sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Que bate fundo é esse?

Alcebíades Barcelos
Que bate fundo é esse? (samba, 1940) - Bide e Marçal - Intérprete: Jorge Veiga



Intro: D7  G  D7  G  D7  G  D7  G  C  Cm  G  Em  Am D7  G
 
             D7         D7/9/E  D7/F#
Que bate-fundo é este daqui
        D7/9/E     G
Que você vive a fazer
Mas isto assim não pode ser
                               D7
Vejo-lhe sempre zangada, mal-humorada
                G7
Maldizendo o que vê
 
Chego em casa cansado
              G7/B
E não posso dormir
         C        Cm
Com o falatório seu
                  G
E todo dia um lê-lê-lê
                    D7
E não me explica por que
                     G
Que bate-fundo, meu Deus
 
(Que bate-fundo é este, que bate-fundo é este)
 
                    D7
Que bate-fundo é este daqui (...)
 
B7                                              Em
Eu não posso mais suportar esta vida, isto não é viver
 
A vida assim não dá prazer
                E7                        Am
Procurei o céu e foi no inferno que fui me meter
 
Mas isto assim não pode ser
                                        Em
Você se lamenta e vem todo dia com a sua manhã
               C     
Diz que não tem sorte 
                     B7           Em    Em7M   Em7
e que a desgraça é que lhe acompanha
                                 D7
Que bate-fundo é este daqui (...)

Bahia, oi!... Bahia

Anjos do Inferno
Bahia, oi!... Bahia (samba, 1939) - Vicente Paiva e Augusto Mesquita

Disco 78 rpm / Título da música: Bahia, oi!... Bahia / Autoria: Mesquita, Augusto (Compositor) / Paiva, Vicente, 1908-1964 (Compositor) / Anjos do Inferno (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Columbia, 21/11/1939 / Nº Álbum 55194 / Gênero: Samba /

Bahia, oi!... Bahia
Terra que Cristo criou
E o Senhor do Bonfim adotou
Baiano nasceu encantado
E aproveitou o ditado
"plantando dá" e plantou

Depois de ouvir um samba
Que lá da Bahia vem
Na voz da baiana bamba
Que ginga como ninguém
E saber que a Bahia
Tem os encantos que tem
Quem é que não gostaria
De ser baiano também?

Anjos do Inferno


Anjos do Inferno - Conjunto vocal e instrumental organizado no Rio de Janrio/RJ em dezembro de 1934, teve sua fase de maior popularidade, como sexteto, na primeira década de 1940.

Liderado pelo carioca Oto Alves Borges (Rio de Janeiro 1913—), que atuava como crooner, incluía inicialmente os violonista Moacir Bittencourt e Filipe Brasil, os irmãos Antonio Barbosa (pandeiro) e José Barbosa (violão tenor), além de Milton Campos, um dos primeiros instrumentistas brasileiros a utilizar o pistom nasal (imitação do som de pistom comprimindo as fossas nasais).

O grupo, cujo nome foi escolhido numa alusão a orquestra de estúdio Diabos do Céu, de grande renome na época, sob a direção de Pixinguinha, estreou profissionalmente nas rádios Cajuti e Cruzeiro do Sul, gravando pela primeira vez, na Columbia, o disco Morena complicada (Kid Pepe) e Amei demais (Kid Pepe e Siqueira Filho), sem no entanto alcançar repercussão.

Em 1936 Oto Borges desligou-se do grupo para retomar suas atividades de funcionário público, sendo substituído pelo cantor Léo Vilar. Recém-chegado de uma excursão pelos EUA, como integrante da orquestra de Jonas Silva, o carioca Léo Vilar cujo verdadeiro nome era Antônio Fuína (1914—1969) — assumiu a liderança do conjunto, que ainda em 1936 passou a apresentar-se no Cassino Icaraí e na Rádio Mayrink Veiga, gravando na Columbia Maria foi à fonte (Kid Pepe).

Em 1938 Milton Campos e os irmãos Barbosa foram substituídos por Alberto Paz (Rio de Janeiro 1920—) (pandeiro), Aluísio Ferreira (morto no Rio de Janeiro em 1980) (violão tenor) e Harry Vasco de Almeida (pistom nasal). Com essa formação estreou na Rádio Tupi e exibiu-se no Cassino da Urca, alcançando seu primeiro grande êxito com o lançamento do samba-canção Bahia, oi!... Bahia (Vicente Paiva e Augusto Mesquita), gravado na Columbia em dezembro de 1939, para o carnaval do ano seguinte.

Como artistas exclusivos dessa gravadora lançaram, em 1940 e 1941, diversos discos de grande sucesso, entre os quais os sambas Helena, Helena (Secundino e Antônio Almeida), Que bate fundo é esse? (Bide e Armando Marçal), Brasil pandeiro (Assis Valente), Você já foi à Bahia?, Requebre que eu dou um doce (ambos de Dorival Caymmi) e a batucada Nega do cabelo duro (Rubens Soares e David Nasser).

Em 1942, com a saída de Alberto Paz, Moacir Bittencourt e Filipe Brasil, entraram para o conjunto Hélio Verri (pandeiro), Roberto Medeiros, conhecido como Paciência (violão), e Walter Pinheiro (violão). No mesmo ano Renato Batista, irmão da cantora Marília Batista, substituiu durante alguns meses o violonista Walter Pinheiro.

Em 1944 participaram do filme Abacaxi azul, de J. Rui. No mesmo ano transferiram-se par a Victor, e entre os maiores êxitos gravados nesse selo estao o samba Bolinha de papel (Geraldo Pereira) e a marcha O cordão dos puxa-sacos (Eratóstenes Frazão e Roberto Martins).

Em 1946, com o pandeirista Russinho (Jose Ferreira Soares) substituindo Hélio Verri, o conjunto excursionou pela Argentina e de lá seguiu para o México, em cuja capital permaneceu de 1947 a 1951, atuando em shows e clubes noturnos e participando de onze filmes mexicanos, oito dos quais ao lado de Ninon Sevilla, grande estrela da época. Durante esse período, em 1948, Aluísio Ferreira, Walter Pinheiro, Harry Vasco de Almeida e Russinho transferiram-se para os EUA, passando a integrar o conjunto Bando da Lua.

Para substituí-los, Léo Vilar convidou os ex-integrantes do conjunto Os Namorados, o violonista Nanai (Arnaldo Humberto de Medeiros, Rio de Janeiro 1923-São Paulo SP 1990), o violão-tenor Chicão (Francisco Guimarães Coimbra), que também tocava tanta e participava do grupo Quitandinha Serenaders, e o pandeirista e cantor Miltinho, que mais tarde faria carreira individual como intérprete. Com esses novos elementos, o conjunto viajou pelos E.U.A., apresentando-se em Los Angeles ao lado de Carmen Miranda, e durante dois anos manteve na cidade do México um programa radiofônico intitulado Coisas e Aspectos do Brasil.

Em 1951, depois de uma tournée pelo Chile e Argentina, retornaram ao Brasil, contratados pela Rádio Jornal do Comércio, de Recife/PE. Nos dois anos seguintes atuaram no Rio de Janeiro e em São Paulo SP, apresentando-se nas rádios Tupi, Excelsior e Nacional, e realizando temporadas nas boates Monte Carlo e Óasis.

Desfeito o grupo em 1953, por problemas financeiros, o conjunto reapareceria em 1959 novamente liderado por Léo Vilar — que atuava como crooner e ritmista e mais o violonista Gaúcho, o pandeirista Miguel Ângelo, e o ritmista Paulo César no tantã. Durante seis meses apresentaram-se como atração da revista De Cabral a JK, de Max Nunes, J. Maia e José Mauro, encenada no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro.

Finalmente, em 1967, os membros antigos do sexteto de Léo Vilar, Walter Pinheiro, Aluísio Ferreira, Roberto Medeiros, Harry Vasco de Almeida e Russinho reuniram se para tocar as segundas-feiras no Arena Clube de Arte, no Rio de Janeiro, realizando uma série de shows em que relembravam os velhos tempos, contando a história de seu conjunto e de outros de sua época.

Apesar das numerosas alterações em toda a sua longa existência de aproximadamente 30 anos de atividades no Brasil e no exterior, constituíram-se num dos conjuntos vocais mais facilmente identificáveis, em parte pela utilização do pistom nasal.

CD: Samba da minha terra (c/Bando da Lua, Grupo X Quatro Ases e Um Curinga), 1991, Revivendo CD-019

Alzirinha Camargo

Alzirinha Camargo
Alzirinha Camargo (Alzira Camargo), cantora. São Paulo/SP 10/12/1915-. Nascida no bairro do Brás, iniciou-se como amadora na Rádio Record. Em seguida, foi contratada pela Rádio Cruzeiro do Sul, e mais tarde atuou na Rádio Difusora.

Em fins de 1935, foi levada por Sílvia Autuori, conhecida por Tia Chiquinha, para a Rádio Tupi, do Rio de Janeiro RJ, onde começou a fazer sucesso. No ano seguinte, gravou seu primeiro disco, um 78 rpm, na Victor, que incluía a marcha Cinqüenta por cento (Lamartine Babo) e o samba Você vai se arrepender (Kid Pepe, Germano Augusto e Alberto Fadel). Nessa mesma época, foi descoberta por Alberto Quatrini Bianchi, que a convidou para cantar em sua cadeia de cassinos, espalhados por todo o país.

Ainda em 1936 trabalhou no filme Alô, alô, Carnaval, de Ademar Gonzaga. Também nesse ano ocorreu seu desentendimento com Carmen Miranda: imediatamente após a gravação de Querido Adão (Benedito Lacerda e Osvaldo Santiago), Carmen foi para Buenos Aires, Argentina, sem ter tido tempo de lançar a música, que os autores então lhe ofereceram; e ela, que fazia o mesmo gênero de Carmen, tanto na roupa como no repertório, lançou-a com sucesso absoluto. A rivalidade entre as duas prolongou-se durante toda sua carreira.

Em 1937 atuou no filme O grito da mocidade, de Raul Roulien. Em 1938 apresentou-se, com o conjunto de Benedito Lacerda, em temporada na Rádio El Mundo, de Buenos Aires. De volta ao Brasil, Benedito Lacerda compôs para ela a marcha Meu Buenos Aires querido e o samba Ritmo do coração (com Herivelto Martins), ambos gravados na Odeon.

Em fins de 1939, apresentou-se no Cassino Atlântico com a orquestra norte-americana, regida pelo peruano Ciro Rimac, que em julho de 1940 embarcou no vapor Uruguai, levando-a para cumprir um contrato de seis meses. Ficou nos E.U.A. até 1949, e nos três anos seguintes, percorreu a Espanha e Portugal, apresentando-se no Cassino Estoril.

Em novembro de 1953 regressou ao Brasil, sendo contratada pela Rádio Nacional para fazer o programa Gente que Brilha, de Paulo Roberto. Em seguida atuou esporadicamente em televisão e rádio, no Rio de Janeiro e em São Paulo, tendo também gravado na Polydor.

Valsa do assobio

Valsa do assobio (valsa, 1941) - Alvarenga e Ranchinho




Nós vai agora cantar
Pedimos pra quem não gostar
Não liga não, faz assim

Se você ta pra beijar
E o pai da moça chegar
Não liga não, faz assim

Se tarde em casa chegar
E a mulher quiser brigar
Não liga não, faz assim

O senhor eu vem cobra
Você não tem pra pagar
Não liga não, faz assim

Moda das línguas

Moda das línguas - Alvarenga e Ranchinho - Interpretação de Adauto Santos



É verdade matemática
Que ninguém pode negar
Que essa história de gramática
Só serve é pra atrapaiar
Ainda vem língua estrangeira
Pra ajudar a compricar
É mior nóis cabar com isso
Pra nós todos poder falar

Na Inglaterra eu vi dizer
Que um pé de sapato é chu
Sendo assim logo se vê
Dois pés tem que ser chuchu
Chuchu pra nóis é legume
No duro, não é boato
Os ingreis que lá se arrume
Mas nóis num come sapato

Na América corpo é bode
Veja que bode vai dar
Encontrei uma americana
Louca pro bode entregar
Fiquei meio atrapaiado
E disse pra me safar
Óia dona, eu não sou cabra
Sai com esse bode pra lá

Em Chile, cueca é dança
Pra se cantar e bailar
Lá se toca e baila cueca
Asta la fiesta acabar
Mas se acaso algum chileno
Vier pro Brasil dançar
Que tente mostrar a cueca
Pra ver ondé que vai parar

Na Itália eu vi dizer
E não sei por que razão
Que manteiga lá é burro
Se passa burro no pão
Desse jeito pra mim chega
Viva nóis lá do sertão
Onde manteiga é manteiga
Nós não come burro, não

Uma gravata esquisita
Um certo franceis me deu
Perguntei onde botar
Ele então me arrespondeu
Mas num gostei da resposta
Isso é que não faço eu
Seu franceis mal educado
Ponha a gravata no seu

Na Argentina ouvi dizer
Que saco é paletó
Lá se o gringo toma chuva
Tem que pôr o saco no sor
E se acaso o dito encóie
A muié lhe diz a pior
Tu saco está mui tiquito
Vá arranjar um saco maior

Horóscopo

Horóscopo - Alvarenga e Ranchinho




Quem ainda não casou
Não se case em janeiro
Que a desgraça desse mês
Se arrepete o ano inteiro
Não se case em fevereiro
Fevereiro é mês faiado
Quem se casa nesse mês
Os fios nascem pelados

Não se case no mês de março
Nem que seja por decreto
Criança do mês de março
Nasce tudo analfabeto
Não se case no mês de abril
Nem que seja pra ter gozo
Quem se casa nesse mês
Nasce os fios mentiroso

Cuidado com o mês de maio
Não se case nem a muque
Criança do mês de maio
Já vem dançando botuque
Criança do mês de junho
Nasce tudo com mau cheiro
Já nasce soltando bomba
Desde o berço é fogueiro

Não se case no mês de julho
Esse mês é perigoso
Criança do mês de julho
Nasce tudo revoltoso
Agosto mês do desgosto
Principalmente para quem ama
Quem nasce no mês de agosto
Faz pipi na cama

Quem casa em setembro
Precisa ter muita sorte
Que as crianças mal dá as caras
Querem independência ou morte
Em outubro seu Colombo
Descobriu um mundo novo
Quem nasce no mês de outubro
Acaba botando ovo

Em novembro seu Deodoro
Provou que tinha tutano
As crianças de novembro
Já nasce republicano
Quem chegou inté dezembro
Vivendo sempre solteiro
Não vai estragar no fim
a sorte de um ano inteiro

Êh São Paulo

Êh São Paulo (cateretê, 1943) - Alvarenga e Ranchinho




Êh, São Paulo
Êh São Paulo
São Paulo da garoa
São Paulo que terra boa

São Paulo da noite fria
Ao cair da madrugada
As campinas verdejantes
Coberta pela geada

São Paulo do céu anil
Da noite enluarada
Da linda manhã de sol
No raiar da madrugada

Cumpadre como é que ta tu?

Compadre como que tá tú (cateretê, 1956) - Alvarenga e Ranchinho



Cumpadre como é que ta tu
Cumpadre como é que tu ta
Não tão bem quanto vancê
Mas vo indo devagar

To com tudo, to com tudo
Eu sou mesmo felizardo
To com tudo meu cumpadre
To com tudo empenhado

Cumpadre como é que ta tu
Cumpadre como é que tu ta
Não tão bem quanto vancê
Mas vo indo devagar

Casamento e loteria
Vou dizer, sou muito franco
Me casei, fui conferir
O bilhete tava branco

Cumpadre como é que ta tu
Cumpadre como é que tu ta
Não tão bem quanto vancê
Mas vo indo devagar

Roubaram minha muié
Só pra me fazer sofrer
Eu procuro o ladrão
Quero lhe agradecer

Cumpadre como é que ta tu
Cumpadre como é que tu ta
Não tão bem quanto vancê
Mas vo indo devagar

Minha casa pegou fogo
Ardeu tudo de repente
Minha sogra tava dentro
Veja como to contente

Casa de páia

Alvarenga e Ranchinho

Ó que saudade que eu tenho,
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão

Neste tempo eu fui amado
Por um anjo divinar
Minha casinha de páia
Era meu doce idear.

Parecia uma frô de taipa,

sonhando no matagar
Parecia uma frô de taipa,
sonhando no matagar

Ó que saudade que eu tenho,
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão

Na casinha pequenina
Não houve nunca lamento
Suportou a chuva forte,
Suportou os pé de vento.

Era pequenina por fora mas muito
maior por dentro
Era pequenina por fora

mas muito maior por dentro

Ó que saudade que eu tenho,
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão

Lá dentro dessa casinha
Viveu meu amor profundo
Lá viveu a minha bela,
Fia do Chico Raimundo

A casa menor da terra, o amor maior do mundo
A casa menor da terra o amor maior do mundo

Ó que saudade que eu tenho,
Que doce recordação
Da minha casa de páia
Que eu deixei lá no sertão

Calango

Calango (moda-de-viola, 1937) - Capitão Furtado e Alvarenga e Ranchinho

É do calango
É do calango do joá

Aprendi a cantar calango
Numa noite de Natá
Bebendo café com leite
E bolinho de fubá

É do calango
É do calango do joá

Bebi leite de cem vacas
Na porteira do curral
Não bebi de 120
Porque não quiseram dar

É do calango
É do calango do joá

Que eu andei 50 léguas
No lombo de uma preá
Mandioca no tipiti
Dá farinha e dá jubá

É do calango
É do calango do joá

Esta moda do calango
Vou cantando sem parar
Canto a moda do calango
Até o canto melhorar

É do calango
É do calango do joá

Menina de 11 anos
Chora pra me acompanhar
Quem não tem peneira fina
Não pode coar fubá

É do calango
É do calango do joá

Aquela flor

Aquela flor (valsa, 1944) - Alvarenga e Ranchinho



Aquela flor que você me deu
Eu guardo ainda no peito meu
Aquela flor conserva ainda
O perfume que é todo seu

Sinto me feliz ao relembrar
Quanto amei e fui amado
Hoje guardo essa flor
O que resta do nosso amor

Aquela flor
Me faz chorar
Me faz lembrar
O nosso encontro
Ao luar
Nas linda noites
De verão

Daquele beijo de final
Sem igual
Que eu roubei
Dos lábios teus
Prendeu meu coração

Adeus Mariazinha

Rancheira de Fausto Vasconcelos, gravada pelos "reis do riso" na Odeon em 25 de janeiro de 1944 com lançamento em maio seguinte, disco 12442-A, matriz 7480. Era a época de Segunda Guerra Mundial, e o Brasil entrou no conflito por causa do torpedeamento de nossos navios pelos países do Eixo, Alemanha, Itália e Japão (Samuel Machado Filho).

Adeus Mariazinha (valsa-rancheira, 1944) - Fausto Vasconcelos - Interpretação de Alvarenga e Ranchinho



Adeus Mariazinha
Eu vou me embora
Pois chegou a hora
De cumprir obrigação
Defender nosso torrão

O Brasil esta chamando
Sou brasileiro já vou chegando
O Brasil esta chamando
Sou brasileiro já vou chegando

Ai o meu Brasil
Este Brasil
Que eu quero tanto bem
Que no passado
Brigou um bocado
E nunca perdeu pra ninguém

Mariazinha, meu botão de rosa
Minha flor mimosa
Meu maracujá
Não fique
triste, oh Mariazinha
Que um dia eu volto
Para te buscar

Gabriela

Gabriela - Alvarenga e Ranchinho



Eu conheci Gabriela
Na festa da casa do seu Serafim
Quando eu olhei pra ela
Ela olhava pra mim
Moço fiquei vermelho
E ela mais crenca do que um jasmim
E eu olhava pra ela
Torci a gravata sorrindo assim

Depois eu vi Gabriela
Comprando na feira lá de Bom Jardim
Eu fui chegando pra ela
E fui dizendo assim
Minha flor Gabriela
Eu gosto de tu e tu gosta de mim
Ela baixou a cabeça
Com um dedo na boca sorrindo assim

Eu casei com Gabriela
E a festa foi paga por seu Serafim
Eu dei um beijoi pra ela
Ela deu beijo pra mim
Quando já era bem tarde
Que a festa já tava até dando fim
Os convidado passava
Olhando pra gente sorrindo assim

Eu garrei com Gabriela
Rumamo pra casa sozinho em fim
Quando pegamo no sono
O galo cantou assim
Quando acordei Gabriela
Já tava acordada olhando pra mim
E eu olhando pra ela
Os dois bem vermelho sorrimo assim

Drama da Angélica

Drama da Angélica (canto tétrico / valsa, 1942) - M. G. Barreto e Alvarenga - Interpretação de Alvarenga e Ranchinho



Ouve meu cântico / Quase sem ritmo
E a voz de um tísico / Magro e esquelético
Poesia ética / Em forma esdrúxula
Feita sem métrica / Com rima rápida.

Amei Angélica / Mulher anêmica
De cores pálidas / E gestos tímidos
Era maligna / E tinha ímpetos
De fazer cócegas / No meu esôfago.

Em noite frígida / Fomos ao lírico
Ouvir o músico / Pianista célebre
Soprava o zéfiro / Ventinho úmido
E então Angélica / Ficou asmática.

Fomos ao médico / De muita clínica
Com muita prática / E preço módico
Depois do inquérito / Descobre o clínico
Um mal atávico / Mal sifilítico.

Mandou-me célere / Comprar noz-vômica
E ácido cítrico / Para o seu fígado
E o farmacêutico / Mocinho estúpido
Errou na fórmula / Fez de propósito.

Não teve escrúpulo / Deu-me sem rótulo
Ácido fênico / E ácido prússico
Corri mui lépido / Mais de um quilômetro
Num bonde elétrico / De força múltipla.

O dia cálido / Deixou-me tépido
Achei Angélica / Já toda trêmula
A terapêutica / Dose alopática
Lhe dei em xícaras / De ferro ágape.

Tomou num fôlego / Triste e bucólica
Essa estrambólica / Droga fatídica
Caiu no esôfago / Deixou-a lívida
Dando-lhe cólica / E morte trágica.

O pai de Angélica / Chefe do tráfego
Homem carnívoro / Ficou perplexo
Por ser estrábico / Usava óculos
Um vidro côncavo / E outro convexo.

Morreu Angélica / De um modo lúgubre
Moléstia crônica / Levou-a ao túmulo
Foi feita autópsia / E todos os médicos
Foram unânimes / No diagnóstico.

Fiz um sarcófago / Assaz artístico
Todo de mármore / Na cor do ébano
E sobre o túmulo / Uma estatística
Coisa metódica / Como os Lusíadas.

E numa lápide / Paralelepípedo
Pus este dístico / Terno e simbólico
Cá jaz Angélica / Moça hiperbólica
Beleza helênica / Morreu de cólica !....

Alvarenga e Ranchinho


Alvarenga e Ranchinho - Dupla sertaneja formada em 1929 por Murilo Alvarenga (Itaúna/MG 22.05.1912 - 18.01.1978) e Diésis dos Anjos Gaia, o Ranchinho (Jacareí/SP 23.05.1913 - 05.07.1991). Através do tio, que era empresário de circo, Alvarenga começou a trabalhar aos 11 anos como trapezista e malabarista, passando depois a se apresentar como cantor de tangos. Conheceu Ranchinho numa serenata em Santos/SP, em 1928. Resolveram, então, cantar juntos em circo, interpretando, desde o início, o gênero caipira, que os caracterizou e que era uma novidade na época.

Apresentaram-se em São Paulo/SP, em 1933, com a Companhia Bataclã e, no ano seguinte, foram convidados por Breno Rossi, maestro da orquestra da Rádio São Paulo, para cantar nessa emissora. Ainda em 1934, forma com Silvino Neto o trio Os Mosqueteiros da Garoa, que, apesar do sucesso obtido, durou pouco.

Formada novamente, a dupla começou a se destacar em 1935, com a marcha Sai, feia (Alvarenga), que venceu o concurso de músicas carnavalescas de São Paulo. Ainda em 1935, a convite do Capitão Furtado, compositor sertanejo, trabalhou no filme Fazendo fita, de Vittorio Capellaro, em São Paulo, e, em 1936, foi para o Rio de Janeiro/RJ, para uma temporada na Casa de Caboclo, de Duque. Embora já tivesse certo nome em São Paulo, a dupla teve que recomeçar praticamente a carreira no Rio de Janeiro, iniciando por se apresentar na Hora do Guri, programa vespertino da Rádio Tupi, passando para a programação noturna só depois de obter sucesso.

A boa aceitação conseguida através do rádio fez que conseguisse gravar o primeiro disco, pela Odeon, ainda em 1936, a moda-de-viola Itália e Abissínia (parceria com Capitão Furtado) e o cateretê Liga das Nações (de sua autoria). Em novembro de 1936, apresentou-se no teatro Smart, em Buenos Aires, Argentina, e, no ano seguinte, passou a fazer parte do elenco do Cassino da Urca, onde trabalhou até o seu fechamento, dez anos depois. Foi lá que a dupla começou a fazer sátiras políticas, que se tornaram um dos seus pontos fortes e, em 1938 lançou a marcha Seu condutor (em parceria com Herivelto Martins), que constituiu o maior sucesso carnavalesco da dupla.

Nesse mesmo ano, Ranchinho afastou-se pela primeira vez de seu companheiro, e Alvarenga, então, gravou, pela Odeon, em dupla com Bentinho (da dupla Xerém e Bentinho) e com o grupo chamado Alvarenga e Sua Gente. Essa separação temporária de Ranchinho voltaria a ocorrer outras vezes nos 27 anos seguintes e nessas ocasiões seria substituído por outros, como Bentinho ou Delmare de Abreu.

Em 1939, Ranchinho voltou à dupla e novas gravações foram feitas pela Odeon, inclusive algumas gravações com o Capitão Furtado. Até então, a dupla vinha tendo muitos problemas com a censura oficial, por suas sátiras políticas, mas em 1939 a questão foi resolvida da seguinte maneira: Alzira Vargas, filha do presidente Getúlio Vargas, convidou a dupla para tocar no Palácio das Laranjeiras para seu pai; Getúlio, depois de ouvir todas as músicas, inclusive algumas que se referiam a ele, deu ordens para que as composições da dupla fossem liberadas em todos o território nacional. Ainda em 1939, excursionou pelo Rio Grande do Sul e passou a se apresentar na Rádio Mayrink Veiga, ganhando o slogan de Os Milionários do Riso.

Lançou, em 1940, a valsa Romance de uma caveira (com Chiquinho Sales), em disco Odeon, que se tornou um dos maiores sucessos de seu repertório, e, três anos depois gravou Drama da Angélica (Alvarenga e M. G. Barreto), cujo gênero foi definido no selo do disco como "canto tétrico".

Com o fechamento dos cassinos, em 1946, Alvarenga abriu uma boate no Posto Seis, em Copacabana, mantendo-a durante dois anos. A dupla apresentou-se, em 1950, durante um mês, no Cassino Estoril, em Lisboa, Portugal, e, em 1952, lançou com destaque a marcha de sua autoria Cordão japonês.

Em toda sua carreira, o duo participou de mais de 30 filmes, incluindo Carnaval em lá maior, de 1955, dirigido por Ademar Gonzaga. Com seu repertório de sátiras política, participou também de campanhas eleitorais, como as de Ademar de Barros, Juscelino Kubitschek, e Lucas Nogueira Garcez. Ficaram célebres ainda suas paródias de músicas de sucesso, como as que foram feitas sobre o tango Adíos muchachos (Julio C. Sanders e César Vedani), Nervos de Aço (Lupicínio Rodrigues) e de Disparada (Geraldo Vandré e Teo de Barros).

Em 1959, a dupla deixou o rádio, para trabalhar apenas na televisão, e, em 1965, Diésis foi substituído por Homero de Sousa Campos, que passou a ser o Ranchinho efetivo. Nos anos 70 apresentaram-se principalmente em cidades do interior do país. Em 1997 a BMG lançou Os Milionários do Riso, reedição de um LP ao vivo gravado em 1973.