quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Dalva de Oliveira


Dalva de Oliveira (Vicentina de Paula Oliveira), cantora, nasceu em Rio Claro-SP, em 5/5/1917, e faleceu no Rio de Janeiro-RJ, em 31/8/1972. Filha do carpinteiro, saxofonista e clarinetista Mário Oliveira, desde pequena acompanhava o conjunto amador do pai, os Oito Batutas, nas serenatas e festas de clubes em que se apresentava. Aos oito anos, quando ele morreu, foi mandada com as três irmãs para um orfanato, o Colégio Tamandaré, onde aprendeu piano, órgão e canto coral.

Três anos depois, largou os estudos, por causa de uma doença nos olhos. Foi para São Paulo, onde a mãe já trabalhava como governanta, e empregou-se como babá, arrumadeira, ajudante de cozinheira e, mais tarde, cozinheira do Hotel Metrópole. Em seguida, passou a fazer limpeza numa escola de dança, em que, após o serviço, costumava cantar e improvisar músicas ao piano. Ouvida por um dos professores, foi convidada para participar de uma tournee com o grupo de Antônio Zovetti.

Em 1933, acompanhada da mãe, viajou por várias cidades do interior e chegou a Belo Horizonte, mas Zovetti adoeceu e o grupo se desfez. Sem dinheiro, fez um teste na Rádio Mineira e, aprovada, passou a cantar com o nome de Dalva de Oliveira. No ano seguinte, foi para o Rio de Janeiro e empregou-se como costureira numa fábrica de chinelos, da qual Mílton Guita (Milonguita) — um dos diretores da Rádio Ipanema (hoje Mauá) — era um dos proprietários. Milonguita levou-a para fazer um teste em sua rádio, sendo aprovada.

Mudou-se depois para a Rádio Sociedade e Rádio Cruzeiro do Sul (nesta cantando ao lado de Noel Rosa e, finalmente, para a Rádio Philips. Entre o trabalho em uma e outra emissora, fez temporada popular na Casa de Caboclo, do Teatro Fenix, com Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho, Ema d’Avila e Antônio Marzullo, atuando como atriz. Ainda no Teatro Fênix, apresentou-se como cantora e atriz de pequenas cenas cômicas entre os números.

Em 1936 conheceu Herivelto Martins, da Companhia Pascoal Segreto, que então atuava no Cine Pátria. Juntou-se a Dupla Preto e Branco, formada por Herivelto Martins e Nilo Chagas, formando um trio que foi batizado por César Ladeira como Trio de Ouro. Foram contratados pela Radio Mayrink Veiga e gravaram em 1937, na Victor, as músicas Itaguari e Ceci e Peri (ambas de Príncipe Pretinho). Casou-se com Herivelto, com quem teve dois filhos: o cantor Peri Ribeiro e Ubiratã.

Em 1938 foram para a Rádio Tupi e, dois anos depois, para a Rádio Clube. Gravou com Francisco Alves, na Columbia, o samba Brasil (Benedito Lacerda e Aldo Cabral) e Valsa da despedida (Robert Burns). A partir dessa data, exibiram-se no Cassino da Urca, ao lado de Grande Otelo e outros artistas, até o encerramento das atividades dessa casa sob o governo Dutra, em 1946.

Com o Trio de Ouro, gravou dois grandes sucessos, os sambas: Praça Onze (Herivelto Martins e Grande Otelo), na Columbia, em 1942, e Ave Maria do morro (Herivelto Martins), na Odeon, em 1943. No ano seguinte participou do filme Berlim na batucada, dirigido por Luís de Barros, e, dois anos depois, em Caídos do céu, do mesmo diretor.

Gravou na Continental em 1945, com Carlos Galhardo e Os Trovadores, a adaptação de João de Barro para a história infantil Branca de Neve e os sete anões, em dois discos, com músicas de Radamés Gnattali. Em 1947 conseguiu Outro grande êxito com o samba-canção Segredo (Herivelto Martins e Marino Pinto), gravado na Odeon. Em 1949 deixou o trio, quando excursionavam pela Venezuela com a Companhia de Derci Gonçalves.

Em 1951 retomou a carreira solo, lançando os sambas Tudo acabado (J. Piedade e Osvaldo Martins) e Olhos verdes (Vicente Paiva) e o samba-canção Ave Maria (Vicente Paiva e Jaime Redondo), sendo os dois últimos grandes sucessos da cantora. No ano seguinte foi eleita Rainha do Rádio, e excursionou pela Argentina, apresentando-se na Rádio El Mundo, de Buenos Aires, na qual conheceu Tito Clemente, que se tornou seu empresário e depois marido. Ainda em 1951, filmou Maria da praia, dirigido por Paulo Wanderley, e Milagre de amor, dirigido por Moacir Fenelon.

Em 1952 realizou temporada com Walter Pinto, no Teatro Santana, em São Paulo, e participou do filme Tudo azul, dirigido por Moacir Fenelon. Viajou para a Europa, tendo-se apresentado em Portugal e Espanha e gravado vários discos com Roberto Inglês, em Londres (Inglaterra), destacando-se entre as faixas o baião Kalu (Humberto Teixeira).

Fixou residência na Argentina, vindo ao Rio de Janeiro e São Paulo para curtas temporadas, até 1963, quando então regressou ao Brasil. Separada de Tito Clemente, casou-se com Manuel Nuno Carpinteiro. Em 1965 sofreu acidente automobilístico, e foi obrigada a abandonar a carreira por algum tempo.

Em 1970 lançou a marcha-rancho Bandeira branca (Max Nunes e Laércio Alves), que fez sucesso no Carnaval. No ano seguinte, apresentou-se no Teatro Teresa Raquel, no Rio de Janeiro. No fim da carreira, novamente em evidência, apresentou-se em televisão, shows e casas noturnas.

Em 1997, Roberto Menescal produziu o álbum Tributo a Dalva de Oliveira, reunindo nomes como Elba Ramalho, Sidney Magal, Joanna, Caubi Peixoto, Lucho Gatica e Eduardo Dusek. No mesmo ano, foi lançado pela EMI o álbum A rainha da voz, com quatro CDs, contendo as suas gravações consideradas mais expressivas, num total de 80 músicas.

CDs Dalva de Oliveira: Saudade..., 1993, Revivendo RVCD 050; A rainha da voz (4 CDs), 1997, EMI 854933-2.

Algumas músicas

Acorda Estela
Ave Maria
Ave Maria do morro
Bandeira branca
Brasil
Calúnia
Errei, sim
Estrela do mar
Fim de comédia
Kalu
Meu rouxinol
Noites de Junho
Olhos verdes
Pedro, Antônio e João
Poeira do chão
Praça Onze
Prece de amor
Que será
Rio de Janeiro
Segredo
Tudo acabado
Vai na paz de Deus
Valsa da despedida
Verão do Havaí

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora.

Odete Amaral

Odete Amaral, cantora, nasceu em Niterói RJ, em 28/4/1917 e faleceu no Rio de Janeiro RJ, em 11/10/1984. Filha caçula de um lavrador, em 1918 a família transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde o pai se tornou chofer de caminhão. Ela começou a trabalhar como bordadeira, estudando a noite no Colégio Uruguai.

Aos 16 anos, fez um teste na Rádio Guanabara, interpretando Minha embaixada chegou (Assis Valente), e foi convidada pelo diretor da emissora, Alberto Manes, para apresentar-se no programa Suburbano, levado ao ar aos domingos.

Por intermédio de Almirante, que a conhecera na Rádio Guanabara, apresentou-se na Rádio Clube do Brasil, Radio Philips, Rádio Sociedade e numa revista musical no Teatro João Caetano.

Ainda em 1933, gravou de Ary Barroso, a seu pedido, Foi de madrugada e Colibri, começando a aparecer no coro de diversos discos, o que faria até a década de 1960, em gravações de Carlos Galhardo, Sílvio Caldas, Francisco Alves, Carmen Miranda, Almirante, Dircinha Batista, entre outros.

Em 1935 apresentou-se na inauguração do Cassino Atlantico e na Rádio Ipanema. Levada por Casar Ladeira, que a batizara de A Voz Tropical, em 1936 assinou seu primeiro contrato, na Rádio Mayrink Veiga. Transferiu-se para a Rádio Nacional em 1937 e, no ano seguinte, casou com o cantor Ciro Monteiro, de quem se separou em 1949.

Em 1939, no mesmo ano em que se mudou para São Paulo SP, contratada pela Rádio Cultura, participou do filme da Cinédia O samba da vida, de Luís de Barros. Retornou ao Rio de Janeiro em fins de 1941, quando assinou novo contrato com a Rádio Mayrink Veiga, onde permaneceu ate 1947. Seu maior sucesso, o choro Murmurando (Fon-Fon e Mário Rossi), foi lançado em 1945.

Atuou na Rádio Mundial de 1947 a 1951, ano em que, contratada pela Rádio Tupi, se apresentou no programa matutino O Rio se Diverte e, à noite, no Rádio Seqüência G-3. Contratada pela Odeon em 1954, gravou para o Carnaval os sambas Vem, amor (Chocolate e Jorge de Castro) e Nasci para sofrer (Chocolate e Oldemar Magalhães). Ainda nesse ano lançou o samba canção Quando eu falo com você (Mário Rossi e Gadé); o choro Girassol (Mário Rossi); o ritmo afro Pai Benedito e Iemanjá (Henrique Gonçalves); o samba-canção Divina visão (Vargas Júnior); e Cruz para dois (Chocolate e Jorge de Castro), além da regravação do samba- canção Carteiro (Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins).

Uma das cantoras populares brasileiras de voz mais pessoal e afinada, não sem motivo foi chamada a atuar em inúmeros coros de gravação para outros cantores.

CD: Jornal de ontem (c/Orlando Silva), 1994, Revivendo RVCD-072.

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha.

Marlene


Marlene (Vitória Bonaiutti De Martino), cantora, nasceu em São Paulo-SP, em 18/11/1924. Dos quatro aos 17 anos foi interna no Colégio Batista Brasileiro, em São Paulo. Começou a cantar, ainda como amadora, em 1941, no programa Hora do Estudante, na Rádio Bandeirantes.

Estreou como profissional no ano seguinte, na Rádio Tupi, adotando o nome artístico de Marlene, escolhido pelos estudantes e inspirado em Marlene Dietrich, que estava em evidência na época. Em 1943 mudou-se para o Rio de Janeiro, conseguindo logo um lugar no Cassino Icaraí, de Niterói RJ, por dois meses passando a seguir para o Cassino da Urca, onde trabalhou até o seu fechamento, em abril de 1946.

Nesse ano, foi contratada pelo Rádio Mayrink Veiga e gravou o primeiro disco, pela Odeon, com o acompanhamento da orquestra Brazilian Serenaders, cantando o samba-choro Swing no morro (Felisberto Martins e Amado Régis) e o samba Ginga, ginga, morena (João de Deus e Hélio Nascimento). Passou para a Rádio Globo, no ano seguinte, , atuando também na boate carioca Casablanca, como cantora de um conjunto formado por Benê Nunes (piano), Abel Ferreira (clarineta), Vidal (contrabaixo), Meneses (guitarra), Chevalier (pandeiro), Carequinha (bateria) e Chuca-chuca (vibrafone).

Gravou para o Carnaval de 1947, na etiqueta Odeon, a marcha Coitadinho do papai (Henrique de Almeida e M. Garcez), com os Vocalistas Tropicais, e o samba Um ano depois (Valdomiro Pereira e Valentina Biosca).

Em 1948 assinou contrato com a Rádio Nacional, passando a participar dos programas de auditório de César de Alencar, e foi também contratada pela boate do Copacabana Palace Hotel. Gravou, nesse mesmo ano, pela Continental, disco que fez muito sucesso, com os choros Toca, Pedroca (Pedroca e Mário Morais) e Casadinhos (Luís Bittencourt e Tuiú), este último cantado em dueto com César de Alencar.

Em 1949 veio a consagração: depois de gravar, pela Star (atual Copacabana), a guaracha Candonga (Felisberto Martins e Fernando Martins) e o jongo Conceição da praia (Aldemar Brandão e Dilu Melo), foi eleita Rainha do Rádio, título que manteve no concurso seguinte, em 1951 (o concurso não foi realizado em 1950), quebrando assim o ciclo de vitórias das irmãs Linda e Dircinha Batista. Por essa época, surgem os fã-clubes, suas disputas com Emilinha Borba, estimuladas e promovidas pela imprensa e a própria Rádio Nacional passa a explorar a rivalidade entre as duas, transformando Emilinha em cantora exclusiva do Programa César de Alencar e transferindo Marlene para o programa de Manuel Barcelos.

Em setembro do mesmo ano gravou, com Os Cariocas, pela Continental, os baiões Macapá e Qui nem jiló (Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga), dois de seus grandes êxitos. Junto com Emilinha, gravou no final do ano, para o carnaval de 1950, o samba Já vi tudo (Peterpan e Amadeu Veloso) e a marcha Casca de arroz (Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti). O disco foi um sucesso e as duas voltaram a se reunir no início de 1950, gravando para o carnaval a marcha A bandinha do Irajá (Murilo Caldas).

Outros sucessos seus em 1950 foram o choro Dona Vera tricotando (Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga); o maxixe Nego, meu amor (José Maria de Abreu e Luiz Peixoto), este em dueto com Ivon Curi; Casamento de Rosa (Luiz Gonzaga e Zé Dantas); o maracatu Cabrinda Briante (Fernando Lobo e Evaldo Rui); o choro Esposa modelo (José Maria de Abreu e Carlos Barros de Sousa) e a polca Tome polca (José Maria de Abreu e Luiz Peixoto).

No Carnaval de 1951, destacou-se com o samba Sapato de pobre (Luís Antônio e Jota Júnior), e, depois de gravar mais de 13 músicas em 1951, lançou no ano seguinte um dos seus grandes êxitos, o samba Lata d'água (Luís Antônio e Jota Júnior). Gravando também a marcha Eva (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira) transformou-se numa das cantoras mais populares em todo o Brasil. Nesse período fez sucesso também no cinema, onde havia estreado em 1944, em Corações sem piloto, de Luis de Barros, seguido de Pif-paf, de Ademar Gonzaga e Luís de Barros, em 1945; Caídos do céu, de Luís de Barros, em 1946; Esta é fina, de Luís de Barros e Moacir Fenelon, em 1947; e Tudo azul, de Moacir Fenelon, em 1952. Durante as filmagens do último, conheceu o ator Luís Delfino, com quem casou, passando a dedicar-se, em seguida, ao teatro: estreou na peça Depois do casamento, em 1952. No ano seguinte, recebeu do jornal carioca O Diário da Noite diploma de Maior Figura do Rádio Brasileiro, e gravou mais alguns sucessos: Tenho um negócio para te contar (Silvino Neto) e a versão de Jambalaya (Hank Williams).

Como pretendia seguir carreira teatral, começou a estudar balé, em 1954, e no mesmo ano se apresentou em Angelina e o dentista. Gravou ainda em 1954 mais dez musicas, pela Continental, entre elas Toma jeito, João (Luís Bandeira) É sempre o papai (Miguel Gustavo) e Mora na filosofia (Monsueto e Arnaldo Passos).

Atuou em outra peça em 1955 — Maya — e em seguida reduziu sua atividade artística até afastar-se totalmente, entre 1965 e 1968, reaparecendo nesse ano, a convite de Paulo Afonso Grisolli e Sidney Miller, como estrela de Carnavália, antologia de músicas de Carnaval, com texto de Eneida e participação de Blecaute e Nuno Roland, no Teatro Casa Grande, do Rio de Janeiro.

Em 1970, Hermínio Belo de Carvalho chamou-a para fazer o show É a maior, em que interpretava autores da época (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento) Outras apresentações em teatro foram: Alice no pais do Divino maravilhoso, com Sidney MilIer, Sueli Costa, Marcos Flaksmann, Paulo Afonso Grisolli, Tite de Lemos e Luís Carlos Maciel, em 1969, no Teatro Casa Grande; Marlene ole, olá, dirigida por Haroldo Costa, em 1972, no Teatro Glória; O botequim, de Gianfrancesco Guarnieri, dirigido por Antônio Pedro, em 1973, no Teatro Princesa Isabel; e Te pego pela palavra, em 1974, show levado, a princípio, na boate Number One, e depois no Teatro João Caetano.

Em 1977 saiu, pela Polygram, o LP Antologia da marchinha. Atuando na carreira com menos freqüência, participou em 1996 do show em homenagem aos 90 anos de João de Barro, apresentado no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.

Em 1997, depois de 20 anos, voltou aos estúdios para gravar um CD com músicas de Chico Buarque, João Bosco e outros, e uma inédita, Estrela da vida, que compôs em parceria com Paulo Baiano, o produtor do disco.

CD: Marlene, meu bem, 1996, Revivendo RVCD-107.

Algumas músicas

A fruta é boa
Coitadinho do papai
Couro do falecido
É sempre o papai
Funga-funga

Lata d'água
Marcha do tambor
Mora na filosofia
Qui nem jiló

Sapato de pobre
Se é pecado sambar
Tome polca
Zé Marmita


Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha.

Louro

Louro (Lourival Inácio de Carvalho), instrumentista e compositor, nasceu em Niterói RJ, em 22/4/1894, e faleceu no Rio de Janeiro RJ, em 17/6/1956. Residindo no Barreto, em Niterói, revelou desde cedo interesse pela música. Pelos oito anos, com caixa-de-fósforos, improvisou um precário instrumento de sopro, executando os sucessos da época. Pouco depois, os pais arranjaram-lhe um emprego na fábrica de tecidos local, a Companhia Manufatora Fluminense.

Ali o garoto, conhecido por Louro, devido ao alourado dos cabelos, entrou para a banda da fábrica, chamada Centro Musical Fluminense, onde começou a estudar música. Em pouco tempo aprendeu a tocar clarineta, passando a apresentar-se com a banda em coretos ou festas públicas, sendo sua música de estréia o dobrado Coronel Barbedo. Progredindo rapidamente em seus conhecimentos musicais, logo que deixou a banda foi procurado por um senhor de Rio Bonito RJ, que lhe ofereceu o posto de regente da banda Euterpe Rio-Bonitense. Reorganizando-a, com pouco mais de 16 anos regia 70 músicos profissionais, tendo ocupado o posto até que uma desavença com o tocador de pratos o levou a abandoná-la.

Retornou a Niterói, onde logo recebeu convite para ser mestre da banda do Grupo Vinte e Um de Abril, de Capivari, perto de Campos RJ. Datam dessa época suas variações sobre o tema popular do Urubu malandro, que ficariam famosas. Deixando a banda mais tarde, passou a atuar em festas e bailes no Rio de Janeiro e Niteroi, além de cinemas e circos, acabando por se tornar popular.

Em 1913, resolveu gravar discos (conhecidos como “chapas”) para gramofone. Dirigiu-se a Casa Edison com sua clarineta e ofereceu-se para uma gravação, o que começou a fazer com a ajuda de Chiquinha Gonzaga. Formou o Grupo do Louro para acompanhá-lo, e suas gravações do Urubu malandro e de Moleque vagabundo, esta de sua autoria, fizeram grande sucesso no Rio de Janeiro.

Em 1919 apresentou-se com seu grupo musical no Teatro João Caetano, durante as representações de A juriti (Viriato e Chiquinha Gonzaga) e As pastorinhas (Abadie Faria Rosa e Paulino Sacramento). Dois anos depois, tocavam na sala de espera do Teatro Carlos Gomes executando os sucessos da época.

Freqüentando todos os anos as festas da Penha realizadas sempre no mês de outubro, em 1925 ali encontrou outro clarinetista famoso, o Alfredinho. Estabeleceram uma disputa, e, para demonstrar o fôlego, tocou sua composiçao Choro do galo subindo e descendo os 365 degraus da escadaria, sem interromper a música.

Dois anos mais tarde resolveu ir à Europa, reunindo dois cavaquinhos, dois violões, um pandeiro e um ganzá. Depois de tocar na Bahia e em Pernambuco, apresentou-se em Portugal, atuando no Teatro Olímpia, de Lisboa. Retornando ao Brasil, em 1931, gravou na Victor seu choro Osvaldina, e, tocando sax-alto e clarineta, integrou várias orquestras.

A 9 de Janeiro de 1945 o cantor e radialista Almirante realizou na Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, um programa sobre o artista e seu grupo, contando sua vida e relembrando seus sucessos na série A Historia das Orquestras e Músicos do Rio, dirigida pelo proprio Almirante.

Ivon Curi


Ivon Curi (Ivon José Curi), cantor e compositor, nasceu em Caxambu MG, em 5/6/1928 e faleceu no Rio de Janeiro RJ, em 24/6/1995. Irmão de locutores da Rádio Nacional Alberto e Jorge Curi —, começou a cantar, por volta de 1944, sambas-canções e cançonetas francesas em festas e shows, depois na rádio da sua cidade.

No Rio de Janeiro, teve sua primeira oportunidade através de Caribé da Rocha, que o contratou como crooner da Orquestra Zacarias, do Copacabana Palace Hotel, onde entrou em contato com os maiores astros da época. Era então muito influenciado pelo cantor francês Jean Sablon, criador do sucesso J’attendrais.

Em 1947 conseguiu seu primeiro contrato com a Rádio Nacional, para apresentar-se como convidado nos programas de Emilinha Borba, Marlene, Dalva de Oliveira e Ângela Maria. Transferiu-se em seguida para a Rádio Tupi.

Em 1949 gravou em dupla com Carmélia Alves, pela Continental, o baião Me leva (Hervé Cordovil e Rochinha). Em 1950 participou do filme Aviso aos navegantes, de Watson Macedo, e no ano seguinte apareceu em Ai vem o barão, do mesmo diretor, atuando ainda em 1952 em Barnabé, tu és meu, de José Carlos Burle. Gravou seu primeiro disco na Continental, com as músicas La vie en rose e Nature boy (Eden Abhez), seguindo-se C’est si bon (Charles Trenet), Obrigado (sua autoria), Ta fartando coisa em mim (com Humberto Teixeira), 1950, Humanidade (sua autoria), Margarida (Humberto Teixeira e Copinha), 1952, e Orquídeas ao luar (Gus Khan, Vincent Youmans e Eliscu, versão de Cristóvão de Alencar), 1952. Nessa época modificou seu estilo, passando a fazer mímicas e piadas, tornando-se cançonetista, com repertório nordestino.

Em 1953 lançou, pela Victor, Amor de hoje (Ari Monteiro e Bruno Marnet), música que havia interpretado no filme É fogo na roupa (Watson Macedo, 1952). Gravou Baião das velhas cantigas (Jair Amorim), Caxambu (Zé Dantas e David Nasser), Farinhada (Zé Dantas) e o O xote das meninas (Zé Dantas e Luiz Gonzaga), além da valsa de sua autoria João Bobo e da canção israelita Beija- flor (versão de Caribé da Rocha).

Depois de excursionar pelo Brasil, fez tournée pela Europa em 1956-1957, apresentando-se em Portugal, onde adotou pela primeira vez o estilo one-man-show e foi considerado o melhor intérprete de música brasileira. Em 1961 casou com lvone.

Com o aparecimento da Jovem Guarda, afastou-se temporariamente da vida artística, reaparecendo em 1971 com o show Ivon Curi em todos os tempos, no Teatro Casa Grande, onde se apresentou como show-man e fez uma retrospectiva de sua carreira, lançando então o LP de mesmo nome. Seus maiores sucessos foram João Bobo, Tá fartando coisa em mim, Retrato de Maria (sua autoria), Farinhada, Escuta (sua autoria), Casar é bom (com Meira Guimarães), Amor naquela base (Moura Júnior e Zé Araújo) e Me leva.

Em 1977, a gravadora Continental lançou o LP Ivon Curi, volume 26 da serie Ídolos MPB. Em 1984 voltou a vida artística, festejando 40 anos de carreira, em 1987, com o disco Ivon Curi ontem e hoje. Em 1993, além de ter comandado o programa Show da Manchete, estreou o espetáculo A França e quinze saudades, em que interpretou canções francesas e que deu origem ao disco Douce France, seu último trabalho solo. Sua última gravação foi a faixa Forró do beliscão (Ari Monteiro, João do Vale e Leoncio), incluida, no início de 1995, no disco João Batista do Vale (BMG), tributo ao compositor João do Vale.

Luís Americano

.
Luís Americano (Luís Americano Rego), instrumentista e compositor, nasceu em Aracaju SE, em 27/2/1900, e faleceu no Rio de Janeiro RJ, em 29/3/1960. Começou os estudos de clarineta aos 13 anos com o pai, Jorge Americano, mestre-de-banda em Aracaju.

Ingressando no Exército, tornou-se músico do 20º Batalhão de Caçadores, sediado em Maceió AL. Transferido em 1921 para o Rio de Janeiro para servir no 3º Regimento de Infantaria, deu baixa no ano seguinte.

Já dominando o sax-alto e a clarineta, passou a atuar como músico profissional. Integrou diversas orquestras, entre as quais as de Justo Nieto, Raul Lipoff, Simon Bountman e Romeu Silva. No início da década de 1920 participou com destaque de gravações realizadas na Odeon, ainda pelo processo mecânico: Coração que bate, bate..., maxixe (Freire Júnior), gravado em 1922, traz no selo seu nome e do Grupo de Donga.

Em 1928 viajou para a Argentina, levado pelo norte-americano Gordon Stretton, baterista e chefe de orquestra, com quem trabalhou três meses. Integrou em seguida a orquestra do argentino Adolfo Carabelli, regressando em 1930 ao Rio de Janeiro, onde formou o conjunto de danças American Jazz, que gravou na Victor.

Em 1932 passou a integrar o Grupo da Guarda Velha e a partir do mesmo ano foi relançado pela Odeon, revelando-se nessa nova fase como grande compositor e um dos maiores clarinetistas brasileiros. São dessa época os lançamentos de É do que há, choro, e Lágrimas de virgem, valsa, ambos de sua autoria.

Em agosto de 1940 fez parte do grupo de músicos e compositores brasileiros escolhidos por Pixinguinha, a pedido do maestro Villa-Lobos, para realizarem gravações para o maestro Leopold Stokowski (1882—1976), que visitava o Brasil.

Além de atuar por muitos anos no teatro musicado e em dancings, participou como músico de estúdio das orquestras da Rádio Mayrink Veiga — de fins da década de 1930 ate 1950 — e da Rádio Nacional, de 1950 até a morte.

Lágrimas de virgem

Luís Americano
Lágrimas de virgem (valsa, 1931) - Luís Americano

Disco 78 rpm / Título: Lágrimas de virgem / Autoria: Americano, Luiz (Compositor) / Americano, Luiz (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1931 / Nº Álbum 10797 / Lado B / Gênero: Valsa


Meiga flor,
Na luz do teu olhar nasceu,
Um lacrimário de dor,
Porque teu coração,
De pesar reviveu,
O amor,
Que alucinou, teu meigo ser,
Num róseo sonho em flor,
deixando-te no mundo sofrer.

Em fráguas doloridas,
A rolar,
As lágrimas sentidas
Vão levar,
Cheias de suavidade,
Um alívio imenso,
Ao pobre coração,
Que sofre de paixão,
Um pranto torturado,
A correr,
Dois olhos macerados,
De sofrer,
Cheios de poesia,
Dão alívio ao ser,
Que morre de agonia.

Da imensidão do céu a rir,
Suprema luz bendita vi,
Entrelaçar teus olhos,
Perdidos de afeto,
E os anjos liriais meu bem,
Em cantos divinais no além,
Glorificando a dor,
Do teu sonho dileto,
O teu olhar porém chorou,
Serena a luz enfim ficou,
Rebrilhando,
Em ditosa ternura,
Teu coração sossegou,
Doce amor,
Bem feliz de ventura.

Vai ò meu amor, ao campo santo

Vai, ò meu amor, ao Campo Santo - Catulo da Paixão Cearense e Irineu de Almeida - Intérprete: Vicente Celestino e orquestra - Disco RCA Victor, de 08/08/1952 - Gênero musical: Canção - Nº Álbum 801023 - Data lançamento: Novembro 1952 - Lado A -

Tu, tu não queres crer como eu te quero!
Venero o teu amor, que é minha vida
Tudo nesta dor do mundo espero
Sou poeta e sou cantador, ó alma infinda!
Sobre o coração que me consome
A rutilar luz diamante do teu nome
Sei que o meu penar será infindo
Irei cumprindo o que Deus determinar

Hás de chorar a minha desventura
Quando eu repousar na gelidez da sepultura
Hás de lamentar os sofrimentos
Tantos tormentos que sofri
Enquanto vivo aqui por ti

Vai, vai ó meu amor ao campo santo
Verás a minha cruz lá num recanto!
Vai, que lá verás cheias de odores
Numa genuflexão algumas flores
Vai e uma por uma sem ter medo
Colhe essas flores – a meiguice de um segredo
São os versos d’alma que eu não disse
E enfim dizer, dizê-los só, quando eu morrer

U poeta do sertão

Catulo da Paixão
Outra versão de Caboca di Caxangá - a toada “U poeta du Sertão” - foi gravada em 1927 por Patrício Teixeira e novamente em 1936 por Paraguassu. Ela foi dedicada à memória do companheiro nordestino (Catulo veio do Maranhão) e homem de teatro Arthur Azevedo, que morreu em 1907. A gravação de Paulo Tapajós de 1957 foi relançada no CD da Revivendo "Catulo da Paixão Cearense nas vozes de Paulo Tapajós e Vicente Celestino".

U poeta du sertão - Catulo da Paixão Cearense - Interpretação de Paulo Tapajós de 1957 -

Si chora o pinho
Im desafio gemedô
Não hai poeta cumo os fio
Du sertão sem sê doutô
Us óio quente
Da caboca faz a gente
Sê poeta di repente
Que a puisia vem do amor

Não há poeta, não há
Cumo os fio do Ceará!

Dotô fromado, home aletrado
Lá da Côrte
Se quisé mexê comigo
Muito intoncê tem qui vê
Us livro da intiligença
I dá sabença
Mas porém u mato virge
Tem puisia como quê!

Poeta eu sô sem sê dotô
Sou sertanejo
Eu sô fio lá dus brejo
Du sertão do Aracati
As minha trova
Nasce d’arma sem trabaio
Cumo nasce na coresma
Nu seu gaio a frô de Abri



Fonte: As Crônicas Bovinas, parte 17

Tu passaste por este jardim

Alfredo Dutra (circa 1860 - 1920 Rio de Janeiro, RJ) é o autor da canção Tu passaste por esse jardim (composta como polca), que Catulo da Paixão Cearense pôs letra. Sabe-se que a canção foi apresentada pela primeira vez pelo próprio Catulo, em festa de casamento do sobrinho do compositor, de nome Oscar de Meneses Pamplona, realizada em 28 de setembro de 1905. 

Em 1962, a canção "Tu passaste por este jardim", foi relançado em ritmo de maxixe, por Gilberto Alves no LP Gilberto Alves de sempre lançado pela gravadora Copacabana.  

Tu passaste por este jardim (polca / maxixe, 1905) - Catulo da Paixão Cearense e Alfredo Dutra - Interpretação de Gilberto Alves -

Tu passaste por este jardim!
Sinto aqui certo odor merencório
Desse branco e donoso jasmim
Num dilúvio de aromas pendeu
Os arcanjos choraram por mim
Sobre as folhas pendidas do galho
Que a luz de seus olhos brilhantes verteu

Tu passaste, que de quando em quando
Vejo as rosas no hastil lacrimado
Das corolas de todas as flores
As minhas angústias, abertas em flores
Neste ramo que ainda se agita
Uma roxa saudade palpita
E esse cravo, no ardor dos ciúmes
Derrama os perfumes num poema de amor

De um suspiro deixaste o calor
Neste cálix de neve, estrelado
Neste branco e gentil monsenhor
Vê-se o íris de um beijo esmaltado
Tu deixaste num halo de dor
Nas violetas magoadas, sombrias
A tristeza das ave-marias
Que rezam teus lábios à luz do Senhor

Vejo a imagem da minha ilusão
Nessa rosa prostrada no chão
Meus afetos descansam nos leitos
Destes lindos amores-perfeitos
Como chora o vernal jasmineiro
Que me lembra o candor de teu cheiro!
Este cravo sangüíneo é uma chaga
Que se alaga no rubor da cor

As gentis magnólias em vão
Muito invejam teu rosto odoroso
Rosto que tem a conformação
De um suspiro adejando saudoso
E esses lírios têm a presunção
De imitar em seus níveos brancores
Esses dois ramalhetes de amores
Andores de flores num seio em botão

Templo ideal

Templo ideal (modinha, 1912) - Letra de Catulo da Paixão Cearense e música de Albertino Pimentel - Interpretação de Mário Pinheiro - Disco 78 rpm Victor - Gênero musical modinha - Nº Álbum 99726 - Data lançamento 1912 - Lado único -

Olha estes céus, ó anjo, iluminados
De corações sofrentes e magoados
E o teu candor na tela cérula a brilhar
sob um trasflor de madrepérola
De versos consagrados
Com camafeus, opalas e turquesas
E as ametistas que tu exalas no falar
Com o éter da saudade, eterno marmor do sofrer
Um templo ideal eu vou te erguer

A teus pés terás a hiperdúlia da poesia
Ave-Maria dos meus ais!
Consagração do pranto deste santo coração
Virgíneo escrínio da ilusão

Ó, teus pés florei!
Com os meus extremos
Que são fluidos crisântemos
Deste amor com que te amei
Mandei a minha dor soluçar
Num resplendor de diademar

Do coração de essências lacrimosas
Que eu marchetei de rimas dolorosas
Fiz um missal espiritual que adiamantei
Filigranei com os alvos lírios
Destas lágrimas saudosas
O teu altar num pedestal de mágoas
Eu fiz das águas do Jordão do meu penar
Tens uma grinalda em tua fronte constelei

Versos passionais
Meigas violetas, borboletas
Das idéias, orquídeas dos meus ais
Voai, saudosos, primorosos
Dulçorosos beija-flores
Dos tristores que eu lhe fiz dos amargores
Doces hóstias multicores
E um turíbulo de dores
Cujo incenso é a inspiração
Com amor e pura santidade
Guardo o culto da saudade
No meu coração

Eis o teu templo de aurirais fulgores
Que eu perfumei só com o ideal das flores
Arcanjos de ouro tendo às mãos ebúrneas liras
E a teus pés cantando em coro
Sobre um trono de safiras
Nos pedestais dos róseos alabastros
Verás dois astros: Tasso e Dante a soluçar!
Sobre o teu altar e debruçado em áurea cruz
Meu coração numa explosão de luz

Sertaneja

Tango brasileiro "Nenê", de Ernesto Nazareth, publicado em 1895 pela Casa Arthur Napoleão & Cia. e dedicado "ao amigo Dr. Jovino Barral da Fonseca". Segundo o biógrafo Luiz Antonio de Almeida, não se sabe a origem do título, podendo ser uma referência ao apelido de Maria Carolina, irmã do compositor falecida ainda jovem, a um apelido do próprio Dr. Jovino, ou ao apelido de sua ex-discípula Anna Rangel de Vasconcellos Moreira, jovem viúva conhecida por sua grande beleza e que foi apaixonada por Ernesto.

Recebeu letra de Catulo da Paixão Cearense, provavelmente ainda no século XIX, sob o título de "Sertaneja". A edição de Sertaneja de 1968, pela Editora Arthur Napoleão, contém a dedicatória "Ao maestro Nicolino Milano (nenê)", que foi inserida postumamente pelos editores.

Era uma das peças mais tocadas pelo próprio autor, que a executou em diversos recitais ao longo da vida e inclusive a gravou em 1930 (78-RPM Odeon matriz 3940, cujo lançamento não foi aprovado pela gravadora na época, considerando-o "prova má"). Até 2012 recebeu 27 gravações, sendo uma de suas peças mais famosas.

O pianista e compositor Odmar Amaral Gurgel (Maestro Gaó), que tocou esta peça para Nazareth em 1926, contava que o compositor logo lhe chamou a atenção, dizendo que ele deveria fazer um tenuto logo no primeiro acorde (i.e. segurá-lo um pouco), como podemos ouvir na gravação do próprio Nazareth (depoimento de Carlos Eduardo Zappile Albertini, aluno de Gaó). 

Aqui, na interpretação do próprio Nazareth, os seus dois tangos, Nenê e Turuna, gravados em 10/09/1930 e não lançados em disco na época. Matrizes Odeon 3940 e 3942 - Álbum "Os Pianeiros" (FENAB) -

Sertaneja (tango, 1895) - Catulo da Paixão Cearense e Ernesto Nazareth

Sestrosa, dengosa
Derriçosa, odorosa flor
Maldosa, formosa
Sertaneja, meu lindo amor!
Anjinho, benzinho
Meu carinho, meu beija-flor
Condena sem pena
Que minh’alma te adora o rigor


Quando tu passas na orla do monte
Caminho da fonte, da tarde ao morrer
Meu pranto rola por sobre a viola
Que a noite consola no seu gemer

Provocante, radiante
Fascinante, ondulante
Num teu fado ritmado
Tu nos fazes até chorar
Logo a gente, a gente sente
Uns desejos dos teus beijos
Uns desejos dos teus beijos
Que até nos fazem delirar

Ingrata, ingrata
Volve a mim um teu doce olhar
Teu riso me mata
Me maltrata, me faz banzar
Desata, desata
Esse olhar do meu coração
Ingrata, ingrata
Suspirosa irerê do sertão

Também se passas
Formosa e tirana
Por minha choupana
Da tarde ao cair
Vou te seguindo
Na estrada arenosa
Qual rola saudosa
A carpir, carpir

Na dança deslizas
E assim pisas mil corações
Teu peito é o leito
Doce leito das tentações
Teus olhos, teus olhos
Vaga-lumes de ingratidões
Teus olhos, teus olhos
Os queixumes das nossas paixões



Fonte: Ernesto Nazareth 150 Anos.

Recorda-te de mim

Catulo da Paixão
Recorda-te de mim (modinha) - Catulo da Paixão Cearense - Interpretação de Orestes de Matos - Disco Odeon - Gênero musical: Modinha - Nº Álbum 137006 - Data lançamento 1912 - Lado único - .

Recorda-te de mim (modinha) interpretado por Paulo Tapajós  - Faixa 10  - LP Sinter LA07 - Paulo Tapajós / Catullo O Poeta do Sertão (1957) -

Recorda-te de mim quando de tarde
Gloriosa a morrer na luz do dia
E nos seios da noite a serrania
Em candores de neve se ocultar
Recorda-te de mim nesse momento
As estrelas saudosas do penar

Recorda-te de mim quando alta noite
Escutares um canto de tristeza
Descantado por toda a natureza
Nos formosos harpejos do luar
Recorda-te de mim quando acordares
E sentires no peito do adolescente
Um espírito em mágoa florescente
Uma hora em teu peito a suspirar

Recorda-te de mim quando no templo
Numa prece serena, doce e fina
Sob o altar florescido de Maria
Teus segredos à Virgem confiar
Recorda-te de mim nesse momento
Para que minha dor tenha um alento
E me deixe morrer com o pensamento
De que morro feliz só por te amar

Quando ela passa


Quando Ela Passa (Na aldeia) - Letra de Catulo da Paixão Cearense e música de Mário Alvares - Interpretação de Patrício Teixeira - Disco 78 rpm - Título da música: Na aldeia - Imprenta [S.l.]: Odeon, 1927 - Nº Álbum: 10084 - Gênero musical: Maxixe -


Quando ela passa
A caminho da choça do monte
Lá no horizonte
A ascensão do luar
Pela aldeia vem se derramar
Geme a fonte
E as minhas mágoas vêm vê-la passar
Passar cantando
Com a flor brincando
De quando em quando a suspirar

Vai bandoleira
A faceira que de mim se esquece
Até parece uma flor
Que ao luar, ao luar
Irrorada de orvalho
Do galho se desprendesse
E lá fosse a ondular
E ondulando fosse voando
De quando em quando a suspirar

Deixa em seu rastro o odor
Do rescendente sassafrás em flor
Deixa onde passa o olvido
O aroma de um coração ferido
Geme a viola então
Em meio da solidão do sertão calado
Um canto apaixonado, aveludado
De suspiros do coração

Se ao longe um lacrimal
Desliza sobre a areia de cristal
Descalça o pé dengoso
E o riozinho estremece airoso
E todo dia a se arrufar
Não quer mais deslizar
No planger fluente
Quer essa flor virente
Nas madeixas da corrente
Leva, levar

Quando amanhece
E à porta da choça aparece
Acorda a flor que umedece
O frescor que é tão grato
Acorda o regato e no mato
Acorda a rola em seu ninho de amor
Acorda a fonte, o horizonte
E lá no monte o trovador

Palma do martírio

Palma do Martírio (Implorando) - Letra de  Catulo da Paixão Cearense e música de Anacleto de Medeiros - Disco 76 rpm - Título da música: Implorando - Autoria: Medeiros, Anacleto de, 1866-1907 (Compositor) - Banda do Corpo de Bombeiros (Intérprete) - Imprenta [S.l.]: Odeon, 1904-1907 - Nº Álbum 40574 - Gênero: Schottish -

Quando um deus cruento
Vem sangrar meu sentimento
E do meu tormento
Põe as cordas a vibrar
Solto o pensamento
Que se perde no infinito
Desse azul bendito
Que te luz no olhar

Se teu nome pulcro
Em devoção desfio em prece
Frio em seu sepulcro
Me estremece o coração
Pedras de cristal sentimental
Correm fugazes
Pelas minhas faces
A brilhar, rolar

Brilhas entre as gemas
Dos poemas dos meus prantos
Choras nos quebrantos
Destas lágrimas supremas
Tu sorris das rosas
Policromas nos aromas
Fulges no cismar
Da minha dor, do meu penar

Cantas nos enleios
Dos gorjeios mais insones
Corres pelos veios
Da campina esmeraldina
Gemes pelos seios
Esteríssimos das fontes
Pelos horizontes
No arrebol ao pôr-do-sol

Em vestes celestes
Nos ciprestes de minh’alma
Ergues uma palma
De martírio a meu penar
Brilhas como um círio
Iluminando sobre flores
Minhas agras dores
Cor do azul do mar