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sábado, 27 de janeiro de 2007

Lúcio Cardim

Houve um tempo no qual as madrugadas paulistanas tinham mais estrelas na terra que no céu. A música - sempre de qualidade - temperava a alegria das pessoas e a felicidade se traduzia em sorrisos, amores, amigos.

As portas eram sempre abertas pela simpatia do Souza (casa de qualidade tinha que tê-lo na recepção) e vozes como as de Pedro Miguel, Fabião, Geraldo Cunha, Adauto Santos, Luiz Carlos Paraná, Roberto Luna, José Domingos, Noite Ilustrada, Cláudia Barroso, Ana Maria Brandão, Ellen Blanco - entre tantas - tornavam as conquistas mais fáceis, os romances mais bonitos.

O violão de Makumbinha; os pianos de Mário Edson e Moacir Peixoto; o pistão de seu irmão Araken; o contrabaixo de mil histórias de Xu Viana, representavam os músicos que sublinhavam talentos com seus sons.

De Santos - nas pegadas de Mauricy Moura - subiu um rapaz, compositor e cantor, que somaria seu brilho às vozes noturnas. Romântico e boêmio, como de lei, Lúcio Cardim era dono de uma história pitoresca.

Autor de Matriz e filial, composta na linha dor-de-cotovelo de Lupicínio Rodrigues ("Quem sou eu / pra ter direitos exclusivos sobre ela ? / se eu não posso sustentar os sonhos dela / se nada tenho, e cada um vale o que tem…"), dizia sempre que ganhava mais dinheiro com apostas, que com direito autoral. Acontece que os leigos acreditavam piamente ser a música de Lupicínio e só acreditavam ser Lúcio o autor depois de conferir nos discos. Aí era tarde, tinham que pagar a aposta.

Mas Lúcio tinha um sem número de coisas bonitas, uma bagagem que fazia dele um dos principais compositores românticos de sua geração. Êta Dor de Cotovelo é um dos melhores exemplos, sempre na linha lupiciniana, somava-se aos versos clássicos de Obra Prima (Levar você de mim é muito fácil / Difícil é fazer você feliz…"), entre tanta coisa que fazia a delícia da boêmia, embora não o transformasse em grande vendedor discos.

Suas tiradas filosóficas, suas soluções harmônicas, seus versos certeiros como flechas, garantiram a ele um lugar permanente não apenas entre os notívagos, mas na própria história da música popular brasileira, naquilo que lhe foi tão característico entre os anos 50 e 70.

Arley Pereira - MPB ESPECIAL - 12/3/1975

“Aqui em São Paulo havia um dos maiores letristas que já conheci, mas não era muito boêmio. Bebia café, água mineral, outras perfumarias. De não beber, morreu de cirrose. Este é o meu catecismo: quem bebe morre, quem não bebe morre também. Por isso de vez em quando dou um tapa no beiço.” Jamelão falando do seu amigo, parceiro e compositor, antes de interpretar Matriz e Filial, composição de Cardim.

sábado, 22 de julho de 2006

Eu e Deus na intimidade


Eu e Deus na Intimidade (samba, 1975) - Lúcio Cardim e Ubiratan - Interpretação: Demônios da Garoa

LP Samba do Metrô / Título da música: Eu e Deus na Intimidade / Lúcio Cardim (Compositor) / Ubiratan (Compositor) / Demônios da Garoa (Intérprete) / Gravadora: Alvorada / Chantecler / Ano: 1975 / Nº Álbum: 2.10.407.167 / Lado B / Faixa 1 / Gênero musical: Samba.


Tom: C

Introd.: C  C7  F  Ab7  C  C7  F  Ab7

  C                F7                   C
Deus... aqui na intimidade que ninguém nos ouça
           Bm5-/7   E7         Am7
Mas um milagrezinho até que ajudaria
               D7             G7    Dm7  G7
Dar um jeitinho logo pro meu bem voltar
  C                      F7                  C
Deus... com tinta do meu pranto assino esse recado
              Bm5-/7   E7          Am7
Com a pena da tristeza e o papel timbrado
               D7              G7      (introd.)
Na folha do meu peito, nesse coração

Gm7                    C7               F
Deus... porque você não dá meu endereço a ela
               Ab7                    C
Ou jogue em suas mãos, um lampião ou vela
                D7                G7
Pra ver se ela me tira dessa escuridão

                C
Ó... ó... ó... Deus!
              C7                  F
Não tenho condição de lhe propor um trato
              E7             Am7
Mas ponho minha vida dentro de sapato
             D7          G7      (introd.)
Ainda que não seja dia de Natal

                C
Ó... ó... ó... Deus!
           C7                F
Aceite minha fé em forma de contrato
          E7                 Am7
Fazendo ter valor o nosso bate papo
                  D7   G7         C
Porque meu Deus, preciso tanto de amor 

           F7           C
Lalála Lá Laiá Lá Lá Laiá Laiá... Deus
            G7          C
Lalála Lá Laiá Lá Lá Laiá Laiá... Deus

domingo, 4 de junho de 2006

Matriz ou filial

Lúcio Cardim
É comum atribuir-se a Lupicínio Rodrigues a autoria de “Matriz ou Filial” um autêntico samba-canção “dor de cotovelo”. Como se não bastasse a linha melódica abolerada sempre associada ao clima de “inferninho”, e o tratamento dramático do tema paixão / rivalidade / arrependimento, a composição ainda seria, não por acaso, lançada por Jamelão, o intérprete maior de Lupicínio: “Quem sou eu / pra ter direitos exclusivos sobre ela / se eu não posso sustentar / os sonhos dela / se nada tenho e cada um vale / o que tem...”

Entretanto o autor desses versos é o santista Lúcio Cardim, personagem da noite, como Lupi, e que integrou em sua época um restrito grupo de compositores paulistas reconhecidos e gravados em outros estados.

As reflexões e tiradas surpreendentes do ambiente de bas fond, dominantes na obra de Cardim, podem ser apreciadas em “Matriz ou Filial”, que ele chegou a gravar, juntamente com outras composições de sua autoria, num elepê (o único em toda a sua carreira) intitulado Obra-prima, em 1978 (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Matriz ou filial (samba-canção, 1964) - Lúcio Cardim - Intérprete: Jamelão

LP O Autêntico Jamelão (O Bom) / Título da Música: Matriz ou filial / Lúcio Cardim (Compositor) / Jamelão (Intérprete) / Gravadora: Continental / Ano: 1965 / Álbum: PPL 12249 / Lado A / Faixa 2 / Gênero musical: Samba-canção.

Bm7                E                      C#m7
  quem sou eu     pra' ter direitos exclusivos sobre ela
             F#m                    Bm7
  se eu não posso sustentar os sonhos dela
           E7                         A7+ C#m5-/7  F#7
  se nada tenho e cada um vale o que tem
 
           Bm7              E                   C#m7
  quem sou eu     pra' sufocar a solidão da sua boca
           F#m                     Bm7
  que hoje diz que é matriz e quase louca
             E7                   A7+  C#m5-/7  F#7
  quando brigamos diz que é a filial
 
      D7+               E                         C#m7
  afinal     se amar demais passou a ser o meu defeito
            F#m                         Bm7
  é bem possível que eu não tenha mais direito
             E7                            A7+  C#m5-/7  F#7
  de ser matriz por ter sòmente amor pra' dar
 
   D7+               E                          C#m7
  afinal  o que ela pensa em conseguir me desprezando
          F#m                  Bm7
  se sua sina sempre é voltar chorando
         E7                      A7+  D7+
  arrependida me pedindo pra' ficar