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sábado, 22 de outubro de 2022

Quando é noite de lua

Quando é noite de lua (frevo, 1945) - Capiba - Intérprete: Nelson Gonçalves

Disco 78 rpm / Título da música: Quando é noite de lua / Lourenço da Fonseca Barbosa (Capiba) (Compositor) / Nelson Gonçalves (Intérprete) / Gravadora: RCA Victor / Nº do Álbum: 800352 / Nº da Matriz: S-078300-1 / Data de Gravação: 02/10/1945 / Data de Lançamento: Dezembro/1945 / Lado A / Gênero musical: Frevo / Carnaval.



Quando é noite de lua
Lá no bairro onde moro
Vou pra rua cantando
Para alguém que tanto adoro

Eu pensei que esse alguém
Ao ouvir meu cantar
Vem sozinha a janela
Para de perto me olhar

Esse alguém de quem falo
Partiu o meu coração
Chega e sai da janela
Sem me dar explicação

Mas um dia hei de ter
Tudo isso acaba
Ela então nos meus braços
Para eu de novo cantar

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Não aguento mais

Não aguento mais (frevo-canção, 1944) - Capiba - Intérprete: Nelson Gonçalves

Disco 78 rpm / Título da música: Não aguento mais / Lourenço da Fonseca Barbosa (Capiba) (Compositor) / Nelson Gonçalves (Intérprete) / Orquestra Zaccarias (Acomp.) / Gravadora RCA Victor / Número do Álbum: 800234 / Data de Gravação: 19/09/1944 / Data de Lançamento: 12/1944 / Lado: A / Gênero musical: Frevo-canção / Carnaval



Morena que vem de outras terras
Porque tu não entra no frevo
É bom demais
E se tem bate-bate a onda
Começa pra frente, pra trás
Quando chega meia-noite
Não aguento mais!

Morena que vem de outras terras
Porque tu não entra no frevo
É bom demais
E se tem bate-bate a onda
Começa pra frente, pra trás
Quando chega meia-noite
Não aguento mais!

Não aguento mais
Frevo assim é bom
Mas já é demais
Quem quiser que eu fique
Nesta confusão
Me segure, me segure
Senão eu vou ao chão!

Morena que vem de outras terras
Porque tu não entra no frevo
É bom demais
E se tem bate-bate a onda
Começa pra frente, pra trás
Quando chega meia-noite
Não aguento mais!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O Frevo

O frevo é uma dança surgida em Recife (PE) a partir dos últimos anos do séc. XIX, com a progressiva multiplicação das síncopas e do gingado rítmico das músicas de bandas militares, a fim de propiciar desarticulações de corpo dos capoeiras, que exibiam sua agilidade, abrindo os desfiles militares, com passos improvisados ao som das marchas e dobrados.

Segundo Renato Almeida, citando Mário Melo, surgiu da polca-marcha e teve sua linha divisória estabelecida pelo capitão José Lourenço da Silva (Zuzinha), ensaiador das bandas da brigada militar de Pernambuco.

A marcha tem um ritmo frenético e contagiante, que lhe confere o caráter de uma dança de multidão. Seu compasso é binário e o andamento, semelhante à marcha carioca, mas o ritmo é tudo.

Ainda conforme Renato Almeida, divide-se em duas partes e seus motivos se apresentam sempre em diálogos de trombones e pistons com clarinetas e saxofones. O grande interesse está na sua coreografia, individual, improvisada: os dançarinos raramente repetem um gesto ou atitude, mantendo sempre uma feição pessoal e instintiva de improvisação - o passo - originado no gingar dos antigos capoeiras. O passo, vindo a ser feita com a ajuda rítmica de velhas sombrinhas e guarda-chuvas, dava à massa dos dançarinos que evoluíam pelas ruas apertadas uma impressão visual de fervura, o que originaria a palavra frevo, como deverbal de frever, por ferver.

Posteriormente a 1917, conforme Pereira da Costa, o frevo foi introduzido nos salões, nos clubes carnavalescos; aí, com freqüência os pares se desfazem em roda e, no centro, os dançarinos exibem seus passos individualmente.

Tipos de frevo

Na década de 30, surge a divisão do frevo em três tipos:

Pierre Verger - Frevo, Recife -1947.
Frevo de rua: É exclusivamente instrumental, sem letra. É tocado por orquestra instrumental, sem adição de nenhuma voz cancionando, feito unicamente para se dançar. Este estilo tem as modalidades de frevo de abafo (predominância de instrumentos de metal, com a finalidade de abafar o som da orquestra rival), frevo coqueiro (com notas agudas, curtas e andamento rápido. Uma variante do frevo de abafo), frevo ventania (semicolcheias, com linha melódica bem movimentada) e frevo de salão (um misto dos três outros tipos que, como o nome já diz, é próprio para o ambiente dos salões).

Conta-se ainda que a "Marcha Pernambucana" como era conhecida inicialmente nasceu do costume das bandas militares acompanharem os blocos de rua. O brabo, que puxava o povo, era treinado com passos de capoeira. Para acompanhar os passos da capoeira, as orquestras militares tocavam um ritmo mais rápido e dançante. Esta marcha pernambucana, depois de já ter sido chamada de marcha-frevo, evoluiu para o que conhecemos como frevo de rua.

Frevo-canção: É derivado da ária (composição musical escrita para um cantor solista), tem uma introdução orquestral e andamento melódico, típico dos frevos de rua. É seqüenciado por uma introdução forte de frevo, seguida de uma canção, concluindo novamente com frevo.

São vários os seus intérpretes. Os mais conhecidos são: Alceu Valença, Claudionor Germano entre outros grandes nomes. Entre os compositores de frevo-canção destacam-se: Capiba, Nelson Ferreira, J. Michilles, Alceu Valença, etc.

O frevo-canção foi tido como uma concessão provocada, segundo o jornalista Ruy Duarte. Em 1931, os compositores pernambucanos Raul e João Valença (Irmãos Valença), enviaram para a RCA, no Rio de Janeiro, seu frevo-canção com o estribilho "O teu cabelo não nega mulata...", o compositor carioca Lamartine Babo transformou-o em marchinha carnavalesca que venceu o carnaval de 1932, sob o nome de "O teu cabelo não nega". Os editores da música no Rio de Janeiro foram processados na justiça pelos Irmãos Valença e no selo do disco passou a constar: "Marcha - Motivos do norte - Arranjo de Lamartine Babo".

Os pernambucanos reagiram ao que os cariocas faziam com suas músicas e lhes mandavam de volta, e decidiram enviar ao Rio um maestro pernambucano para ensinar aos músicos cariocas como deveriam usar a matéria prima musical que seria logo transformada em produto industrial sob a forma de disco. Fervorosos do frevo do Recife pressentiram o perigo dessa concessão cultural.

Existiam os amantes do frevo ortodoxo que eram ligados a clubes carnavalescos tradicionais como o Vassourinhas, e que incorporaram o frevo-canção sob forma de marcha-regresso, um frevo lamentoso cantado nas madrugadas pelos passistas cansados quando voltavam para casa, como o belíssimo: "Se essa rua fosse minha / eu mandava ladrilhar / com pedrinhas de brilhante / para o meu amor passar...".

E foi um frevo-canção lamentoso, também chamado de frevo de bloco, que devolveu aos cariocas a invasão que fizeram no Recife com O teu cabelo não nega, quando em 1957 o maior sucesso no Rio de Janeiro foi o frevo-canção Evocação nr.1, de Nelson Ferreira.

Frevo de bloco: É executado por Orquestras de Pau e Corda. Suas letras e melodias, muitas vezes interpretadas por corais femininos, geralmente trazem um misto de saudade e evocação. Sua origem vem das serenatas no início do presente século. Sua orquestra é composta de Pau e Corda: violões, banjos, cavaquinhos, bandolins, violinos, além de instrumento de sopro e percussão. Nas últimas três décadas observou-se a introdução de clarinete, seguida da parte coral integrada por mulheres. É chamado pelos compositores mais tradicionais de "marcha de bloco". Frevos de bloco famosos: Valores do Passado de Edgar Moraes, Marcha da Folia de Raul Moraes, Relembrando o Passado de João Santiago, Saudade dos Irmãos Valença, entre outros.

O Frevo de Bloco é a música das agremiações tradicionalmente denominadas "Blocos Carnavalescos Mistos". Seu aparecimento no carnaval de Pernambuco faz alusão a um dado histórico e sociológico: o início da efetiva participação da mulher, principalmente da classe média, na folia de rua do Recife, nas primeiras décadas do século XX.

Há uma tendência atualmente de se adotar a denominação "Blocos Carnavalescos Líricos", que foi inscrita pela primeira vez no flabelo do bloco Cordas e Retalhos, fundado em 1998. Segundo Leonardo Dantas, no frevo de bloco está "a melhor parte da poesia do carnaval pernambucano" (1998).

Entre os compositores de frevo de bloco mais importantes estão os irmãos Raul Moraes (1891-1937) e Edgard Moraes (1904-1973), João Santiago (1928-1985), Luiz Faustino (1916-1984), Romero Amorim (1937-), Bráulio de Castro (1942-), Fátima de Castro, Cláudio Almeida (1950-) e Getúlio Cavalcanti (1942-).

Frevo em frente a Igreja do Carmo, Olinda, Pernambuco.
Tomando o país

De instrumental, o gênero ganhou letra no frevo canção e saiu do âmbito pernambucano para tomar o país. Basta dizer que O teu cabelo não nega , de 1932, considerada a composição que fixou o estilo da marchinha carnavalesca carioca, é na verdade uma adaptação do compositor Lamartine Babo do frevo Mulata, dos pernambucanos Irmãos Valença. A primeira gravação com o nome do gênero foi o Frevo Pernambucano (Luperce Miranda e Osvaldo Santiago) lançada por Francisco Alves no final de 1930. Um ano depois, Vamo se acabá, de Nelson Ferreira pela Orquestra Guanabara recebia a classificação de frevo. Dois anos antes, ainda com o codinome de "marcha nortista", saía do forno o pioneiro Não Puxa Maroca (Nelson Ferreira) pela orquestra Victor Brasileira comandada por Pixinguinha.

Ases da era de ouro do rádio como Almirante (numa adaptação do clássico Vassourinhas), Mário Reis (É de Amargar, de Capiba), Carlos Galhardo (Morena da Sapucaia, O Teu Lencinho, Vamos Cair no Frevo), Linda Batista (Criado com Vó), Nelson Gonçalves (Quando é Noite de Lua), Ciro Monteiro (Linda Flor da Madrugada), Dircinha Batista (Não é Vantagem), Gilberto Alves (Não Sou Eu Que Caio Lá, Não Faltava Mais Nada, Feitiço), Carmélia Alves (É de Maroca) incorporaram frevos a seus repertórios. Em 1950, inspirados na energia do frevo pernambucano, a bordo de uma pequena fobica, dedilhando um cepo de madeira eletrificado, os músicos Dodô & Osmar fincavam as bases do trio elétrico baiano que se tornaria conhecido em todo o país a partir de 1979, quando Caetano Veloso documentou o fenômeno em seu Atrás do Trio Elétrico.


Invasão no carnaval

Em 1957, o frevo Evocação No. 1, de Nelson Ferreira, gravado pelo Bloco Batutas de São José (o chamado frevo de bloco) invadiria o carnaval carioca derrotando a marchinha e o samba. O lançamento era da gravadora local, Mocambo, que se destacaria no registro de inúmeros frevos e em especial a obra de seus dois maiores compositores, Nelson (Heráclito Alves) Ferreira (1902-1976) e Capiba (Lourenço da Fonseca Barbosa, 1904-1997). Além de prosseguir até o número 7 da série Evocação, Nelson Ferreira teve êxitos como o frevo Veneza Brasileira, gravado pela sambista Aracy de Almeida e outros como No Passo, Carnaval da Vitória, Dedé, O Dia Vem Raiando, Borboleta Não É Ave, Frevo da Saudade. A exemplo de Nelson, Capiba também teve sucessos em outros estilos como o clássico samba canção Maria Bethânia gravado por Nelson Gonçalves em 1943, que inspiraria o nome da cantora. Depois do referido É de Amargar, de 1934, primeiro lugar no concurso do Diário de Pernambuco, Capiba emplacou Manda embora essa tristeza (Aracy de Almeida, 1936), e vários outros frevos que seriam regravados pelas gerações seguintes como De chapéu de sol aberto, Tenho uma coisa pra lhe dizer, Quem vai pra farol é o bonde de Olinda, Linda flor da madrugada, A pisada é essa, Gosto de te ver cantando.

Passista mirim dança frevo no Recife antigo
Cantores como Claudionor Germano e Expedito Baracho se transformariam em especialistas no ramo. Um dos principais autores do samba-canção de fossa, Antônio Maria (Araújo de Morais, 1921-1964) não negou suas origens pernambucanas na série de frevos (do número 1 ao 3) que dedicou ao Recife natal. O gênero esfuziante sensibilizou mesmo a intimista bossa nova. De Tom Jobim e Vinicius de Moraes (Frevo) a Marcos e Paulo Sérgio Valle (Pelas ruas do Recife) e Edu Lobo (No Cordão da Saideira) todos investiram no (com)passo acelerado que também contagiou Gilberto Gil a municiar de guitarras seu Frevo Rasgado em plena erupção tropicalista.

A baiana Gal Costa misturou frevo, dobrado e tintura funk (do arranjador Lincoln Olivetti) num de seus maiores sucessos, Festa do Interior (Moraes Moreira e Abel Silva) e a safra nordestina posterior não deixou a sombrinha cair. O pernambucano Carlos Fernando, autor do explosivo Banho de Cheiro, sucesso da paraibana Elba Ramalho, organizou uma série de discos intitulada Asas da América a partir do começo dos 80. Botou uma seleção de estrelas para frevar: de Chico Buarque, Alcione, Lulu Santos e Gilberto Gil a Jackson do Pandeiro, Elba e Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Fagner e Alceu Valença. Entre os citados, Alceu, Zé e Geraldo mais o Quinteto Violado, Lenine, o armorial Antonio Nóbrega e autores como J. Michiles, mantêm no ponto de fervura o frevo pernambucano. Mesmo competindo com os decibéis – e o poder de sedução – do congênere baiano.

                    Frevo por Heitor dos Prazeres, sem data , óleo sobre tela  (MARGS).
Músicas

Vassourinhas (Clube Carnavalesco Misto Vassourinhas) – Orquestra de Frevos do Recife; Valores do passado (Edgar Moraes) – Grupo Romançal; Mulata (Irmãos Valença) – Expedito Baracho; É de amargar (Capiba) – Claudionor Germano; Evocação no. 1 (Nelson Ferreira) – Bloco Batutas de São José; Oh! Julia / Casinha pequenina / Gosto de te ver cantando / Linda flor da madrugada (Capiba) – Claudionor Germano; Relembrando o Norte (Severino Araújo) – Orquestra Tabajara; Come e dorme (Nelson Ferreira) – Nelson Ferreira e sua Orquestra; Frevo no.1 do Recife (Antonio Maria ) – Maria Bethânia; Frevo (Tom Jobim/ Vinicius de Moraes) – Chico Buarque; No Cordão da Saideira (Edu Lobo) – Edu Lobo; Pelas ruas do Recife (Marcos e Paulo Valle) – Marcos Valle; Frevo rasgado (Gilberto Gil/ Bruno Ferreira) – Gilberto Gil; Atrás do Trio Elétrico (Caetano Veloso) – Caetano Veloso; Banho de cheiro (Carlos Fernando) – Elba Ramalho; Festa do interior (Moraes Moreira/ Abel Silva) – Gal Costa; Frevo mulher (Zé Ramalho) – Amelinha; Chego já (Alceu Valença) – Alceu Valença; Madeira que cupim não roi (Capiba) – Antonio Nóbrega; Me segura que senão eu caio (J. Michilles) – Alceu Valença; Realeza linda (Carlos Fernando/ Geraldo Azevedo) – Geraldo Azevedo; Bom danado (Luis Bandeira/ Ernani Seve) – Lenine.

Fontes: Cliquemusic (Tarik de Souza); Enciclopédia Nordeste - Frevo; Enciclopédia da Música Brasileira – Art Editora e PubliFolha.

sábado, 7 de abril de 2007

Tia Amélia


Tia Amélia (Amélia Brandão Néri), instrumentista e compositora, nasceu em Jaboatão PE em 25/5/1897, e faleceu em Goiânia GO em 18/10/1983. A mãe era pianista e o pai maestro da banda da cidade, além de clarinetista e solista de violão. Começou a tocar piano de ouvido aos quatro anos de idade e aos seis passou a estudar música, dedicando-se somente aos clássicos, por imposição do pai.


Aos 12 anos compôs sua primeira música, a valsa Gratidão. Pensava em seguir a carreira de pianista, mas o casamento, aos 17 anos, e a oposição do marido a impediram. Morando em uma fazenda em Jaboatão, passou a tocar apenas em festas de amigos, dedicando-se ainda a estudar o folclore musical da região.

Aos 25 anos, ficando viúva com três filhos, decidiu tornar-se profissional e foi contratada pela Radio Clube de Pernambuco, em Recife, onde começou a fazer sucesso. Com a fama, e resolvida a esclarecer uma questão de direitos autorais surgida com a gravação, na Odeon, de uma composição sua sem autorização, viajou para o Rio de Janeiro, em 1929, sendo contratada para se apresentar em um concerto no antigo Teatro Lírico, onde teve grande êxito, passando a ser chamada “a coqueluche dos cariocas”.

Na Odeon, além de ter ganhado seus direitos autorais, foi convidada para gravar um disco, e a repercussão de sua apresentação levou-a a tocar nas rádios Mayrink Veiga, Sociedade e Clube do Brasil. Regressou em seguida a Recife, trabalhando na Rádio Clube de Pernambuco e realizando algumas viagens ao interior, nas quais, alem de tocar, fazia pesquisas folclóricas, que serviram de tema a muitas de suas composições.

Em 1931, novamente no Rio de Janeiro, trabalhou em rádio e teve algumas de suas músicas gravadas, como a adaptação de Capelinha de melão, na voz de Elisa Coelho, e Cavalo marinho, interpretada por Stefana de Macedo. Já era compositora e interprete bastante conhecida, com muitos contratos e apresentações.

Amélia Brandão Nery, 1938
Em 1933, a convite do Itamaraty, realizou uma tournée pelas Américas, acompanhada de sua filha, a cantora Silene Brandão Nery, interpretando suas composições inspiradas no folclore brasileiro. Na Venezuela, recusou convite do governo para permanecer dois anos no país estudando o folclore local e viajou para os EUA, contratada por uma emissora de rádio de Schenectady, onde atuou durante cinco meses, sob patrocínio da General Electric.

Cumpriu depois contrato em New York e New Orleans, e em Hollywood chegou a ser convidada para participar, com Silene, de um filme da RKO, no qual trabalharia ao lado da orquestra de Rudy Vallee, mas recusou, por não querer apresentar-se cantando.

De volta ao Brasil em 1939, excursionou com Silene por todo o país, com exceção de Mato Grosso e Rio Grande do Sul. Com o casamento da filha, resolveu encerrar a carreira, apresentando-se uma única vez no Teatro Municipal, do Rio de Janeiro, e passando a morar, primeiro, em Marília SP e, depois, em Goiânia.

Anos depois, em casa de sua filha em Goiânia, ficou conhecendo a cantora Carmélia Alves, que se entusiasmou ao ouvi-la tocar valsas e choros, revivendo uma escola tradicional da música popular brasileira, a de Pixinguinha, Ernesto Nazareth e Anacleto de Medeiros. Convencida pela cantora, voltou a se apresentar, depois de 17 anos, no Rio de Janeiro e em São Paulo, já com o nome de Tia Amélia e um repertório de chorinhos de sua autoria.

Trabalhou na Rádio Nacional, no Clube da Chave e em outros clubes cariocas, e em São Paulo atuou durante três meses na TV Record, TV Tupi e TV Paulista (hoje Globo). Viajou, em seguida, para Pernambuco trabalhando nas rádios Clube de Pernambuco e Jornal do Comércio, de Recife.

O seu grande sucesso, entretanto, foi o programa Velhas Estampas, que manteve durante 14 meses na TV-Rio, no qual, além de tocar piano e apresentar suas composições, contava histórias dos velhos tempos de sua juventude. A convite da Odeon gravou o LP Velhas estampas, interpretando ao piano diversas composições de sua autoria, entre elas os chorinhos Dois namorados, Chora, coração, Sem nome, Bordões ao luar (nome escolhido pelo poeta Vinícius de Moraes), Sorriso de Bueno e algumas valsas, acompanhada pela Banda Vila Rica.

Com esse disco, grande sucesso de vendagem, recebeu o prêmio de melhor solista e compositora do ano. Lançou depois novo LP pela Odeon, Musicas da vovó no piano da titia, e em julho de 1960 foi contratada pela TV Tupi, do Rio de Janeiro, para fazer um retrospecto da época áurea do choro brasileiro, semelhante ao que já fizera no programa Velhas Estampas.

Continuou atuante, e sua última gravação foi À benção, Tia Amélia, na Marcus Pereira, em 1980, quando já contava 83 anos de vida.


Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora e Publifolha, SP, 1998.

terça-feira, 31 de outubro de 2006

Nelson Ferreira


Nelson Ferreira (Nelson Heráclito Alves Ferreira), o Moreno Bom, nasceu em 9/12/1902 na cidade de Bonito, PE, filho de vendedor de jóias e violonista amador e de professora primária. Aprendeu violão, piano e violino e já aos 14 anos compôs sua primeira música, a valsa Vitória, a pedido da Companhia de Seguros Vitalícia Pernambucana. Daí em diante mais valsas, foxes, tangos, canções, vindo a especializar-se no frevo.


Ainda jovem tocou em pensões alegres, cafés, saraus e nos famosos cinemas Royal e Moderno do Recife. Foi o pianista mais ouvido na época do cinema mudo. Nos primeiros anos do rádio foi convidado pelo pioneiro Oscar Moreira Pinto para ser o diretor-artístico da Rádio Clube de Pernambuco, onde, além de compor, fundou vários grupos e orquestras e apresentou os mais variados programas, atingindo, com o seu talento e versatilidade, todas as camadas sociais.

Formou a partir dos anos 40 uma Orquestra de Frevos, cuja fama extrapolou as fronteiras pernambucanas, conseguindo sucesso nacional. Também foi homem do disco, na função de diretor-artístico da Fábrica Rosenblit, selo Mocambo, instalada nos anos 50 no Recife, então a única gravadora fora do eixo São Paulo-Rio.

Seu sorriso aberto e franco, sua bondade, seu espírito nativo e criativo, valeram-lhe muitos amigos em todos os segmentos. Alguns até se tornariam seus parceiros musicais: Sebastião Lopes (o bom Sebastião), Ziul Matos, Aldemar Paiva e tantos outros famosos na radiofonia pernambucana. Compôs sete Evocações, apreciadas em todo o Brasil nas quais homenageou carnavalescos, velhos companheiros, jornalistas e imortais da poesia como Manuel Bandeira, e artistas da dimensão de Ataulfo Alves, Lamartine Babo, Francisco Alves, entre outros.

Nelson é um dos nordestinos que possui maior número de músicas gravadas dentro da discografia nacional, embora grande parte seja desconhecida do resto do Brasil. Sua produção, ao lado da de outros pernambucanos, como Raul e Edgar Morais, Zumba, Levino Ferreira, Irmãos Valença, Luiz Gonzaga e Capiba, e outros mais, é de importância enorme no estudo das manifestações músico-sócio-culturais da região.

Teve sua primeira música gravada, em ritmo de samba, Borboleta não é ave, no Odeon 122.381, pelo Grupo do Pimentel, concomitantemente pelo cantor Bahiano, no Odeon 122.384, como marcha, ambos os registros para o Carnaval de 1923.

No final dos anos 20 suas músicas são constantemente gravadas no Sul pelos artistas mais famosos: Francisco Alves, Almirante, Carlos Galhardo, Araci de Almeida, Joel e Gaúcho, Augusto Calheiros, Minona Carneiro, e, nos anos seguintes, por Dircinha Batista, Nelson Gonçalves, várias orquestras, além de intérpretes pernambucanos do maior valor, no Recife, como Claudionor Germano e Expedito Baracho.

Sua importância como autor vai além dos frevos, já que compôs valsas tão aplaudidas na região quanto as vienenses, que lhe valeram do escritor Nilo Pereira estas palavras: “Feiticeiro do piano, fixador dum tempo que as suas valsas revivem como se estivessem falando. Se meia-hora antes de sair o meu enterro tocarem as valsas de Nelson, velhas valsas tão íntimas do meu mundo, irei em paz, sonhando.”

Sua projeção nacional evidenciou-se de forma efetiva em 1957 através de sua Evocação nr. 1, frevo de bloco sucesso no Carnaval de todo o país, no qual resgata com saudade momentos inesquecíveis do Carnaval do Recife: “Felinto, Pedro Salgado/Guilherme Fenelon/Cadê seus blocos famosos?...”

A Mocambo, em 1973, resgatou em 4 LPs uma produção de 50 anos do querido maestro, abrangendo valsas e frevos de rua, de bloco e canção, coletânea documental que é um retrato da própria história sócio-cultural de Pernambuco. Em sua extraordinária obra, Nelson fez adivinhações, brincou de Boca de Forno, de Coelho Sai, fez evocações, cantou a sua Veneza Americana e seus tipos populares, registrou a Revolução de 30 e a Segunda Guerra Mundial, os momentos românticos, alegres e tristes, disse da natureza humana, da tradição e dos costumes de sua gente.

Antes de falecer fez questão de demonstrar a enorme gratidão que sentia pela cidade que o fez seu cidadão. “Olhar meu Recife/Amar a sua gente/Que a graça da bondade sempre me concedeu/Vivendo um mundo assim/De ternura e de beleza/Quanto é bom envelhecer/Assim como eu”. Ainda em vida foi homenageado por governadores, prefeitos, clubes e entidades, tendo recebido a condecoração presidencial de Oficial da Ordem do Rio Branco.

Casado desde 1926 com D. Aurora, sua musa inspiradora durante toda a vida, confessava que os maiores orgulhos de sua vida eram ser pernambucano e poder despertar para Aurora. Foram anos e anos de doce felicidade com o filho e depois os netos no antigo casarão da avenida Mário Melo, onde se encontra a praça Nelson Ferreira com seu busto.

Veio falecer em 21.12.1976, com 74 anos. Foi velado na Câmara Municipal e fez o itinerário em direção á última morada nos braços do povo e ao som dos seus frevos e evocações. O maestro Vicenti Fittipaldi declarou de certa feita: “Ele era como Mário Melo, Ascenso Ferreira, Valdemar de Oliveira, uma das instituições da cidade. Era, com sua música, aquilo que Garrincha foi com o seu futebol, a alegria do povo. Tenho plena convicção de que daqui a duzentos anos Gostosão e a Evocação serão tocados e cantados pela gente do Recife. Não serão mais de Nelson Ferreira, serão folclore, serão como Casinha Pequenina, Prenda Minha e o Meu Limão, Meu Limoeiro, que, sem dúvida, também tiveram um autor”.

Quando seus olhos se cerraram pela última vez, escreveu Gilberto Freyre no Diário de Pernambuco: “O vazio que deixa é o que nos faz ver como era grande pela sua música, pelo seu sorriso, pela sua fidalguia de pernambucano.”


Fonte: Renato Phaelante da Câmara

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Frevo nº 2 do Recife

Antônio Maria
Frevo nº 2 do Recife (frevo, 1951) - Antônio Maria - Intérprete: Maria Bethânia

LP Maria Bethânia / Título: Frevo nº 2 do Recife / Antônio Maria (Compositor) / Maria Bethânia (Intérprete) / Gravadora: Odeon / Ano: 1969 / Nº Álbum: MOFB 3577 / Lado B / Faixa 1 / Gênero musical: Frevo.



Ai, ai, saudade
Saudade tão grande
Saudade que eu sinto
Do Clube dos Pás, dos Vassouras
Passistas traçando tesouras
Nas ruas repletos de lá
Batidas de bumbo
São maracatus retardados '
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes pro ar
Quando eu me lembro
O Recife tá longe
A saudade é tão grande
Eu até me embaraço
Parece que eu vejo
O Haroldo Matias no passo
Valfrido e Cebola, Colasso
Recife tá perto de mim
Saudade que eu tenho

São maracatus retardados
Que voltam pra casa cansados
Com seus estandartes pro ar

sábado, 29 de julho de 2006

Chuva, suor e cerveja

Este frevo é a segunda incursão bem-sucedida de Caetano Veloso na área da música carnavalesca, praticamente abandonada pelos grandes compositores a exceção de baianos (como Moraes Moreira e Luís Caldas) e pernambucanos (Alceu Valença, Carlos Fernando).

Na esteira de “Atrás do Trio Elétrico”, Caetano volta a utilizar aqui dois expedientes em que é mestre: as atropeladas de letra, ou seja, a aceleração no ritmo de emissão de determinadas palavras para que possam caber na frase musical (como no verso “eu acabo de perder a cabeça”) e a capacidade de usar a prosódia para provocar síncopes, que podem confundir ouvintes e até cantores menos atentos: “Acho que a chuva ajuda a gente a se ver / venha, veja, deixa, beija / seja o que Deus quiser...”

Em ambas as situações o efeito rítmico é instigante e, como foi dito, constitui uma atração a mais na obra de Caetano. “Chuva, Suor e Cerveja” foi lançada em dezembro de 71 num compacto duplo intitulado 'O carnaval de Caetano".

Este disco, de acompanhamento modesto, mas competente, inclui ainda “Barão Beleza” (de Tuzé de Abreu), “Pula-Pula” (de Macalé e Capinan), “Qual É Baiana?” e “La Barca”, sendo as duas últimas de Caetano em parceria com Moacir Albuquerque (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Chuva, Suor e Cerveja (frevo, 1972) - Caetano Veloso - Intérprete: Caetano Veloso

Compacto duplo: O Carnaval De Caetano (Gravado em Londres, novembro/1971) / Título da música: Chuva, Suor e Cerveja / Caetano Veloso (Compositor) / Caetano Veloso (Intérprete) / Gravadora: Philips / Ano: 1971 / Nº Álbum: 6245 006 / Lado A / Faixa 1 / Gênero musical: Frevo.

Int.: E7+ A/B E7+ B7/13
               
                  E7+
Não se perca de mim
 A/B              E7+
Não se esqueça de mim 
C#m7      F#m  C#7/9-
Não desapareça 
F#m C#7/9-      F#m
A chuva tá caindo 
 C#7/9-           F#m
E quando a chuva começa 
    B7/13              E7+  A/B E7+
Eu acabo perdendo a cabeça 
    A7+          E7+
Não saia do meu lado 
 A/B           E7+
Segure o meu pierrot molhado 
D/E E7/9-  A7+             A#º E
E vamos embolar ladeira abaixo 
   C#m7         F#m     B7/13    D/E E7/9-
Acho que a chuva ajuda a gente a se ver 
 A7+    A#º         C#m7   F#m
Venha, veja, deixa, beija, seja 
      B7/13  E
O que Deus quiser

A gente se embala, se embora, se embola
Só pára na porta da igreja

A gente se olha, Se beija, se molha
De chuva suor e cerveja

sexta-feira, 21 de julho de 2006

Frevo diabo


Frevo Diabo (1988) - Edu Lobo e Chico Buarque - Intérprete: Gal Costa

Dança Da Meia-Lua - Trilha Sonora do Ballet Guaíra - Chico Buarque e Edu Lobo / Título da música: Frevo Diabo / Edu Lobo (Compositor) / Chico Buarque (Compositor) / Gal Gosta (Intérprete) / Grupo Pau Brasil (Partic.) / Gravadora: Som Livre / Ano: 1988 / Nº Álbum: 406.0022 / Lado A / Faixa 4 / Gênero musical: Frevo.


Tom: G7+

G7M  F#m7(9)      F7(9)
É bom, é            brabo
E7(b9)   A7/4(9) A7(13)
É o frevo  diabo  no corpo
D7/4(9) D7(9)
Torto   corpo
G7M          D7(9)
Pára mais não

        G7M  C7M    C#m7(b5)    F#7(b9)   Bm(7M)  Bm7
Fogo no rabo de qualquer        cris......tão
C#m7(b5)     F#7
Solta o frevo      diabo
Am7           D7(9)
E adeus procissão

 G7M    F#m7(9)   F7(9)  E7(b9) A7/4(9)   A7(13)
Pelo     sinal         da Santa  Cruz pandemônio
D7/4(9) D7(9)    G7/4(9) G7(13)
No  dia da  padroei......ra
C#º              Bm7   E7(9)
Não tem romeira, tem são morenas
A7(13)   Eb7(9)   D7/4(9)  D7(9)  G7M       G6
Não tem nove.............nas       diabo, a gente é feliz

    G9     C#º                 B7(13)  F7(9)  E7/4(9)
Não tem sermão, tem não, tem orquestra
E7(b9) A7(13)  Eb7(9) D7/4(9)
E cana e briga e fogo e festa
D7(9) G7M   G6
Na  matriz
F#m7(b5)         B7(b9) F7(#11)  Em(7M)
É o barro, é o berro na  gargan............ta
Bb7(#11) Am7        D7(9)       G7/4(9)  G7(b9)
Olha a ginga da santa, devagar com o andor

    C#º                     Bm7
Meu corpo já não sabe o que faz
E7/4(9) E7(9)      A7(13)
Santanás diz     para parar
Eb7(9)     D7/4(9)
Que eu não posso mais
D7(9)       B7(13)
Diz     para parar
F7(9)       E7/4(9)
Faz um pouco mais
E7(b9)   A7(13) Eb7(9)
Faz o      diabo
D7/4(9)           D7(9)      G7M
Hoje é que eu me acabo meu irmão

sexta-feira, 12 de maio de 2006

Evocação

Frevo por Heitor dos Prazeres, sem data , óleo sobre tela  (MARGS).

Contrariando a opinião de alguns puristas, pode-se dizer que existem três tipos de frevo: o frevo-de-rua, inteiramente instrumental; o frevo-canção, com introdução instrumental, vibrante, sincopada, e duas partes cantadas; e o frevo-de-bloco, de forma idêntica à do frevo-canção, porém de andamento mais lento. A diferença entre os dois últimos corresponde, digamos, à diferença entre a marchinha e a marcha-rancho.

Pertence à terceira categoria a bela composição "Evocação", em que Nelson Ferreira recorda velhos carnavais recifenses, citando nominalmente agremiações (Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos) e personagens lendários (Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon) da história do frevo.

Lançado sem maiores pretensões pela gravadora pernambucana Mocambo, com o pessoal do bloco Batutas de São José, "Evocação" se tornaria o maior sucesso do Carnaval de 1957, sobrepujando a produção do eixo Rio-São Paulo. Tal fato animaria Nelson Ferreira a compor nos anos seguintes uma alentada série de "evocações" - Evocação n° 2, Evocação n° 3 etc.

Evocação (frevo-de-bloco /carnaval, 1957) - Nelson Ferreira - Intérprete: Batutas de São José

Disco 78 rpm / Título da música: Evocação / Ferreira, Nelson (Compositor) / Bloco Carnavalesco Batutas de São José (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Mocambo, 1956 / Nº Álbum 15142 / Gênero musical: Frevo.



Filinto... Pedro Salgado...
Guilherme... Fenelon...
Cadê seus blocos famosos ?
Bloco das Flores... Andaluzas...
Pirilampos... Apois Fun...
Dos carnavais saudosos ?

A alta madrugada,
O coro entoava,
Do Bloco a Marcha Regresso,
Que era o sucesso,
Dos tempos ideais,
Do velho Raul Morais,
Adeus, adeus, minha gente,
Que já cantamos bastante,
E Recife adormecia,
Ficava a sonhar,
Ao som, da triste melodia.