Gaó (Odmar Amaral Gurgel - 12/2/1909 Salto, SP), maestro, arranjador, compositor e instrumentista, iniciou a carreira radiofônica em 1926, quando ingressou na Rádio Educadora Paulista.
Em 1930, formou e passou a dirigir a orquestra Colbaz que gravou uma série de discos na Columbia incluindo os primeiros registros dos choros "Os pintinhos no terreiro" e "Tico-tico no fubá", e da valsa "Branca", de Zequinha de Abreu.
Os pintinhos no terreiro (choro, 1946) - Zequinha de Abreu - Intérprete: Orquestra Colbaz
Disco 78 rpm / Título da música: Os pintinhos no terreiro / Zequinha de Abreu (Compositor) / Orquestra Colbaz (Intérprete) / Gravadora: Columbia / Gravação: 1932 / Lançamento: 07/1932 / Nº do Álbum: 22141-b / / Gênero musical: Choro / Coleções de origem: Nirez, Humberto Franceschi / Coleções de origem: Nirez, Humberto Franceschi
Fontes: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha, 1992, São Paulo; Instituto Moreira Salles - Acervo musical.
Zequinha de Abreu lança o choro "Sururu na cidade", que faz grande sucesso devido à forma bem-humorada na qual retratava os dias agitados da Revolução Paulista daquela época.
Disco 78 rpm / Título da música: Sururu na cidade / Zequinha de Abreu (Compositor) / Orquestra Típica Victor (Intérprete) / Gravadora Victor / Nº do Álbum: 33854-a / Nº da Matriz: 79695-1 / Gravação: 25/Setembro/1934 / Lançamento: Novembro/1934 / Gênero musical: Choro / Coleção: Humberto Franceschi
Disco 78 rpm / Título da música: Aurora / Salvador J. de Morais (Compositor) / Zequinha de Abreu (Compositor) / Gastão Formenti (Intérprete) / Gravadora: Odeon / Nº do Álbum: 10497-a / Nº da Matriz: 2972 / Lançamento: Novembro/1929 / Gênero musical: Valsa / Coleções: IMS, Nirez
Quis minha doce esposa,
Que me ama com ardor,
À profundeza das águas jogar ! Estava louco, possesso, esse dia...
A meiga companheira,
Toda a minha alegria,
Primeiro amor de minh'alma,
Alegria primeira,
Eu tentei matar !
Uns olhos de infernal fulgor,
Duma infernal sedução,
Dementaram-me de ardor,
Despertando um novo amor,
Com infernal sedução,
No meu coração
Mas, a tempo ainda,
Minh'alma assassina,
Se encheu de luz tão pura e linda...
A luz dourada e matutina,
Do arrependimento,
E ai ! Vi num momento,
Em minha mulher,
A mais sublime e divina,
Aurora de ouro rosicler !....
Vibrante, buliçoso e ao mesmo tempo sentimental, o "Tico-Tico no Fubá" é o exemplo perfeito do choro clássico, em três partes, composto na melhor tradição do gênero. Predestinado ao sucesso, impressionou logo em sua primeira apresentação, em 1917, num baile em Santa Rita do Passa Quatro, quando ganhou o nome de "Tico-Tico no Farelo". Razão do nome: a animação dos pares que dançavam em grande alvoroço, provocando o comentário do autor: "até parece tico-tico no farelo...".
Depois, talvez porque já existisse um choro homônimo (de Canhoto), passou a "Tico-Tico no Fubá". Mas, apesar dessa estréia vitoriosa, a obra-prima de Zequinha de Abreu só chegaria ao disco quatorze anos mais tarde, ocasião em que foi gravada pela Orquestra Colbaz, criada e dirigida pelo maestro Gaó. Sucesso absoluto, este disco permaneceu em catálogo até a década de quarenta, época em que a composição alcançou o auge da popularidade.
Contribuiu para isso a sua internacionalização comandada pelos americanos que, no curto espaço de cinco anos, incluíram-na em cinco filmes: "Alô amigos" (43), "A filha do comandante" (43), "Escola de sereias" (44), "Kansas City Kitty" (44) e "Copacabana" (47), sendo que neste último era cantada por Carmen Miranda. A partir de então, recebeu dezenas de gravações, tornando-se uma das músicas brasileiras mais gravadas de todos os tempos, no país e no exterior, salientando-se entre seus intérpretes a organista Ethel Smith, que a levou ao hit-parade americano.
"Tico-Tico no Fubá" é executado por veteranos pianistas de Nova Orleans com a regularidade de uma peça local, embora sofrendo algumas alterações melódicas e rítmicas, que se assemelham a um tango, bem ao estilo da segunda parte de "Saint Louis Blues". Essencialmente instrumental, tem letras de Eurico Barreiros e Aloísio de Oliveira (além de uma versão em inglês, de Ervin Drake), que não vingaram, apesar do relativo sucesso alcançado pelas gravações de Ademilde Fonseca, em sua estréia em disco, e as de Carmen Miranda nos Estados Unidos.
Tico-Tico no Fubá (choro, 1931) - Zequinha de Abreu - Interpretação de Carmen Miranda
Disco 78 rpm / Título: Tico-tico no fubá / Autoria: Oliveira, A (Compositor) / Drake, Ervin (Compositor) / Abreu, Zequinha de (Compositor) / Miranda, Carmen, 1909-1955 (Intérprete) / Bando da Lua (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Decca, Indefinida / Álbum 288084 / Gênero: Samba choro
Versão cantada por Carmen Miranda:
Tico-Tico
Tico-Tico
O Tico-Tico tá
Tá outra vez aqui
O Tico-Tico tá comendo meu fubá
O Tico-Tico tem, tem que se alimentar
Que vá comer umas minhocas no pomar
Tico-Tico
O Tico-Tico tá
Tá outra vez aqui
O Tico-Tico tá comendo meu fubá
O Tico-Tico tem, tem que se alimentar
Que vá comer umas minhocas no pomar
Mas por favor, tire esse bicho do seleiro
Porque ele acaba comendo o fubá inteiro
E nesse tico de cá, em cima do meu fubá
Tem tanta coisa que ele pode pinicar
Eu ja fiz tudo para ver se conseguia
Botei alpiste para ver se ele comia
Botei um galo, um espantalho e alçapão
Mas ele acha que fubá é que é boa alimentação
O Tico-Tico tá
Tá outra vez aqui
O Tico-Tico tá comendo meu fubá
O Tico-Tico tem, tem que se alimentar
Que va comer é mais minhoca e nao fubá
Tico-Tico
O Tico-Tico tá
Tá outra vez aqui
O Tico-Tico tá comendo meu fubá
O Tico-Tico tem, tem que se alimentar
Que va comer é mais minhoca e nao fubá
Versão original:
Primeira Parte
Um tico-tico só, / Um tico-tico lá,
Está comendo / Todo, todo meu fubá.
Olha, Seu Nicolau, / Que o fubá se vai,
Pego no meu pica-pau / E um tiro sae.
Coitado... Então eu tenho pena / Do susto que levou
E uma cuia se ia, / Mais fubá eu dou.
Alegre já, / Voando, piando,
Meu fubá, meu fubá, / Saltando de lá pra cá.
Segunda Parte (Declamado)
Tico-tico engraçadinho / Que está sempre a piar,
Vá fazer o teu ninho / E terás assim um lar.
Procure uma companheira / Que eu te garanto o fubá,
De papada sempre cheia / Não acharás a vida má.
Terceira Parte
Houve um dia lá / Que ele não voltou,
E seu gostoso fubá / O vento levou.
Triste fiquei, / Quase chorei,
Mas então vi / Logo depois,
Já não eram um, / Mas sim já dois.
Quero contar baixinho / A vida dos dois,
Tiveram seu ninho / E filhotinhos depois.
Todos agora / Pulam ali,
Saltam aqui, / Comendo sempre o fubá
Saltando de lá para cá.
Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.
"Tardes em Lindoia" foi escrita em 1916, e é uma das composições mais conhecidas de Zequinha de Abreu. Peça musical inspirada nas belezas naturais da cidade de Lindoia, localizada no Estado de São Paulo. A valsa é caracterizada por sua melodia doce e suave, que evoca uma atmosfera romântica e nostálgica. A obra é uma composição elegante, que combina elementos clássicos e populares, e é considerada uma das mais belas valsas da música brasileira.
A combinação de melodia e harmonia cria uma atmosfera serena e melancólica, que transmite a sensação de tardes tranquilas e ensolaradas. E Lindoya passa por ipsolom (fica bonita com ypsolom), passa por acento Lindóia, perde o acento igual Tróia. Não faz mal, um dia ainda visitarei essa cidade que deve ser maravilhosa.
A obra de Zequinha, incluindo "Tardes em Lindoia" (Também conhecida como "Tardes de Lindoia"), foi um marco na música brasileira do século XX, destacando-se pela originalidade e beleza de suas composições. "Tardes de Lindoia" tem sido interpretada e regravada por muitos músicos ao longo dos anos, sendo uma das obras mais conhecidas e amadas do repertório brasileiro.
Tardes em Lindoia (valsa, 1930) - Zequinha de Abreu e Pinto Martins - Interpretação: Ângela Maria (Álbum "Angela De Todos Os Temas", Copacabana CLP-11600, 1970)
----A ----------E7----------- A
Tardes silenciosas de Lindóia --------------C°------------ Bm---- Gb7
Quando o sol morre tristonho -----Bm------------------------ E7
Tardes em que toda a natureza ----------------------------A------ E7
Veste-se de véu, e de sonho
-----A -----------E7-------------- A
Baixo os arvoredos murmurantes -----Gb7--------------- Bm
Da tênue brisa a soprar
D----------- Eb°--------- A------ Gb7
Anjinho dos sonhos meus --------------------B7-------------- E7------- A---- Db7
Não sabes tu como é sublime contigo sonhar ------Gbm------------------ Bm
Longe lá no horizonte calmo -------------------------Db7
As nuvens se incendeiam ---------------------Gbm----- Db7
Num incêndio de luz -----Gbm -------------------Db7
Vibra e se exalta minh’alma --------------------------Gbm----- Db7
Na sensação que a seduz
Gbm------------------ Bm
Um plangente sino toca ----------------------------Db7
Chamando à prece a todos --------------------------Gbm------ Gb7
Os que ainda sabem crer -----------------------Bm
Então eu sonho e creio ---------------------Gbm
Beijar tua linda boca ---------------------Ab7- Db7- Gbm
Para acalmar o meu sofrer.
Ademilde Fonseca (Ademilde Fonseca Delfim), cantora nasceu em Macaíba RN em 4/3/1921. Criada em Natal RN, para onde a família se mudou quando tinha quatro anos, ainda muito jovem ligou-se a um dos conjuntos de seresteiros locais, do qual participava Naldimar Gedeão Delfim, com quem casou mais tarde.
Em 1941, já casada, transferiu-se para o Rio de Janeiro RJ e no ano seguinte, depois de um teste na Rádio Clube do Brasil, apresentou-se no programa de calouros Papel Carbono, de Renato Murce.
Ainda em 1942, cantando com o Regional de Benedito Lacerda numa festa, obteve enorme sucesso interpretando Tico-tico no fubá (Zequinha de Abreu). Desde menina conhecia a letra do famoso choro, escrita por Eurico Barreiros em 1931 e ainda inédita em gravações. Levada por Benedito Lacerda aos estúdios da Columbia, sob a direção musical de João de Barro, estreou gravando Tico-tico no fubá e Voltei pro morro (Benedito Lacerda e Darci de Oliveira), disco lançado em julho de 1942, com grande êxito.
A partir de 1943, com Apanhei-te cavaquinho (Ernesto Nazareth, com letra de João de Barro) e Urubu malandro (choro adaptado por Lourival de Carvalho), tornou-se conhecida como cantora, sendo procurada por diversos compositores.
Em 1944, levada por Deo, integrou o elenco da Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, apresentando-se com os regionais de Rogério Guimarães e Claudionor Cruz. No ano seguinte, sua interpretação da polca Rato, rato (Claudino da Costa e Casimiro Rocha), gravada em ritmo de choro, consagrou-a como a maior intérprete do choro cantado. Nessa gravação, pela primeira vez, não foi acompanhada por Benedito Lacerda, mas pelo conjunto Bossa Clube, liderado pelo violonista Garoto.
Em fins da década de 1940, com a moda do samba-canção e do baião, o prestígio da cantora diminuiu. Em junho de 1950 retornou às paradas de sucesso com as gravações de Brasileirinho (Waldir Azevedo e Pereira da Costa) e Teco-teco (Pereira da Costa e Milton Vilela), nas quais foi acompanhada pelo regional de Waldir Azevedo.
No ano de 1952, foi a Paris, França, com a Orquestra Tabajara de Severino Araújo, apresentando-se com outros artistas em um espetáculo organizado por Assis Chateaubriand. De 1950 a 1955, gravou vários sucessos na Todamérica. Na Rádio Nacional, a partir de 1954, atuou com os regionais de Canhoto, Jacó do Bandolim e Pixinguinha, entre outros, além das orquestras de Radamés Gnattali e do maestro Chiquinho.
Em 1964, ao lado do cantor Jamelão, excursionou por Espanha e Portugal, exibindo-se durante seis meses em Lisboa. No Brasil em 1967, participou do I FIC, da TV Globo, do Rio de Janeiro, interpretando Fala baixinho, de Pixinguinha, com letra de Hermínio Belo de Carvalho. Na década de 1970, suas apresentações no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, tiveram grande repercussão, levando ao relançamento da cantora em LP da Top Tape, em 1975.
Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha, SP, 1998.
"Aurora", "Branca" e "Elza" são os nomes femininos que intitulam três das mais conhecidas valsas de Zequinha de Abreu. Dessas, pelo menos "Branca" seria inspirada por uma musa verdadeira, a jovem Branca Barreto (foto acima), filha do chefe da estação ferroviária de Santa Rita do Passa Quatro, terra do compositor.
Conta João Bento Saniratto - amigo de Zequinha, citado por Almirante num artigo publicado em O Dia - que a valsa foi composta de improviso, na presença de um grupo que conversava à porta do Grêmio Literário Recreativo. Como na ocasião a moça passasse pelo local, o autor (que era seu admirador) resolveu homenageá-la na composição.
"Branca" é uma bela valsa sentimental, de melodia triste, uma característica predominante na música de Zequinha de Abreu. Composta por volta de 1918, ganhou popularidade a partir de 1924, quando teve a sua primeira edição. Mas, ao que se sabe, somente seria gravada em 1931, no mesmo disco que lançou o Tico-tico no fubá. Tem uma letra de Duque de Abramonte (Décio Abramo), embora seja uma valsa essencialmente instrumental.
Branca (valsa, 1924) - Zequinha de Abreu e Duque de Abramonte. A seguir duas interpretações do tema:
Interpretação de Gilberto Alves em disco Copacabana lançado em 1959:
Disco 78 rpm / Título da música: Branca / Zequinha de Abreu (Compositor) / Duque de Abramonte (Compositor) / Gilberto Alves (Intérprete) / Orquestra (Acomp.) / Gravadora: Copacabana / Nº do Álbum: 5985-a / Nº da Matriz: M-2367 / Lançamento: Janeiro/1959 / Gênero musical: Valsa / Coleção: Nirez
LP Francisco Petrônio – O Grande Baile da Saudade / Título da música: Branca / Zequinha de Abreu (Compositor) / Duque de Abramonte (Compositor) / Francisco Petrônio (Intérprete) / Orquestra (Acompanhante) / Coro (Acompanhante) / Gravadora: Continental / Nº Álbum: PPL-12.186 / Lançamento: 1965 / Lado A / Faixa 2 / Gênero musical: Valsa
Am-------------------------- A7------- Dm
Há tempos que a vi / Que eu a conheci -----------------------Am
Ela era linda, um primor, de amor -----B7------------------ E7
Misto de estrela e de flor
Am ----------------------A7------------ Dm
Mas também sofreu / Eu sei vou contar ---------------------Am --------E7------- Am
Pois li naquele olhar, / Cansado de chorar
E7 -----------------------Am
De tarde ao chegar / Os trens um a um --------E7------------------------- Am
Ela viu desembarcar / Um estranho tentador
E7----------------------- Am ---------------A7
Vi Branca cismar / Num sono de amor -----------Dm--------- Am ---------E7-------- Am
Ficou logo apaixonada / Do mancebo tentador
C------------ G7------------------------ C
Mas essa flor / Não sentiu florir o amor ---------------------G7 --------------------------C---- G7
Nunca o sentiu florir / Porque ele teve que partir
C--------------- G7--------------------------- C---- C7
Viu-o embarcar / Como um dia após o amar
F------ Fm--- C --A7 ------------------D7 ----G7
E nunca mais / ----Sentiu o puro amor --------------------C
Do jovem tentador
Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.
De formação singela, Zequinha de Abreu tornou-se figura decisiva da música popular brejeira e de classe média no Brasil do começo do século XX. Com Carmen Miranda, ficou internacionalmente conhecido.
José Gomes de Abreu, conhecido como Zequinha de Abreu, nasceu em Santa Rita do Passa Quatro SP, em 19 de setembro de 1880. Estudou num seminário de São Paulo, de onde fugiu de volta para a cidade natal. Compôs então uma de suas primeiras valsas, Flor da estrada. Quando se tornou funcionário público, já compunha choros, tangos, marchinhas e foxtrotes.
Seu título mais famoso, o choro Tico-tico no fubá, é de 1917. Divulgado mais tarde por Carmem Miranda nos Estados Unidos, tornou-se uma das músicas populares brasileiras mais gravadas em todo o mundo. Em 1918, Zequinha de Abreu compôs sua valsa mais conhecida, Branca.
No ano seguinte, com a morte do pai, mudou-se para São Paulo e passou a tocar piano em bailes, cabarés e casas de famílias ricas, onde também muitas vezes vendia suas partituras. Em 1933, fundou a banda Zequinha de Abreu, com 25 integrantes. O compositor morreu em São Paulo, em 22 de janeiro de 1935. Sua vida inspirou o filme Tico Tico no Fubá (1952), dirigido por Adolfo Celi e Fernando de Barros.