domingo, 2 de abril de 2006

Esta nega qué me dá

Canninha - 1928
A melodia é pobre, a letra apenas razoável: "Esta nega / Qué mi dá / Eu não fiz nada / Prá apanhá...". Mas o título de duplo sentido acabaria por fazer deste samba um dos sucessos do carnaval de 1921.

Seu autor, Caninha, aqui em parceria com o bailarino Lezute, foi um dos mais ativos compositores da primeira geração de sambistas, chegando a rivalizar com Sinhô no início dos anos vinte.

Seus sucessos, porém, ficaram restritos a esse período, embora ele tenha vivido até 1961. Frequentador da casa da Tia Ciata, Caninha (Oscar José Luís de Morais) ganhou o apelido quando, adolescente, vendia rolete de cana nas imediações da Central do Brasil, no Rio de Janeiro (Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34).

"O Canninha, sempre procurou seguir as pégadas do Sinhô, não logrando, porém, o mesmo successo. Por mais que se esforçasse, o Canninha jamais conseguio siquer aproximar-se do Rei do Samba, ou ter um logar de destaque na sua Côrte...

E' que as produções do conhecido muzicista, quasi sempre peccavam pelo imprevisto... asnatico, tão proprio do popularissimo compositor que teve o topete de dizer que o Maestro Francisco Braga, ouvindo no cinema Odeon este samba manteve com elle o seguinte dialogo :

MAESTRO F. BRAGA: – «Seu Canninha», o senhor sabe muzica ?
CANNINHA: – (risonho e amavel) Maestro eu engulo um bocadinho de cabeça de nota!...
MAESTRO F. BRAGA: – (Enthusiasmado) Pois olhe, seu Canninha, este seu samba, até parece muzica classica !
CANNINHA: - Se isto é verdade, o maestro Francisco Braga está na obrigação de uma grande penitencia perante Santa Cecilia!

Já vae longo este capitulo e o assumpto dá margem a outros. Prometto continuar, porque «piano, piano...»" - Na Roda do Samba - Francisco Guimarães (Vagalume) - Rio de Janeiro, 1933.

Esta nega qué me dá (samba-maxixe, 1921) - Caninha e Lezute

Interpretação do cantor Bahiano em disco Odeon lançado em 1922:

Disco selo: Odeon R / Título da música: Esta nêga qué me dá / José Luis de Moraes "Caninha" / Bahiano (Intérprete) / Nº do Álbum: 121968 / Data de Lançamento: 1922 / Gênero musical: Samba / Coleção de fontes: Nirez



Interpretação de Almirante com A Velha Guarda em 1955:

LP 10' A Velha Guarda / Título da música: Esta Nega Qué Me Dá / "Caninha" (Compositor) / A Velha Guarda (Donga, João da Bahiana e Pixinguinha) (Intérprete) / Almirante (Intérprete) / Gravadora: Sinter / Nº do Álbum: SLP 1038 / Ano: 1955 / Faixa: B1 / Gênero musical: Samba



Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá
Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá

Nega, tu não faz feitiço / Que eu tenho o corpo fechado
Tapa de amor não dói / Por isso apanhou casado

Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá
Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá

Eu tenho os osso quebrado / Quebrado só de apanhá
Oh Nega, toma cuidado! / Que eu também vô te ripá!

Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá
Esta nega qué mi dá / Eu não fiz nada prá apanhá


Fontes: Na Roda do Samba - Francisco Guimarães (Vagalume) - Rio de Janeiro, 1933; A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Na casa branca da serra

Segundo Almirante "se há uma modinha que se possa considerar tradicional no Brasil, esta é chamada “Na Casa Branca da Serra”, da autoria de Miguel Emílio Pestana, com versos de Guimarães Passos. Há dezenas de anos que “Na Casa Branca da Serra” tem sido ao mesmo tempo do repertório dos seresteiros de rua como das mais graciosas senhoritas nos elegantes saraus, já em desuso" (O Pessoal da Velha Guarda, 14-12-1950).

Na Casa Branca da Serra (modinha, 1880) - Guimarães Passos e Miguel E. Pestana

Interpretação de Mário Pinheiro em disco Odeon lançado em 1904:

Disco selo: Odeon Record / Título da música: A Casa Branca / Guimarães Passos (Compositor) / Miguel Emídio Pestana (Compositor) / Mário Pinheiro (Intérprete) / Violão (Acomp.) / Nº do Álbum: 40139 / Nº da Matriz: Rx-2 / Lançamento: 1904 / Gênero musical: Modinha / Coleção de Origem: IMS, Nirez



Interpretação de Vicente Celestino em disco RCA Victor lançado em 1961:

Disco 78 rpm / Título da música: Casa Branca da Serra / Guimarães Passos (Compositor) / Miguel Emídio Pestana (Compositor) / Vicente Celestino (Intérprete) / Orquestra (Acomp.) / Nº do Álbum: 80-2295-a / Nº da Matriz: M2CAB-1170 / Gravação: 10/Janeiro/1961 / Lançamento: Fevereiro 1961 / Gênero musical: Valsa canção



---C --------G7--------- C -
Na casa branca da serra
Dm--------------------- C-- C#º
Onde eu ficava horas intei-ras
Bbº----------------- F7M-- F#º
Entre as esbeltas palmei- ras
G7--------------C ---C7
Ficaste calma e feliz
--F7M------------F#º------ C-- C#º
Tudo em meu peito me des- te
---Dm -----------------C-- C#º
Quando eu pisei na tua ter- ra
------F7M---- F#º-------- C--- C#º
Depois de mim te esqueces- te
------G7--------- G/B ----C-- C#º- Dm- G7
Quando eu deixei teu país.

---C---------- G7-------- C--
Nunca te visse oh! formo-sa
----Dm ---------C --C#º
Nunca contigo falas- se
------Bbº---- -------- F7M-- F#º
Antes nunca te encontras- se
----G7------------- C---- C7
Na minha vida enganosa
----F7M------------ F#º-- C-- C#º
Por que não se abriu a ter- ra
---Dm--------- ---------- C-- C#º
Por que os céus não me puni- ram
------F7M ------------F#º-- C-- C#º
Quando os meus olhos te vi- ram
---G7-------- G/B------ C ----C#º Dm G7
Na casa branca da serra.

(Instrumental)

-----C------ G7--- C--
Embora tudo bendi-go
----Dm---------- C-- C#º
Desta ditosa lembran- ça
Bbº------------------ F7M- F#º
Que sem me dar esperan- ça
---G7----------------- C---- C7
De unir-me ainda contigo
------F7M ----F#º--- C-- C#º
Bendigo a casa da ser- ra
------Dm----- ------- C--- C#º
Bendigo as horas faguei- ras
----F7M -------F#º----- C-- C#º
Bendigo as belas palmei- ras
------G7 -----G/B--- C----- C#º Dm G7 C
Queridas da tua terra.


Fontes: Instituto Moreira Salles; Discografia Brasileira.

sábado, 1 de abril de 2006

Zequinha de Abreu

De formação singela, Zequinha de Abreu tornou-se figura decisiva da música popular brejeira e de classe média no Brasil do começo do século XX. Com Carmen Miranda, ficou internacionalmente conhecido.


José Gomes de Abreu, conhecido como Zequinha de Abreu, nasceu em Santa Rita do Passa Quatro SP, em 19 de setembro de 1880. Estudou num seminário de São Paulo, de onde fugiu de volta para a cidade natal. Compôs então uma de suas primeiras valsas, Flor da estrada. Quando se tornou funcionário público, já compunha choros, tangos, marchinhas e foxtrotes.

Seu título mais famoso, o choro Tico-tico no fubá, é de 1917. Divulgado mais tarde por Carmem Miranda nos Estados Unidos, tornou-se uma das músicas populares brasileiras mais gravadas em todo o mundo. Em 1918, Zequinha de Abreu compôs sua valsa mais conhecida, Branca.

No ano seguinte, com a morte do pai, mudou-se para São Paulo e passou a tocar piano em bailes, cabarés e casas de famílias ricas, onde também muitas vezes vendia suas partituras. Em 1933, fundou a banda Zequinha de Abreu, com 25 integrantes. O compositor morreu em São Paulo, em 22 de janeiro de 1935. Sua vida inspirou o filme Tico Tico no Fubá (1952), dirigido por Adolfo Celi e Fernando de Barros.

Algumas composições





Fontes: Encyclopaedia Britannica - BARSA; Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora - 1998, SP.

Jararaca e Ratinho


Jararaca e Ratinho - Dupla sertaneja formada em 1927 por José Luís Rodrigues Calazans, o Jararaca (Maceió AL 1896-Rio de Janeiro RJ 1977) e Severino Rangel de Carvalho, o Ratinho (Itabaiana PB 1896-Duque de Caxias RJ 1972). José Luís encontrou Severino em 1918, nas rodas artísticas de Recife PE.


Começaram a tocar juntos, organizando um conjunto, os Turunas Pernambucanos, onde apareciam ao lado de Pirara e Romualdo Miranda (violões), Robson (cavaquinho) e Artur Sousa (ganzá). Todos os integrantes adotaram apelidos de bichos, permanecendo os de Jararaca e Ratinho mesmo depois da dissolução do conjunto.

Em 1921 os Turunas exibiram-se por 15 dias no Cine-Teatro Moderno, com o conjunto Oito Batutas, que visitava Recife. Foi o estímulo decisivo para o grupo, convidado então para os festejos do centenário da Independência, no Rio de Janeiro, em 1922, fazendo grande sucesso com suas emboladas, cocos, baiões, e com seus trajes típicos: alpercatas e chapéu de couro. O vespertino A Noite deu-lhe ampla cobertura, chefiada pessoalmente por seu proprietário, Irineu Marinho. O conjunto foi convidado a gravar dois discos na Odeon, obtendo grande êxito com A espingarda (Pa-pa-pá) - arranjo de Jararaca sobre tema folclórico, e Jararaca gravou também um disco solo, com Vamos embora Maria, samba sertanejo, e Passarinho verde, canção nortista (ambas de sua autoria).

O conjunto excursionou então pelo Sul e, contratado pela companhia Abigail Maia, apresentou-se em Buenos Aires, Argentina, desfazendo-se em seguida. Jararaca (violão e canto) e Ratinho (saxofone) ainda se apresentaram por algum tempo no Café Rio Branco, em Montevidéu, Uruguai, mas a dupla só se formou com a inauguração do Teatro Santa Helena, na Praça da Sé, de São Paulo SP, em 1927, fazendo grande sucesso com emboladas entremeadas de quadros humorísticos. Em 1928 Francisco Alves gravou, de Jararaca, Meu sabiá, na Odeon, e no ano seguinte Meu Brasil, na Parlophon; e foi na Odeon que a dupla gravou seu primeiro disco, em 1929, apresentando, de sua autoria, Caipirada e Lista do baile. Começou então a desenvolver seus quadros, explorando determinadas situações, como as relações dos "turcos" com os caipiras, das quais Aniversário do Abdula e A loja do turco são um exemplo.

A dupla excursionou pelo interior com Cornélio Pires. Em 1930 Ratinho gravou ao saxofone alguns choros e valsas de sua autoria, entre os quais Saxofone por que choras?, Guriatã de coqueiro, Cenira, Eu e eles. Dois anos depois a dupla cantava músicas nordestinas e regionais, e contava piadas na Casa de Caboclo, apresentando-se também na Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro. Jararaca passou então a compor com o maestro Vicente Paiva, fazendo sucesso no Carnaval de 1937 com a marcha Mamãe eu quero, gravada por Jararaca na Odeon. Outra composição da dupla, o samba Pode ser que sim foi gravado pelo conjunto Os Trigêmios Vocalistas em 1943, na Columbia. Com o advento do Estado Novo, veio a fase áurea da Rádio Nacional e o apogeu da dupla, que teve programa próprio, além de participar do programa Eucalol, em que Ratinho tocava choros e valsas ao saxofone.

Em 1942 a dupla gravou pela Odeon um disco representativo dessa fase, apresentando, de sua autoria, o desafio Desafiando e a embolada Oi, Chico, seguindo-se, em 1945, disco com a marcha Bonito e a batucada Meu pirão primeiro. Dois anos depois, Ratinho gravou, ainda na Odeon, o choro Pinicadinho, grande sucesso da dupla. Na Rádio Nacional, onde atuou de 1936 e 1945, e excursionando pelo país, a dupla integrou a famosa Lira do Xopotó, banda que sugeria um conjunto do interior do Brasil, em que Jararaca fazia o papel de Mestre Filó e Ratinho o de Jararaca. Quando a programação radiofônica começou a ser feita em disco, a dupla passou para a televisão, estreando com o programa A-E-I-O-Urca, na TV Tupi.

Em 1922 os Turunas Pernambucanos desembarcavam no Rio de Janeiro. Entre eles, Jararaca (o terceiro sentado à direita) e Ratinho (de pé, à esquerda, com o clarinete).


Em 1960 a dupla apresentou em São Paulo a burleta Por que me ufano de Bananal, desempenhando nessa década o mesmo papel de compadres caipiras representado durante toda a carreira, nos programas Balança mas não Cai, UAU e Aquele Abraço, na TV Globo. Após a morte de Ratinho, Jararaca continuou se apresentando em papéis cômicos na televisão, em diversos programas.


Fontes: História da MPB - Editora Globo; Enciclopédia da Música Brasileira - Art Ed. e Publifolha.