na avenida


A portelense Clara Nunes vivia pedindo ao marido, Paulo César Pinheiro, um samba em homenagem à sua escola. Acontece que o poeta sentia-se meio inibido para a tarefa, pois, além de ter um coração mangueirense, achava que já existia uma obra definitiva sobre a Portela, o samba “Foi um Rio que Passou em Minha Vida”, de Paulinho da Viola. Mesmo assim, para agradar à mulher, começou a pensar no assunto e até criou uma pequena célula melódica que não conseguiu desenvolver a contento.

Um dia, quando menos esperava, encontrou a idéia numa sala de sua própria casa, onde Clara havia montado um altar para as suas devoções: a imagem de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, uma santa negra com o seu manto azul e branco (as cores da Portela), o pombo de asas abertas, representando o Espírito Santo (a águia portelense), enfim, a combinação do místico com o profano (procissão religiosa/desfile carnavalesco) forneceu-lhe o ponto de partida para a composição que, desenvolvida com o parceiro Mauro Duarte, resultou no belo samba-homenagem “Portela na Avenida”:

“Portela / sobre a tua bandeira esse divino manto / tua águia altaneira é o Espírito Santo / no templo do samba / as pastoras e os pastores / (...) / como fiéis na santa missa da capela / salve o samba / salve a santa / salve ela / salve o manto azul e branco da Portela / desfilando triunfal / sobre o altar do carnaval...”

Lançada por Clara Nunes no final de 81, “Portela na Avenida” se consagraria no carnaval de 82, tornando-se a partir de então a música que esquenta a bateria portelense antes de cada desfile. Com o seu sucesso, Paulo César resolveu homenagear também as outras grandes escolas, começando pelo Império Serrano, com o samba “Serrinha”, gravado por Clara. No total, seriam dez sambas dos quais oito foram gravados (dois por Clara e seis por Alcione), permanecendo inéditos em disco (até 1998) os referentes a Vila Isabel e Caprichosos de Pilares.

Paulo César Pinheiro está, assim, para as escolas de samba, como Lamartine Babo, para os clubes do futebol carioca, que homenageou em onze marchas. Detalhe: em 1968, a Mangueira seria exaltada pelo portelense Paulinho da Viola (em parceria com Hermínio Bello de Carvalho) no samba “Sei Lá Mangueira”; em 1981 chegou a vez de a Portela ser homenageada pelo mangueirense Paulo César Pinheiro (em parceria com Mauro Duarte). Estabeleceu-se assim um curioso empate em que todos saíram ganhando (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Portela na Avenida (1982) - Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro
Tom: C
  

   Am                          G
Portela eu nunca vi coisa mais bela
                       F                         E7
Quando ela pisa a passarela e vai entrando na avenida
  Am                      G
Parece a maravilha de aquarela que surgiu
                     F
O manto azul da padroeira do brasil
                   E7
Nossa senhora aparecida
    Dm       Bm5-/7 Am                       Bm5-/7
Que vai se     arrastando e o povo na rua cantando
E7                       Am
É feito uma reza, um ritual
    A7           Dm          Am                B7   E7   Am    E7
É a procissão do samba abençoando a festa do divino carnaval
   Am                                  G
Portela é a deusa do samba o passado revela
                               F
E tem a velha guarda como sentinela
                                         E7
E é por isso que eu ouço essa voz que me chama
   Am                                    G
Portela sobre a tua bandeira este divino manto
                              F        E7        Am
Tua águia altaneira, espírito santo no templo do samba
G7                  C
As pastoras e os pastores
G7                C
Vem chegando da cidade da favela
G7                    C
Para defender as tuas cores
       B7                      E7
Como fiéis na santa missa da capela
A7      Dm             E7           Am
Salve o samba, salve a santa, salve ela
A7      Dm           E7           Am
Salve o manto azul e branco da portela
                Dm            G7          C      E7
Desfilando triunfal sobre o altar do carnaval

Morena de Angola

Clara Nunes

Morena de Angola - Chico Buarque
F         A7(b13)
Morena de Angola
Dm7       F7/C     Gm7   D7/A     Bb6   D7
que leva o chocalho amarrado na   cane___la
Gm7        G/F       C7/E 
Será que ela mexe o chocalho
G7/D       C7  C#º     F  C7(#5)
ou o chocalho é que  mexe com ela
F         A7(b13)
Morena de Angola
Dm7       F7/C     Gm7   D7/A     Bb6   D7
que leva o chocalho amarrado na   cane___la
Gm7        G/F       C7/E  
Será que ela mexe o chocalho
G7/D       C7  C#º     F
ou o chocalho é que  mexe com ela
A7/E        A7     Dm/F      Dm    
Será  que a morena cochila escutando
A7/E   A7      Dm    Dm/C
o cochicho do choca__lho
G7/B       G7/D     C/E  
Será  que desperta gingando
A7/C#     Dm7    G7       C/Bb   C7(#5)
e já sai  chocalhando pro traba____lho
F         A7(b13)
Morena de Angola
Dm7       F7/C     Gm7   D7/A     Bb6   D7
que leva o chocalho amarrado na   cane___la
Gm7        G/F       C7/E  
Será que ela mexe o chocalho
G7/D       C7  C#º     F  C7(#5)
ou o chocalho é que  mexe com ela
F          A7(b13)     Dm7   
Será que ela tá     na cozinha
F7/C      Gm7     D7/A  Bb6     D7
guisando a galinha à cabi_____dela
Gm7         G/F      C7/E      G7/D    C7    C#º    F
Será que esqueceu da galinha e ficou batucando na panela
A7/E       A7      Dm/F  
Será  que no meio da mata,
Dm         A7/E   A7      Dm    Dm/C
na moita, a morena inda choca__lha
G7/B        G7/D      C/E   
Será  que ela não fica afoita
A7/C#     Dm7   G7     C/Bb   C7(#5)
pra dançar na chama da bata____lha
F         A7(b13)
Morena de Angola
Dm7       F7/C     Gm7   D7/A     Bb6   D7
que leva o chocalho amarrado na   cane___la
Gm7      G/F    C7/E  
Passando pelo regimento
G7/D     C7     C#º   F   C7(#5)
ela faz requebrar a sentinela
F  A7(b13)  Dm7 F7/C  Gm7 D7/A  Bb6 D7
Iá iá     iá          Iá  iá  iá
Gm7 G/F  C7/E G7/D  C7 C#º  F C7(#5)
Iá  iá iá           Iá iá iá
F         A7(b13)
Morena de Angola
Dm7       F7/C     Gm7   D7/A     Bb6   D7
que leva o chocalho amarrado na   cane___la
Gm7        G/F       C7/E  
Será que ela mexe o chocalho
G7/D       C7  C#º     F  C7(#5)
ou o chocalho é que  mexe com ela
F         A7(b13)
Morena de Angola
Dm7       F7/C     Gm7   D7/A     Bb6   D7
que leva o chocalho amarrado na   cane___la
Gm7        G/F       C7/E  
Será que ela mexe o chocalho
G7/D       C7  C#º     F
ou o chocalho é que  mexe com ela
A7/E        A7         Dm/F 
Será  que quando vai pra cama
Dm        A7/E  A7       Dm     Dm/C
a morena se esquece dos choca__lhos
G7/B      G7/D   C/E     A7/C#  
Será  que namora fazendo bochincho
Dm7     G7    C/Bb    C7(#5)
com seus pendurica____lhos
F         A7(b13)
Morena de Angola
Dm7       F7/C     Gm7   D7/A     Bb6   D7
que leva o chocalho amarrado na   cane___la
Gm7        G/F       C7/E 
Será que ela mexe o chocalho
G7/D       C7  C#º     F  C7(#5)
ou o chocalho é que  mexe com ela
F          A7(b13)     Dm7       F7/C  
Será que ela tá     caprichando no peixe
Gm7    D7/A       Bb6   D7
que eu trouxe de   Bengue___la
Gm7       G/F    C7/E       G7/D      C7    C#º    F
Será que tá no remelexo e abandonou meu peixe na tigela
A7/E        A7      Dm/F 
Será  que quando fica choca
Dm       A7/E   A7       Dm    Dm/C
põe de quarentena o seu choca__lho
G7/B      G7/D     C/E      A7/C# 
Será  que depois ela bota a canela
Dm7   G7      C/Bb   C7(#5)
no nicho do pirra____lho
F         A7(b13)
Morena de Angola
Dm7       F7/C     Gm7   D7/A     Bb6   D7
que leva o chocalho amarrado na   cane___la
Gm7      G/F       C7/E     G7/D    C7 
Eu acho que deixei um cacho do meu coração
C#º    F  C7(#5)
na Catumbela
F  A7(b13)  Dm7 F7/C  Gm7 D7/A  Bb6 D7
Iá iá     iá          Iá  iá  iá
Gm7 G/F  C7/E G7/D  C7 C#º  F C7(#5)
Iá  iá iá           Iá iá iá
F  A7(b13)  Dm7 F7/C  Gm7 D7/A  Bb6 D7
Iá iá     iá          Iá  iá  iá
Gm7 G/F  C7/E G7/D  C7 C#º  F C7(#5)
Iá  iá iá           Iá iá iá
F         A7(b13)
Morena de Angola
Dm7       F7/C     Gm7   D7/A     Bb6   D7
que leva o chocalho amarrado na   cane___la
Gm7        G/F       C7/E  
Será que ela mexe o chocalho
G7/D       C7  C#º     F  C7(#5)
ou o chocalho é que  mexe com ela
F  A7(b13)  Dm7 F7/C  Gm7 D7/A  Bb6 D7
Iá iá     iá          Iá  iá  iá
Gm7 G/F  C7/E G7/D  C7 C#º  F C7(#5)
Iá  iá iá           Iá iá iá
F         A7(b13)
Morena de Angola
Dm7       F7/C     Gm7   D7/A     Bb6   D7
que leva o chocalho amarrado na   cane___la
Gm7     G/F       C7/E    G7/D    C7   
Morena, bichincha danada, minha camarada
C#º      F         C7(#5)
do eme-pe-la (MPLA)
F  A7(b13)  Dm7 F7/C  Gm7 D7/A  Bb6 D7
Iá iá     iá          Iá  iá  iá
Gm7 G/F  C7/E G7/D  C7 C#º  F
Iá  iá iá           Iá iá iá

Feira de mangaio


Feira de mangaio (1980) - Sivuca e Glorinha Gadelha - Intérprete: Clara Nunes
Intro: Am E Am Dm Am E Am

(Am       Dm      E)
Fumo de rolo arreio e cangalha
Eu tenho tudo pra vender, quem quer comprar
Bolo de milho broa e cocada
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
Pé de moleque, alecrim, canela
Moleque sai daqui me deixa trabalhar
E Zé saiu correndo pra feira de pássaros
E foi pássaro voando em todo lugar

Am            A7               Dm
Tinha uma vendinha no canto da rua
            G7            C
Onde o mangaieiro ia se animar
            F                E
Tomar uma bicada com lambu assado
                     Am
E olhar pra Maria do Joá

(Am     Dm  E)
Cabresto de cavalo e rabichola
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
Farinha rapadura e graviola
Eu tenho pra vender, quem quer comprar
Pavio de cadeeiro panela de barro
Menino vou me embora
Tenho que voltar
Xaxar o meu rocado
Que nem boide carro
Alpargata de arrasto não quer me levar

Am                 A7               Dm
Porque tem um Sanfoneiro no canto da rua
         G7                 C
Fazendo floreio pra gente dançar
              F              E
Tem Zefa de purcina fazendo renda
                       Am
E o ronco do fole sem parar

O mar serenou


O mar serenou (1975) - Candeia - Intérprete: Clara Nunes
Tom: D  

          D                 B7       Em 
O mar serenou, quando ela pisou, na areia,
                       A7       D          A7
Quem samba na beira do mar, é sereia (2x)

A7                 D
O pescador não tem medo
             B7
É segredo se volta ou se fica 
   Em                              A7 
No fundo do mar, ao ver a morena bonita
                                   D                    A7
Sambando se explica que não vai pescar, Deixa o mar serenar
 
  A7              D
A lua brilhava vaidosa
          B7
De si orgulhosa e prosa
        Em                               A7
Com que Deus lhe deu, ao ver a morena sambando
                                 D               A7 
Foi-se acabrunhando, então adormeceu, o sol apareceu

   A7
Um frio danado
             D       B7
Que vinha de lado, gelado
               Em                                 A7
Que o povo até se intimidou, Morena aceitou o desafio
                              D                       A7
Sambou e o frio, sentiu seu calor, e o samba se esquentou

    A7                    D
A estrela que estava escondida 
              B7 
sentiu-se atraída
             Em                             A7
depois então apareceu, Mas ficou tão enternecida
                                 D                    A7
Ingadou a si mesma, a estrela afinal, será ela ou sou eu ?

Meu sapato já furou

Clara Nunes

Meu sapato já furou - Elton Medeiros e Mauro Duarte
A
Meu sapato já furou

Minha roupa já rasgou
                       E
E eu não tenho onde morar

(onde morar)

                Bm
Meu dinheiro acabou
       Bm7+         Bm7
Eu não sei pra onde vou
     E               A     E
Como é que eu vou ficar
               A
(que eu vou ficar)


Eu não sei nem mais sorrir
                  F#7
Meu amor me abandonou
                   Bm
Sem motivo e sem razão
            E              A       F#7
E pra melhorar minha situação
          Bm              E     A
Eu fiz promessa pra São Luís Durão
        E         A
(Meu sapato já furou)


Bm               E
Quem me vê assim
 A           E
Deve até pensar
            A
Que eu cheguei ao fim
     A7                      Bm
Mas quando a minha vida melhorar
          B7              E      A
Eu vou zombar de quem sorriu de mim
        E         A
(Meu sapato já furou)

Tristeza pé no chão



Tristeza pé no chão (1973) - Armando Fernandes - Intérprete: Clara Nunes
Am                     E7               Am
  Dei um aperto de saudade no meu tamborim
                  A7                Dm
Molhei o pano da cuíca com as minhas lágrimas
                  F           E7   Am       Am7   F
Dei meu tempo de espera para a marcação e cantei
                  E7              Am    A7
A minha vida na avenida sem empolgação
Dm     Am
Vai manter a tradição
F                 E7          Am
Vai meu bloco tristeza, pé no chão
Am         E7                  Am
Fiz o estandarte com as minhas lágrimas
            A7               Dm
Usei como destaque a tua falsidade
            F             E7      Am    Am7   F
Do nosso desacerto fiz meu samba enredo
                     E7                Am
Do velho som da minha surda dividi meus versos
Am        E7                Am
Nas platinelas do pandeiro coloquei surdina
                  A7                 Dm
Marquei o último ensaio em qualquer esquina
                   F           E7    Am    Am7   F
Manchei o verde esperança da nossa bandeira
                   E7               Am
Marquei o dia do desfile para quarta-feira



Você passa, eu acho graça



Você passa, eu acho graça (samba,1968) - Carlos Imperial e Ataulfo Alves - Interpretação de Clara Nunes


Am                E                       Am
Quis você pra meu amor  / E você não entendeu
                   E                          Am
Quis fazer você a flor / De um jardim somente meu  
                        A                         Dm
Quis lhe dar toda a ternura / Que havia dentro de mim 
                G                            Am
Você foi a criatura / Que me fez tão triste assim  
 
        E                        Am  
Ah! E agora você passa, eu acho graça  
                 E                        Am
Nessa vida tudo passa  / E você também passou
           E                       Am
Entre as flores / Você era a mais bela
               E                        Am
Minha rosa amarela / Que desfolhou, perdeu a cor
  
Am                  E                        Am
Tanta volta o mundo dá / Nesse mundo eu já rodei 
                  E                          Am
Voltei ao mesmo lugar / Onde um dia eu encontrei
                    A                       Dm 
Minha musa, minha lira, / Minha doce inspiração 
                  G                         Am
Seu amor foi a mentira / Que quebrou meu violão

        E                        Am  
Ah! E agora você passa, eu acho graça  
                 E                        Am
Nessa vida tudo passa  / E você também passou
           E                       Am
Entre as flores / Você era a mais bela
               E                        Am
Minha rosa amarela / Que desfolhou, perdeu a cor

Am                   E                            Am
Seu jogo é carta marcada / Me enganei, não sei porque
                     E                        Am
Sem saber que eu era nada / Fiz meu tudo de você
                 A                        Dm  
Pra você fui aventura / Você foi minha ilusão
                    G                      Am
Nosso amor foi uma jura / Que morreu sem oração  

        E                        Am  
Ah! E agora você passa, eu acho graça  
                 E                        Am
Nessa vida tudo passa  / E você também passou
           E                       Am
Entre as flores / Você era a mais bela
               E                        Am
Minha rosa amarela / Que desfolhou, perdeu a cor
 
 

Torresmo à milanesa

Torresmo à Milanesa - Adoniran Barbosa e Carlinhos Vergueiro

G7        C         G7         C 
O enxadão da obra bateu onze hora 
A              Dm 
Vam s'embora, joão! 
G              C 
Vam s'embora, joão! 
G7       C         G7         C 
O enxadão da obra bateu onze hora 
A               Dm 
Vam s'embora, joão! 
G               C 
Vam s'embora, joão! 
C7          F               G7     C 
Que é que você troxe na marmita, Dito? 
A          Dm    G7          C 
Troxe ovo frito, troxe ovo frito 
C7      F            G7            C 
E você beleza, o que é que você troxe? 
A         Dm            G7           C 
Arroz com feijão e um torresmo à milanesa, 
            G7 
Da minha Tereza! 
C   G7    C     A 
Vamos armoçar 
   Dm    G7     C  C7   
Sentados na calçada 
       F        G        C     C7 
Conversar sobre isso e aquilo 
D                         F  G 
Coisas que nóis não entende nada 
   F        G7     C 
Depois, puxá uma páia 
A             Dm 
Caminhar um pouco 
G            C       C7 
Pra fazer o quilo 
           F     G7 
É dureza João! 
           Em   A 
É dureza João! 
           Dm   G7 
É dureza João! 
          C     C7 
É dureza João! 
           F 
O mestre falou 
     G7          Em     A 
Que hoje não tem vale não 
          Dm 
Ele se esqueceu 
        G7               C 
Que lá em casa não sou só eu 

Samba Italiano

Demônios da Garoa

Samba Italiano - Adoniran Barbosa

Tom: C  

C      Am
Piove, piove,
   C               A7      Dm
Fa tempo que piove qua, gigi,
   Dm/C       G7
E io, sempre io,
               Dm
Sotto la tua finestra
                    Dm/C
E vuoi senza me sentire
                G7
Ridere, ridere, ridere
                     C
Di questo infelice qui

      C7       Dm
Ti ricordi, gioconda,
          G7            C  C7
Di quella sera in guarujá
          Dm   G7         C   C7
Quando il mare ti portava via
          Dm
E me chiamaste
  G7        C    Am
Aiuto, marcello!
           Dm       G7           C
La tua gioconda a paura di quest'onda

Vide verso meu endereço

Vide verso meu endereço - Adoniran Barboosa

Tom: Bm

Falado:
( Bm )
"seu gervásio,
Se dr josé aparecido aparecer por aqui
Cê dá esse bilhete a ele
Pode lê, num tem segredo nenhum
Pode lê seu gervásio"
Bm                                  G7
Venho por meio destas mau traçadas linhas
F#                             Bm
Comunicar-lhe que eu fiz um samba pra você
Em                      F#
No qual eu quero expressar toda a minha gratidão
Em        A7        Bm
E agradecer de coração
F#
Por tudo que você me fez
Bm                              Em
E o dinheiro que um dia você me deu
F#                     Bm
Comprei uma cadeira lá na praça da bandeira
B7               Em
Alí vou me defendendo
Bm            F#                 Bm
Pegando firme dá pra tirar mais 1000 por mês
Db                  F#               Bm
Casei, comprei uma casinha lá no ermelindo,
B7                Em
Tenho três filhos lindos
F#              Bm
Dois são meu, um é de criação,
B7                            Em
Eu tinha mais coisas pra lhe contar
E7                     F#
Mas vou deixar, pra uma outra ocasião,
Em
Não repare a letra
F#               Bm
A letra é de minha mulher
Em
Vide verso meu endereço
F#             Bm
Apareça quando quiser

Samba do crioulo doido



Observador afiado do cotidiano brasileiro, que criticava de forma inteligente e espirituosa, Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, teve a oportunidade de conhecer o sucesso como compositor nos últimos meses de vida com o “Samba do Crioulo Doido”.

Satirizando as dificuldades dos autores de samba-enredo, obrigados a desenvolverem em suas composições temas históricos — muitas vezes absolutamente inadequados a uma descrição poética —, Sérgio fez neste samba uma divertida caricatura do gênero, misturando escravas, princesas, imperadores e estações de trens: “Foi em Diamantina / onde nasceu JK / que a princesa Leopoldina / arresolveu se casá / mas Chica da Silva / tinha outros pretendentes / e obrigou a princesa / a se casá com Tiradentes...”

Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta)
E arrematou a confusão com o disparate maior, digno de um Lamartine Babo: “Assim se conta essa história / que é dos dois a maior glória / Dona Leopoldina virou trem / e Dom Pedro uma estação também.”

Com um prólogo falado, em que o autor esclarece ter o crioulo endoidado de vez, ao compor sobre o tema “A atual conjuntura”, o “Samba do Crioulo Doido” — cujo título tornou-se uma expressão popular — foi gravado pelo Quarteto em Cy, virando em seguida um musical, “o Show do Crioulo Doido”, estrelado pelo elenco do disco. Sérgio Marcos Rangel) Porto morreu de um ataque cardíaco no dia 29 de setembro de 1968 (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Samba do crioulo doido (1968) - Sérgio Porto / Interpretação: Demônios da Garoa

Am   E7       Am        A7
Foi em Diamantina   /  
Dm
Onde nasceu JK
E7                  Am   B7
Que a princesa Leopoldina /
E7    Am
Arresolveu se casá
A7            Dm    
Mas Chica da Silva   /
B7              F7    E7
Tinha outros pretendentes
Am     Dm         Am  B7       E7             Am
E obrigou a princesa   / A se casar com Tiradentes
Dm     E7    Am         B7        E7           Am
Lá iá lá iá lá ia  /  O bode que deu vou te contar
Dm     E7     Am        B7      E7           Am
Lá iá lá iá lá iá / O bode que deu vou te contar
   Dm     Am                     ( Dm )
Joaquim José      /      Que também é
E7      Am       Gm6     A7          Dm   E7
Da Silva Xavier   /  Queria ser dono do mundo
Am
E se elegeu Pedro II
( Am )
Das estradas de Minas  /  Seguiu pra São Paulo
( E7 )
E falou com Anchieta  /   O vigário dos índios
( Am )
Aliou-se a Dom Pedro / E acabou com a falseta
                                      E7
Da união deles dois / Ficou resolvida a questão
Dm          E7            Am   Dm         E7            Am
E foi proclamada a escravidão/E foi proclamada a escravidão
Dm                      Am       Dm      E7           Am
Assim se conta essa história/Que é dos dois a maior glória
A7                   Dm        E7                      Am
Da.Leopoldina virou trem / E D.Pedro é uma estação também
Dm          Am             B7        E7             Am
O, ô , ô, ô,  ô,  ô  / O trem tá atrasado ou já passou
Dm           Am            B7         E7            Am
O, ô ,  ô, ô,  ô, ô  / O trem tá atrasado ou já passou
 
 

Triste madrugada



Triste madrugada (samba, 1967) - Jorge Costa - Intérprete: Jair Rodrigues
G         E7         Am
Triste madrugada foi aquela
         D7         G    D7
Que eu perdi meu violão
 G          E7        Am
Não fiz serenata pra ela
     D7                    G
E nem cantei uma linda canção
    Am       D7         G        E7 
Uma canção para quem se ama
   Am        D7            G      E7
E sai do coração dizendo assim
              Am
Abre a janela amor
D7         G    E7
Abre a janela
        Am                D7         G
Dê um sorriso e jogue uma flor para mim
            E7
Cantando assim
   Am  D7   G     E7
Lalaia laia laia laia 
  Am    D7    G   
Laia laia lalaia
  Am  D7   G     E7
Lalaia laia laia laia 
 Am    D7    G   
Laia laia lalaia
 
 

Vem cantar comigo

Demônios da Garoa
Demônios da Garoa

Tom:  F
Introdução: F  F7  Bb  C7  F  Gm  C7  F 

Gm
É de manhã...  é de manhã...
C7            BIS
Já perdi o trem das onze...  
F                C7
Não vou mais pro Jaçanã     vem meu povão

F    C7     F            Am         G#m     Gm  D#7 D7
Vem, meu povão...   vem sambar comigo numa boa...
Gm             F                           BIS
Que samba é arte...   quero ver você sambar...
F                 C7
Com Demônios da Garoa     vem meu povão            
Gm
Malvina joga a chave...   não me chateia mais...    BIS
C7                            F        C7
E fecha essa maloca que o Arnesto não vem mais... Iracema

F C7 F      Am             G#m     Gm   D#7   D7
Iracema, cuidado quando for atravessar
Gm                      C7
Lá no Bixiga encontrei as mariposas
F
Com lenço na moleira não dá pra acreditar
Gm
Minha Vila Esperança
C7                           F
Lé no metrô eu não me canso de cantar

Triste margarida (Samba do metrô)


Triste margarida (Samba do metrô) - Adoniran Barbosa / Interpretação: Demônios da Garoa
Intr: (Cm Fm Cm Fm G Cm C7) 2X 
Cm
Você esta vendo aquela mulher
que vai indo ali
Fm  G         Cm  C7
Ela não quer saber de mim
Fm        G      Cm
Sabem por que
G         
Eu menti pra conquistar
G7       Cm
seu bem querer (x2)
C                A7       Dm
Eu disse a ela que trabalhava de engenheiro
G7          Dm          G7      C
E o metrô de São Paulo estava em minhas mãos
A7       Dm
E que se desse tudo certo
G7            Dm          G7  C
Seria a primeira passageira da inauguração
Dm         G7             C
Tudo ia indo muito bem
G7         C
Até que um dia, até que um dia
D7           Dm           G7      C
Ela passou de onibus, pela via 23 de maio
G7
E da janela do coletivo me viu
Dm            G7      C
Plantando grama no barranco da avenida
Fm                   G7          Cm
Hoje fiquei sabendo que ela é  
________________________________
Fm            G               Cm
Orgulhosa, convencida
Fm                G        Cm
Não passa de uma trista margarida
________________________________(2X) 
Introdução

Tiro ao álvaro

Tiro ao álvaro - Adoniran Barbosa e Osvaldo Molles - Intérpretes: Adoniran Barbosa - Demônios da Garoa - Elis Regina
       A        F#7
De tanto levar
      Bm7
"frechada" do teu olhar
        Bm7/5-  E7
Meu peito      até
   A7+            Em7     A7
Parece sabe o que?
   D          G7
"táubua"
                Dbm7      F#7
De tiro ao "Álvaro"
           Bm7
Não tem mais
      E7    A7+             E7
Onde furar           (não tem mais)

A7           D
      Teu olhar mata mais
        E/Ab         C#m7
Que bala de carabina
           F#7            Bm7
Que veneno estricnina
       E7              Em7     A7
Que peixeira de baiano
     D              Ebº                  Dbm7
Teu olhar mata mais que atropelamento
               F#7             Bm7
De "automóver" mata mais
        E7            A7+     E7
Que bala de "revórver".

( D  D  F#  Bm7  E7  Em7  A7 )
( D  Dbm7  F#  Bm7  E7  A7+  E7/9+ )

Ói nois aqui traveis


Ói nois aqui traveis - Adoniran Barbosa
Tom: G
Intro:G D7 G Em A7 D7 G

______________________________________
G                               Am
Voceis pensam que nois fumos embora
D7                G
Nóis enganemos voceis
E7                       Am
Fingimos que fumos e vortemos
D7                G
Ói nóias aqui traveis
___________________________________(2X)

G
Nóis tava indo
            E7
Tava quase lá
          Am
E arresorvemo

Vortemos prá cá
D7                   G        Em
E agora nois vai ficar fregueis
A7       D7       G
Ói nois aqui traveis

Mulher, patrão e cachaça

Mulher, patrão e cachaça - Adoniran Barbosa e Osvaldo Molles - Interpretação: Demônios da Garoa

Gm       D        Gm          F°
Num barracão da favela do Vergueiro
G7                   Cm
Onde se guarda instrumento
A7   D7             Gm     D
Ali, nóis morava em três.
Gm                D           Gm       F°
Eu, Violão da Silveira, seu criado,
G7            Cm
Ela, Cuíca de Souza,
   A7                    D7    G7
E o Cavaquinho de Oliveira Penteado

Cm                 Gm                   A7
Quando o cavaco centrava e a cuíca soluçava
                   D7
Eu entrava de baixaria
Cm              Gm                 A7
E a ximangada samba, bebia, sacolejava
   D7            Gm   D7
Dia e noite, noite e dia.

Gm       D           Gm        F°
No barracão quando a gente batucava
G7           Cm
Essa Cuíca marvada
A7  D7       Gm     D7
Chorava como ela só
Gm                  D           Gm     F°
Pois ela gostava demais do meu hit
G7               Cm
E bem baixinho gemia
A7                         D7     G7
Gemia assim, como quem tem algum dodói

Cm                  Gm                       A7
Tudo aquilo era pra mim, gemia e me olhava assim
                     D7
Como quem diz: Alô, my boy
Cm            Gm                   A7
E eu como bom Violão carregava no bordão
D7           Gm    E7   A7   D
Caprichava o sol maior

G
Mas um dia, patrão, que horror
                                         D
Foi o rádio que anunciou com o fundo musical

Dona Cuíca de Souza
                                      G
Com Cavaco de Oliveira Penteado se casou

Me deu uma coisa na claquete
                               G7        C
Eu ia pegá o Cavaco e o Pandeiro me falou:

G
Não seja bobo não se escracha
                      D7
Mulher, patrão e cachaça
                       G   G7
Em qualquer canto se acha.
  C                         G
Não seja bobo não se escracha
                       D7
Mulher, patrão e cachaça
                          G
Em qualquer esquina se acha