quinta-feira, 9 de março de 2006

Anacleto de Medeiros

Anacleto Augusto de Medeiros, compositor, regente e instrum. nasceu em Paquetá RJ em 13/7/1866 e faleceu em 14/8/1907. Nascido na antiga Rua dos Muros, filho de uma escrava liberta, foi batizado com o nome do santo do dia. Aos nove anos ingressou na Companhia de Menores do Arsenal de Guerra (Rio de Janeiro RJ) e iniciou-se no aprendizado da música, tocando flautim na banda do Arsenal, dirigida por Antônio dos Santos Bocót.

Em 1884 entrou para a Imprensa Nacional (então Tipografia Nacional), como aprendiz de tipógrafo, e matriculou-se no Conservatório de Música, onde foi contemporâneo de Francisco Braga.

Na Tipografia, organizou o Clube Musical Guttemberg, integrado por meninos operários. Quando se formou no Conservatório, em 1886, executava vários instrumentos de sopro, mas preferia o sax-soprano. Com alguns músicos da extinta banda de Paquetá, fundou a banda da Sociedade Recreio Musical Paquetaense, compondo para esse conjunto algumas obras sacras, executadas sobretudo em festas, nas igrejas da ilha.

Por volta de 1887, começou a ser mais constante como compositor, lançando principalmente polcas, valsas e xótis. Muitas dessas composições alcançaram grande popularidade e eram executadas por bandas em todo 0 Brasil. Uma das mais célebres foi o xote Iara, que mais tarde recebeu versos de Catulo da Paixão Cearense e foi editado em 1912, com o nome de Rasga o coração, tendo sido aproveitado por Villa-Lobos como tema de seus Choros n° 10. Foi mestre e organizador de várias bandas, como a da Fábrica de Tecidos Bangu, a da Fábrica de Tecidos de Macacos (depois Paracambi) e a de Piedade (Magé).

Em 1896, compôs o dobrado Jubileu, para a Exposição Internacional do Rio de Janeiro. Nesse mesmo ano, já bastante conhecido como regente e compositor, foi convidado a organizar a Banda do Corpo de Bombeiros, do Rio de Janeiro, para a qual levou alguns elementos da Sociedade Recreio Musical Paquetaense e antigos colegas do Arsenal de Guerra, além de músicos de choro. A Banda do Corpo de Bombeiros ficou famosa sob sua direção, tendo gravado alguns dos primeiros discos impressos no Brasil, a partir de 1902. Chegou ao posto de primeiro-tenente da Guarda Nacional.

Em 1935, por iniciativa do pintor e escultor Pedro Bruno, uma das ruas da ilha recebeu o nome de Maestro Anacleto, homenagem a um dos maiores compositores populares de sua época.

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora

Maestro violento e caprichoso?

"Anacleto de Medeiros. Nasceu na ilha de Paquetá e morava na Rua da Ajuda com o inesquecível humorista Moreira da Imprensa Nacional, muito conhecido dos chorões daquele tempo pela sua verve espiritual. Era o maestro que aproveitava as melodias dos pássaros, dos apitos das fábricas, das cornetas dos tripeiros, do badalar dos sinos, dos toques das buzinas, dos automóveis, do trinar dos apitos dos guardas-noturnos, e de tudo que formasse uma nota boa ou semitonada. Por ele eram todos esses ritmos aproveitados para as suas sublimes composições.

Anacleto, foi um grande lecionador de música, assim como um mestre de muitas bandas particulares deixando muitos discípulos que fizeram honra aos seus dotes de professor exímio. Como mestre da Banda do Corpo de Bombeiros ele imortalizou-se, com a sua inteligência e devotamento, trabalhou corrigindo, modelando e aperfeiçoando, todos os seus comandados com a magia de uma grande vara usada por ele nos ensaios a guisa de batuta que fazia os seus alunos obedecerem. Como maestro ensaiador transformou a Banda do Corpo de Bombeiros em um conjunto de músicos professores que o respeitavam e o obedeciam, na maior rispidez de suas energias, pois Anacleto era um diretor de música caprichoso e violento.

Porém, quando não tinha na mão a batuta era um cordeiro de mansidão. Era uma pomba sem fel e um sincero amigo dos seus subordinados. Privando com eles na maior intimidade no mesmo nível de igualdade os acompanhando para o choro onde sobressaía com um inigualável executor no seu saxofone que era o seu instrumento predileto. Os choros organizados por Anacleto faziam falar os mudos e movimentava os paralíticos, desatinava a mocidade e trazia a juventude nos corações dos velhos. As competições musicais de Anacleto são conquistadas e admiradas por todos os chorões, composições estas que deixo de enumerá-las aqui por serem todas elas conhecidas pelos chorões da velha guarda."

O Choro - Reminiscências dos chorões antigos - Rio de Janeiro, 1936 (Alexandre Gonçalves Pinto)

Obras

No levantamento feito pelo Professor Catedrático Baptista Siqueira da Escola Nacional de Música da UFRJ, autor do livro “Três vultos históricos da Música Brasileira (Mesquita, Callado e Anacleto)” editado em 1970 sob o patrocínio do MEC, é a seguinte relação das músicas do Maestro Anacleto:

A Fuga dos anjos (canto); Acorde – Escute (polca); Açucena – 1890; Aí eu caí (valsa); Amar Sonhando (polca); Andorinha (valsa), 1890; Arariboia (passo dobrado); Ave-Maria (obra sacra); Avenida (passo dobrado), 1905; Baile (quadrilha), 1890; Benzinho (schottish – letra de Catulo); Bolero; Bouquet (polca de concerto - sólo de trompete); Brasil – Portugal (polca); Cabeça de porco (polca); Café Avenida (tango); Capricho (tango); Carícia de Amor (schottish); Carolina (polca), 1896; Casa de Cômodos; Caprichosa (polca - manuscrito); Carnaval de 1905 (polca); Catutinha (polca); Como eu quisera morrer! (passo dobrado); Conde de Santo Agostinho (marcha); Deliciosa (quadrilha); Despedida (valsa – Catulo fez uma polca para essa valsa); Dulce (valsa), 1896; Em ti pensando (polca - manuscrito); Enigmática (polca - choro); Esperança (quadrilha); Está se corando (polca), 1891; Eulália ( polca); Faceira (quadrilha); Fadário (polca - Medrosa); Farrula (valsa); Fluminense (quadrilha); Fuga dos Anjos (letra de Arlindo Pinheiro Bastos); Graciosa (valsa); Implorando (schottish – letra de Catulo); Jubileu (passo dobrado), 1906; Juracy (polca – manuscrito); Louco de amor (schottish); Lydia (polca); Marcha Fúnebre nº 1; Marcha Fúnebre nº 2; Melosa (polca); Medrosa (polca – Letra de Catulo); Miguelina (quadrilha); Missa, 1896; Misterioso (passo dobrado); Morrer sonhando (polca); Na volta do Correio (passo dobrado); Não me olhes assim (schottish), 1899; Nenezinha (polca); Noites de Inverno (romance para cornetim); Noites de inverno (schottish); Núpcias (valsa); Oh! Não fujas (habaneiras); Olhos matadores (schottish - Poesia de Catulo); Os Boêmios (tango - Poesia de Catulo), 1901; Pavilhão Brasileiro (passo dobrado); Perpétua (mazurka); Por um beijo – (Terna saudade); Preciosa (quadrilha); Predileta (valsa - editado em 15/04/1901 – poesia de Catulo); Primavera (romance para clarinete – sólo); Que tu és (polca – poesia de Catulo); Queimou a luz (polca); Quem comeu a vaca ?; Qui – pro – quó (polca), 1901; Salutaris; Pinheiro Freire (marcha); Radiante (polca); Rainha dos Gênios (valsa); Santinha (schottish); Segredo do Coração (quadrilha); Sentida (polca); Sentinela (schottish); Silenciosa (quadrilha); Tatá (polca); Te Deum, 1896; Terna saudade (valsa); Teu olhar (schottish); Três Estrelinhas; Triunfo do Brasil (encontrado no interior de Minas); Urso (polca - dedicada ao amigo Frederico Bischof); 28 de Fevereiro (fantasia); Vou Contigo (polca); Yara (schottish – edição 1916).

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