quarta-feira, 19 de abril de 2006

Tico-Tico no Fubá


Vibrante, buliçoso e ao mesmo tempo sentimental, o "Tico-Tico no Fubá" é o exemplo perfeito do choro clássico, em três partes, composto na melhor tradição do gênero. Predestinado ao sucesso, impressionou logo em sua primeira apresentação, em 1917, num baile em Santa Rita do Passa Quatro, quando ganhou o nome de "Tico-Tico no Farelo". Razão do nome: a animação dos pares que dançavam em grande alvoroço, provocando o comentário do autor: "até parece tico-tico no farelo...".

Depois, talvez porque já existisse um choro homônimo (de Canhoto), passou a "Tico-Tico no Fubá". Mas, apesar dessa estréia vitoriosa, a obra-prima de Zequinha de Abreu só chegaria ao disco quatorze anos mais tarde, ocasião em que foi gravada pela Orquestra Colbaz, criada e dirigida pelo maestro Gaó. Sucesso absoluto, este disco permaneceu em catálogo até a década de quarenta, época em que a composição alcançou o auge da popularidade.

Contribuiu para isso a sua internacionalização comandada pelos americanos que, no curto espaço de cinco anos, incluíram-na em cinco filmes: "Alô amigos" (43), "A filha do comandante" (43), "Escola de sereias" (44), "Kansas City Kitty" (44) e "Copacabana" (47), sendo que neste último era cantada por Carmen Miranda. A partir de então, recebeu dezenas de gravações, tornando-se uma das músicas brasileiras mais gravadas de todos os tempos, no país e no exterior, salientando-se entre seus intérpretes a organista Ethel Smith, que a levou ao hit-parade americano.

"Tico-Tico no Fubá" é executado por veteranos pianistas de Nova Orleans com a regularidade de uma peça local, embora sofrendo algumas alterações melódicas e rítmicas, que se assemelham a um tango, bem ao estilo da segunda parte de "Saint Louis Blues". Essencialmente instrumental, tem letras de Eurico Barreiros e Aloísio de Oliveira (além de uma versão em inglês, de Ervin Drake), que não vingaram, apesar do relativo sucesso alcançado pelas gravações de Ademilde Fonseca, em sua estréia em disco, e as de Carmen Miranda nos Estados Unidos.

Tico-Tico no Fubá (choro, 1931) - Zequinha de Abreu - Interpretação de Carmen Miranda

Disco 78 rpm / Título: Tico-tico no fubá / Autoria: Oliveira, A (Compositor) / Drake, Ervin (Compositor) / Abreu, Zequinha de (Compositor) / Miranda, Carmen, 1909-1955 (Intérprete) / Bando da Lua (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Decca, Indefinida / Álbum 288084 / Gênero: Samba choro


Versão cantada por Carmen Miranda:

Tico-Tico
Tico-Tico
O Tico-Tico tá
Tá outra vez aqui
O Tico-Tico tá comendo meu fubá
O Tico-Tico tem, tem que se alimentar
Que vá comer umas minhocas no pomar

Tico-Tico
O Tico-Tico tá
Tá outra vez aqui
O Tico-Tico tá comendo meu fubá
O Tico-Tico tem, tem que se alimentar
Que vá comer umas minhocas no pomar

Mas por favor, tire esse bicho do seleiro
Porque ele acaba comendo o fubá inteiro
E nesse tico de cá, em cima do meu fubá
Tem tanta coisa que ele pode pinicar
Eu ja fiz tudo para ver se conseguia
Botei alpiste para ver se ele comia
Botei um galo, um espantalho e alçapão
Mas ele acha que fubá é que é boa alimentação

O Tico-Tico tá
Tá outra vez aqui
O Tico-Tico tá comendo meu fubá
O Tico-Tico tem, tem que se alimentar
Que va comer é mais minhoca e nao fubá

Tico-Tico
O Tico-Tico tá
Tá outra vez aqui
O Tico-Tico tá comendo meu fubá
O Tico-Tico tem, tem que se alimentar
Que va comer é mais minhoca e nao fubá

Versão original:

Primeira Parte

Um tico-tico só, / Um tico-tico lá,
Está comendo / Todo, todo meu fubá.

Olha, Seu Nicolau, / Que o fubá se vai,
Pego no meu pica-pau / E um tiro sae.

Coitado... Então eu tenho pena / Do susto que levou
E uma cuia se ia, / Mais fubá eu dou.

Alegre já, / Voando, piando,
Meu fubá, meu fubá, / Saltando de lá pra cá.

Segunda Parte (Declamado)

Tico-tico engraçadinho / Que está sempre a piar,
Vá fazer o teu ninho / E terás assim um lar.

Procure uma companheira / Que eu te garanto o fubá,
De papada sempre cheia / Não acharás a vida má.

Terceira Parte

Houve um dia lá / Que ele não voltou,
E seu gostoso fubá / O vento levou.

Triste fiquei, / Quase chorei,
Mas então vi / Logo depois,
Já não eram um, / Mas sim já dois.

Quero contar baixinho / A vida dos dois,
Tiveram seu ninho / E filhotinhos depois.

Todos agora / Pulam ali,
Saltam aqui, / Comendo sempre o fubá
Saltando de lá para cá.



Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.
Postar um comentário