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sábado, 16 de fevereiro de 2008

Bambino

Ernesto Nazareth - 1908

Bambino (tango, 1913) - Ernesto Nazareth

Dedicado ao bom amigo Cezar d’Araújo. Depois de mais de uma década sem ter obras publicadas pela Casa Arthur Napoleão (a última fora a valsa Genial, em 1900), Nazareth teve editado seu vigésimo sexto tango, Bambino, dedicado a um dos então proprietários desse tradicional estabelecimento.

Quanto ao título, trata-se do nome artístico do afamado caricaturista Arthur Lucas, responsável, inclusive, pelo desenho de algumas capas de partituras do compositor.

Disco selo: Columbia Record / Título da música: Bambino / Ernesto Nazareth (Compositor) / Grupo Bahianinho / Bandolim e violão (Acomp.) / Nº do Álbum: B-202 / Nº da matriz: 12095-1-1 / Lançamento: 1912 / Gênero musical: Tango / Coleção de Origem: Nirez, José Ramos Tinhorão



A seguir uma gravação de Bambino por Custódio Mesquita e orquestra em 1943:

Disco 78 rpm / Título da música: Bambino / Ernesto Nazareth, 1863-1934 (Compositor) / Custódio Mesquita e Sua Orquestra (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Victor / Nº Álbum: 80-0097-b / Nº da matriz: 052767-1 / Gravação: 6/Maio/1943 / Lançamento: Julho/1943 / Gênero musical: Choro



Entusiasmado com o grande êxito alcançado por Bambino, Catulo da Paixão Cearense, assim como fizera com Nenê, Bicyclette-club e Brejeiro, também resolveu dedicar-lhe versos e um novo título, Você não me dá!...:

Como tão linda está / Como tão linda está / Mas se um beijo eu pedir / Você não me dá / Você não me dá

Quem lhe implora é o amor / A inocência, o candor / Mas você é tão má / Que eu sei que você / não dá, não dá

Não tem pena de ver / Um poeta sofrer / Quem lhe implora é o amor / É a doida aflição
do meu coração

Se me promete dar / Eis-me aqui,a chorar / Mas você é tão má / Que eu sei que você / não dá, não dá

Sua boca é um primor / Uma abelha do amor / Sou capaz de jurar / Que o seu beijo / Há de Ter o sabor do luar

Sua boca é um altar / Onde eu quero rezar / E após confissão / Nos seus lábios rismar / Os meus lábios então

Sua boca cheirosa / é a essência da rosa / Mais bela e mais langue / É uma estrela , uma estrela de sangue / Um luar de sangrento rubor

Quem me dera um carinho / Deixar oscilando num terno cantinho / Desse mau pedacinho do inferno, do averno / Do céu mais azul

A minha alma voando do palmo da terra / Tão cheia de horrores / Nesse berço feliz dos amores / As minhas glórias pudera cantar

E se acaso duvida do que hora lhe diga / Venha, experimente / Que minh'alma ardente / Na sua boquinha deseja sonhar

Como tão linda está / Ai meu Deus, como está / Pra uma santa ficar / Devia um beijinho agora me dar

O seu beijo é o licor / Dos travores da dor / Há de ter o sabor da antera da flor / Do seu amor



Fontes: Choromusic; Agenda do Samba & Choro; Instituto Moreira Salles.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Favorito

O tango "Favorito" (1895) foi gravado em 1912 na Odeon pelo seu autor, Ernesto Nazareth, que ao piano foi acompanhado por Pedro de Alcântara em solo de flautim. No entanto há registros de gravações anteriores como a do cantor Mário Pinheiro que interpretou “Favorito” em 1908 (provavelmente), com letra atribuída a Catulo da Paixão.

Em 1915, o palhaço-cantor Eduardo das Neves grava na Odeon (álbum número 121026) a canção intitulada "Amor avacalhado" com versos de letrista anônimo e música do tango de Nazareth. Em 1929, Francisco Alves viria a gravar uma versão modificada da mesma letra sob o título de “Favorito” (álbum número 10518).

Disco selo: Odeon Record / Título da música: Amor Avacalhado / Ernesto Nazareth (Compositor) / Eduardo das Neves (Intérprete) / Grupo do Louro (Acomp.) / Nº do Álbum: 121026 / Nº da Matriz: #N-6 / Lançamento: 1915 / Gênero musical: Canção / Coleção de fontes: IMS



Meu amor se tu queres saber
Qual a razão deste meu padecer
Por que motivo me ausento de ti
Vem me escutar aqui
Não é medo meu bem, qual o que!
Eu te digo qual é a razão
Eu gosto muito de você
Mas dou o fora nesta ocasião.

Tens um pai que é de tremer
E é quem me faz sofrer
Perder o tempo até
Bem sabes como ele é...
Se descobre que eu vou lá
Tenho mesmo que fugir
Pois não dou pra fubá
Na porta não posso ir.

Esse seu pai é uma fera
Se você ainda espera
Que eu caia nesse arrastão
Mas eu não vou nisso não
Nestas contas, eu vou por mim
Pois não tem graça, meu bem
Eu perder o meu latim
Nestas contas, vou por mim.

Tua mãe, ai Jesus, não tem mais!
Porque eu hei de dizer de teus pais
Tem por mãe uma víbora feroz
Que do inferno caiu entre nós!
É maldosa, cruel, é um azar
Pois não me dá uma folga sequer
Que [viro], que paixão, que contrariedade!
Isto não é mulher!

Tens um pai que é de tremer...

Teus maninhos me pedem tostões
Sujam-me a roupa, me arrancam os botões
Tu achas isso muito natural
Eu sei que não é por mal!
Mas não posso, a despesa é demais
Cair no Mangue é melhor, minha flor
Crio alma nova, me vou para embora
Saúde e fica, [Deusinho] meu amor

Tens um pai que é de tremer...


Fontes: As Crônicas Bovinas - Amor Avacalhado; Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora; Instituto Moreira Sales.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Ameno Resedá

Primeiramente publicada pela Casa Arthur Napoleão (Sampaio, Araújo & Cia.), a vigésima sexta polca editada por Ernesto Nazareth recebeu o título de Ameno Resedá e foi dedicada a um rancho carnavalesco com o mesmo nome a pedido de um de seus diretores, o carteiro Napoleão de Oliveira.

O rancho "Ameno Resedá" foi o mais famoso de todos os ranchos carnavalescos da cidade do Rio de Janeiro. Criado em 1907 por um grupo de funcionários públicos cariocas, após um piquenique em Paquetá, tinha sua sede no bairro do Catete.

Disco selo: Odeon Record / Título da música: Ameno Resedá / Ernesto Nazareth, 1863-1934 (Compositor) / Grupo do Louro (Intérprete) / Nº Álbum: 120828 / Gravação: 28/Outubro/1913 / Lançamento: 1914 / Gênero musical: Choro / Coleção de Origem: IMS, Nirez



Fontes: Instituto Moreira Sales; A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34; História do Samba - Ed. Globo.

Escovado

Ernesto Nazareth "Escovado" é uma gíria comum que significa "astuto". Ary Vasconcelos nos conta em seu livro Panorama da Música Popular Brasileira que Ernesto Nazareth era um “homem devotado à família que dava geralmente, às músicas que compunha, títulos com que homenageava ora um filho, ora a espôsa, ora um outro parente.” “Travesso” foi dedicado a seu filho Ernesto, “Marieta” e “Eulina” a suas duas filhas, “Dora” a sua esposa Teodora, “Brejeiro” a seu sobrinho Gilberto, etc.

O tango Escovado entra na categoria acima. Em seu CD-ROM Ernesto Nazareth, Rei do Choro, Luiz Antônio de Almeida oferece a seguinte informação sobre a música:"Tango primeiramente editado pela Casa Vieira Machado & Cia. e dedicado a Fernando, irmão caçula do compositor". Tornou-se um dos grande sucessos de Nazareth, tendo sido o seu tema principal posteriormente aproveitado pelo compositor francês Darius Milhaud em Le Boeuf sur le Toit (1919), bailado de sua autoria. Em setembro de 1930, aceitando convite feito por Eduardo Souto, então diretor artístico da Odeon-Parlophon, Nazareth gravou esta peça em disco, recebendo entusiástica acolhida da imprensa.

Disco 78 rpm / Título da música: Escovado / Ernesto Nazareth (Compositor) / Ernesto Nazareth [Piano] (Intérprete) / Gravadora: Odeon / Nº do Álbum: 10718-b / Nº da Matriz: 3939 / Gravação: 10/Setembro/1930 / Lançamento: Dezembro/1930 / Gênero musical: Tango Brasileiro / Coleção de Origem: IMS, Nirez




Fonte: As Crônicas Bovinas - Escovado.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Sertaneja

Tango brasileiro "Nenê", de Ernesto Nazareth, publicado em 1895 pela Casa Arthur Napoleão & Cia. e dedicado "ao amigo Dr. Jovino Barral da Fonseca". Segundo o biógrafo Luiz Antonio de Almeida, não se sabe a origem do título, podendo ser uma referência ao apelido de Maria Carolina, irmã do compositor falecida ainda jovem, a um apelido do próprio Dr. Jovino, ou ao apelido de sua ex-discípula Anna Rangel de Vasconcellos Moreira, jovem viúva conhecida por sua grande beleza e que foi apaixonada por Ernesto.

Recebeu letra de Catulo da Paixão Cearense, provavelmente ainda no século XIX, sob o título de "Sertaneja". A edição de Sertaneja de 1968, pela Editora Arthur Napoleão, contém a dedicatória "Ao maestro Nicolino Milano (nenê)", que foi inserida postumamente pelos editores.

Era uma das peças mais tocadas pelo próprio autor, que a executou em diversos recitais ao longo da vida e inclusive a gravou em 1930 (78-RPM Odeon matriz 3940, cujo lançamento não foi aprovado pela gravadora na época, considerando-o "prova má"). Até 2012 recebeu 27 gravações, sendo uma de suas peças mais famosas.

O pianista e compositor Odmar Amaral Gurgel (Maestro Gaó), que tocou esta peça para Nazareth em 1926, contava que o compositor logo lhe chamou a atenção, dizendo que ele deveria fazer um tenuto logo no primeiro acorde (i.e. segurá-lo um pouco), como podemos ouvir na gravação do próprio Nazareth (depoimento de Carlos Eduardo Zappile Albertini, aluno de Gaó). 

Aqui, na interpretação do próprio Nazareth, os seus dois tangos, Nenê e Turuna, gravados em 10/09/1930 e não lançados em disco na época. Matrizes Odeon 3940 e 3942 - Álbum "Os Pianeiros" (FENAB).


Sertaneja (tango, 1895) - Catulo da Paixão Cearense e Ernesto Nazareth

Sestrosa, dengosa
Derriçosa, odorosa flor
Maldosa, formosa
Sertaneja, meu lindo amor!
Anjinho, benzinho
Meu carinho, meu beija-flor
Condena sem pena
Que minh’alma te adora o rigor


Quando tu passas na orla do monte
Caminho da fonte, da tarde ao morrer
Meu pranto rola por sobre a viola
Que a noite consola no seu gemer

Provocante, radiante
Fascinante, ondulante
Num teu fado ritmado
Tu nos fazes até chorar
Logo a gente, a gente sente
Uns desejos dos teus beijos
Uns desejos dos teus beijos
Que até nos fazem delirar

Ingrata, ingrata
Volve a mim um teu doce olhar
Teu riso me mata
Me maltrata, me faz banzar
Desata, desata
Esse olhar do meu coração
Ingrata, ingrata
Suspirosa irerê do sertão

Também se passas
Formosa e tirana
Por minha choupana
Da tarde ao cair
Vou te seguindo
Na estrada arenosa
Qual rola saudosa
A carpir, carpir

Na dança deslizas
E assim pisas mil corações
Teu peito é o leito
Doce leito das tentações
Teus olhos, teus olhos
Vaga-lumes de ingratidões
Teus olhos, teus olhos
Os queixumes das nossas paixões



Fonte: Ernesto Nazareth 150 Anos.

terça-feira, 21 de março de 2006

Odeon

Ernesto Nazareth ouviu os sons que vinham da rua, tocados por nossos músicos populares, e os levou para o piano, dando-lhes roupagem requintada. Sua obra se situa, assim, na fronteira do popular com o erudito, transitando à vontade pelas duas áreas. Em nada destoa se interpretada por um concertista, como Arthur Moreira Lima, ou um chorão como Jacó do Bandolim.

O espírito do choro estará sempre presente, estilizado nas teclas do primeiro ou voltando às origens nas cordas do segundo. E é esse espírito, essa síntese da própria música de choro, que marca a série de seus quase cem tangos-brasileiros, à qual pertence "Odeon". Obra-prima no gênero, este tango é apenas mais uma das inúmeras peças de Nazareth em que "melodia, harmonia e ritmo se entrosam de maneira quase espontânea, com refinamento de expressão", como opina o pianista-musicólogo Aloysio de Alencar Pinto.

"Odeon" é dedicado à empresa Zambelli & Cia., dona do cinema homenageado no título, onde o autor tocou na sala de espera. Localizado na Avenida Rio Branco 137, possuía duas salas de projeção e considerado um dos "mais chics cinematógraphos do Rio de Janeiro".

Disco selo: Odeon Record / Título da música: Odeon / Ernesto Nazareth (Compositor) / Pedro de Alcântara (Intérprete) / Ernesto Nazareth (piano) / Pedro de Alcântara (flauta) / Nº do Álbum: 108791 / Nº da Matriz: xR1464 / Lançamento: 1913 / Gênero musical: Tango-choro



Em 1968, a pedido de Nara Leão, Vinícius de Moraes fez uma letra para "Odeon":

LP Nara Leão / Título da música: Odeon / Ernesto Nazareth (Compositor) / Vinícius de Moraes (Adaptação / Letra) / Gravadora: Philips / Álbum: R 765.051 L / Ano: 1968 / Tracklist: B2 / Gênero musical: Chorinho



Ai, quem me dera / O meu chorinho / Tanto tempo abandonado / E a melancolia que eu sentia / Quando ouvia / Ele fazer tanto chorar / Ai, nem me lembro / Há tanto, tanto / Todo o encanto / De um passado / Que era lindo / Era triste, era bom / Igualzinho a um chorinho/ Chamado Odeon.

Terçando flauta e cavaquinho / Meu chorinho se desata / Tira da canção do violão / Esse bordão / Que me dá vida / Que me mata / É só carinho / O meu chorinho / Quando pega e chega / Assim devagarzinho / Meia-luz, meia-voz, meio tom / Meu chorinho chamado Odeon

Ah, vem depressa / Chorinho querido, vem / Mostrar a graça / Que o choro sentido tem / Quanto tempo passou / Quanta coisa mudou / Já ninguém chora mais por ninguém / Ah, quem diria que um dia / Chorinho meu, você viria / Com a graça que o amor lhe deu / Pra dizer "não faz mal / Tanto faz, tanto fez / Eu voltei pra chorar com vocês"

Chora bastante meu chorinho / Teu chorinho de saudade / Diz ao bandolim pra não tocar / Tão lindo assim / Porque parece até maldade / Ai, meu chorinho / Eu só queria / Transformar em realidade / A poesia / Ai, que lindo, ai, que triste, ai, que bom / De um chorinho chamado Odeon

Chorinho antigo, chorinho amigo / Eu até hoje ainda percebo essa ilusão / Essa saudade que vai comigo / E até parece aquela prece / Que sai só do coração / Se eu pudesse recordar / E ser criança / Se eu pudesse renovar / Minha esperança / Se eu pudesse me lembrar / Como se dança / Esse chorinho / Que hoje em dia Ninguém sabe mais.


Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Apanhei-te cavaquinho

Ernesto Nazareth

A polca "Apanhei-te Cavaquinho" é a segunda composição mais gravada de Ernesto Nazareth, perdendo apenas para "Odeon". De andamento rápido (o autor recomendava semínima = 100 para as polcas e semínima = 80 para os tangos) é muitas vezes executada em velocidade vertiginosa por músicos exibicionistas, que presumem assim mostrar habilidade virtuosística.

Composta em 1915 e gravada no mesmo ano pelo grupo O Passos no Choro, "Apanhei-Te Cavaquinho" foi dedicada a Mário Cavaquinho (Mário Álvares da Conceição), um exímio cavaquinista, amigo de Nazareth (segundo Ary Vasconcelos, ele inventou o cavaquinho de cinco cordas e a bandurra de 14 cordas).

Em 1930 o autor gravou esta composição em disco de grande valor documental, que passou a servir de referência para novas execuções. Já classificado como choro, ganhou letra de Darci de Oliveira, em 1943, para ser gravado por Ademilde Fonseca:

Disco 78 rpm / Título da música: Apanhei-te Cavaquinho / Ernesto Nazareth (Compositor) / Darci de Oliveira (Compositor) / Ademilde Fonseca (Intérprete) / Benedito Lacerda (Acomp.) / Benedito Lacerda e Seu Conjunto (Acomp.) / Gravadora: Columbia / Nº do Álbum: 55432-a / Nº da Matriz: 630-2-M / Gravação: 20/Abril/1943 / Lançamento: Maio/1943 / Gênero musical: Choro / Coleção de Origem: Nirez, Humberto Franceschi


Ainda me lembro, / Do meu tempo de criança, / Quando entrava numa dança, / Toda cheia de esperança, / De chinelinho e de trança, / Com Mané e o Zé da França, / Nunca tive na lembrança, / De rever esse chorinho.

E hoje ouvindo, / Neste choro a voz do pinho, / Relembrando o bom tempinho, / Da mamãe e do maninho, / Hoje sou ave sem ninho, / Sem família, sem carinho, / Mas sou bem feliz ouvindo, / O "Apanhei-te Cavaquinho"!

Hoje cantando o "Apanhei-te Cavaquinho", / Fico louca, fico quente, / Fico como um passarinho, / Sinto vontade de cantar a vida inteira, / Esta vida, eu levo de qualquer maneira, / Ouvindo a flauta, o cavaquinho e o violão, / Eu sinto que o meu coração, / Tem a cadência de um pandeiro, / Esqueço tudo e vou cantando com jeitinho, / Este chorinho, / Que é muito Brasileiro !

Hoje cantando o "Apanhei-te Cavaquinho", / Fico louca, fico quente, /Fico como um passarinho, / Sinto vontade de cantar a vida inteira, / Esta vida, eu levo de qualquer maneira, / Ouvindo a flauta, o cavaquinho e o violão, / Eu sinto que o meu coração, / Tem a cadência de um pandeiro, / Esqueço tudo e vou cantando com jeitinho, / Este chorinho, / Que é muito Brasileiro !...


Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

terça-feira, 14 de março de 2006

Ernesto Nazareth


"Seu jogo fluido, desconcertante e triste ajudou-me a compreender melhor a alma brasileira", disse o compositor francês Darius Milhaud sobre Ernesto Nazareth, carioca que fixou o "tango brasileiro" e outros gêneros musicais do Rio de Janeiro de seu tempo.


Ernesto Júlio de Nazareth nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 20 de março de 1863, e estudou música com os professores Eduardo Madeira e Lucien Lambert. Intérprete constante de suas próprias composições, apresentava-se como "pianeiro em salas de cinema, bailes, reuniões e cerimônias sociais.

Entre 1920 e 1924, muitos personagens ilustres iam ao cinema Odeon apenas para ouvi-lo. Compunha, lecionava e vivia do piano. Suas partituras era vendidas aos milhares, mas não lhe garantiam a sobrevivência, pela falta de ordenamento dos direitos autorais. Em 14 de julho de 1886, casou-se com Teodora Amália de Meireles, e a ela dedicou a valsa Dora, inédita até então.

Brejeiro, composto em 1893, uma de suas composições mais famosas, é considerado o marco do tango brasileiro. Em razão de dificuldades financeiras, Nazareth vendeu os direitos dessa peça para a Editora Fontes e Cia. por 50.000 réis, o qual chegou a ser gravado pela banda da Guarda Republicana de Paris.

Embora tenha composto obras as quais denominou de tango-brasileiro, Nazareth fazia uma diferenciação entre o choro e o tango-brasileiro, esta por ele considerada música pura. Seus tangos-brasileiros têm a indicação metronômica de M.M. semínima igual a 80 batidas, já no choro, a indicação é de 100 batidas. Para mostrar essa diferença, Nazareth compôs o choro Apanhei-te cavaquinho. Foi uma das únicas composições que ele considerou como choro. O mesmo entendimento tinham Chiquinha Gonzaga, Callado, Alexandre Levy e outros.

Em 1898 realizou seu primeiro concerto no salão nobre da Intendência de Guerra, por iniciativa do Clube São Cristóvão, do Rio de Janeiro. Trabalhou no Tesouro Nacional, como escriturário. Em 1917 morre sua filha, Maria de Lourdes, considerado o primeiro abalo dos inúmeros pelos quais passou em sua vida. Nesse mesmo ano, atuou como pianista na sala de espera do Cine Odeon, que foi por ele inaugurado. As pessoas lotavam para ouvi-lo tocar, mais do que propriamente para ver o filme. Em 1910 já compusera o tango-brasileiro Odeon, inspirado naquele cinema. Em 1919 começou a trabalhar na Casa Carlos Gomes (mais tarde Carlos Wehrs). Executava as partituras que os fregueses se interessavam em comprar.

Compôs fox-trots, sambas e até marchas de carnaval, por um breve período, em 1920. Em 1922 interpretou Brejeiro, Nene, Bambino e Turuna no Instituto Nacional de Música, por iniciativa de Luciano Gallet. Participou como pianista, em 1923 da inauguração da Rádio M.E.C. (antiga Rádio Sociedade do Rio de Janeiro).

Durante quase todo o ano de 1926 apresentou-se em São Paulo, capital e interior. Seus admiradores se uniram e deram-lhe um piano italiano de cauda Sanzin, que faz parte do acervo do Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro. Nessa ocasião, Mário de Andrade fez uma conferência sobre sua obra na Sociedade de Cultura Artística, de São Paulo, SP. Retornou ao Rio de Janeiro em 1927, já apresentando sinais da surdez.

Em 1929, morre sua mulher, o que lhe provocou profundo abalo.

Gravou para a fábrica Odeon, em 1930, o tango-brasileiro Escovado e o choro Apanhei-te Cavaquinho. Em 1932, fez várias excursões, principalmente para o sul do Brasil. Com o agravamento da surdez, tocava debruçado sobre o piano para conseguir ouvir sua própria música. Em 1933, apresentou graves perturbações mentais e foi internado no Instituto Neurosifilis da Praia Vermelha, sendo posteriormente transferido para a Colônia Juliano Moreira.

No ano seguinte fugiu e foi encontrado, 4 dias depois, afogado em uma represa. Há uma lenda segundo a qual ele teria sido encontrado morto debaixo de uma cachoeira. A sua postura era impressionante. Estava sentado, com a água lhe correndo por cima, com as mãos estendidas, como se estivesse tocando algum choro novo, que nunca mais poderemos ouvir... (Juvenal Fernandes, in Ernesto Nazareth, Antologia, Ed. Arthur Napoleão Ltda. AN-2087/88). Dele, disse Villa-Lobos: "Suas tendencias eram francamente para a composição romântica, pois Nazareth era um fervoroso entusiasta de Chopin." Querendo compor à maneira do mestre polonês e não possuindo a capacidade necessária para uma perfeita assimilação técnica, fez, sem o querer, coisa bem diferente e que nada mais é do que o incontestável padrão rítmico da música social brasileira. De qualquer maneira, Nazareth é uma das mais notáveis figuras da nossa música.

Entre os grandes admiradores da obra e da atuação como intérprete de Ernesto Nazareth, citam-se Arthur Rubinstein, o russo Miercio Orsowspk, Schelling (que levou suas composições, exibindo-as nos Estados Unidos e Europa), Henrique Oswald e Francisco Braga. Serviu de tema e de inspiração a Luciano Gallet, Darius Milhaud, Enani Braga, Villa-Lobos, Lorenzo Fernandez, Francisco Mignone e Radamés Gnatalli.

Faz parte do repertório de Eudóxia de Barros, Arnaldo Rebelo, Homero Magalhães, Ana Stella Schic, Roberto Szidon e Artur Moreira Lima, cujas interpretações eruditas dão à sua obra uma nova dimensão. Maria Tereza Madeira (piano) e Pedro Amorim (bandolim), lançaram, em 1997 o CD Sempre Nazareth, pela Kuarup. Ainda nesse ano foi lançado o CD-Rom Ernesto Nazaré, o Rei do Choro (selo CD-Arte), com mais de 300 imagens do compositor, depoimentos, notas, discografia, músicas, além de um álbum com 11 partituras para piano das suas principais obras.

Ernesto Nazareth significa uma caso raro de ligação entre o erudito e o popular: não é um erudito, na acepção da palavra, nem é um compositor apenas popular. Ora se percebe em sua obra um toque chopiniano, especialmente nas valsas, ora a vibração de uma polca ou de um choro entranhados do espírito brasileiro.

Somente uma pequena parte das mais de 200 peças para piano compostas por Ernesto Nazareth foi gravada. Suas composições mais conhecidas são: Apanhei-te cavaquinho, Ameno Resedá (polcas), Confidências, Coração que sente, Expansiva, Turbilhão de beijos (valsas), Bambino, Brejeiro, Odeon e Duvidoso (tangos brasileiros).

Algumas músicas








Obra completa

Adieu, romance sem palavras, 1898; Adorável, valsa, inédita, s.d.; Alaor Prata, hino, inédito (com letra de Maria Mercedes Mendes Teixeira), 1924; Albíngia, valsa, inédita, s.d.; Alerta, polca, 1909; O alvorecer, tango de salão (no manuscrito original figura o título Ensimesmado), 1925; Ameno Resedá, polca, 1912; Apanhei-te, cavaquinho, polca, 1915; Arreliado, tango, inédito, s.d.; Arrojado, samba, 1920; Arrufos, xótis, anterior a 1900; Até que enfim, fox-trot, s.d.; Atlântico, tango, 1921; Atrevidinha, polca, 1889; Atrevido, tango, 1912; Bambino, tango, anterior a 1909; Batuque, tango característico, 1906; Beija-flor, polca, 1884; Beija-flor, tango brasileiro (com letra do autor), s.d.; Beijinho de moça, tango, inédito, s.d.; A bela Melusina, polca, 1888; Bernardo de Vasconcelos (Escola), hino, inédito, s.d.; Bicyclette Club, tango, 1899; Bom-bom, polca, anterior a 1900; Brejeira, valsa brasileira, inédita (extraída do tango Brejeiro), s.d.; Brejeiro, tango, 1893; Caçadora, polca, s.d.; Cacique, tango, 1899; Capricho, fantasia, inédito, s.d.; Cardosina, valsa, inédita, s.d.; Carioca, tango, 1913; Carneiro Leão (dr.), hino, inédito (com letra de Maria Mercedes Mendes Teixeira), 1924; Catrapuz, tango, 1910; Cavaquinho, por que choras?, choro, 1926; Celestial, valsa, s.d.; Chave de ouro, tango, s.d.; Chile-Brasil, quadrilha, 1889; Comigo é na madeira, tango, inédito, 1930; Confidências, valsa, 1910; Coração que sente, valsa, 1905; Corbeille de fleurs, gavotte, 1889; Correta, polca, s.d.; Crê e espera, valsa, 1896; Crises em penca, samba brasileiro carnavalesco, inédito (letra e música de Toneser, anagrama de Ernesto), 1930; Cruz, perigo!!, polca, 1879; Cruzeiro, tango, inédito, s.d.; Cubanos, tango, inédito, s.d.; Cuera, polca-tango, 1913; Cutuba, tango, 1912; Cuiubinha, polca-lundu, 1893; De tarde, canção, inédita, (com versos de Augusto de Lima), s.d.; Delícia (Delight-fulness), fox-trot, 1925; Dengoso, maxixe, 1912; Desengonçado, tango, s.d.; Digo, tango característico, 1902; Dirce, valsa capricho, s.d.; Divina, valsa, 1910; Dor secreta, valsa, inédita, s.d.; Dora, valsa, inédita, 1900; Duvidoso, tango, anterior a 1910; Elegantíssima, valsa capricho; anterior a 1926; Elegia, morceau de salon para mão esquerda, inédita, s.d.; Elétrica, valsa rápida, 1913; Elite Club, valsa brilhante, 1900; Encantada, xótis, 1901; Encantador, tango brasileiro, inédito, s.d.; Eponina, valsa, anterior a 1912; Escorregando, tango brasileiro, s.d.; Escovado, tango, 1904; Espalhafatoso, tango, 1912; Españolita, valsa espanhola, s.d.; Está chumbado, tango, 1898; Ester Pereira de Melo (Escola), hino, inédito, s.d.; Eulina, polca, 1887-1888; Expansiva, valsa, 1912, Êxtase, romance, 1926; Exuberante, marcha carnavalesca, inédita, 1930; Faceira, valsa, 1920-1925; Fado brasileiro, inédito, 1925-1930; Famoso, tango, 1910; Fantástica, valsa brilhante, inédita, s.d.; Favorito, tango, anterior a 1909; Feitiço, tango, s.d.; Feitiço não mata, , chorinho carioca (letra de Ari Kerner), s.d.; Ferramenta, tango-fado português, 1905; Fidalga, valsa lenta, 1910; A flor dos meus sonhos, quadrilha, s.d.; Floraux, tango, 1909; Floriano Peixoto (Escola), hino, inédito (com letra de Maria Mercedes Mendes Teixeira), 1922; A florista, cançoneta (com letra de Francisco Teles), 1909; Fon-fon, tango, anterior a 1910; A fonte de Lambari, polca, 1887; Fonte do suspiro, polca, 1882; Fora dos eixos, tango carnavalesco, 1926; Fraternidade, hino infantil, inédito, s.d.; Furinga, tango, 1898; O futurista, tango,1922; Garoto, tango, 1916; Gaúcho, tango (no manuscrito original figura o título São Paulo-Minas), s.d.; Gemendo, rindo e pulando, tango, 1921; Genial, valsa, 1900; Gentes, o imposto pegou?, polca, 1880; Gentil, xótis, 1898; Gotas de ouro, valsa, 1916; Gracietta, polca, 1880; As gracinhas de Nhonhô, polca, anterior a 1910; Guerreiro, tango, 1917; Helena, valsa, 1896; Henriette, valsa, 1901; Ideal, tango, 1905; If I Am not Mistaken, fox-trot, inédito, s.d.; Improviso, estudo para concerto, 1931; Insuperável, tango, 1919; Iolanda, valsa, 1925; Ipanema, marcha brasileira, s.d.; Íris, valsa, 1899; Jacaré, tango carnavalesco, 1921; Jangadeiro, tango, s.d.; Janota, choro brasileiro, s.d.; Julieta, quadrilha, anterior a 1910; Julieta, valsa, anterior a 1910; Julita, valsa, 1889; Labirinto, tango, 1917; Laço azul, valsa, anterior a 1910; Lamentos, meditação sentimental, inédita, s.d.; Magnífico, tango brasileiro, s.d.; Máguas, meditação, inédita, s.d.; Maly, tango-habanera, inédito, s.d.; Mandinga, tango, s.d.; Marcha fúnebre, 1927; Marcha heróica aos 18 do Forte, marcha, inédita, 1922; Mariazinha sentada na pedra, samba carnavalesco, inédito (com letra de Ernesto Nazareth), s.d.; Marieta, polca, anterior a 1889; Matuto, tango, 1917; Meigo, tango, 1921; Menino de ouro, tango, s.d.; Mercedes, mazurca de expressão, 1917; Mesquitinha, tango característico, 1910; 1922, tango brasileiro (no original manuscrito Samba para o Carnaval), 1922; Miosótis, tango, 1895; Não caio noutra!!!, polca, 1881; Não me fujas assim, polca, 1884; Nazaré, polca, anterior a 1900; Nenê, tango, 1895; No jardim, marcha infantil, inédita (1. A caminho, 2. Preparando a terra, 3. A semente, 4. O plantio, inacabado), s.d.; Noêmia, valsa, 1911; O nome dela, grande valsa brilhante, 1878; Noturno, inédito, 1914; Noturno, inédito, 1920; Nove de Julho, tango argentino, 1917; Nove de Maio, fox-trot, inédito, s.d.; O que há?, tango, 1921; Odeon, tango (com letra de Vinicius de Moraes, 1968), 1910; Onze de Maio, quadrilha, anterior a 1908; Orminda, valsa, 1897; Ouro sobre azul, tango, 1916; Pairando, tango, 1920; Paraíso, tango (estilo milonga), inédito, 1926; Pássaros em festa, valsa lenta, 1922; Paulicéia, como és formosa!, tango, 1921; Pedro II (Escola), hino, inédito (com letra de Maria Mercedes Mendes Teixeira), 1920; Pereira Passos (Escola), hino, inédito (com letra de Leôncio Correia), s.d.; Perigoso, tango brasileiro, anterior a 1909; Pierrot, tango, 1915; Pingüim, tango brasileiro, inédito (sua última composição), 1932; Pipoca, polca, 1895; Pirilampo, tango, 1903; Plangente, tango brasileiro, 1925; Plus ultra, fox-trot, inédito, s.d.; Podia ser pior, tango, 1916; Polca para mão esquerda (vide Tango para mão esquerda); Polonaise, inédita, 1908; Por que sofre?, tango meditativo, 19211; Primo-rosa, valsa, inédita, s.d.; Proeminente, tango brasileiro, s.d.; Quebra-cabeças, tango, s.d.; Quebradinha, polca, 1899; Ramirinho, tango, 1896; Ranzinza, tango, 1917; Rayon d'or, polca-tango, anterior a 1889, Rebuliço, tango, 1912; Recordações do passado, valsa, inédita, s.d.; Remando, tango, 1896; Resignação, valsa lenta, inédita, 1930; Respingando, tango, inédito, s.d.; Ressaca, tango, inédito, s.d.; Retumbante, tango, 1910; Rio de Janeiro, canção cívica (in Canto orfeônico, 1o. volume) (com letra de Leôncio Correia), arranjada para três vozes por Villa-Lobos, s.d.; Rosa Maria, valsa lenta, inédita, 1930; Sagaz, tango brasileiro, 1914; Salve, nações reunidas, hino (in Brasil cantando, por frei Pedro Sinzig) (com letra de Maria Mercedes Mendes Teixeira), s.d.; Samba carnavalesco, peça manuscrita não identificada, s.d.; Sarambeque, tango, 1916; Saudade, valsa, 1913; Saudades dos pagos, marcha-canção, inédita (com letra de Maria Mercedes Mendes Teixeira), s.d.; Saudades e saudades, marcha, 1921; Segredo, tango, 1896; Segredos de infância, valsa, inédita, s.d.; Sentimentos d'alma, valsa, inédita, s.d.; Soberano, tango, 1912; Suculento, samba brasileiro (com letra de Netuno) (no riginal Tango carnavalesco), 1919; Sustenta a nota, tango, 1919; Sutil, tango brasileiro, s.d.; Talismã, tango, 1914; Tango-habanera, peça manuscrita não identificada, s.d.; Tango para mão esquerda, inédito (no original, figura na 1a. parte a designação Polca para mão esquerda), s.d.; Tenebroso, tango, 1908; Os teus olhos cativam, polca, 1883; Thierry, tango, 1912; Time is Money, fox-trot, inédito, s.d.; Topázio líquido, tango, 1914; Travesso, tango, anterior a 1910; Tudo sobe, tango carnavalesco (com letra de Ernesto Nazareth), s.d.; Tupinambá, tango, 1916; Turbilhão de beijos, valsa lenta, 1908; Turuna, grande tango característico, 1899; Vem cá, Branquinha, tango, 1910; Vésper, valsa, 1901; Vitória, marcha aos aliados, inédita (com letra de José Moniz de Aragão), 1918; Vitorioso, tango, 1913; Você bem sabe, polca-lundu (sua primeira composição), 1877; Xangô, tango, 1921; Zica, valsa, 1899; Zizinha, polca, 1899.


Fonte: Encyclopaedia Britannica do Brasil; Enciclopédia da Música Brasileira, Art Editora-PubliFolha, 1998; Ernesto Nazareth, Antologia, Ed. Arthur Napoleão Ltda; Nova História da Música Popular Brasileira, Abril Cultural, 1977.