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Joubert de Carvalho

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Joubert de Carvalho


Um dos treze filhos do fazendeiro Tobias de Carvalho e de Dona Francisca Gontijo de Carvalho, Joubert de Carvalho nasceu em Uberaba, Minas Gerais, no dia 06 de março de 1900. Tinha nove anos quando o pai comprou um piano, onde Joubert passou a tocar, de ouvido, os dobrados que ouvia na banda local.
Aos doze anos, tendo terminado o curso primário em Uberaba, Joubert mudou-se com a família para São Paulo, motivados pela preocupação do pai com a educação e formação dos filhos, que foram estudar no Ginásio São Bento. A primeira composição de Joubert, a valsa Cruz Vermelha, foi inspirada no hospital infantil do mesmo nome, que havia em São Paulo, e cujas primeiras notas haviam sido tiradas no piano da infância.
O pai permitiu a Joubert que vendesse as partituras, desde que o dinheiro revertesse em benefício do Hospital Cruz Vermelha. O relativo sucesso alcançado pela música animou Joubert a compor outras peças, que entregava à casa editora Compassi & Camin, com autorização de seu pai, desde que o pagamento se resumisse a alguns exemplares para Joubert distribuir aos amigos. Durante o curso ginasial Joubert foi se familiarizando com os clássicos, na casa de uma tia pianista.
Em 1919 Joubert foi para o Rio de Janeiro, onde o ensino era de melhor nível e, em 1920, entrou para a Faculdade de Medicina. Com uma mesada de 500 mil réis, Joubert continuava a compor e, durante uma de suas visitas a São Paulo, o editor fez novos pedidos, com a oferta de 600 mil réis mensais. Como o filho havia obtido êxito nos exames, o velho Tobias não só se rendeu, como manteve a mesada, propiciando ao jovem Joubert uma vida de estudante rico, que podia até mesmo morar em hotel.
Nessa época, influenciado por ritmos estrangeiros, Joubert compôs diversos tangos, como Cinco de Janeiro, dedicado ao sanitarista Osvaldo Cruz. Sua primeira composição gravada foi a canção Noivos, lançada em 1921. Mas seu primeiro grande sucesso viria em 1922 com O príncipe, composta por inspiração da chuva e que seria sua primeira composição gravada no exterior, em 1931. No ano seguinte, 1923, compôs o tango 'argentino' Lindos olhos.
Em 1924 Joubert compôs os sambas O jacaré e Não sou pamonha, os foxes Lira quebrada e Vieni a me, as marchas A nova Itália, Revelação e Vira a casaca, os tangos Pressentimento e Sonhos mortos e o maxixe Viva o coronel e, ainda, em parceria com Zirlá, compôs Aventureiro, Encanto de mulher e Tango venenoso e, em parceria com Zael, compôs O galo preto.
Em 1925 Joubert se formou em Medicina, com a tese intitulada "Sopros musicais do coração", tendo sido aprovado com distinção, embora o título da tese beirasse à pilhéria. Sabendo equacionar perfeitamente as atividades de médico e de músico, Joubert continuava a compor. Desse ano são suas composições Luxo asiático e Vem meu benzinho.
Em 1926, em parceria com Sadi Fonseca, Joubert compôs o maxixe Arrepiado e o tango Canção dos mares e, com Zael, compôs o maxixe Jaquetão. Ainda desse ano são as composições Manequinho, Mãos de neve, Pobrezinho, Prisioneiro do amor e Agonia, esta gravada por Pedro Celestino, irmão de Vicente Celestino.
Em 1927 Joubert casou-se com Elza Faria, que lhe daria o filho Fernando Antonio. Desse mesmo ano são suas composições Bigodinho, Boca pintada, Canarinho, Eu gosto de você, Juriti, Mal aventurado, Nhá Maria, Rio de Janeiro, Rolinha, Sabiá mimoso, Os teus olhos, Traição, As Valentinas e Viva Jaú.
Em 1928 Joubert musicou dois poemas de Olegário Mariano, Cai, cai balão e Tutu Marambá, dando início a uma parceria de mais de vinte músicas. Também de 1928 são as composições de Joubert de Carvalho Aquele cantinho, Caboquinha, O carinho de meu bem, A casinha do meu bem, Castelo de luar, Os dois caminhos, Os filhos da Candinha, O pardal, Saci-Pererê, Sombrinha azul e Um sorriso e um olhar, a maioria delas gravadas por Gastão Formenti.
Embora as composições de Joubert de Carvalho já viessem sendo gravadas por cantores de destaque na época, como Gastão Formenti e Francisco Alves, a novata Carmen Miranda é que foi a responsável pelo grande sucesso de Ta-hi, lançado em 1930 com o título "Prá você gostar de mim", que alcançou uma vendagem de 35.000 discos, numa época em que os grandes cantores vendiam, no máximo, até 1.000 discos.
Ainda em 1930 Joubert compôs Dá-se um jeitinho, É com você que eu queria, Escrita errada, Esta vida é muito engraçada, Gostinho diferente, Kalatan, Neguinho, Pelo teu pecado, Saudade danada, Vai recolher, Vestidinho novo e Vou recolher e, ainda, em parceria com M. Fonseca, compôs Cadeirinha; com Ana Amélia Carneiro de Mendonça, com os Canção do estudante e Tarde dourada; com Olegário Mariano, Loiras e morenas e com Gastão Penalva, Para o amor.
Em 1931, em parceria com Pascoal Carlos Magno, Joubert compôs Pierrô, um de seus maiores êxitos e que foi interpretado por Jorge Fernandes, na peça teatral de mesmo nome, de autoria de Pascoal Carlos Magno. Ainda, neste ano, compôs Amor, amor, Eu sou do barulho, Não me perguntes, Napoleão, Quero ficar mais um pouquinho, Quero ver você chorar, Se não me tens amor, Tem gente aí, Venenoso, História de uma flor, Monte Carlo; com Paulo Roberto, compôs a marcha Foi ... foi ela; com Criso Fontes, o samba-canção Gostar de alguém; com Luiz de Góngora, a canção Por que choro; com Célia Benatti, a marcha Que m'importa; com Osvaldo Orico, a canção Se ela te oferecer um grande amor; com Luiz Gonzaga, o baião Trovas de amor; e, com Olegário Mariano, compôs Absolutamente, A carícia de um beijo, De papo pro á (em algumas fontes 'De papo pro ar')" e Zíngara. De papo pro á foi lançado, com sucesso, por Formenti, em 1931, e revivido por Inezita Barroso, em seu LP 'Canto da saudade'.
Em 1932 Joubert compôs Cabecinha de vento, Coisas de amor, É de trampolim, O gatinho, A glória de São Paulo, Lenita e Lição de Cristo; e, ainda, em parceria com Osvaldo Orico, compôs Horas de amor; com Luiz Martins, O índio do Corcovado; com J. Távora, Teus olhos... o outono; com Olegário Mariano, compôs Beduíno, Caboclinho, Galanteria e Se você quer e com Cleómenes Campos, compôs Dor.
Mas o grande êxito de Joubert em 1932 foi a canção Maringá que, gravada por Gastão Formenti, fez sucesso também no exterior, rendendo direitos autorais a Joubert durante muito tempo. Como Joubert queria um lugar de médico dos Marítimos e, sendo amigo do ministro da Viação, José Américo de Almeida, fez, para agradá-lo, já que este era nordestino, a música "Maringá", que surgiu de 'Maria do Ingá'; Ingá era um município do nordeste, onde a seca havia sido mais rigorosa. "Maringá" era cantada por operários que construíam uma nova cidade no norte do Paraná e que, ao ser fundada oficialmente em 1947, recebeu o nome de Maringá. A canção "Maringá" é considerada uma das mais expressivas
Em 1933 Joubert foi nomeado médico do Instituto dos Marítimos, onde fez carreira, chegando a ser diretor do hospital. Mas não deixou de compor e, nesse mesmo ano, surgiram as músicas Coisinha boa, melhor que há no mundo, Devolve os meus beijos, Estilizada, Ficou um beijo em minha boca, Flor que ninguém colheu, Foi você mesmo, Há nos teus olhos... um luar, Lágrimas de Pierrô, Marilena, Melhor amor, Meu amor chegou, Olá, Que bom que estava, Redenção e Sossega o teu corpo, sossega e, ainda, Arlequim, em parceria com Fortes Malta; Boca bonita, com Narbal Fontes; De madrugada, com Catulo da Paixão Cearense; A doce palidez de Maria, com A. Freitas; Bom dia, meu amor, Canção do abandono, Felicidade e Moreninha brasileira, com Olegário Mariano; C'est toi, l'amour e N'aimez que moi, com Maria Eugênia Celso; Eta caboclo mau e Garota errada, com Luiz Martins; Felicidade... é quase nada e Se um dia pudesse, com Gilberto de Andrade; A lenda das rosas vermelhas e Moleque sarará, com Murilo Fontes; e Tabuada, com Adelmar Tavares.
De 1934 são as composições de Joubert de Carvalho Deixa-me beber, Eu quero te dar um beijo, Um pouquinho de amor, Sapatinho da vida, Uma vezinha só e, também, Pela primeira vez. Em 1940 Joubert compôs as valsas Ainda hei de te beijar, Maria, Maria, Por quanto tempo ainda e Rosi e o fox-canção Em pleno luar. Maria, Maria e Em pleno luar foram gravadas por Orlando Silva, com grande sucesso. No ano de 1941 traz a marcha de Joubert de Carvalho, Avante, companheiros.
De 1943 são suas valsas Ninguém esquece..., A vida é um sonho e Visão de outro amor. O ano de 1946 foi o de maior sucesso para Joubert: Gilberto Milfont lançou a canção Geremoabo e Sílvio Caldas gravou a canção Minha casa e a valsa Nunca soubeste amar. Minha casa foi um dos últimos grandes sucessos de Joubert de Carvalho. O romântico seresteiro ainda lançaria outras composições, mas nenhum de seus trabalhos posteriores alcançou a projeção popular de Minha casa. Em 1948 Joubert compôs a valsa Noite de estrelas; em 1949, em parceria com R. C. Lisboa, compôs a canção Reminiscência; em 1950, compôs Flor de esperança, Gostoso e Picadinho; em 1951, Baía da Guanabara, É carinho que falta, Felicidade... e nada mais, Um grande amor, Paris, Paris, Sabe lá o que é isso e Quando se vai o amor, esta última em parceria com T. Malta.
Em 1952 Joubert compôs Festa de formatura, Flamboyant, Fogueira, Mamãe Dolores, No tempo da valsa e Perto da lareira e, ainda, em parceria com David Nasser, compôs o bolero Silêncio do cantor, que era uma homenagem ao cantor Francisco Alves, morto nesse ano, em acidente automobilístico. Em 1953, com Adelmar Tavares, Joubert compôs Olha-me bem nos olhos. Ainda nesse ano compôs Mande um beijo, Quando eu partir, Tes yeux, A vida por um beijo e Feliz aniversário, com a qual venceu um concurso, sendo gravada por Neide Fraga.
De 1954 são as composições Apresse o passo, Dia feliz, Marcha das bandeiras, Viva São Paulo e Voltei, voltei. No período de 1955 a 1960, Joubert de Carvalho passou a dedicar-se a estudos filosóficos, não publicando nada e produzindo apenas para uso interno. Em 1959, foi homenageado pelo povo de Maringá, que deu seu nome a uma das ruas da cidade. Em 1961 Joubert compôs Hino ao Presidente e Marcha da vitória. Em 1962 o cantor Carlos Galhardo lançou novas composições de Joubert de Carvalho: O amor e o sol, Florista, Mundos afora, O tempo que ficou e Desde sempre, esta em parceria com Mário Rossi. De 1969 são suas composições Além da vida e Esta noite não e, ainda, Fragrância, em parceria com Mário Rossi e Sol na estrada, com I. Maria.
Em 1970, participou do V Festival Internacional da Canção da TV Globo, com a valsa A flor e a vida, composta em parceria com Ieda Fonseca, não conseguindo classificação. Pouco depois, venceu, com a mesma composição, interpretada por Antonio João, o Festival Brasileiro de Seresta. Em 1971 Joubert compôs O Rio é Carnaval; em 1972, A cidade que nasceu de uma canção e Hora de despedida; e, em 1973, A voz e o violão.
Joubert de Carvalho nunca bebeu, nunca foi boêmio; bares e botequins jamais o atraíram. Homem culto e refinado, chegou também a escrever um romance: Espírito e sexo, que se aproxima do ensaio social. Como médico, também foi muito talentoso e um dos pioneiros no Brasil em Medicina Psicossomática. Autor de mais de setecentas composições editadas, no final da vida Joubert se afastou do mundo musical, pois os novos estilos surgidos deixaram pouco espaço ao romantismo do seresteiro que, de certa forma, ele foi. Joubert de Carvalho morreu no dia 20 de setembro de 1977, vítima de pneumonia, deixando importante legado para a Música Popular Brasileira.
Algumas letras e cifras:
A flor e a vida, De papo pro á, Dor, Em pleno luar, Geremoabo, Hula, Juriti, Lembro-me ainda, Maria, Maria, Maringá, Minha casa, Não me abandones nunca, Nunca soubeste amar, Pierrot, Por quanto tempo ainda, Silêncio do cantor, Ta-hi, Tutu Marambá, Zíngara.
fonte: memórias da mpb - Samira Prioli Jayme

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Henrique Vogeler

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Henrique Vogeler, compositor, instrumentista e regente, nasceu no Rio de Janeiro RJ em 11/6/1888 e faleceu em 9/5/1944. Nascido no bairro do Catumbi, de pai alemão e mãe brasileira, iniciou-se no piano com pouco mais de cinco anos, assistindo às aulas de música do irmão Jorge, pai de Jaime Vogeler, cantor da década de 1930.
Estudou no Colégio São Bento e em seguida no Colégio Universitário, mas foi obrigado a abandoná-lo por problemas financeiros. Empregado na Estrada de Ferro Central do Brasil, começou a compor para um teatro de amadores organizado por um colega de trabalho. Ocasionalmente, tocou piano na sala de espera do Cinema Odeon, substituindo Ernesto Nazareth, pianista da casa. Cursou o Conservatório Nacional de Música. Concluídos os estudos musicais, a partir de 1919 lançou-se profissionalmente, compondo para os teatros de revista da Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro.
De suas contribuições ao teatro musicado (1919-1942), destacou-se a partitura para a revista-opereta A canção brasileira, estreada em março de 1933 no Teatro Recreio, que alcançaria 300 representações consecutivas. O seu samba-canção Linda flor, também conhecido em versões com os títulos de Meiga flor e Iaiá ou Ai, Ioiô (com Luiz Peixoto), transformou-se em sucesso após sua gravação por Araci Cortes, em 1929, na Parlophon. A partir do ano seguinte, atuou como diretor artístico das gravadoras Brunswick e Odeon.
Em 1930, como pianista da Odeon, acompanhou várias gravações do cantor Gastão Formenti. Além de compor partituras para revistas, produziu algumas peças de caráter musical mais cuidado, destacando-se seis músicas destinadas a um LP para distribuição no exterior; o disco incluía ainda seis composições de Ernesto Nazareth, interpretadas por ele, exímio pianista.
No inicio da década de 1940, quando organizava programas musicais para a Hora do Brasil, foi contratado por Villa-Lobos, como seu auxiliar direto no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, onde permaneceu até a morte.

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Homero Dornellas

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Homero Dornellas, compositor, instrumento e professor nasceu no Rio de Janeiro-RJ em 14/12/1901 e faleceu em 28/12/1990. Filho do maestro Sofonias Dornellas, estudou piano e teoria musical com o pai e uma tia, dos sete aos 14 anos. Em 1916 ingressou no I.N.M., do Rio de Janeiro, na classe de Frederico Nascimento, cursando teoria, solfejo e física acústica. Cinco anos depois, abandonou o piano para dedicar-se exclusivamente ao violoncelo, estudando com Eurico Costa. Foi também aluno de harmonia de Nevvton Pádua e Paulo Silva, e de composição de Lorenzo Fernandez.

Em 1923 passou a atuar como violoncelista em diversos conjuntos sinfônicos e camerísticos, como o da Sociedade de Concertos Sinfônicos, Orquestra Arcângelo Corelli e Orquestra do I.N.M. Paralelamente, tocava em cinemas, acompanhando filmes mudos, em teatros de revista, restaurantes, serviços religiosos e em circos, o que deu origem à sua ligação com a música popular.

Data de 1923 sua primeira composição, Parisete, feita em parceria com o pai, que usava o pseudônimo de Sallendor. Em 1926 passou a se dedicar a composições populares, escrevendo sambas, marchas carnavalescas e foxes, sendo, inclusive, convidado, dois anos depois, para supervisionar e revisar os trabalhos de orquestração, arranjo e harmonização de músicas para o Carnaval na Casa Vieira Machado.

Como compositor popular adotou o pseudônimo de Candoca da Anunciação, consagrando-se definitivamente em 1929 com o samba Na Pavuna (com Almirante), que foi grande sucesso no Carnaval de 1930. Lançado pela Parlophon com Almirante e o Bando de Tangarás, Na Pavuna foi o primeiro disco a reproduzir uma batucada, em estúdio, com instrumental de percussão semelhante ao usado nas ruas durante o Carnaval.

Três anos depois, a convite de Villa-Lobos, passou a trabalhar no SEMA, e em 1939 ingressou, por concurso, na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal, do Rio de Janeiro. Dois anos depois, licenciou-se dessa orquestra, transferindo-se para a Sinfônica Brasileira, a chamado de Eugen Szenkar, e em 1941 foi contratado como músico instrumentista da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. No ano seguinte foi nomeado professor de canto orfeônico e matérias teóricas do Colégio Pedro II.

Deixou o SEMA em 1959 e a Rádio Nacional cinco anos depois, parando de lecionar no Pedro II em 1972. Publicou Orquestras em desfile, Rio de Janeiro, 1974 (que dá relação nominal dos músicos que integraram os diversos conjuntos atuantes no Rio de Janeiro de 1894 a 1974). Em sua carreira, usou ainda dos pseudônimos Romeoh Sallendor, Sallendor Filho e My Self.

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Joraci Camargo

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Joraci Schafflär Camargo, teatrólogo e letrista, nasceu no Rio de Janeiro RJ em 18/10/1898 e faleceu em 11/3/1973. Começou no teatro amador em 1912, no Clube Vinte e Quatro de Maio, e mais tarde passou a escrever revistas, estreando com Me leva, meu bem, em colaboração com Pacheco Fialho.
Encerrou em 1927 sua carreira de ator, já profissional, no Teatro de Brinquedo, do Rio de Janeiro, que fundara nesse mesmo ano com Álvaro Moreira e outros. Ainda nesse ano formou-se em ciências jurídicas e comerciais e passou a escrever comédias de costumes, alcançando sucesso nacional em 1932 com Deus lhe pague. Em seguida, escreveu letras para composições de Hekel Tavares, com quem já trabalhara no teatro de revistas, entre as quais Favela, Guacyra e Leilão. Com Custódio Mesquita escreveu o choro Quem é?, gravado por Carmen Miranda, em 1937, na Odeon. Sua obra teatral é extensa.
Obras:
Favela (c/Hekel Tavares), 1933; Guacira (c/Hekel Tavares), 1933; Leilão (c/Hekel Tavares), 1933; Mamãe baiana (c/Xerém), toada-canção, 1964; Mulata brasileira (c/Hekel Tavares), 1944; Quem é? (c/Custódio Mesquita), choro, 1937.

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Hekel Tavares

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Hekel Tavares, compositor, regente e arranjador nasceu em Satuba AL (16/9/1896) e faleceu no Rio de Janeiro RJ (8/8/1969). Estudou piano com uma tia e, ainda criança, aprendeu harmônica e cavaquinho, já demonstrando grande interesse pelas manifestações populares. Foi para o Rio de Janeiro em 1921 e iniciou-se em orquestração com J. Otaviano. Ao lado de Valdemar Henrique, Marcelo Tupinambá e Henrique Vogeler, sob a influência nacionalista da Semana de Arte Moderna (1922), criou um tipo de música situado na fronteira do erudito e do popular.
Iniciou-se profissionalmente como compositor de teatro de revista, fazendo em 1926 a música para a peça carnavalesca Está na Hora, de Goulart de Andrade, levada no Teatro Glória. Ainda em 1926 apareceu regendo uma orquestra na revista Plus-ultra, no mesmo teatro. Sua primeira composição de sucesso foi Suçuarana (parceria com Luiz Peixoto), lançada em 1927.

Autor de mais de 100 canções, alcançou seu maior êxito com Casa de caboclo (com Luiz Peixoto), gravada em 1928 por Gastão Formenti na Parlophon, e no mesmo ano Eu ri da lagartixa foi lançada por Patrício Teixeira, naquela gravadora. Em 1927, para o Teatro de Brinquedo (idealizado por Álvaro Moreira e outros), que funcionava no subsolo do Teatro Cassino Beira-Mar, musicou a peça de estréia, sendo também o pianista desse espetáculo e de outros que se seguiram. Essa experiência de teatro ligeiro e elegante teve pouca duração, pois era ainda muito reduzido o público de alta classe média, para o qual eram dirigidos os espetáculos. Assim, ainda em 1927, o compositor se viu na contingência de voltar às revistas mais populares dos teatros da Praça Tiradentes.

Em 1933 Jorge Fernandes gravou, na Odeon, O que eu queria dizer ao teu ouvido (com Mendonça Júnior). Nesse início da década de 1930, fez ainda Favela) (com Joraci Camargo), Chove!... chuva!... (com Ascenso Ferreira), Bahia (com Álvaro Moreira), Banzo (com Murilo Araújo), Na minha terra tem (com Luís Peixoto), Felicidade (com Luís Peixoto), Guacyra (com Joraci Camargo), Leilão (com Joraci Camargo), lançada em 1933 por Jorge Fernandes, na Odeon, e Caboclo bom (com Raul Pederneiras), gravada na Columbia em 1942, por Jorge Fernandes etc.

Em 1935 fez sua primeira composição erudita, André de Leão e o demônio de cabelo encarnado, poema sinfônico baseado no poema de Cassiano Ricardo (1895-1974) e lançado em álbum, com libreto ilustrado pelo gravador Osvaldo Goeldi. Inspirando-se sempre na música regional, continuou a produzir no gênero erudito, editando suas obras por conta própria.

De 1949 a 1953 percorreu quase todo o Brasil, em missão especial do então Ministério da Educação e Saúde Pública, pesquisando motivos folclóricos que utilizaria em diversas obras, como no poema sinfônico O Anhangüera, para orquestra, coro misto, solistas e coros infantis (com argumento de sua esposa, Marta Dutra Tavares, e poemas de Murilo Araújo), composição em que utilizou instrumentos de percussão dos índios Tucuna, do alto Solimões, e o conhecido motivo indígena Canide ioune. Ainda com o material obtido na viagem, em 1955 fez Oração do guerreiro, para baixo profundo. Compôs ainda Concerto, para piano e orquestra; Concerto em formas brasileiras, p/violino e orquestra; O sapo domado e A lenda do gaúcho, fantasias infantis. Deixou inacabados: Rapsódia nordestina e Fantasia brasileira, ambas para piano e orquestra, e o drama folclórico Palmares.

Em 1996 Fernando de Bortoli escreveu Hekel Tavares - O mais lindo concerto para piano e orquestra, São Paulo, Edição do autor, onde incluiu listagem das obras, discografia e bibliografia sobre o compositor.

Obras

Azulão (c/Luís Peixoto), canção, 1929; Bahia (c/Álvaro Moreira), s.d.; Banzo (c/Murilo Araújo), canção, 1933; Biá-tá-tá (c/Jaime d'Altavitta), coco, 1934; Caboclo bom (c/Raul Pederneiras), canção, 1942; Casa de caboclo (c/Luís Peixoto), canção, 1928; Chove!... chuva!... (c/Ascenso Ferreira), canção, 1931; Engenho novo, folclore, 1929; Eu ri da lagartixa, cateretê, 1928; Favela (c/Joraci Camargo), canção, 1933; Felicidade (c/Luís Peixoto), s.d.; Funeral de um rei nagô, s.d.; Guacyra (c/Joraci Camargo), canção, 1933; Humaitá, coco, 1934; Leilão (c/Joraci Camargo), 1933; Moleque namorador, fox-trot, 1927; Na minha terra tem (c/Luís Peixoto), canção, 1929; O que eu queria dizer ao teu ouvido (c/Mendonça Júnior), s.d.; Sabiá, canção, 1927; Suçuarana (c/Luís Peixoto), toada sertaneja, 1927.

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Heitor dos Prazeres

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Pioneiro em todas as atividades as quais se dedicou, Heitor dos Prazeres nasceu no Rio de Janeiro em 23 de setembro de 1898 e morreu na mesma cidade em 4 de outubro de 1966. Seu pai era marceneiro e tocava na banda da Policia Militar, atividades seguidas por Heitor que se iniciou como polidor de móveis e encontrou sucesso na área musical. Estudou até a quarta série do primário e mesmo trabalhando desde os sete anos foi preso, por dois meses, aos treze, por vadiagem. Sua adolescência transcorreu entre a praça Onze e o Mangue, em contato com os "chorões" e os bambas do samba.

Começou a compor em 1912, aprendendo as lições da cultura popular com mestre Hilário Jovino, que o iniciou nas rodas de samba, em que era respeitado por ser um dos bons de pernada. Não perdia Festa da Penha, onde mostrava suas composições, carregando o cavaquinho, que aprendeu a tocar antes de completar dez anos.
Já conhecido no ambiente do sambas participou da criação de algumas escolas, tendo sido um dos fundadores da De mim ninguém se lembra, além de contribuir para o surgimento de outras como a Deixa Falar, a Mangueira e a Portela, nos anos 20.
Em 1929, venceu um concurso de samba, patrocinado pelo jornal A Vanguarda e realizado na casa do mangueirense Zé Espinguela. O samba A tristeza me persegue seria gravado nos anos 70 pela Velha Guarda da Portela, com grande êxito. Começa então sua maior disputa com Sinhô, envolvendo a autoria de diversos sambas e que acabou rendendo, de parte a parte, algumas jóias da música brasileira.
Francisco Alves gravou Ora vejam só e Cassino Maxixe, sendo suas autorias atribuídas exclusivamente a Sinhô, que com a reclamação de Heitor fez o samba-conselho Segura o boi. Heitor replica com Olha ele, cuidado! e a briga ficaria por ai se Cassino Maxixe não fosse gravada por Mário Reis no ano seguinte (1928), com o título definitivo de Gosto que me enrosco. Heitor dos Prazeres volta ao ataque com Rei dos meus sambas, alusivo ao título de Rei do Samba de Sinhô, que tenta inutilmente impedir a gravação do protesto. Mais tarde Heitor recebeu trinta e oito mil-réis por sua parte na parceria de Cassino Maxixe, acordo que lhe valeu também o reconhecimento da autoria.
Deixaste o meu lar é um samba só de Heitor, mas gravado em 1930 trazendo apenas o nome de Francisco Alves como autor, comprovando o comércio, a venda de sambas pelos compositores pobres aos ricos cantores do rádio.
Em 1931, casou com Glória dos Prazeres e, em 1932, apareceu como parceiro de Francisco Alves em Mulher de malandro, época em que abandonou as escolas de samba para se tornar profissional de rádio. Cria um grupo para acompanhá-lo, batizado como Heitor e Sua Gente. Com Noel Rosa compõe o maior êxito do Carnaval de 1936, Pierrô apaixonado. No ano seguinte, descobriu a pintura (Abaixo: um dos quadros de Heitor dos Prazeres, o pintor dos morros cariocas).
Heitor dos Prazeres
Sem abandonar o samba, iniciou-se como pintor primitivista, o que o levou a participar da Primeira Bienal de São Paulo em 1951, voltando a ela em 1953 e 1961. Esteve também em mostras coletivas em quase todas as capitais sul-americanas, em 1957; na exposição Oito Pintores Ingênuos Brasileiros, em Paris, em 1965; Pintores Primitivos Brasileiros em Moscou e outras capitais européias, em 1966. No mesmo ano em que morreu, representara o Brasil no Festival de Arte Negra, em Dacar; no Senegal.
Obra completa
Abandono, samba, 1928; Afine o cavaquinho, samba, 1944; Africana (c/J.Cascata), marcha, 1940; Ai que dor, samba, 1932; Alegria do morro Brasil, hino do Carnaval, 1939; Amar, meu bem, samba, 1930; Amargurado, samba, 1932; Até que enfim, favela (c/Nelson Gonçalves), samba, 1946; A cachopa e a mulata, marcha, 1951; Cadenciado, choro, 1950; Canção do jornaleiro, canção, 1933; Cansado, samba, 1932; Cantar pra não chorar (c/Paulo da Portela), samba, 1938; Carioca boêmio, samba-choro, 1945; Carnaval na bienal, marcha, 1952; Carnaval na primavera, marcha, 1961; Chora, samba, 1933; Chora, cuica!, samba, 1947; Coisa gozada, rancheira, 1932; A coisa melhorou, samba, 1943; Com saudade de você, samba, 1930; Comigo ninguém pode, samba, 1939; Cosme e Damião, samba 1954; Criança loura, samba, 1930; Crioulinho frajola, marcha, s.d.; Deixa a cuíca chorar, samba, 1949; Deixa eu chorar, samba, 1959; Deixa o palhaço na roda, marcha, 1940; Deixaste meu lar, samba, 1930; Depois do cinema falado, 1941; Desperte, dodô (c/Herivelto Martins), samba, 1946; É só trocar o pé, marcha-frevo, 1947; É tempo, samba, 1933; Ela foi embora, samba, 1964; Entreguei a Deus, samba, 1964; És falsa, samba, 1930; És feliz, samba, 1929; Estou mal (c/André Filho), samba, 1931; Eta, seu mano, baião, 1957; Eu choro, samba, 1932; Eu gosto de Carnaval, samba, 1928; Eu não fiz nada, samba, 1932; Eu não sei se é castigo (c/Bel Luis), samba, 1960; Eu quero uma mulher, marcha, 1951; Eu sei..., samba, 1963; Eu vou comprar, samba, 1933; Fon-fon, marcha, 1933; Fulana granfina, marcha s.d.; Gosto que me enrosco (c/Sinhô), samba, 1928; Hoje eu vivo triste, samba, 1959; Iemanjá (c/Kaumer Teixeira), ponto de macumba, 1954; Já é demais esta tristeza, samba, 1965; Já é hora, já é hora, rancheira, 1932; Lá em Mangueira (c/Herivelto Martins), samba, 1943; Uma linda roseira, marcha, 1963; Liquita, marcha, 1939; Madureira (c/Kaumer Teixeira), samba, 1957; Margarida, marcha, 1928; Maria seu xodó (c/A. Monteiro), samba, 1959; Meus pecados, samba, 1930; Miss crioula, samba, 1930; Mulata cor de jambo, samba, 1937; Mulher de malandro, samba, 1932; Na casa do seu Zé, marcha, 1951; Na sua casa tem... (c/André Filho), samba, 1938; Nada de rock rock, samba, 1957; Não adianta chorar, samba, s.d.; Não há, samba, 1944; Não sei o que vou fazer, samba, 1933; Não sei por que, samba, s.d.; Não sei que mal eu fiz, samba, 1934; Nega, samba, 1939; Nega, meu bem, samba, 1932; Nossa Senhora de Copacabana (c/Kaumer Teixeira), samba, 1956; Nossa separação (c/Herivelto Martins), samba, 1943; Olha a rola, 1933; Olha ele, cuidado, samba, 1928; Olhar e gostar (c/Sílvio Galicho), cena cômica, 1941; Olinda (c/Herivelto Martins), samba, 1946; Pai bendito (c/KaumerTeixeira), ponto de macumba, 1955; Para quem servir, samba, 1930; Pierrô apaixonado (c/NoeI Rosa), marcha, 1936; Primeira linha, samba, 1930; Primeiro nós, samba, 1948; Progresso, samba, 1932; Quanto dói uma saudade, samba, só.; Que será de mim?, samba, 1930; Quebra, morena, samba, 1942; Quem bate na minha porta (c/Henrique Barbosa e João Barbosa), samba, 1939; Quem tem um amor e gosta, samba-choro, 1959; Rei dos meus sambas, samba, 1929; Riso fingido, samba, 1931; Rosa, não chores, samba, 1930; Samba de nego (c/Kaumer Teixeira), samba, 1955, Santa Bárbara, ponto de macumba, 1955; São Cosme e São Damião (c/Kaumer Teixeira), baião, 1955; São Paulo, parabéns (c/Kaumer Teixeira), marcha, 1954; Saudosa favela, samba, 1958; Saudoso trovador, samba-canção 1959; Se eu pudesse formar, samba, 1948; Sem reclamar (c/D. Carvalho), samba, 1961; Sinhá, marcha, 1932; Só acredito em você, samba-canção, 1961; Só eu sei, samba, 1947; Sou eu que dou as ordens, samba, 1946; Tá rezando, baião, 1956; Tia Chimba, embolada, 1930; Todos gostam de você (c/Kaumer Teixeira), baião, 1955; Trapaiada, samba, 1930; Tristeza (c/João da Gente), samba-canção, 1936; A tristeza (c/Herivelto Martins), samba, 1944; A tristeza me persegue, samba, 1927; Tu hás de sentir, samba-canção, 1931; Tu já foste boa, samba, 1930; Tudo acabado, samba, 1945; Tudo azul (c/H. Ricardo), samba, 1960; Um, dois, três..., marcha, 1932; Vai mesmo, samba, 1928; Vai, saudade, samba, 1964; Vai, vai, samba, s. d.; Vem pro samba, mulata, samba, 1957; Vida de casado (c/Sílvio Galicho), cena cômica, 1941; Você pra mim morreu, samba, 1941; Você tem casa e comida, samba, 1946; Volta ao seu lar (c/Kaumer Teixeira), samba 1956; Voltaste ao teu lar, samba, 1935; Vou da um grito, samba, 1932; Vou fazer tua vontade, samba, 1933; Vou te abandonar, samba, 1930; Vou ver se passo, 1934.

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Gastão Formenti

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Gastão Formenti, cantor e pintor, nasceu em Guaratinguetá SP (24/6/1894) e faleceu no Rio de Janeiro RJ (28/5/1974). Filho de um italiano, pintor, decorador e cantor lírico amador tinha um ano, quando a família se mudou para São Paulo SP. Fez o primário na Escola Filorette Fondacari em São Paulo e o secundário no Ginásio São Bento, no Rio de Janeiro. Aos nove anos começou a estudar pintura com o pai e com Pedro Strina. Em 1910, transferindo-se com a família para o Rio de Janeiro, passou a trabalhar com o pai em pintura e, a 25 de fevereiro de 1920, casou com Odília de Oliveira.

Levado pelo escritor Gastão Penalva, em 1927 apresentou-se na Rádio Sociedade, cantando Ontem ao luar (Choro e poesia) (de Pedro de Alcântara, com letra de Catulo da Paixão Cearense). Ainda nesse ano, foi contratado pela Odeon, que havia pouco inaugurara no Brasil o sistema elétrico de gravação. Seu primeiro disco incluía a canção sertaneja Anoitecer (de autor anônimo) e o tango sertanejo Cabocla apaixonada (Marcelo Tupinambá e Gastão Barroso). Em seguida, gravou composições de Joubert de Carvalho, entre as quais Canarinho, Rolinha, Boca pintada e Sabiá mimoso.

De 1927 a 1930, lançou músicas tanto pela Odeon, como pela sua subsidiária, a Parlophon. Em 1928 obteve êxito extraordinário com a gravação, na Parlophon, da canção Casa de caboclo, música de Hekel Tavares sobre motivos de Chiquinha Gonzaga e versos de Luiz Peixoto. Ao lado de Carmen Miranda, foi o primeiro cantor brasileiro a assinar contrato de rádio (com a Mayrink Veiga) em 1930, ao mesmo tempo em que passou a gravar na Brunswick. Ainda nesse ano transferiu-se para a Rádio Transmissora.

Em fevereiro de 1931 gravou um disco na Columbia e, logo depois, foi contratado pela Victor através da qual lançou várias músicas da dupla Joubert de Carvalho e Olegário Mariano, como o cateretê De papo pro á, a canção Zíngara e o fox Beduíno.

Em junho de 1932 gravou a canção Maringá (Joubert de Carvalho), que alcançou grande sucesso e que, mais tarde, daria nome à cidade paranaense. Em novembro do mesmo ano, gravou e fez sucesso com Na Serra da Mantiqueira (Ari Kerner). No ano seguinte, depois de gravar Folhas ao vento (Milton Amaral), passou a atuar na Rádio Clube.

Em 1934 e 1935, lançou várias composições de Valdemar Henrique. Cantor essencialmente romântico, fez sucesso no Carnaval de 1935 com Samba da saudade (Ronaldo Lupo e Saint-Clair Sena). Em 1937, depois de mais um grande êxito com a canção Coração, por que soluças (José Maria de Abreu e Saint-Clair Sena), voltou para a Odeon. Em 1939, na Columbia, gravou com sucesso a valsa Não sei para que viver (Saint-Clair Sena).

De volta à Odeon em 1941, no ano seguinte passou a cantar esporadicamente, dedicando-se à pintura, na qual também se destacou, tendo inclusive quadros expostos em museus brasileiros e do exterior. Em 1947, ainda na Odeon, lançou a valsa Não vale recordar (José Conde e Mário Rossi) e a toada-rumba Lua malvada (Saint-Clair Sena).

Em 1952, agora na Victor regravou Nhá Maria e Trovas de amor (ambas de Joubert de Carvalho) e, em 1956, na Sinter, relançou De papo pro ar e Maringá. Em 1959 a RCA Victor regravou seus grandes sucessos no LP Quadros musicais. Após esse lançamento, retirou-se definitivamente da vida artística. Deixou cerca de 314 gravações em 78 rpm, podendo ser considerado um dos grandes cantores brasileiros de todos os tempos, pela voz, interpretação, técnica e repertório.

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Freitinhas

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José Francisco de Freitas, o Freitinhas, foi compositor e instrumentista. Nasceu no Rio de Janeiro no ano de 1897 e faleceu em 13 de fevereiro de 1956. Estudou piano e teve aulas iniciais de composição com Francisco Braga, compondo sua primeira música aos oito anos, a valsa Treze de Setembro. Em 1912 publicou a valsa Tarde e, dois anos depois, Amor que engana, despertando atenção como autor.

A partir de 1918 começou a escrever partituras para revistas e burletas do teatro musicado, compondo para a revista Zé dos Pacotes, de Miguel Santos, que marcou sua estréia no gênero. Aos 21 anos começou a atuar também como pianista, tocando na Casa Carlos Wehrs.

Em 1923 já havia editado nessa casa 64 composições. No mesmo ano obteve seu primeiro grande sucesso, com o fox-trot Vênus, dedicado a Zezé Leone, vencedora de concurso nacional de beleza. Três anos depois, lançou-se como compositor de músicas para o Carnaval, com a marcha Zizinha (com Carlos Bittencourt e Cardoso de Meneses), lançada na burleta de Freire Júnior Ai, Zizinha. Obteve sucesso também com outras músicas, grandemente influenciadas pelo charleston, entre as quais Eu vi Lili. Por essa época, animava bailes, regendo uma pequena orquestra, no estilo jazz band, com um repertório que incluía suas composições carnavalescas. Para divulgá-las, mandava imprimir folhetos com a letra e a partitura, que distribuía gratuitamente.

Em 1927, sua marcha Dondoca obteve sucesso tão grande que seus editores, a Casa Carlos Wehrs, lhe deram uma medalha de ouro. A marcha foi lançada pela atriz Margarida Max na revista Sol nascente, de Carlos Bittencourt, Cardoso de Meneses e Alfredo Pujol. Dois anos depois, apesar do sucesso de Dorinha, meu amor, sua popularidade começou a declinar pelo surgimento de nova geração de compositores carnavalescos.

No Carnaval de 1933 ainda obteve prêmio da prefeitura carioca com Não faço questão de cor, desaparecendo do cenário carnavalesco e limitando-se a novas apresentações em revistas de teatro.

Obras:

Dorinha, meu amor, marcha, 1929; Eu vi Lili, marcha, 1926; Miserê, samba, 1924; Vênus, fox-trot, 1923; Zizinha (com Carlos Bittencourt e Cardoso de Meneses), marcha, 1926.

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Freire Júnior

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Francisco José Freire Júnior, revistógrafo, pianista, compositor, nasceu em Santa Maria Madalena, RJ, no dia 4 de agosto de 1881 e morreu no Rio de Janeiro em 6 de outubro de 1956. Aos oito anos, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Aos 14 anos, morando no bairro de Santa Teresa, começou a compor (tocando piano de ouvido) para um grupo de teatro amador.

Sua primeira composição foi para a peça O primo da Califórnia, de França Júnior. Em uma das apresentações, tocando ao piano, conhece Chiquinha Gonzaga, que o incentiva a estudar o instrumento. Assim o fez com o maestro Agnelo França, no Instituto Nacional de Música. Morou e estudou odontologia na ilha de Paquetá. Exerceu a profissão em escolas e consultórios particulares.

Ali também, durante anos, dirigiu o Paquetá Jornal. Sua primeira composição para o teatro profissional foi em 1917 para a revista Tudo dança, de Alvarenga Fonseca e J. Miranda, encenado no Teatro Carlos Gomes. Estreou como autor teatral em 1919 com a burleta Flor do Mal.

No período de 1919 até 1956, escreveu e encenou 172 peças teatrais. Tornou-se um dos maiores autores de revistas musicais do Brasil. Em 1934, tornando-se empresário do Teatro Recreio, ainda assume a direção do Teatro Cômico da Empresa Pascoal Segreto. Mais tarde dirige outras companhias teatrais. Em 1952 ganha medalha pela produção de Eu quero sassaricá, campeã de bilheteria de 1951.

Seus principais sucessos foram: Ai amor (1921), Ai, seu mé (1922), Luar de Paquetá (1923), Não olhe assim (1923), De cartola e bengalinha (1925), Malandrinha (1927), Amor de malandro e Seu Julinho vem (1929), Deusa (1931), Pálida morena e Revendo o Passado (1933), Hei de ver-te um dia (1935).

Seus últimos anos foram de declínio. Aplicou tudo que tinha para empresariar suas novas peças, mas não obteve sucesso algum. Morreu com problemas do desequilíbrio nervoso.

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Teatro de Revista

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O Teatro de revista é um gênero de teatro musicado caracterizado por passar em revista os principais acontecimentos do ano. A encenação é feita numa sucessão de quadros onde os fatos são revividos com intenção e humor. Tudo em meio a muitas danças, canções e outros números musicais.

Surgido no Rio de Janeiro em 1859, com a revista de Justino de Fiqueiredo Novais intitulada As surpresas do Sr. José da Piedade, relacionada ao ano de 1858 em dois atos e quatro quadros. Essa revista foi estreada no Teatro Ginásio, dia 15 de janeiro de 1859. Esse novo gênero de teatro com música firmou-se definitivamente a partir da década de 1880, com o aparecimento do magnifico Artur de Azevedo que se tornou o maior nome do teatro musicado brasileiro em todos os tempos.

No início, as revistas brasileiras sofreram a influência das revistas européias, até 1887, com a encenação da revista La gran via, por uma companhia espanhola. Nessa revistas as coristas cantavam em coro e não se movimentavam pelo palco. As revistas brasileiras inovaram e ganharam estilo próprio mesmo antes do final da década de 1880 quando passou a lançar músicas de sucesso popular.

O tango Araúna ou Xô, araúna, da revista Cocota, de Artur Azevedo, encenada em 1885, é considerada como a primeira música que saiu do palco para as ruas, para o domínio popular. Depois veio a cançoneta A missa campal, de Oscar Pederneiras, 1888, cantada, também, na revista de Oscar pederneiras. Em seguida vieram outras composições que fortificaram ainda mais esse tipo de teatro musicado.

Entre as mais famosas da época, tivemos o tango As laranjas da Sabina, com letra de Artur de Azevedo, que foi lançado pela soprano italiana Ana Manarezzi na revista A República, de Artur e Aluízio Azevedo, em 1890; o lundu Mugunzá, de F. Carvalho, lançado em 1892 na revista portuguesa Tim-tim por tim-tim, e o tango brasileiro Gaúcho, de Chiquinha Gonzaga, tocado pela primeira vez na revista Zizinha Maxixe, de autoria do ator Machado Careca, em 1897, que se tornou um dos maiores sucessos da música popular brasileira de todos os tempos, sob o nome de Corta-jaca.

Além de veículo da popularização de canções populares, o teatro de revista abrigou e deu nome a uma série de maestros-compositores, como a própria Chiquinha Gonzaga, Paulino Sacramento, Nicolino Milano, Bento Mossurunga, Antonio Sá Pereira, Sofonias Dornelas, Adalberto Gomes de Carvalho.

A partir da década de 1920, o teatro de revista sofreu a influência do cinema e seu tempo foi diminuído e passaram a concorrer, também, com os mágicos o que conduziu o gênero para o show, cuja tendência aumentou na década de 1930 com os espetáculos internacionais dos cassinos. Em 1935, foi encenada no Teatro Recreio, a revista de Freire Junior, intitulada Bailarina do cassino. Dessa forma a importância do teatro musicado passou para os shows de boate ou de teatros com o objetivo de atender a um público mais exigente.

O teatro de revista dando sucesso às músicas populares

Até o começo dos anos 20, o teatro de revista que se fazia no Brasil ainda era rudimentar, sem muita preocupação com guarda-roupas, cenários e mesmo com os próprios espaços onde era encenado. Naqueles momentos, aportam no Rio de Janeiro duas companhias européias que iriam ditar a mudança completa do comportamento do gênero, tanto no palco como fora dele.

Salvyano Cavalcanti de Paiva conta, no livro Viva o rebolado, como foi a reação nacional à presença da companhia francesa Ba-Ta-Clan: “Despertaram interesse, surpresa e sensação a saúde e a marcação das coristas, de corpo escultural, a música viva e funcional, os cenários magnificentes, a movimentação de luzes e cores que ampliava os efeitos estéticos e cenográficos e, em especial, o apelo erótico alcançado mediante a mostra generosa do nu feminino – que a Censura, no primeiro momento, não ousou proibir para não parecer matuta... Isto chocou mais aos empresários que ao público; verificaram, por fim, o acanhado das suas realizações. A conseqüência mais imediata foi a supressão das meias e das grosseiras roupas de malha das coristas. E tentativas de melhorar, enriquecer, as apoteoses: isto representou mudança radical na cenografia e nos figurinos e a introdução de uma coreografia consciente nos números de dança coletiva, até então executados na base do improviso”.

As observações se prestam também à companhia madrilense Velasco, que junto com a francesa trouxeram a feérie para o público carioca. Foi tal o impacto das mulheres européias no país que, em São Paulo, um jovem tentou suicidar-se, saltando do viaduto do Chá, por amor a uma das francesinhas, e Juca Paranhos, futuro barão do Rio Branco, casou-se com a corista belga Marie Stevens.

A primeira revista brasileira não chegou a ficar em cartaz uma semana, por falta de público e proibição da censura, após a estréia. Denominava-se As surpresas do Sr. José da Piedade e foi encenado no Teatro Ginásio, no Rio de Janeiro, em 1859. A segunda tentativa foi em 1875, com a A Revista do Ano de 1875, escrita por Joaquim Serra, mas que acabou fracassando por excesso de sátiras políticas. Ainda nesse ano, do mesmo Serra, Rei morto, rei posto dá sinais de que público começava a aceitar o novo tipo de teatro.

O grande sucesso brasileiro apareceria em 1883, com o O Mandarim, espetáculo de Artur Azevedo e Moreira Sampaio, com a participação do cançonetista e compositor Xisto Bahia, considerado um dos maiores artistas populares de sua época e, segundo o próprio Artur Azevedo, “o ator mais nacional que tivemos”. Como revista inteiramente brasileira, a primeira carnavalesca a ser montada intitulava-se O Boulevard da Imprensa de Oscar Pederneiras.

Portugal nos manda, em 1892, suas cançonetistas da revista Tintim por tintim, com bastante êxito. A revista como balanço do ano desaparece no início do século. É o momento em que a música começa a tomar espaço maior no palco e o Carnaval a ser um dos seus principais motes, envolvendo-se o teatro de revista com as grandes sociedades carnavalescas, como os clubes dos Fenianos, Tenentes do Diabo, dos Democráticos e outros.

Na revista O Maxixe, em 1906, é lançado Vem cá mulata (Arquimedes de Oliveira e Bastos Tigre), no mesmo ritmo do título. Vira grito de guerra dos Democráticos nos carnavais seguintes, tal êxito que foi no palco. É um dos primeiros exemplares do teatro de revista como lançador de músicas que o povo adotaria de imediato. A fase das revistas do ano ficara para trás. O público crescente deixava-se seduzir por um tipo de teatro que alcançava uma estrutura tipicamente brasileira, mais que isso, carioca, e a revista assumia agora o papel que cumpriria nos anos seguintes, de lançadora de sucessos da música popular brasileira.

Cidade essencialmente musical, mesmo assim, o Rio de Janeiro só veria o prestígio do teatro de revista consolidado, nos últimos anos da década de 10 e nos primeiros da de 20. Assumida inteiramente a função de vitrine, abriria os palcos para compositores populares, que os levariam à celebridade, transformaria vedetes-cantoras nas mulheres mais desejadas e cobiçadas do país. Desejo e cobiça que, muitas vezes eram orientados para diferentes finalidades, visto que, na realidade, os compositores as desejavam como intérpretes de seus sambas nos palcos revisteiros e cobiçavam o resultado financeiro que, certamente, adviria de um lançamento feito por uma daquelas deusas.

Nos anos 20, o nome mais famoso a ter suas composições levadas a cenas foi José Barbosa da Silva, o Sinhô, que se auto-intitulava o Rei do Samba. Chegou à proeza – em duas ocasiões – de ter o mesmo samba cantado em duas revistas diferentes, encenadas simultaneamente. Além dele. A fase é de destaque para Freire Júnior, Eduardo Souto, Henrique Vogeler, Luiz Peixoto, Lamartine Babo, Hekel Tavares, Ary Barroso, entre outros.

Desde Pelo telefone, o propalado primeiro samba gravado, detecta-se um vínculo mais forte entre o teatro de revista e o samba. Inspirados na gravação do cantor Bahiano, os revistógrafos Álvaro Pires e Henrique Júnior apresentavam, no dia 7 de agosto de 1917, no Teatro Carlos Gomes, na praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, a revista Pelo Telefone. A repercussão do samba no Carnaval daquele ano não se transmitiu ao espetáculo, que ficou em cartaz apenas uma semana.

A que consegue êxito digno de nota, com mais de quatrocentas representações, e a revista Pé de Anjo, musicada pelo paranaense Bento Mossurunga e Bernardo Vivas. Nela aparecem as figuras de Júlia Martins, que gravou dezenas de duetos com o pioneiro Bahiano, nos discos da Casa Edison, e uma estreante que viria a ser a maior das vedetes de todos os tempos, a paulista Margarida Max. O sucesso era a marcha Pé de anjo, de Sinhô, que consolidou a aliança entre o teatro de revista e a música popular.

Margarida Max
Considerada uma das maiores estrelas do teatro de revista em todos os tempos, a paulista Margarida Max, formou, com Augusto Aníbal e João Lins, o trio principal de atrações da revista 'Onde está o Gato". De autoria de Geysa Bôscoli e Luiz Iglésias foi montada em 1929, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro.

Tanto assim que, no mesmo 1920, estréia a revista Papagaio Louro, com mais um samba de Sinhô, Fala meu louro, e no Teatro São José, Quem é bom já nasce feito, aproveitando o nome de outro samba dele. Quem apresenta é Otília Amorim, uma das grandes vedetes que disputavam as preferências do público carioca.

No ano seguinte, a revista Reco-Reco, estrelada pela mesma Otília, com música de Bento Mossurunga, destaca a presença do “tenor” Francisco Alves, vestido de malandro e cantando um samba que dizia: “Olha a menina / sem saia / freguês”. No Teatro São José, um samba de Caninha (José Luiz Morais) dava o que falar e o que cantar, emprestando seu nome à revista Esta nega qué mi dá. Francisco Alves e Otília lançaram o samba a duas vozes.

Uma “figurinha de brasileira petulante”, no dizer do crítico Mário Nunes, estreava na revista em 1922, destinada a ser a maior lançadora de talentos de toda a história do gênero. Vinda de espetáculos circenses, Araci Cortes iniciava a carreira em Nós pelas costas, estreada no Teatro Recreio, na última noite do ano de 1921.

Chegaram então as francesas e as espanholas. As comemorações do centenário de independência do Brasil, enchendo o Rio de Janeiro de festas e convidados, mais as presenças das coristas européias incendiaram os teatros de revista. As modificações começaram a ser adotadas e a aparecer já nos novos espetáculos. Um samba classificado como “à moda paulista”, composto por Eduardo Souto, transforma-se no sucesso do Carnaval de 1923 e na revista do mesmo nome. Tatu subiu no pau, montada pela empresa Paschoal Secreto, no Teatro São José, ultrapassando cem representações.

Ai se eu pudesse voá
O elenco completo da revista "Ai se eu pudesse voá", montada no Rio de Janeiro, no final dos anos 20. Na fotografia destacam-se o ator Brandão Sobrinho, que está logo abaixo do estandarte, e o cantor Vicente Celestino, o último da esquerda, na fileira do meio. A estrela com o leque, é Vitória Soares.

Luiz Peixoto chega de Paris e encena Meia noite e trinta, colocando no palco tudo o que aprendera lá. É a pá de cal no enterro da velha revista, que agora tem gosto refinado em cenários, guarda-roupa, iluminação, textos, e oferece muito melhores condições aos seus lançamentos musicais. Francisco Alves é uma das atrações, ao lado de sua mulher Nair. Além de cantar, dança desenvolto com ela. Ainda em 1923, Chico Alves participaria, junto com da iniciante Araci Cortes, da revista Sinhô de ópio, na qual interpretava um almofadinha cantor. A partir daí, sua presença torna-se mais rara até por volta de 1930, quando abandona o teatro e passa a se interessar mais por gravações e programas radiofônicos. Durante 15 anos, o teatro de revista foi a sua vitrine.

Um êxito estrondoso marcou o aparecimento, como estrela, de Margarida Max. A cinco de maio de 1924, estreou no Teatro Recreio, de Marques Porto e Afonso de Carvalho, a revista À La Garçonne, que modificaria costumes no país. Depois de trezentas representações, excursionou pelo Brasil, lançando a moda dos cabelos curtos para mulheres, “a lá garçonne” ou “a la homme”, tal como usava Margarida. Bonita, vistosa, talentosa e jovem, com enorme força interior, que faria dela a maior das vedetes do gênero. Iniciava ali uma carreira que acabaria por desbancar a estrelíssima Otília Amorim, vencendo as concorrências de Antônia Denegri, Eva Stachino, Lia Binatti, Zaíra Cavalcanti e da própria Araci Cortes, que ao final seria sua sucessora, sem contudo, alcançar seu status de grande dama do teatro de revista.

Uma das vezes em que o destino fez com que Margarida e Araci se cruzassem deve-se a um samba clássico. Araci lançou, em 1929, na revista É de Outro Mundo o samba de Ary Barroso e J. Carlos, A Grota Funda. Em 14 de maio de 1931, Margarida Maux, na revista Brasil do Amor, lança a versão definitiva do samba, agora com letra de Lamartine Babo e rebatizada como... No Rancho Fundo.


"Penas de Pavão", de Marques Porto e Afonso de Carvalho, foi encenada em janeiro de 11923, no Teatro Recreio, do Rio de Janeiro. O quadro chamava-se "Shimmy e Fox".

O decorrer dos anos 20 foi um contínuo ritmo de ascensão do teatro de revista e de suas belas mulheres cantoras. A catarinense Lia Binatti era procurada por compositores como Hekel Tavares, Henrique Vogeler, Sá Pereira, Otília Amorim, já veterana, mas bela e experiente, era exemplo para as que chegavam. Henriqueta Brieba iniciava sua longa carreira, que terminaria na televisão como comediante. Araci Cortes vai se firmando como protótipo da beleza da mulher brasileira.

Braço de cera consagra Margarida Maux, que canta o samba de Nestor Brandão, e Lia Binatti leva A favela vai abaixo, a revista e o samba de Sinhô, ao sucesso absoluto. A relação de grandes composições cresce a cada estréia de revista. Novos e antigos compositores se valem da revista para iniciar ou consolidar carreiras. Otília Amorim bisa e trisa o novo samba de Sinhô, Que vale a nota sem o carinho da mulher?, na revista Eu quero é Nota!. Simultaneamente, Vicente Celestino canta o mesmo samba em outra revista, Cadê As Notas?.


O bonito e original guarda-roupa da revista "Comidas, Meu Santo!" de Marques Porto e Ari Pavão, encenada no Teatro Recreio, do Rio de Janeiro, em 1925.

Com Gosto que me enrosco, Sinhô repete a proeza, Nelly Flores o canta em Seminua (agosto de 1928) e novamente Vicente Celestino fazia o eco, agora na revista Cachorro quente. Ainda em Seminua, Nelly lança outro clássico do Rei do Samba, Deus nos livre dos castigos das mulheres. Araci Cortes tem um dos seus maiores sucessos com Jura, na revista Microlândia, enquanto gente nova começa a aparecer.

A montagem de Miss Brasil apresenta, como um dos autores, o compositor Ary Barroso, que teria longa carreira na revista. Foi ele quem, por exemplo, lançou um jovem, cantando seu samba Gente bamba, que depois seria gravado como Faceira, na revista Brasil do amor, em 1931, no Teatro Recreio. O cantor estreante era ninguém menos que Sílvio Caldas, outro que, como Francisco Alves, cantou muito tempo no teatro de revista, lançando sambas como Caboclo da cidade e Malandro, de Freire Júnior, ou Cordiais saudações e Mulato bamba, de Noel Rosa, antes de se dedicar apenas ao rádio e ao disco. Ary lançou no palco sucessos como Dá nela, Eu sou do amor, Orgia, o já citado No rancho fundo, Boneca de piche, Vamos deixar de intimidade, Na batucada da vida, Foi ela, No tabuleiro da baiana e outras.

Entre os grandes sambistas que se envolveram com a revista, um dos pioneiros foi Alcebíades Barcelos, o Bidê, de quem Francisco Alves cantou o samba A malandragem, na revista Seu Julinho vem, de Freire Júnior, encenada pela Companhia de Alda Garrido no Teatro Carlos Gomes, em 1929. Margarida Max e suas coristas levantavam o público com o samba-choro O Gavião, de Pixinguinha, na revista Guerra ao mosquito, e Wilson Batista contava quem aos 16 anos, já tinha seu primeiro samba, Na estrada da vida, cantado pela estrela Aracy Cortes, em uma revista no Recreio.

Mas é claro que o teatro de revista tinha o seu lado de malícia, de duplo sentido, e musicalmente não fugiria também desse aspecto. O sambista Luís Soberano soube explora-lo entregando para Aracy Cortes cantar, na revista Não adianta chorar, em 1929, o samba Costureira, em que ela explorava todo o seu talento junto à platéia: “Eu quero ver, por ventura minha / qual dos senhores é que se orgulha / de conseguir meter a linha / no buraquinho, desta agulha / Que o consiga é o que desejo / E como prêmio eu darei / ao vencedor um beijo / E coisa mais, que não direi”, e seguia até o final: “Que tem seu ponto fraco / Se a gente perde a linha / Não dá com o buraco”.

A mesma Aracy lançou de Ismael Silva e Nilton Bastos, o Se você jurar, de Noel Rosa, os sambas Com que roupa?, Queixume, Eu vou pra Vila, Gago apaixonado e Dona Aracy. De Almirante e Homero Dornellas, a estrelíssima cantou no Teatro Recreio, na revista Dá nela (1930) um samba que fez furor, usando pela primeira vez a cuíca, o pandeiro, o surdo, o ganzá, o reco-reco, o tamborim e o triângulo. Tratava-se de Na Pavuna, que com a repercussão acabou virando ele próprio uma revista, de Freire Júnior e Luiz Iglesias, estreando no Cassino Beira Mar, naquele mesmo ano.

No Teatro João Caetano, em setembro de 1930, estreou a revista Vai dar o que falar, de Luiz Peixoto, com música de Ary Barroso. Nela, estreava Carmen Miranda, que passou por um susto. A platéia vaiou um dos seus quadros, do qual participavam cavalos da Polícia Militar e que representava o meretrício do Mangue. Ouviu-se um estampido de um tiro, os cavalos se assustaram e dispararam no local. Carmen foi praticamente empurrada para o palco, mas acalmou o público cantando. Os jornais creditaram a ela o fato de não ter ocorrido uma tragédia.

Ainda no reinado de Aracy, em 1932, na revista Com a letra, ela registra um raríssimo samba da lavra de Lamartine Babo, Só dando com uma pedra nela, que o autor viria a gravar em parceria com Mário Reis. E, em Angu de caroço, ela contribui para o início da carreira, no teatro de revista, do ator Oscar Tereza Dias, o Oscarito, que, em dupla com ela, lança o samba de Noel, Mulato bamba, gravado no ano seguinte por Mário Reis.

Surge então a Casa de Caboclo, uma companhia montada pelo bailarino Duque (Antônio Lopes de Amorim Diniz), o mesmo que levara o maxixe e os Oito Batutas a Paris. Na companhia, aparece um duo chamado Jararaca e Ratinho e uma nova vedete com o nome de Dercy Gonçalves. A revista chama-se Que-qué qué casa e limitava-se a repetir os sambas lançados em outros teatros.

Até a chegada dos anos 40, o teatro de revista manteve sua missão de lançador da música brasileira. Em 1939, na revista Camisa amarela, no Teatro Recreio, Moreira da Silva ainda encontra espaço para popularizar o samba de breque. Daí para frente, mudaria a filosofia, entrariam as vedetes estrangeiras, reinariam as plumas e os paetês, o texto ganharia o espaço maior e o rádio passaria a ser o grande divulgador da música do povo.

A malícia do samba no teatro de revista

Dizem todos: / Tem uma graça feiticeira, / Só porque aqui nasci / Nesta terra brasileira / Com meu cheiro de canela / Minha cor de sapoti, / Dizem todos: / Lá vem ela! / O demônio da Araci!

O samba Graça de Araci, de Ary Barroso, na revista Não adianta chorar, encenada em agosto de 1929, no Teatro Recreio do Rio de Janeiro, retratava musicalmente a mais polêmica, musical e importante vedete que o teatro de revista brasileiro teve em toda a sua história.

Zilda de Carvalho Espíndola começou a escalada para a fama no teatro de revista brasileiro, ao integrar o elenco de Sonho de Ópio, estreada em novembro de 1923, no Teatro São José. A figura de mulher bem brasileira, a morenice tentadora e petulante, somadas à boa voz, segura interpretação e presença dominante em cena, logo fizeram dela atriz disputada pelos empresários para as montagens de revistas subseqüentes.

Aliás, disputada foi a palavra que Aracy Cortes, nome artístico adotado por Zilda, mais ouviu em toda a sua vida. Disputava-se Aracy atriz, Aracy mulher e, principalmente, Aracy cantora. Em muito pouco tempo, a fama de intérprete afinada, maliciosa, de excelente estampa, agradando plenamente ao público, fazia com que todos os compositores a procurassem para ver suas músicas incluídas nas revistas por ela estreladas.

A princípio, Aracy era obrigada a cantar as músicas apontadas pelo repertório original dos espetáculos, mas sua força cresceu tanto que passou a impor composições e compositores de seu agrado. De tal forma que até mesmo algumas revistas acabavam por serem batizadas com nomes de suas músicas favoritas.

No início da carreira, houve, entre ela e o compositor Sinhô, como que uma troca de favores. Era ele quem tinha fama, enquanto ela era principiante. Mas depois de ter aprendido muito de interpretação com o maestro Paulino Sacramento, de ser dirigida e orientada por Luís Peixoto, Aracy começou a se ombrear com o compositor e, quando cantou dele, em 1929, o samba Jura, estava efetivamente consagrada. Todas as noites bisava e trisava, na revista Microlândia, de Marques Porto, Luís Peixoto e Alfredo de Carvalho, no Teatro Fênix, de início, e posteriormente no Palace-Théâtre. Interessava, então, a Sinhô que a força de Aracy fosse usada no lançamento de suas músicas

Mulher muito à frente de seu tempo, Aracy Cortes desde sempre desafiava preconceitos. Escorada na beleza física e na graça com que se apresentava nos palcos do teatro de revista, construiu carreira que lhe permitia todas as ousadias. Como a posar praticamente nua, "vestida" apenas com um violão, foto de 1924, resultando em um dos seus maiores sucessos, a canção "Gemer num violão", que ela interpretava de forma desabusada, sempre na certeza de ser chamada de volta ao palco, três ou quatro vezes por noite. Até encerrar em definitivo a carreira, no musical "Rosa de ouro", que a conduziu ao palco nos anos 60, manteve a pose e o charme de grande estrela.

Força que ficou patente em outro clássico absoluto da música popular brasileira, tido pelos pesquisadores como o primeiro samba-canção que se conhece. Linda flor, de Henrique Vogeler, fora lançado, com letra de Cândido Costa, em uma comédia musicada de Freire Júnior, chamada A verdade ao meio-dia, em agosto de 1928. Cantada por Dulce de Almeida, passou despercebida. Mais tarde, ao montar a revista Miss Brasil (no Teatro Recreio, em dezembro do mesmo ano), Luís Peixoto colocou nova letra, rebatizou-a como Iaiá, que acabou famosa como Ai, Ioiô, e entregou-a a Aracy. Sucesso imediato no palco e definitivo em disco, com prêmio ganho até na Alemanha.

A voz de Aracy Cortes tinha o “toque de Midas”. Nada mais natural, portanto, que fosse assediada por todos os grandes compositores. Desde o maestro Paulino Sacramento, seu mestre musical, de quem lançou o samba Ai, madame, logo na estréia, até o consagrado Ary Barroso, todos a cortejavam. E ela rainha que era, aceitava tranquilamente a corte. De Ary começou logo com Vou à Penha e Vamos deixar de intimidade (ambos, depois gravados por Mário Reis), lançados na revista Laranja da China, de Olegário Mariano, no Teatro Carlos Gomes, em 1929. Lançou no teatro e no disco (de Ary e Lamartine Babo), Gemer num violão e, só de Ary, o citado Graça de Aracy, além de Eu sou do amor, Orgia, Boneca de piche, Deixa disso, Na batucada da vida, entre os mais conhecidos.

Noel Rosa, que pouca gente sabe ter andado pelo teatro de revista, entregou muito samba de sua autoria à voz de Aracy. Em janeiro de 1931, na revista Deixa essa mulher falar, ela cantava do Poeta da Vila, Com que roupa?. Além deste, em outras revistas, Aracy voltou a interpretar Noel em primeira mão, com sambas depois consagrados em diversas gravações: Queixume, Gago apaixonado e Dona Aracy.

Muitos outros sambistas de respeito pediram a bênção à grande estrela. Wilson Batista contava que aos 16 anos, trabalhando como eletricista no Teatro Recreio, teve seu samba Na estrada da vida lançado por ela. Almirante viu seu clássico (em parceria com Candoca da Anunciação) Na Pavuna cantado por Aracy na revista Dá nela, no Teatro Recreio, em 1930. Com tanto sucesso que virou nome de outra revista, montada por Freire Júnior no Teatro Cassino Beira Mar. De Ismael Silva e Nilton Bastos, ela lançou Se você jurar e, de Lamartine Babo, o samba Lua cor de prata e o antológico Canção para inglês ver. Mário Lago entregou-lhe Beijei, e Custódio Mesquita fez para ela, em parceria com Paulo Orlando, O tempo passa. De Kid Pepe, Germano Augusto e Seda, Aracy imortalizou o samba Implorar.

Bastaria, enfim, a simples carreira de Aracy Cortes para justificar o teatro de revista como palco lançador de sucessos da música popular brasileira, em particular o samba. Mas, a revista ainda fez mais, durante algum tempo, antes de se tornar apenas um festival de plumas, pernas e piadas.

Em junho de 1941, por exemplo, estreava no Teatro João Caetano, sempre na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, a revista Brasil Pandeiro, de Freire Júnior e Luís Pereira, musicada pelo baiano Assis Valente. Luxuosa e feérica, a revista apresentava quadros empolgantes e apoteóticos, ideal para a sambista Horacina Correia, uma mulata transpirando ritmo, lançar o samba que dava título à revista: “O tio Sam está querendo / conhecer a nossa batucada. / Anda dizendo que o molho da baiana / melhorou seu prato. / Vai entrar no cuscuz, / acarajé e abará”.

No ano seguinte, Assis Valente volta à revista, musicando A vitória é nossa, de Geysa Bôscoli e Freire Júnior, e, em 1943, sempre tendo como pano de fundo a presença brasileira na Segunda Guerra Mundial, Assis e Freire se juntam de novo e encenam Rei Momo na Guerra, estrelado por Dercy Gonçalves. O ponto alto era a figura do compositor Geraldo Pereira e 150 passistas e ritmistas da Escola de Samba da Mangueira, que pela primeira vez evoluía em um palco de revista.

Em 1944, Walter Pinto encena, assinada por Geysa Bôscoli e Luís Peixoto, a revista Momo na fila, sempre no seu reduto, o Teatro Recreio. Novamente Dercy é a estrela, e o êxito alcançado no ano anterior leva a Mangueira de volta ao teatro de revista, desta vez uma mini-escola de samba completa, sempre dirigida por seu compositor Geraldo Pereira. Para encenar To aí nessa boca, de 1949, J. Maia aproveitou a composição Que samba bom, de Geraldo Pereira, e criou a revista.

Não foi, porém, apenas Aracy Cortes que lançou grandes sambas e sambistas no teatro de revista. Mas, intérpretes de outros sambas alcançaram também sucesso, paralelas a Aracy, ou mesmo depois de a estrela entrar em declínio. Em 1933, por exemplo, quando da montagem de É batata, de Luiz Iglesias e Freire Júnior, da qual a própria estrela era Aracy, estava no palco uma estrela-mirim, apelidada Shirley Temple brasileira, que se chamava Isa Rodrigues. O comediante Oscarito, oriundo dos circos e que já tinha projeção na revista, sua mulher Margot Louro e a atriz Eva Todor dividiam, com a revelação infantil, as preferências do público. Aracy Cortes cantava Mulher, samba do portelense João da Gente, e Isa Rodrigues, que se tornaria grande caricata, arrebatava o público, cantando com Oscarito, de Ary Barroso, No tabuleiro da baiana, que Carmen Miranda acabara de gravar.

O gênero – designado mais como batuque que samba -, uma apoteose de basilidade, a figura da “baiana” sempre agradando, às vezes a mulher branca fingindo-se de mulata, fora lançado nos palcos por outra sambista de bossa e talento, a bela Deo Maia. Esta sim, mulata autêntica, que por longos anos manteve seu sucesso no teatro de revista, sempre com uma multidão de fãs. Fora do teatro, Deo Maia jamais conseguiu o mesmo êxito.

Ainda por muito tempo, o teatro de revista lançaria sambas e sambistas. As modificações sociais e políticas pelas quais passariam o Brasil não deixariam, porém, de atingi-lo e, ao fim dos anos 50, as coisas já tomavam outros rumos.

No final do ciclo como lançador de sucessos, o teatro de revista tem seu magnífico canto de cisne. No Teatro Carlos Gomes, na revista Branco tu é meu, em janeiro de 1952, Linda Baptista lança, de Lupicínio Rodrigues, o samba Vingança.

Praça Tiradentes e o teatro de revista

Centro nervoso dos teatros de revista do Rio de Janeiro, a Praça Tiradentes atraía compositores, músicos e cantores, à procura de emprego para seus talentos, nos muitos palcos iluminados, que faziam a cidade sonhar e cantar.

Nos anos 20 e 30, com a popularização do teatro, em particular as revistas, os “musicais”, o cenário teatral no Rio de Janeiro, antes sem oferecer nenhum conforto e com poucas opções de diversão melhorada, se vitaliza. As casas de espetáculo não somente se multiplicam pelos vários espaços centrais da cidade, como se vão adequando aos novos estratos sociais emergentes, principalmente as classes médias.

Dentro desse contexto, a Praça Tiradentes e seu entorno constituíram-se em um dos privilegiados locais para divulgação e circulação dos artistas – em especial, músicos, compositores e cantores – do período. Além de dos teatros João Caetano, Recreio, São José, Carlos Gomes, entre outros, onde se concentravam aqueles profissionais, bares e leiterias também representavam lugares de atração e de encontro para os que buscavam na praça uma oportunidade para exercer profissionalmente seus talentos.

Os mais procurados eram a Leiteria Dom Pedro II e o Café Carlos Gomes, onde hoje existe o Café Thalia, pontos de reunião de compositores como Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Wilson Batista, Henrique de Almeida, Roberto Martins, Bidê, Marçal, Jorge Faraj, Ataulfo Alves, Antonio Almeida e tantos outros.

Sabiam eles que, a qualquer momento, poderia surgir a chance de um trabalho ser aproveitado em uma das muitas revistas que eram encenadas nos teatros da praça. Custódio Mesquita, Ary Barroso, Sinhô, André Filho, Francisco Matoso já tinham se consagrado por ali e de repente a sorte poderia aparecer. No caso de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, jamais conseguiram participar das revistas, mas acabaram por se encontrar nos bares da praça e formar uma das mais importantes parcerias da música popular brasileira.

A maioria dos cantores e compositores “ainda do time de aspirantes” freqüentava a Praça Tiradentes, uma espécie de vestibular. Depois de famosos e ganhando dinheiro para pagar elegantes alfaiates, já bem-sucedidos, transferiam-se para o Café Nice ou para o Café Papagaio, ao lado da conceituada Confeitaria Colombo.

Enquanto isso não acontecia, a solução era enfrentar as xícaras de café com leite nos botequins da Praça Tiradentes, compor os sambas em suas mesas, com tampo de mármore e pé de ferro, e aguardar que o sucesso os viesse resgatar dali. Ou que o próprio teatro de revista se encarregasse de os fazer famosos.

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Francisco Alves

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Francisco de Moraes Alves nasceu em 19 de agosto de 1898, no Rio de Janeiro, na rua Conselheiro Saraiva, centro, sendo filho de José e Isabel, portugueses. Seu José, dono de botequim, falecido em 1919, não faria fortuna. Teve três irmãs: Ângela, a mais velha, Lina e Carolina. Lina, com o nome artístico de Nair Alves, seria conhecida atriz de revista e radioatriz. José, seu único irmão, possuía bonita voz, mas veio a falecer com apenas 18 anos, em 1918, durante a gripe espanhola.

Cursou apenas a escola primária e desde cedo interessou-se pela música. Da irmã Nair ganhou uma guitarra e as primeiras lições. Começou sua carreira de cantor em abril de 1918, na Companhia de João de Deus-Martins Chaves. Depois ingressou na Companhia de Teatro São José, do empresário José Segreto.

Em 1919, para o Carnaval de 1920, levado por Sinhô, gravou na etiqueta Popular (recém-fundada por Paulo Lacombe e João Batista Gonzaga, suposto filho de Chiquinha Gonzaga) dois discos com a marcha O pé de anjo e os sambas Fala meu louro e Alivia estes olhos, todas de Sinhô. Ganhava a vida como motorista de praça, apresentando-se como cantor-ator secundário de revistas musicais. Casou-se em 1920 com Perpétua Guerra Tutóia, de quem logo se separou. No mesmo ano conheceu a atriz-cantora Célia Zenatti, sua companheira por 28 anos.

Em 1924 gravou para o Carnaval dois discos na Odeon, com o samba Miúdo (Sebastião Santos Neves) e as marchas Não me passo pra você e Mlle. Cinéma (ambas de Freire Júnior). Voltou em 1927 à Odeon na qual rapidamente gravou 11 discos com 19 músicas ainda no sistema mecânico, com destaque para Cassino Maxixe (primeira versão de Gosto que me Enrosco) e Ora vejam só, sambas de Sinhô.

Em julho de 1927, quando a Odeon inaugurou no Brasil o sistema elétrico de gravações, foi o intérprete da marcha Albertina e do samba Passarinho do má (ambas de Duque), as duas faces do primeiro disco produzido eletricamente, o Odeon 10.001. Em 1928 passou a gravar concomitantemente na Parlophon, subsidiária da Odeon, utilizando o apelido de Chico Viola.

Em fevereiro de 1929 fez sua estréia no rádio, apresentando-se na Rádio Sociedade. Seus discos começaram a sair em profusão e sem tardar alcançou o topo do qual jamais saiu até falecer. Só em 1928 e 1929 gravou quase 300 músicas de reconhecida qualidade. Interpretou todos os gêneros e foi quem mais gravou em toda a história dos discos de 78 rpm no Brasil: 526 discos com 983 músicas. Como compositor deixou cerca de 132 músicas, sendo seu forte a melodia. Em 1928 fez na Parlophon o primeiro registro da canção A voz do violão, melodia sua e versos de Horácio Campos, grande sucesso, tanto que a regravou em 1929, 1939 e 1951. Nesse ano também lançou de Sinhô os sambas A favela vai abaixo, Ora vejam só (segunda matriz) e Não quero saber mais dela, em dueto com Rosa Negra, e de Pixinguinha com letras de Cícero de Almeida os sambas Festa de branco e Samba de nego, bem como a modinha Malandrinha, de Freire Júnior, e a canção Lua nova, sua e de Luís Iglésias. Nos anos de 1929 e 1930, de campanha presidencial, foi quem mais gravou canções de conteúdo político, como em 1929, o samba É sim senhor e a marcha Seu Doutor (ambos de Eduardo Souto), a marcha Seu Julinho vem (Freire Júnior), e, em dueto com Araci Cortes, o samba É no toco da goiaba (Eduardo Souto e José Jannyni).

No Carnaval de 1930 obteve notável êxito com a marcha Dá nela (Ary Barroso). Outro sucesso memorável foi sua gravação do Hino a João Pessoa (Eduardo Souto e Osvaldo Santiago), antes da revolução de outubro desse ano, durante o qual também excursionou pela primeira vez ao exterior, apresentando-se em Buenos Aires, Argentina, com a companhia de revistas musicais de Jardel Jércolis. Na volta a Odeon reuniu-o a Mário Reis, por sugestão sua, para cantarem em dupla, estreando com os sambas Deixa essa mulher chorar (Brancura) e Quá, quá, quá (Lauro dos Santos), êxitos no Carnaval de 1931. A dupla durou até o final de 1932 e deixou 12 discos com 24 gravações importantes, entre as quais o samba Se você jurar (1931), com Ismael Silva e Nílton Bastos, Marchinha do amor (1932), de Lamartine Babo, a marcha Formosa (Carnaval de 1933), de Nássara e J. Rui, e Fita amarela (Carnaval de 1933), de Noel Rosa.

Em 1931 gravou entre outros sucessos a versão da valsa Dançando com lágrimas nos olhos (Joe Burke e Lamartine Babo), a modinha Deusa (Freire Júnior) e o samba Mulher de malandro (Heitor dos Prazeres), no Carnaval de 1932, primeiro prêmio no primeiro concurso oficial de músicas carnavalescas. Ainda nesse ano lançou o samba Gandaia (seu com Ismael Silva) e Para me livrar do mal (Ismael e Noel Rosa) e começou sua parceria com Orestes Barbosa, apenas letrista, com a canção Meu companheiro, que produziu 14 composições até 1934.

Em 1933 gravou de Noel Rosa os sambas Fita amarela, já referido, Pra esquecer, Feitio de oração (c/Vadico) em dueto com Castro Barbosa, Não tem tradução, entre outros, bem como a marcha junina Cai, cai, balão (Assis Valente), com Aurora Miranda em sua estréia no disco, a rumba Garimpeiro do Rio das Garças (João de Barro), a canção Pálida morena (Freire Júnior). Nesse ano, o locutor César Ladeira deu-Ihe o slogan de Rei da Voz.

Em 1934 transferiu-se para a RCA Victor, na qual ficou até 1937. Passou a dirigir um programa na Rádio Cajuti, nele lançando o cantor Orlando Silva, que se tornaria seu grande rival junto ao público. Ainda em 1934 gravou a valsa A mulher que ficou na taça (sua com Orestes) e fez aquele que seria seu único disco com Carmen Miranda, com a marcha Retiro da saudade (Noel Rosa e Nássara). Tinha se iniciado de certa forma no cinema em Voz do Carnaval (1933), de Ademar Gonzaga, no qual foi aproveitada apenas sua voz tirada de discos.

Em 1935 estréia de fato na tela em Alô, alô Brasil, de Wallace Downey, João de Barro e Alberto Ribeiro, a que se seguiriam os filmes Alô, alô Carnaval, de Ademar Gonzaga (1936), Laranja da China (1940), de J. Rui, e Samba em Berlim (1943), Berlim na batucada (1944), Pif paf (1945), Caídos do céu (1946) e Esta é fina (1948), todos de Luís de Barros. No Carnaval de 1935 lançou o samba Foi ela (Ary Barroso) e a marcha Grau dez (Ary e Lamartine) e depois o samba Na virada da montanha (mesma parceria).

Depois de vários anos, e pela última vez, atuou no teatro musicado na bem sucedida burleta Da favela ao Catete, de Freire Júnior. No Carnaval de 1936 lançou as marchas Manhãs de sol (João de Barro e Alberto Ribeiro), Uma porta e uma janela (Nássara e Roberto Martins), A.M.E.I. (Nássara e Eratóstenes Frazão), os sambas É bom parar (Rubens Soares) e Me queimei (Nássara e Valfrido Silva) e no meio do ano o samba Favela (Roberto Martins e Valdemar Silva). Nas festas juninas foi muito cantada a marcha Pula a fogueira (Getúlio Marinho e João Bastos Filho). Nesse ano apresentou-se na Radio El Mundo, de Buenos Aires, por dois meses, tendo levado Alzirinha Camargo e Benedito Lacerda, e também publicou sua autobiografia Minha vida.

Em 1937 gravou o samba-canção Serra da Boa Esperança (Lamartine Babo). Em 1938, no Carnaval pernambucano, marcou sucesso com as gravações dos frevos Ui, que medo eu tive! (Aníbal Portela e José Mariano) e Júlia (Capiba) e, no Carnaval carioca, com os sambas Ando sofrendo (Roberto Martins e Alcebíades Barcelos) e Vão pro Scala de Milão (Ary Barroso). Nos gêneros sentimentais, lançou o samba-canção A única lembrança (Ary Barroso) e a canção Meu romance (Saint-Clair Senna).

Em 1939 registrou as valsas Diga-me e Minha adoração (ambas de Nelson Ferreira) e Valsa dos namorados (Silvino Neto) e o gênero a que se chamou "samba-exaltação" com Aquarela do Brasil (Ary Barroso), designado no selo do disco "cena brasileira". Transferiu-se para a Columbia e gravou nesse gênero Brasil (Benedito Lacerda e Aldo Cabral), em dueto com Dalva de Oliveira, 1939; Onde o céu azul é mais azul (João de Barro, Alberto Ribeiro e Alcir Pires Vermelho), 1940; Canta Brasil (Alcir e David Nasser), 1941; Bahia com H (Denis Brean), 1947; São Paulo, Coração do Brasil (com David Nasser), 1951, e outros.

Em 1940 lançou no Carnaval a marcha Dama das camélias (Alcir e João de Barro) e os sambas Solteiro é melhor (Rubens Soares e Felisberto Silva) e Despedida de Mangueira (Benedito Lacerda e Aldo Cabral). Em 1941 lançou os sambas carnavalescos Poleiro de pato é no chão (Rubens Soares) e Eu não posso ver mulher (Osvaldo Santiago e Roberto Roberti) e a valsa Eu sonhei que tu estavas tão linda (Francisco Matoso e Lamartine Babo). Depois de atuar em diversas emissoras, fixou-se a partir de 1941 na Rádio Nacional até falecer. Seu programa dos domingos ao meio-dia, Quando os ponteiros se encontram, apresentado pela locutora Lúcia Helena, obteve maciça audiência em todo o Brasil.

Em 1942 foi um dos vencedores do Carnaval com Sandália de prata (Alcir e Pedro Caetano) e, na música romântica, lançou as valsas Carnaval da minha vida (Benedito Lacerda e Aldo Cabral) e Capela de São José (Marino Pinto e Herivelto Martins). Em 1943 gravou as versões dos foxes-canções Beija-me muito (Consuelo Velazquez e David Nasser) e O amor é sempre amor (Hupfeld e Jair Amorim), e a valsa-bolero A mulher e a rosa (Alcir e Davi Nasser) e, em 1944, no Carnaval, a marcha Eu brinco (Pedro Caetano e Claudionor Cruz) e o samba Odete (Herivelto Martins e Waldemar de Abreu), com o Trio de Ouro. Em tempo de guerra gravou Canção do expedicionário (Espártaco Rossi e Guilherme de Almeida) e várias versões.

Em 1945 seus sucessos no Carnaval foram o samba Izaura (Herivelto Martins e Roberto Roberti) e Que rei sou eu? (Herivelto e Valdemar da Ressurreição); em 1946, a marcha Palacete no Catete (Herivelto e Ciro de Sousa) e o samba Vaidosa (Herivelto e Artur Morais); depois, o samba Fracasso (Mário Lago) e as regravações da canção Minha terra (Valdemar Henrique) e do fox-canção O cigano (Marcelo Tupinambá e Gastão Barroso).

Em 1947, no Carnaval, fez sucesso com o samba Palhaço (Herivelto e Benedito Lacerda) e depois com Adeus (Cinco letras que choram) (Silvino Neto), Bahia com H, já referido, e os sambas-canções Nervos de aço (Lupicínio Rodrigues) e Caminhemos (Herivelto Martins); em 1948, o samba Falta um zero no meu ordenado (Ary Barroso e Benedito Lacerda). Vieram então os sambas-canções Quem há de dizer (Lupicínio e Alcides Gonçalves), Esses moços (Pobres moços) (Lupicínio) e Madrugada (Herivelto e Evaldo Rui).

Em 1949 foram sucessos carnavalescos os sambas Maior é Deus (Felisberto Martins e Fernando Martins) e a marcha Pode matar que é bicho (sua com Haroldo Lobo e Nilton de Oliveira) e, em 1950, foi muito cantado o samba A Lapa (Herivelto e Benedito Lacerda); lançou ainda os sambas-exaltação Forasteiro e Aquarela mineira (ambos de Ary Barroso) e o samba Maria Rosa (Lupicínio Rodrigues).

Em 1951, foi a vez dos sambas Deus lhe pague (Polera, André Penazzi e Davi Nasser) e Lili (Haroldo Lobo e Davi Nasser), das marchas Holandesa (Davi Nasser e Haroldo Lobo), com Dalva de Oliveira e Retrato do velho (Haroldo Lobo e Marino Pinto) e do samba-exaltação São Paulo, coração do Brasil (com David Nasser). A parceria com David Nasser, iniciada em 1940, resultou em 20 composições e um livro de bolso biográfico, escrito por David, Chico Viola, publicado em 1966.
Em 1952, no Carnaval, teve muito êxito com a marcha Confete (Jota Júnior e David Nasser). Faleceu em desastre de automóvel na Via Dutra, quando o Buick que dirigia recebeu o choque de um caminhão na contramão.

Algumas letras e cifras:
A dama de vermelho, A dança do funiculí, A favela vai abaixo, A Lapa, A malandragem, A mulher que ficou na taça, A voz do violão, A.M.E.I., Acorda Estela, Adeus, Adeus (Cinco letras que choram), Ainda uma vez, Alivia estes olhos, Amor de malandro, Apanhando papel, Aquarela do Brasil, Bahia com H, Boa noite, amor, Brasil, Cai, cai, balão, Caminhemos, Canção da criança, Canta Brasil, Caridade, Carneirinho, Chuvas de verão, Confete.
Dá nela, Dama das camélias, Deixa essa mulher chorar, Desacato, Despedida de Mangueira, Deusa, Dona da minha vontade, É bom parar, É sim senhor, É sopa, Esmagando rosas, Esses moços (Pobres moços), Eu brinco, Eu fui no mato, crioula, Eu quero é nota, Eu sonhei que tu estavas tão linda, Fala meu louro, Falta um zero no meu ordenado, Favela, Feitio de oração, Fita amarela, Foi ela, Formosa, Fracasso, Gosto, mas não é muito, Gosto que me Enrosco, Grau dez.
Há uma forte corrente contra você, Haja Carnaval ou não, Inútil, Izaura, Lembro-me ainda, Longe dos olhos, Lua nova, Maior é Deus, Malandrinha, Maria Rosa, Marilena, Me faz carinhos, Misterioso amor, Mulher de malandro, Na virada da montanha, Não quero saber mais dela, Não tem tradução, Nem é bom falar, Nervos de aço, O cigano, O correio já chegou, O pé de anjo, O que será de mim, Odete, Onde o céu azul é mais azul, Ora vejam só.

Palavras amigas, Palhaço, Pálida morena, Para me livrar do mal, Passarinho do má, Por teu amor, Quá, quá, quá, Que rei sou eu?, Quem há de dizer, Quero morrer cantando, Retrato do velho, Se é pecado, Se você jurar, Serra da Boa Esperança, Seu Doutor, Seu Julinho vem, Só nós dois no salão (E esta valsa), Sofrer é da vida, Solteiro é melhor, Tipo sete, Tormento, Transformação, Tristezas não pagam dívidas, Um sonho que passou, Uma jura que fiz, Valsa dos namorados, Velhas cartas de amor, Vidas mal traçadas.

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Ave Maria

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Esta valsa-serenata foi a primeira "Ave Maria" a fazer sucesso na música popular brasileira. Seu autor é Erothides de Campos, um paulista de Cabreúva que passou a maior parte da vida em Piracicaba, compondo, tocando vários instrumentos e... ensinando física e química na Escola Normal Sud Mennucci. De sobrenome Neves pelo lado materno, ele usava o pseudônimo Jonas Neves quando fazia letras, como é o caso desta canção, que muitos pensam ser de duas pessoas.
Roberto Silva
Composta em 1924 e lançada em disco em 1926, por Pedro Celestino, "Ave Maria" somente ganhou sua gravação ideal em 1939, quando Augusto Calheiros soube valorizar o clima de nostalgia e misticismo romântico que marca a composição. Uma prova do sucesso nacional de "Ave Maria" é a valsa "Cheia de Graça", escrita em Recife, no final dos anos vinte, por Nelson Ferreira e Eustórgio Wanderley, em homenagem a Erotides de Campos. O curioso em "Cheia de Graça" é que a canção repete as notas iniciais da "Ave Maria", só que em escala descendente, ao contrário do original.
Ave Maria (valsa-serenata, 1924) - Erothides de Campos
----------Bm ------Gb7----- Bm------- Em---- B7------ Em
Cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor
----------G7-------- Em----- Bm------- A7------ G7------ Gb7
Despertando no meu coração a saudade do primeiro amor!
----------Bm-------- Gb7------- Bm B7 ---------Em ----B7----- Em
Um gemido se esvai lá no espaço, ----nesta hora de lenta agonia
--------------G7 ------Em------ Bm ------A7------- Gb7 ----Bm
Quando o sino saudoso murmura badaladas da “Ave-Maria”!

-------------A7------------------- D------------------ A7 -------------------D
Sino que tange com mágoa dorida, recordando sonhos da aurora da vida
-------------------B7 --------------G7 -----Em-- Bm--- Gb7 --Bm Gb7
Dai-me ao coração paz e harmonia, na prece da “Ave Maria”!

Cai a tarde tristonha . . .. (repetir a 1a. Estrofe)

--------B--- Gb7----- B----------- G7----- Gb7------ Bm
No alto do campanário uma cruz simboliza o passado
-------------B7------------ Em ------------------Bm----- Gb7--- Bm
De um amor que já morreu, deixando um coração amargurado
-------B---- Gb7----- B -----------G7----- Gb7--- Bm
Lá no infinito azulado uma estrela formosa irradia
-----------B7--------------- Em ------G7--- Em-- Bm ---Gb7-- Bm (Bm)
A mensagem do meu passado quando o sino tange “Ave Maria”

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Erothides de Campos

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Erothides de Campos, compositor e instrumentista, nasceu em Cabreúva SP (15/10/1896) e faleceu em Piracicaba SP (20/3/1945). Aos oito anos iniciou estudos de piano com Francisca Júlia da Silva, poetisa de renome e pianista, e aos 12 anos, integrava uma das bandas de sua cidade, época em que também começou a compor. Em 1905 deixou Cabreúva e matriculou-se, em São Paulo SP, no Liceu Coração de Jesus, onde foi descoberto como exímio flautista.
Em 1908 mudou-se para Piracicaba, onde integrou o conjunto musical da cidade. Nessa cidade, em 1917, escreveu a valsa Mariinha, com versos de Melo Aires, sua primeira composição impressa, editada para piano e orquestra em 1918, com pleno sucesso. Nesse ano transferiu-se para São Carlos SP, onde organizou a orquestra do Cine São Carlos.
Em 1923 passou a residir em Pirassununga SP, lecionando música e integrando o Grupo Chorão da cidade. Aí compôs sua obra máxima, a valsa Ave Maria (letra de Jonas Neves), gravada em 1926 por Pedro Celestino, na Odeon, e regravada várias vezes por outros cantores, como Augusto Calheiros (1939), Alvarenga e Ranchinho (1941) e Francisco Alves (1947). Voltou para Piracicaba em 1932, onde permaneceu até a morte. Aí lecionou química na Escola Normal Sud Mennucci, enquanto prosseguia sua trajetória como compositor. Era ainda excelente instrumentista: executava com perfeição a flauta e, também, clarineta, violão e piano.
Faleceu de um colapso cardíaco, deixando, seguramente, mais de 230 composições, que abrangem formas musicais variadas: valsas, choros, maxixes, marchinhas, tangos, sambas. Em sua carreira adotou os pseudônimos Gil Neves, Pan, Pan Eropos, Eropos; Jonas Neves, autor dos versos de pelo menos 50 de suas composições, não é pseudônimo, mas parte de seu próprio nome, pois assinou suas primeiras composições, ainda menino, como Erothides Jonas de Campos, sendo Neves sobrenome de sua mãe, Francisca da Silveira Neves.
Obras: Abençoai-nos, ó Maria (c/Melo Aires), canção, s.d.; Abram alas (c/Jonas Neves), choro, s.d.; Adeus de Pierrô (c/Jonas Neves), choro, s.d.; Adônis (c/Jonas Neves), fox-trot, s.d.; Adoração (c/Jonas Neves), valsa, s.d.; Aí, cavaquinho, choro, s.d.; Alma roceira (c/Jonas Neves), samba, s.d.; Alô! Brasil (c/Newton de Melo), marchinha, s.d.; Alvorada de lírios (c/Benedito Almeida Júnior), canção, s.d.; Amarílis, choro, s.d.; Ameno Guarujá, entreato, s.d.; Angélica esperança, valsa, s.d.; Ansiedade, valsa, s.d.; Aos corações (c/Jonas Neves), fox-trot, s.d.; Aspiração (c/Jonas Neves), valsa, s.d.; Até quando será (c/Chiquinho Neves), samba, s.d.; Ave Maria (c/Jonas Neves), valsa, 1926; Ária, s.d.; Bandeirante, fox-trot, s.d.; Uma barquinha azul (c/Gil Neves), canção, s.d.; Brejeiro, choro, s.d.; Caboclo sincero (c/Jonas Neves), s.d.; Caminho do paraíso, intermezzo, s.d.; Cantiga serrana (c/Benedito Costa), canção, s.d.; Caridade (c/Carlos Conceição), valsa, s.d.; Carinhosa, valsa, s.d.; A casinha onde nasci (c/H. Fonseca Júnior), choro, 1926; Um caso sério (c/Jonas Neves), samba, s.d.; Centenário de Pirassununga, dobrado, s.d.; Cheia de mágoas (c/Jonas Neves), valsa, s.d.; Chereta (c/Benedito Costa), canção, s.d.; A cigarra (c/Teófilo Otoni da Fonseca), fado-tango, s.d.; Colombina (c/Jonas Neves), marcha, s.d.; Como eu te quero bem, valsa, s.d.; Condores do Brasil (c/Jonas Neves), charleston, s.d.; Convite à valsa, valsa, s.d.; Copacabana (c/Jonas Neves), marcha, s.d.; As covinhas do teu rosto (c/Jonas Neves), maxixe, s.d.; Dá-me o teu coração (c/Jonas Neves), valsa, s.d.; De déu em déu, maxixe, s.d.; De fio a pavio, maxixe, s.d.; Desdém (c/Jonas Neves), samba-canção, s.d.; Despedida (c/F Penteado), canção, s.d.; Dobrado cabreuvano, dobrado, s.d.; Dona Gilda, valsa, s.d.;Dr. Mamede, s.d.; Encantamento, fox, s.d.; Enlevo (c/H. Fonseca Júnior), fox-trot, s.d.; Esperto, choro, s.d.; Está na hora (c/Jonas Neves), marcha-rancho, s.d.; Êxtase (c/Pedro Voss Filho), valsa, s.d.; Filhinha, valsa, s.d.; Flor do mal (c/Paulo Cisne), valsa, s.d.; Flor do sertão (c/Jonas Neves), samba, s.d.; Frenesi (c/Jonas Neves), fox-trot, s.d.; Frou-Frou (com Téofilo Otoni da Fonseca), choro, s.d.; Goal, tango, s.d.; Gracinha (com H. Fonseca Júnior), choro, s.d.; Grata recordação (com H. Fonseca Jr.), valsa, s.d.; Hás de ser minha, fox, s.d.; Hino à criança (com Melo Aires), s.d.; Hino do Grupo Escolar Pedro Crem, s.d.; Hino do Regatas (com Silvio de Aguiar Souza), s.d.; Hino Oficial do Grupo Prudente (com Melo Aires), s.d.; Iaiazinha, valsa, s.d.; Ideal consolador (com Jonas Neves), valsa, s.d.; Idílio campestre, pastoral, s.d.; Ilusões caladas (com H. Fonseca Júnior), valsa, s.d.; Ingratidão, valsa, s.d.; Isso é contrabando!(com XXX), marcha, s.d.; Legalista, marcha, s.d.; Lembrança de Chinho, valsa, s.d.; Lembrança dos meus doze anos, dobrado, s.d.; Longe de meu bem (com Melo Aires), valsa, s.d.; Madre Helena (com Querubim Correia), tango, s.d.; Madrigal (com Jonas Neves), shimmy-fox-trot, s.d.; Mágoa sertaneja (com Amadeu Colombo), samba, 1927; A mamaezinha (com Luís Leandro), canção, s.d.; Mandinga (com Jonas Neves), samba, 1925; Marcha fúnebre, s.d.; Mariinha (com Melo Aires), valsa, 1918; Marisol, valsa, s.d.; Mary (com Jonas Neves), tango, s.d.; Mary (com Cegê), valsa, s.d.; Mau olhado (com Jonas Neves), samba, s.d.; Meg, valsa, s.d.; Meigos olhos (com Jonas Neves), valsa, s.d.; Melindrosinha (com Jonas Neves), charleston, s.d.; Melodia da fé (com OXS), valsa, s.d.; Menina dos olhos (com Jonas Neves), choro, s.d.; Mensagem de amor (com Jonas Neves), valsa, s.d.; Os meus ais (com Jonas Neves), samba, 1925; Miragem, valsa, s.d.; Mirtes, valsa, s.d.; Misteriosa (com Jonas Neves), valsa, s.d.; Murmúrios do Piracicaba (com Gil Neves), canção, s.d.; Murmúrios sonoros (com H. Fonseca Júnior), valsa, s.d.; Nas asas dum querubim (com Jonas Neves), valsa, s.d.; Uma noite em Campinas, s.d.; Nostalgia (com Gil Neves), canção, s.d.; Oh! Fala se me amas (com Jonas Neves), valsa, s.d.; Olhar que me fascina (com Jonas Neves), valsa, s.d.; Olivetti (com H. Fonseca Júnior), marcha, s.d.; Ouvir estrelas (com Jonas Neves), fox-trot, s.d.; Palhaço (com Pedro Voss Filho), tango, s.d.; Pan, ragtime, 1919; Paraíba, canção, s.d.; Pastor Bonus, elegia, s.d.; Patriarca, marcha, s.d.; Pif-paf, one-step, s.d.; Plenilúnio, choro, s.d.; Plenilúnio, fox-trot, 1927; Pombinhos (com Jonas Neves), samba, s.d.; Porto Artur, dobrado, 1907; Prece de Natal, s.d.; Preces de amor (com Benedito Almeida Júnior), valsa, s.d.; Primeiro amor (com Jonas Neves), charleston, s.d.; Primeiro de Março, choro, s.d.; Procópio amoroso (com Jonas Neves), choro, s.d.; Queixumes (com H. Foncesa Júnior), samba, s.d.; Queridinha, berceuse, s.d.; Quiproquó, tango, s.d.; Redemoinho, choro, s.d.; Um róseo Carnaval, marcha, s.d.; Sala de espera (com Chiquinho Neves), fox-trot, s.d.; Salta, meu bem, na canoa! (com H. Fonseca Júnior), samba, s.d.; Saudades daqui (com Melo Aires), valsa, s.d.; Saudades de Nhonhô, s.d.; Segredo (com Viviani), canção, s.d.; Sê minha para sempre (com Jonas Neves), valsa, s.d.; Sentinela (com Jonas Neves), fox-trot, s.d.; Separação (com Arnaldo Arantes), tango, s.d.; Separação (com Melo Aires), , valsa, s.d.; Serenata, valsa, s.d.; Sereno, choro, s.d.; Sertaneja (com Luís Leandro), canção, s.d.; O sertanejo sorteado (com Chiquinho Neves), samba, s.d.; Seu Tibúrcio da Mangueira (com Joaquim Luís), revista-burleta, s.d.; Sinos do Natal (com H. Fonseca Júnior), tango, s.d.; Sonhador (com Jonas Neves), fox-trot, s.d.; Sonhar venturas (com Jonas Neves), valsa, s.d.; Sonho de primavera (com Francisco Lagreca), valsa, s.d.; Sonho oriental, valsa, s.d.; Talismã, choro, s.d.; Talvez, valsa, s.d.; Teu doce amor (com Jonas Neves), valsa, s.d.; O teu passinho (com Jonas Neves), choro, s.d.; O teu pezinho (com Chiquinho Neves), samba, s.d.; Tristeza campesina (com Amadeu Colombo), canção, s.d.; Valsa do adeus (com Leandro Guerrini), s.d.; Velho Anhembi (com Jonas Neves), fox-trot, s.d.; Vera (com G. Pesce), valsa, s.d.; Vida campesina (com Melo Aires), canção, s.d.; Vinte e Cinco de Julho, valsa, s.d.; Viola magoada (com Leandro Guerrini), canção, s.d.; Vivo triste, ò Maria (com Jonas Neves), samba, s.d.; Você compreende, polca, s.d.; Volúpia de cantar (com Pedro Voss Filho), tango, s.d.

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Carmen Miranda

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Carmen Miranda (Maria do Carmo Miranda da Cunha), cantora, atriz e dançarina, nasceu em Marco de Canaveses, Portugal, em 9/2/1909, e faleceu em Beverly Hills, Los Angeles, EUA, em 5/8/1955. Com um ano e meio veio para o Brasil com a mãe, Maria Emília Miranda da Cunha, e Olinda, a irmã mais velha. Seu pai, José Maria Pinto da Cunha, barbeiro, chegara antes.

No Rio de Janeiro RJ nasceriam Amaro, Cecília, Aurora e Oscar. Em 1919 foi matriculada na Escola Santa Teresa, de freiras, que dava instrução gratuita às meninas pobres da Lapa. Aos 15 anos conseguiu trabalho como balconista de loja de gravatas e depois em loja de chapéus femininos, onde aprendeu a confeccioná-los. A pensão da mãe era freqüentada também por músicos, como Pixinguinha e seu grupo. Vivia cantando e fazendo planos, até ser convidada por Aníbal Duarte, futuro deputado, para participar de um festival de caridade no Instituto Nacional de Música, em 1929.

Cantou então tangos e a canção Chora violão, acompanhada do pianista Julinho de Oliveira, tendo atraído a atenção justamente do autor da canção, Josué de Barros, professor de violão, que se ofereceu para ajudá-la. Depois de algumas apresentações nas Rádios Sociedade e Educadora, foi levada por Josué para gravar na etiqueta Brunswick um disco com Não vá simbora e Se o samba é moda, duas músicas dele, só lançado em janeiro de 1930, ano também de seu segundo disco, pela Victor com Triste Jandaia e Dona Balbina (ambas de Josué de Barros).

O sucesso veio em seu segundo disco Victor, com a marcha de Josué, laiá Ioiô, lançado no Carnaval de 1930. A fama viria no disco seguinte, com Pra você gostar de mim (Ta-hi), marcha do médico Joubert de Carvalho especialmente para ela e que, depois do Carnaval, bateria o recorde nacional de vendas com 36 mil cópias. Ainda em 1930, apenas cantando, atuou na revista musical Vai dar o que falar, no Teatro João Caetano.

Em 1931 gravou sucessos como Carnavá tá ai (Pixinguinha e Josué de Barros), Amor, amor (Joubert de Carvalho) e realizou sua primeira viagem ao exterior, à Argentina, com Francisco Alves, Mário Reis, os músicos Luperce Miranda e Tute e um casal de bailarinos. Em 1932 estreou no cinema, no filme Carnaval cantado de 1932 no Rio, um semidocumentário de média metragem, produzido pelo exibidor Vital Ramos de Castro, no qual canta o samba Bamboleô, de André Filho.

Em 1933 participou do filme Voz do Carnaval, da Cinédia, dirigido por Ademar Gonzaga e Humberto Mauro. Já era chamada A Pequena Notável, slogan criado por César Ladeira. Lançou sucessos como Good bye e Etc (Assis Valente), Moleque indigesto (Lamartine Babo), este junto com o autor, Chegou a hora da fogueira (Lamartine Babo), em dueto com Mário Reis, Inconstitucionalíssimamente (Hervé Cordovil). São destaques de 1934 Alô, alô (André Filho) e Isto é lá com Santo Antônio (Lamartine Babo), ambas em dueto com Mário Reis, Primavera no Rio (João de Barro), Coração (Sinval Silva) e outras.

No início de 1935 aparece no filme Alô, alô Brasil!, da Waldow-Cinédia, no qual cantou Primavera no Rio. Transferiu-se mais tarde para a gravadora Odeon e apareceu no filme Estudantes, da Waldow-Cinédia, único filme brasileiro em que atuou como atriz. Nele cantou a famosa marcha junina Sonho de papel, de Alberto Ribeiro. Lançou pela Odeon, além do citado Sonho de papel, O tic-tac do meu coração (Alcir Pires Vermelho e Valfrido Silva), Adeus batucada (Sinval Silva), Casaquinho de tricô (Paulo Barbosa), entre outros sucessos.

Começou 1936 com o filme Alô alô Carnaval, da Waldow-Cinédia, dirigido por Ademar Gonzaga, no qual cantou Querido Adão (Benedito Lacerda e Osvaldo Santiago) e Cantores de Rádio (Alberto Ribeiro, João de Barro e Lamartine Babo), em dupla com Aurora Miranda, ambas de fraque e cartola dourados (foto ao lado), traje criado por Carmen, numa cena clássica. Entre os seus maiores sucessos desse ano estão o citado Querido Adão, Como vaes você e No tabuleiro da baiana (ambas de Ary Barroso) e Polichinelo (Gadé e Almanir Grego).

No final de 1937, voltou para a sua querida Rádio Mayrink Veiga. São desse ano O samba e o tango (Amado Régis), Camisa listrada (Assis Valente), Eu dei (Ary Barroso), Quem é? (Custódio Mesquita e Joraci Camargo) e outros sucessos.

Em 1938, abalada pela morte de seu pai, afastou-se por alguns meses, só voltando para receber mais uma confirmação de ser a maior cantora do Brasil por votação dos leitores da revista Fon-Fon. Em fins de 1938 apresentou-se pela primeira vez vestida de baiana no Cassino da Urca, cantando Na Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso. Então conheceu o ator Tyrone Power e sua noiva Annabella, presenteada por ela com uma baiana, traje que estilizou e fixou como típico da mulher brasileira em todo o mundo.

No início de 1939, vestida de baiana, foi a atração do filme Banana da terra, da Sonofilms, dirigido por J. Rui, cantando O que é que a baiana tem?, do estreante Dorival Caymmi, samba gravado em seguida com ele, e Pirulito, marcha de João de Barro e Alberto Ribeiro, que substituíram Na Baixa do Sapateiro e Boneca de piche, porque Ary Barroso, autor das duas músicas, pedira muito alto para cedê-las. Logo depois, acompanhada do Bando da Lua, que até estão colaborava com ela apenas por amizade e quando suas apresentações coincidiam, foi vista no Cassino da Urca pelo grande empresário americano Lee Shubert e pela atriz-patinadora Sonja Henie, que insistiu em sua contratação. Carmen aceitou ir para os EUA mas impôs como condição a ida do Bando da Lua, para garantia do ritmo.

Consagrada na América do Sul e absoluta no Brasil, embarcou em 4/5/1939 com uma multidão na despedida mas chegou a New York completamente desconhecida e sabendo umas poucas palavras em inglês. Foram-lhe reservados apenas seis minutos num dos quadros da revista musical Streets of Paris, que aproveitou para cantar trechos de Mamãe eu quero (Jararaca e Vicente Paiva), Marchinha do grande galo (Lamartine Babo e Paulo Barbosa), Bambo de bambu (Donga, P. Teixeira, Almirante e V. Abreu), Touradas em Madri (João de Barro e Alberto Ribeiro), além da canção South American Way (Al Dubin e Jimmy McHugh) adaptada ao ritmo de samba e cantada em português e inglês. Da noite para o dia seu êxito extraordinário passou para os anais do mundo do espetáculo. Lançou moda, gravou na Decca e fez com que a 20th Century Fox deslocasse sua equipe a New York para filmar seus números da revista, encaixados no filme Serenata tropical (Down Argentine Way, direção de Irving Cummings, 1940). Tornou-se popularíssima como a Brazilian Bombshell.

Voltou ao Brasil em 1940 e teve majestosa recepção popular no cais e na avenida Rio Branco. No Cassino da Urca foi recebida com frieza por uma platéia diferente, de grã-finos, por dizer algumas palavras em inglês e cantar South American Way. Suspendeu a temporada e voltou com músicas em que rebateu as acusações de se ter americanizado, como Disseram que voltei americanizada, Disso é que eu gosto, Voltei pro morro, todas de Vicente Paiva e Luís Peixoto. Seria esse triunfo sua última apresentação pessoal no Brasil, pois fixaria residência em Beverly Hills.

Pela Fox filmou Uma noite no Rio (That Night in Rio, de Irving Cummings, 1941). Nesse ano imprimiu mãos e sapatos de plataforma (para compensar seus 1,53 m de altura) na calçada do Teatro Chinês, primeira e única sul-americana a receber tal honraria. Depois filmou Aconteceu em Havana (Weekend in Havana, de Walter Lang, 1941), Minha secretária brasileira (Springtime in the Rockies, de Irving Cummings, 1942), Entre a loura e a morena (The Gang`s All Here, de Busby Berkeley, 1943), Quatro moças num jeep (Four Jills in a Jeep, de William A. Seiter 1944), Serenata boêmia (Greenwich Village, de Walter Lang, 1944), Alegria rapazes (Something for the boys, de Lewis Seiler, 1944), Sonhos de estrela (Doll Face, de Lewis Seiler, 1945).

Requisitada pelo cinema, rádio, gravações, cassinos e casas noturnas tornou-se a mais bem paga mulher em 1945 considerados todos os ramos de atividade. Em 1946, fez seu último filme na Fox, Se eu fosse feliz (If I'm Lucky, de Lewis Seiler). No ano seguinte, casou-se com o americano David Sebastian e estrelou, com Groucho Marx, Copacabana (de Alfred E. Green). A convite do produtor Joe Pasternak, da MGM, atuou no filme O príncipe encantado (A Date With Judy, de Richard Thorpe, 1948), contracenando com Wallace Beery Jane Powell e a jovem Elizabeth Taylor.

Foi das primeiras artistas a atuar na televisão. Em 1950, mais um filme na Metro, Romance carioca (Nancy Goes to Rio, de Robert Z. Leonard). Em 1953 foi lançado seu último filme, Morrendo de medo (Scared Stiff; de George Marshall), ao lado de Dean Martin e Jerry Lewis.

No final de 1954, depois de 14 anos fora, voltou ao Brasil para tratamento de esgotamento nervoso. Restabeleceu-se mas teve de voltar aos EUA. Quatro meses mais tarde o Brasil foi paralisado com a notícia de seu falecimento por colapso cardíaco em sua casa em Beverly Hills, depois de filmar com Jimmy Durante um programa de televisão em Los Angeles. No dia 12 seu corpo embalsamado chegou ao Rio de Janeiro, foi velado na Câmara dos Vereadores e sepultado no dia seguinte no Cemitério de São João Batista, com mais de um milhão de pessoas, quase a metade da população carioca.

Em 1995 Helena Solberg fez o filme Bananas is my business, documentário-ficção elogiado pelos jornais The New York Times e Village Voice. No mesmo ano, o Lincoln Center, de New York, promoveu espetáculo em lembrança do 40° aniversário de sua morte, com direção de Nelson Mota e participações de Bebel Gilberto, Aurora Miranda, Eduardo Dusek, Maria Alcina, Marília Pêra e outros. Deixou sua voz e personalidade em 281 gravações brasileiras e 32 americanas. Lançou internacionalmente a moda dos turbantes, colares, brincos, balangandãs e sapatos de sola alta, contraponto de uma gesticulação peculiar das mãos em compasso com olhos irrequietos.

O "mirandismo", mais de 40 anos depois, mantém aura que ainda fascina a juventude, justificando a afirmação de que ela é um dos ícones mundiais do séc. XX.

Algumas letras e cifras:

Adeus batucada, Bambo de bambu, Bamboleô, Cachorro vira-lata, Camisa listrada, Cantores de Rádio, Chegou a hora da fogueira, Como vaes você, Coração, Disseram que voltei americanizada, Diz que tem, Eu dei, Good bye, Iaiá, Ioiô, Isto é lá com Santo Antônio, Mamãe eu quero, Marchinha do grande galo, Moleque indigesto, Na Baixa do Sapateiro, No tabuleiro da baiana, O que é que a baiana tem?, O tic-tac do meu coração, Pirulito, Pra você gostar de mim (Ta-hi), Querido Adão, Sonho de papel, Touradas em Madri, Voltei pro morro.

Carmen Miranda

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Caninha

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O compositor José Luís de Morais, apelidado de "Caninha", nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 06 de julho de 1883, e faleceu na mesma cidade, em 16 de junho de 1961. O apelido lhe foi dado em criança, quando vendia roletes de cana na estação da Estrada de Ferro Central do Brasil. Nessa época aprendia cavaquinho com Adolfo Freire.

Por 1900, começou a freqüentar as reuniões de sambistas nas casas da Tia Dadá e da Tia Ciata, baianas da Cidade Nova. Um dos fundadores do Dois de Ouro, rancho pioneiro no Rio de Janeiro, participou ainda do Balão de Rosa, do Rosa Branca, do Recanto das Fadas, do União dos Amores, chegando a ser diretor de canto do Recreio das Flores.

Já havia feito várias músicas, mas o seu primeiro sucesso foi o maxixe Gripe espanhola, lançado na festa da Penha em 1918. Depois, tornou-se freqüentador constante da festa e passou a integrar vários grupos carnavalescos, como o Grupo de Caxangá, do qual participava com o nome de Mané do Riachão, o Grupo Cidade Nova, integrado também por Pixinguinha, e o Grupo Sou Brasileiro.

Em 1919 compôs o tango O kaiser em fuga e o samba Até parece coisa feita, e, em 1920, fez os sambas Quem vem atrás fecha a porta, outro sucesso, e Ninguém escapa ao feitiço. No ano seguinte obteve êxito com sua primeira composição gravada, Esta nega qué mi dá (com Lezute). Ainda em 1921, compôs um samba e um tango, ambos com o mesmo título, Que vizinha danada. Em 1922, com a marcha-rag-time Me sinto mal, derrotou Sinhô no concurso da festa da Penha. Para o Carnaval de 1923, compôs o maxixe Não é conversa, a marcha Meu amor qué me batê e o samba Não se ganha pra comer.

Em 1927 obteve o primeiro prêmio no concurso do jornal Correio da Manhã, com Rosinha. Em 1933 venceu concurso oficial de músicas carnavalescas, com É batucada, feita em parceria com o jornalista Horácio Dantas (que usava o pseudônimo de Visconde de Bicoíba), que lhe valeu um Diploma de Sambista, dado pelo prefeito da cidade. Essa música foi gravada por Moreira da Silva, na Columbia, com acompanhamento do grupo instrumental Gente do Morro, de Benedito Lacerda.

Em 1954 foi um dos participantes do Festival da Velha Guarda, organizado por Almirante. Morreu em 1961, embora em 1950 a prefeitura do Rio de Janeiro já o tivesse incluído numa homenagem prestada a sambistas famosos falecidos, ao lado de Noel Rosa, Sinhô e outros.

Obras: Deixa ela, samba, 1927; É batucada (com Visconde de Bicoíba), samba, 1933; Essa nega qué me dá (com Lezute), samba, 1921; Está na hora, marcha-carnaval, 1925; O kaiser em fuga, tango, 1919; Me sinto mal, marcha-rag-time, 1922; Quem vem atrás fecha a porta, samba, 1920.

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Augusto Calheiros

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Augusto Calheiros, cantor e compositor, nasceu em Maceió AL 5/6/1891 e faleceu no Rio de Janeiro RJ em 11/1/1956. Jovem ainda, foi para Recife PE, onde conheceu Luperce Miranda, tendo sido convidado a participar, como cantor, do grupo formado pelos irmãos Luperce (bandolim), João (bandolim) e Romualdo Miranda (violão), e mais os violonistas Manuel de Lima (que era cego) e João Frazão (Periquito). Por sugestão do historiador Mário Melo, o grupo passou a chamar- se Turunas da Mauricéia, numa alusão ao governador holandês do séc. XVII, Maurício de Nassau.

Foi logo apelidado de “A patativa do Norte”, pela sua voz afinadíssima e estilo peculiar de cantar, que o tornariam um dos cantores mais originais do seu tempo. Em janeiro de 1927, sem Luperce Miranda, os Turunas desembarcaram no Rio de Janeiro, com suas roupas sertanejas e chapéus de aba larga. Estrearam com muito sucesso no Teatro Lírico, em espetáculo patrocinado pelo jornal Correio da Manhã, cantando emboladas, cocos e outros ritmos ainda desconhecidos dos cariocas, apresentando-se depois, em várias ocasiões, na Rádio Clube. Como solista gravou canções sertanejas na Casa Edison, obtendo grande sucesso com os Turunas, no Carnaval de 1928, com a embolada Pinião, de autoria de Luperce Miranda, que não participou dessa gravação. No ano seguinte o grupo se desfez e o cantor passou a atuar individualmente.

Ainda em 1929 gravou na Odeon Valsa da saudade (Levino da Conceição) e Saudades do Rio Grande (Levino da Conceição e Nelson Paixão). Na Victor gravou Alma tupi (Jararaca) e Céu do Brasil (Henrique Vogeler e Jararaca), lançando em seguida diversos discos, como Revendo o passado (Freire Júnior), em 1933, e um de seus maiores êxitos, Chuá, chuá (Sá Pereira e Ari Pavão).

Em 1939 gravou a valsa Ave Maria (Erothides de Campos e Jonas Neves). Seis anos depois foi contratado pela Victor, gravando vários sucessos, como os sambas Senhor da floresta (1945) e Garoto da rua (1947) (René Bittencourt), a canção Caboclo vingador (Artur Goulart e José Colombo), as valsas Fatal desilusão (1947) (Meira e Marcial Mota) e Dúvida (Luiz Gonzaga), além das músicas de sua autoria Célia e Bela. No auge da popularidade, atuou ao lado de Durvalina Duarte, Jararaca, Ratinho e outros, na Casa de Caboclo, famosa companhia de espetáculos da Praça Tiradentes.

Compôs Adeus, Pilar e Pisa no chão devagar, por 1950, ano em que saiu da Victor e passou para a Todamérica, onde gravou seu último sucesso, Grande mágoa (Clóvis Santos), além de Meu dilema e Audiência divina, ambas de Guilherme de Brito, então lançado como compositor. Entre seus maiores êxitos estão ainda Na praia, Iolanda e Saudade do meu Norte, este em parceria com Artur Goulart.

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Canhoto

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Américo Jacomino, o Canhoto, conhecido também como Canhoto do Violão, compositor e instrumentista, nasceu na rua do Carmo, em São Paulo, em fevereiro de 1889 e faleceu no dia 7 de setembro de 1928. Filho de imigrantes napolitanos, nunca freqüentou escola, tendo aprendido a ler e a escrever em casa, com o pai e o irmão mais velho, Ernesto, que tocava violão e bandolim. Desde garoto interessou-se por violão, que ele tocava, mesmo sem inverter as cordas, na posição de canhoto, o que deu origem a seu nome artístico. Aos 16 anos começou sozinho a aprender cavaquinho, época em que já tocava em serenatas. Ao mesmo tempo arranjou emprego de pintor de painéis, chegando a fazer pinturas murais em casas elegantes de São Paulo.

Em 1907, durante uma serenata no bairro da Mooca, conheceu o cantor Paraguaçú, com quem começou a apresentar-se em cinemas, ganhando 5 mil-réis por noite. Assim, tocou no Cinema Bresser, da Rua Bresser (Brás), no Cine Brás Bijou, da Avenida Rangel Pestana, e no Éden-Teatro, da Rua Mauá, apresentando-se também em circos e restaurantes. Em 1913, já conhecido na capital paulista como bom violonista, gravou pela primeira vez, na Odeon, na série 120.000, a valsa Belo Horizonte, a polca Pisando na mala, o dobrado Campos Sales e a mazurca Devaneio.
Em 1916 gravou suas valsas Beijos e lágrimas e Acordes do violão, primeiro título de Abismo de rosas, peça clássica do violão brasileiro. Em 1918 gravou os tangos Madrugando e Recordações de Cotinha. Na época da Primeira Guerra Mundial, compôs a Marcha triunfal brasileira e, em 1919, foi convidado, com uma garota de dez anos, Abigail Gonçalves (mais tarde a cantora lírica Abigail Alessio), a formar um trio com Viterbo Azevedo, para apresentações teatrais, em que Viterbo encarnaria o Jeca Tatu, famoso personagem de Monteiro Lobato. No mesmo ano o Trio Viterbo-Abigail-Canhoto estreou em São Paulo e em seguida excursionou por cidades do interior mas teve sua carreira interrompida em Poços de Caldas MG, onde Viterbo foi assassinado. Em dezembro foi para o Rio de Janeiro, dando um recital de violão no Teatro Lírico.
De volta a São Paulo em 1920, iniciou a produção de músicas carnavalescas, embora continuasse a compor outros gêneros. Lançou, para o Carnaval daquele ano, Ai, Balbina e no ano seguinte Já se acabô (ambas com Arlindo Leal). Ainda em 1922 deu um recital no Cinema São José, em Itapetininga SP Na ocasião, conheceu Maria Vieira de Morais, filha de um político local, e casou com ela no dia 22 de setembro do mesmo ano, tendo no cartório se declarado italiano. Instalou-se em São Paulo, onde abriu loja de instrumentos musicais.
Em 1923, ao lado de Paraguaçu, foi um dos pioneiros da Rádio Educadora Paulista, primeira emissora do Estado. Em 1925 gravou a Marcha triunfal brasileira e regravou Abismo de rosas. Ainda em 1925, em Avaré SP, onde dera um recital, conheceu Joubert de Carvalho, que na época estudava medicina no Rio de Janeiro, tornando-se seu amigo. Pouco depois, Joubert dedicou-lhe uma canção, Os teus olhos. Um ano depois gravou como cantor a Marcha dos marinheiros e no ano seguinte o samba Só na Bahia é que tem (ambos de sua autoria), pela Odeon, o segundo regravado em seguida por Francisco Alves.
Em fevereiro de 1927, no Rio de Janeiro, participou do concurso O que é Nosso, patrocinado pelo jornal Correio da Manhã e realizado no Teatro Lírico, quando executou três músicas de sua autoria, a Marcha triunfal brasileira, Viola, minha viola e Abismo de rosas, vencendo o concurso e recebendo o título de Rei do Violão Brasileiro. De volta a São Paulo, organizou o grupo Turunas Paulistas, com quatro violões, dois cavaquinhos, flauta, saxofone, reco-reco, maracaxá e pandeiro.
Em março de 1928 retornou ao Rio de Janeiro, gravando algumas de suas composições em solos de violão e de cavaquinho. Durante uma dessas gravações começou a sentir-se mal, sendo atendido por seu amigo, já médico, Joubert de Carvalho. Em seu último disco, gravou a valsa Mexicana e o cateretê Uma noite na roça (com João do Sul). Voltou a São Paulo, onde, por influência do sogro, foi nomeado lançador da prefeitura. Contudo, voltou a sentir-se mal do coração, e os médicos aconselharam-no a tratar-se com o cardiologista Miguel Couto no Rio de Janeiro, onde tencionava fazer novas gravações. Pouco depois seu estado de saúde se agravou, sendo então trazido para São Paulo, onde morreu.

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Elvira escuta

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Elvira escuta - José Marcelo de Andrade e Luiz Cláudio

-----------A --------A7------- D ----------------------E7 ------------A ----A7
Elvira escuta os meus gemidos / Que aos teus ouvidos irão chegar.
------------------D -----------------A -----------------E7--------------------- A
Não sejas traidora, tem dó de mim / Tem dó dest´alma que te sabe amar.
-----------------A------- A7---- D ---------------E7--------------- A----- A7
Se tu me amas como eu te amo / Eu te prometo não te desprezar.
-------------------D ---------------A------------------- A7------------------ A
Não sejas traidora tem dó de mim / Tem dó dest’alma que te sabe amar.
--------------A ------------D -------------E7 -------------A--- A7
Teu coração é um rochedo / Este rochedo é meu penar.
--------------------D ---------------A---------------- A7------------------- A
Não sejas traidora tem dó de mim / Tem dó dest’alma que te sabe amar.
---------------A---- A7------ D------------- E7 -------------A
Sobe a escada bem devagar / Elvira dorme, pode acordar.
-------------------D-------------- A------------------ A7-------------------- A
Não sejas traidora tem dó de mim / Tem dó dest’alma que te sabe amar.
-------------A ------A7 -------D ------------E7----------- A--- A7
Ainda mesmo depois de morta / A tua face eu irei beijar.
--------------------D-------------- A----------------- A7------------------ A
Não sejas traidora tem dó de mim / Tem dó dest’alma que te sabe amar

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Amo-te muito

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Amo-te muito - 1910 - João Chaves (clique música)

-------------C--- G7
Amo-te muito
C
Como as flores amam
-------------------------Ebo---- G7
O frio orvalho que infinito chora
-------------Dm A7
Amo-te como
-----------------Dm--- Dm/C
O sabiá da praia
---------------G7----------------------- C--- C7
Numa sangüinea e deslumbrante aurora

-------------------F ----G7
Oh não te esqueças
------------------C---- A7
Que te amo assim
-------------------Dm---------- G7---- C--- (C7)
Oh não te esqueças nunca mais de mim (bis)

--------------C---- G7
Amo-te muito
-----------------------C
Como a onda, a praia
--------------------------Ebo---- G7
Que a praia, a onda a vem beijar
-------------Dm A7
Amo-te tanto
---------------------Dm ----Dm/C
Como a branca pérola
----------------G7---------------- C C7
Numas entranhas do infinito mar

---------------------F ---G7 ----------C ---A7
Oh não te esqueças que te amo assim
-------------------Dm --------G7-------- C (C7)
Oh não te esqueças nunca mais de mim

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É a ti flor do céu

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É a Ti Flor do Céu
( Teodomiro Alves Pereira e Modesto A. Ferreira)
(clique para ouvir a canção)

É a ti flor do céu que me refiro
Neste trino de amor nesta canção
Vestal dos sonhos meus, por quem suspiro
E sinto palpitar meu coração

Oh! dias de risonha primaveras
Oh! noites de luar que tanto amei
Oh! tardes de verão ditosa era
Em que junto de ti amor gozei

Não te esqueças de mim por piedade
Um só dia, um só instante, um só momento
Não me lembro de ti sem ter saudades
Nem podes me fugir do pensamento

Quem me dera outra vez este passado
Esta quadra ditosa em que vivi
Quantas vezes eu na lira debruçado
Cantando em teu colo adormeci.

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Zé Pereira

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O "zé-pereira" é uma brincadeira carnavalesca introduzida no Rio de Janeiro em meados do século XIX por imigrantes portugueses, caracterizada pelo ir e vir de foliões, isoladamente ou em grupos, a bater bombos e zabumbas pelas ruas da fomra mais atroadora que pudessem conseguir.
Embora apontada pelo cronista da vida carioca Vieira Fazenda como criação de um morador da cidade de nome José Nogueira de Azevedo Paredes, que teria originado por corruptela o genérico zé-pereira, a brincadeira barulhenta constitui em verdade o prolongamento de costumes populares da região do Minho, em Portugal, onde há notícia da presença desses tocadores de 'zabombas" à frente de procissões e festas da igreja, desde o século XVI.
No Rio de Janeiro uma peça musicada francesa intitulada Les Pompiers de Nanterre (Os bombeiros de Nanterre), com música de Antonin Louis, ia tornar tão popular sua fanfarra de abertura, que no mesmo ano receberia versão carioca cantada por seu autor, o comediante Francisaco Correia Vasques, na cena cômica intitulada Zé-pereira carnavalesco, representada no Teatro Fênix, do Rio de Janeiro, em 1869.
Apoiada agora pela melodia francesa na marcação barulhenta característica dos zabumbas dos zé-pereiras de rua - "E viva o zé-pereira / Pois ninguém faz mal / E viva a bebedeira / Nos dias de Carnaval / Zim balalá, zim balalá / E viva o Carnaval" (clique para ouvir a música) - a cantiga viria a transformar-se, sob as mais variadas versões dos versos, a "primeira cantiguinha e música do Carnaval Brasileiro", conforme o historiador de música carnavalesca carioca Edigar de Alencar, em seu livro Claridade e sombra na música do povo (pág. 33).
A extrema popularidade da melodia breve, feita para explodir nos metais, tornou o zé-pereira, a partir da década de 1930, a música obrigatória de abertura dos bailes de Carnaval com orquestra.
Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora.

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O Entrudo

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Avô e pai do Carnaval, o Entrudo era festejado antes de Cristo para comemorar a chegada da primavera. D. Pedro II e membros da família imperial gostavam de participar do Entrudo. É lógico que o faziam em palácio, que o imperador não iria sair pelas ruas molhando suas irmãs. A brincadeira que precedeu o Carnaval era adotada em todo o país, embora às vezes beirasse à violência e algumas leis municipais proibissem a prática considerada nociva.

Oriundo de Portugal, onde acontecia entre o Sábado Gordo e a quarta-feira de Cinzas, na abertura da primavera, o Entrudo era realizado entre famílias amigas ou pessoas conhecidas, ganhando mais tarde as ruas, envolvendo desconhecidos, atingidos por baldes de água, farinha, cinzas, lama, onde quer que a vítima se encontrasse. Casas ficavam inundadas, passantes nas ruas encharcados e todos, senhores e escravos, senhorinhas e mucamas, se divertiam.

Já mais civilizado, o costume chegou ao início do século XX, as pessoas sendo atingidas por limõezinhos de cera, cheios de água perfumada. Até o Carnaval se impor no país.

Diário de Thomas Ewbank sobre o Entrudo

Dia 21/02

"Durante a semana passada, encontrei à venda, aqui e acolá, bolas coloridas expostas sobre pratos. As verdes poderiam confundir-se com pequenas maçãs, as amarelas com laranjas e limão. Algumas têm a forma de peras e outras de melão. O conhecimento que tive de algumas esta manhã eliminou a indiferença com que vinha passando a seu lado. Outro artigo também chamou-me a atenção. Tratava-se do amido nativo, não granulado como o nosso, mas sim um pó extraordinariamente branco e fino, colocado em cilindros de papel de quinze centímetros de comprimento por trinta de diâmetro. Para usá-lo, abre-se uma das extremidades do cilindro e deixa-se o pó sair.

Enquanto estava sentado tomando o seu café da manhã, S. passou por trás da cadeira de J. e, com grande espanto meu, esvaziou um par de cilindros sobre a cabeça e os ombros do mesmo. A operação foi realizada tão silenciosamente e o pó caiu tão leve que J. não percebeu o acontecido, senão quando um punhado de pó lhe foi aplicado ao rosto e às orelhas. Cuspiu, ergueu-se e, meio cego, foi saudado com esguichos de líquidos de uma garrafa de água da colônia de gargalo comprido. Meio encolerizado e entre muitas risadas, efetuou uma rápida retirada, vestiu-se e saiu para a cidade.

Enquanto perguntava a mim mesmo o que significaria tal coisa, senti caírem de minha testa uma ou duas partículas. Erguendo a mão verifiquei que meus cabelos também haviam sido cobertos de pó. Meus gritos provocaram gritaria geral. Levantei-me para fugir, mas isso fora previsto e a única porta através da qual podia escapar encontrava-se fechada à chave. Cercado agora por um exército de inimigos femininos, esquivei-me e corri até me sentir quase exausto, tentando fugir aos incessantes ataques de amido e água. Finalmente protestei que se a desonesta guerra continuasse, eu deveria chegar e chegaria a um corpo a corpo e, "vi et armis", capturaria e utilizaria contra o inimigo a sua própria artilharia. Tais ameaças foram recebidas com novos ruídos de alegria e novos ataques. Finalmente todos concordaram com um armistício, que se prolongaria durante aquele dia. Contaram-me então que o entrudo começava no dia seguinte quando os membros de todas as classes, dentro ou fora das casas, empoeiram e borrifam uns aos outros, sendo habitual fazer um pouco disso no dia anterior à guisa de prefácio.

Retirei-me para trocar roupa, mas não tinha ainda dado cinco passos quando fui assaltado por uma tempestade de bolas coloridas carregadas com algum líquido e semelhante às que eu notara na cidade. Surpreendido diante dessa violação declarada de um compromisso e pelos fragmentos vermelhos e azuis com que eu for a salpicado, não perdi tempo em chegar a meu quarto e fechar a porta. Tirei da estante um antigo dicionário português para obter informações. De acordo com o mesmo, entrudo ou intrudo deriva-se do latim introitu – entrada ou princípio. O dicionário descrevia o festival como algo em que, como bacantes, as pessoas brincam, festejam-se, dançam e fazem travessuras dentro das casas, enquanto for a realizam toda espécie de brincadeiras, molhando e empoeirando umas às outras. Sobre a origem da festa – da qual eu já experimentara um pouco antecipadamente – não pude descobrir nada. Nem o vigário nem qualquer outra pessoa a quem perguntei, puderam dar-me o menor detalhe sobre sua história. Admite-se, porém, que date de épocas remotas.

Talvez seja de perguntar se o entrudo e o carnaval da Itália sejam a mesma cousa. Embora ambos estejam associados ao grande jejum da Quaresma, existe entre eles grandes pontos de divergência aparente. O primeiro, em sua etimologia, não faz referência à abstinência de carne, de que o último é uma expressão literal. Carni, carne; vale, adeus. A época do carnaval estende-se desde primeiro de janeiro até o princípio da Quaresma, ao passo que o entrudo se realiza na parte final de fevereiro e dura apenas três dias, principiando invariavelmente no domingo que prece à quarta-feira de cinzas. Além disso, o lançamento de pós e água é sua característica especial e o mais destacado de seus ritos.

As bolas de entrudo, como são chamados aqueles objetos coloridos, ao invés de serem os frutos com que se parecem, são apenas cascas de cera cheias de água. Têm resistência suficiente para conter o líquido e para serem delicadamente apanhadas e lançadas a considerável distância. Da mesma forma que outras bombas fatais, explodem quando atingem o alvo; a cera fragmenta-se então e fica em sua maior parte grudada onde atinge. Recebi como presente espécimes de superior qualidade, em forma de garrafa ou jarro de mesa e decorados com pintura e douração. O gargalo era fechado numa imitação de rolhas seladas. Para serem utilizadas, são carregadas com água de colônia ou outros líquidos perfumados.

Dia 22/02

Hoje é dia do entrudo. Ao se levantar, meu amigo R. encontrou as extremidades inferiores de suas calças costuradas. Não é anormal colocar meia dúzia de bolas em cada perna, mas como R. encontra-se bastante indisposto, foram-lhe poupadas essas singulares manifestações de afeição e banhos de pé. Por ocasião dos cumprimentos habituais, esmagaram-me uma ou duas bolas na mão. Alguém encontrou seu café da manhã sem açúcar, outro achou o seu com sal e um terceiro começou a tirar fios da boca, o que causou novas explosões de riso; nos dois pratos de torradas todos os pedaços haviam sido envoltos em fios finos, de tal forma que os dentes de quem os comesse fatalmente ficariam presos àquela rede de fios. Alguns negociantes estrangeiros pararam, a caminho do Jardim Botânico. T. convidou-os a entrar. Os simplórios aceitaram! Pouco depois seus trajes de montaria estavam transformados em trajes de banho. Um deles saiu sem chapéu e afastou-se de cabeça descoberta! Voltou porém durante a tarde com um escravo trazendo uma grande cesta de projéteis de cereais e, entrando calmamente pela retaguarda, pagou com juros a seus adversários.

O vigário entrou e foi recebido com água de colônia. Sua sotaina porém foi poupada aos ataques do amigo. Mencionou então vários casos em que ficara quase afogado após receber as mais solenes promessas de que não seria molestado. Acreditei realmente e, voltando-me para algumas senhoras, perguntei-lhes como podiam, em um domingo, mentir assim… "Oh!", responderam-me, "As mentiras do entrudo não são pecados". Não é possível acreditar em coisa alguma enquanto dura o entrudo. O padre prudentemente safou-se; não ousou ficar para o jantar, pois seus aposentos poderiam ser roubados por amigos que em seu nome iriam buscar tudo que lá houvesse de valioso, dona F., por meio de uma esperteza dessa espécie, conseguiu uma dúzia de garrafas de cerveja do carpinteiro de J., que as tinha sob sua guarda. Ele próprio pregou uma peça no vigário no ano passado. Além disso, com o auxílio de um escravo, privou um amigo de um peru e várias outras aves, que foram servidas num jantar em que o próprio proprietário e sua família supunham que fossem convidados sem sonhar sequer que haviam contribuído para o ágape. Era costume colocar diante dos comensais pernis de madeira, pastéis de areia, doces e pudins de materias não comestíveis, pratos dos quais saltavam sapos, etc. No entanto, o entrudo, como outros festivais, não é mantido da mesma forma que outrora.

O senhor F. levantou-se para sair, mas foi convencido a sentar-se de novo em sua cadeira sobre a qual um vizinho colocara uma quantidade de farinha e bolas de água. Ergueu-se de um salto quando esse ninho de ovos foi esmagado e os autores da brincadeira tiveram convulsões de riso. A algazarra não esmoreceu com o seu jeito de limpar as partes afetadas Achando impossível permanecer, despediu-se com bom humor, acenando com uma das mãos, enquanto com a outra colocava o chapéu na cabeça – para cair em nova armadilha. O chapéu estava cheio dos ingredientes habituais do dia. Duas extremidades de sua pessoa encontravam-se agora nas mesmas condições em que a cabeça de dom Quixote, quando pediu inesperadamente seu elmo, num momento inconveniente para Sancho entregá-lo.

Retirando-me para meu quarto, encontrei uma senhora desconhecida escrevendo sobre a mesa. Parei e dirigi-lhe a palavra. Não deu resposta alguma, nem fez qualquer movimento. Avancei então. A intrusa era apenas um travesseiro ao qual haviam adicionado mangas, saias, gorros, xale, etc. muito artisticamente. Abrindo as gavetas, verifiquei que as mangas e os colarinhos de todas as camisas estavam costurados, enquanto as outras peças de roupas encontravam-se também hermeticamente fechadas, de tal forma que seria necessário muito tempo ou paciência para vesti-las.

As pessoas de ambos os sexos são peritas em acalmar uma vítima após o ataque e fazê-la abandonar sua atitude de reação. As senhoras mostram as palmas da mão abertas, esfregam-nas no corpo, para provar que não têm projéteis ocultos, sentam-se ao lado da vítima, manifestam cansaço e dizem que um pouco de brincadeira é bastante bom, mas seu excesso é uma tolice e uma vulgaridade; mostram-se inocentes, como madonas e concluem dizendo: "Chega de entrudo". Desfazem-se as suspeitas, mas em dez vezes contra uma, naquele mesmo momento, a vítima recebe no rosto um par de bolas de cera, cheias de água com sabão ou é alvo de um canudo de um amigo. A bela inimiga afasta-se da vítima com um grito e causa-lhe nova surpresa. Retira de sua pessoa miríades de bolas e canudos, até forçar a vítima à conclusão de que é feita de tais coisas ou tem consigo alguma máquina para produzi-las.

É costume também enviar pessoas em missões que só podem ser consideradas idiotas. Assim, por exemplo, uma pessoa de boa fé é mandada tratar do que imagina ser um assunto confidencial de grande importância para seu amigo – tomar dinheiro emprestado, por exemplo. A carta que leva em síntese: "Envie o tolo para o senhor B. e peça-lhe para enviá-lo a outro, com o mesmo pedido!"

Aconteceu o caso de uma família ser banqueteada com suas próprias vitualhas. Um guloso reverendo vingou-se de uma peça semelhante que lhe haviam pregado, aproveitando-se prodigamente da mesa de um vizinho. Sua hilariedade foi maior quando um esplêndido bolo foi trazido e colocado à sua frente. Com os olhos brilhantes investiu decisivamente sobre o bolo e, quando três quartos do mesmo já haviam sido consumidos, uma insinuação fê-lo levantar-se, permanecer em pé horrorizado e pedir paciência! O bolo – presente valiosíssimo de uma amiga – fora surrupiado de sua própria despensa.

Caminhei em direção do Passeio e vi alguns indivíduos serem molestados. Um cavalheiro vestindo terno novo recebeu duas ou três bolas e indignou-se deveras; dirigiu-me algumas observações e apontou para a janela de onde haviam partido as bolas. É inútil ficar encolerizados, pois aqueles que o fazem terão sua cólera refrescada por um chuveiro frio.

Os jovens aqui e acolá brincam com seringas. Há algum tempo notei enormes aparelhos de lata pendurados à porta dos funileiros e certa vez encontrei um indivíduo levando um deles para casa. Desejando saber para que eram destinados, detive-me um dia a examiná-los. Tudo o que pude saber do sorridente profissional foi que o preço de cada um era de dois mil réis. Eram seringas de entrudo de um ou dois litros. Os jovens marotos negros, que as enchem nos esgotos, raramente molestam qualquer pessoa que não seja da sua cor. Os rapazes brancos, porém, não têm cerimônia em molhar os etíopes. B. falou-me de alguns conhecidos seus que ocultavam as bombas no jardim para saudarem com ele seus amigos. Ele próprio tinha uma delas, mas estava desarranjada.

A ilustração, de um artista do Rio, representa magnificamente uma cena de entrudo nas ruas. Vi certa vez um negro carregando água da fonte da Carioca ser atacado precisamente da mesma maneira assim representada. O negro tropeçou e caiu de cabeça para frente. Felizmente sem se ferir.Retirando-me já à noite, não pude encontrar meios de me deitar na cama. Os lençois e as colchas haviam sido transformados em um saco, cuja boca fechada estava por baixo do travesseiro. Acendendo de novo o candeeiro, desmanchei a costura e finalmente deitei-me para descansar, exausto do entrudo e considerando que ainda devia ser grato por não ter encontrado um monte de bolas no fundo do saco.

As puerilidades do entrudo não seriam dignas de menção se não ilustrassem costumes antigos. Da mesma forma que outros divertimentos, sobreviveram às instituições que deviam comemorar, o que é muito natural, pois todas as pessoas apreciam divertimentos e alegrias.

Têm sido freqüentemente observadas coincidências notáveis na língua, costumes e outras questões que estabelecem uma intimidade, senão identidade, entre os ancestrais dos povos da Europa Ocidental e da Ásia Central. Não tenho conhecimento de que o entrudo tenha tido quanto à sua origem explicação desta maneira. Parece, porém, haver pouca dúvida de que seja o mesmo Hohlee do Indostão – festa que data de épocas míticas e conseqüentemente se envolve em densa obscuridade.

Alguns escritores supõe que o Hohlee refere-se à volta vitoriosa de um famoso herói após a batalha. Outros pensam que se baseia nas orgias de Krishnu, deus mais licencioso que o Júpiter grego. Outros ainda imaginam que se refere ao encerramento do ano velho e à aproximação da primavera, quando a natureza espalha suas flores pela terra. O epíteto de "purpúreo" foi dado à primavera pelos poetas antigos e a mesma estação é caracterizada pelo pó vermelho que os hindus, ao celebrarem o Hohlee, lançam uns sobre os outros.

Um relatório escrito da participação que teve na celebração deste festival na Corte de um princípe hindu é dado pelo senhor Broughton, que diz:

"Celebrar o Hohlee consiste em lançar uma certa quantidade de farinha feita de uma noz aquática chamada singara e colorida com tinta vermelha: essa farinha chama-se abeer e o principal divertimento é lançá-la aos olhos, à boca e ao nariz dos foliões e enlameá-los completamente com água tingida de cor de laranja. A abeer é muitas vezes misturada com talco em pó, para fazê-la brilhar, e quando penetra nos olhos causa bastante dor. É algumas vezes encerrada em pequenos glóbulos feitos de um material gelatinoso mais ou menos do tamanho de um ovo, com os quais é posssível fazer boa pontaria contra aqueles a quem se deseja atingir; necessitam porém ser manejados habilmente, pois rompem ao mais ligeiro contato…

Poucos minutos depois de termos sentado, grandes bandejas de lata, cheias de abeer e das pequenas bolas já descritas foram trazidas e colocadas diante do grupo, juntamente com água amarelada e uma grande seringa de prata para cada indivíduo. O Mha Raj iniciou a brincadeira atirando um pouco de água vermelha ou amarela sobre nós, com goolabdans – pequenas vasilhas de prata para borrifar água de rosas nas visitas de cerimônia. Todos começaram então a lançar abeer e a orvalhar seus vizinhos. É contra a etiqueta qualquer coisa contra o Raj; no entanto já lhe havíamos dito que tínhamos tomado a resolução de atacar quem quer que nos atacasse e, com bom humor, respondeu que "com todo o seu coração estava preparado para nos enfrentar e disposto a apostar quem atacava melhor". Verificamos, porém, logo que com ele não tínhamos a menor probabilidade, pois além de seus servidores segurarem um pano diante de seu rosto, tinham-lhe posto na mão uma mangueira de bomba de incêndio, cheia de água amarela e operada por meia dúzia de homens. Com esta arma atacou os que se encontravam em torno, com tal resultado que dentro de algum tempo não havia na barraca um único homem que tivesse seca qualquer parte do corpo.

Às vezes dirigia a água contra os que estavam sentados a seu lado com tal força que não era fácil à pessoa conservar-se sentada. Toda oposição a esse formidável aparelho seria fútil. Pazadas inteiras de abeer eram lançadas, seguidas imediatamente por um esguicho de água amarela, de tal forma que éramos alternadamente empoeirados e ensopados, até que o chão em que nos sentávamos tivesse ficado coberto com algumas polegadas de espessura de uma espécie de lama cor de rosa e alaranjada. Nunca testemunharia em minha vida cena semelhante.

Imaginai grupos sucessivos de dançarinos, enfeitados com fitas de ouro e prata, com seus vistosos enfeites manchados de abeer e gotejantes como náiades, com água cor de laranja – cantando agora as canções do Hohlee, com todas as árias da libertinagem e pouco depois gritando com afetadas exclamações, quando recebiam um novo jato de água de parte do Raj; a dissonância dos tambores, trombetas, violinos e címbalos, tocando como se tentassem apenas abafar os outros ruídos que se ouviam ao redor; o triunfo daqueles que lançavam com êxito a abeer e os clamores das vítimas dos ataques; as grandes explosões de risos e os aplausos que se ouviam por todos os lados entre a multidão alegre; imaginai se puderdes tal reunião de objetos extraordinários, em seguida pintai-os com duas brilhantes pinceladas de róseo e amarelo, e tereis uma idéia da cena, que vai além absolutamente de qualquer descrição".

Em outros pontos o entrudo e o Hohlee concordam. O último, ao que nos informa "é realizado quase na mesma época que nossa quarta-feira de cinzas e também precede a Quaresma ou temporada de expiação hindu" – coincidência de época e finalidades, tornada ainda mais notável pelo fato de ambos os festivais serem celebrados com poeira e água, com bolas e seringas. O Hohlee é celebrado por todas as classes na India inteira, constituindo uma oportunidade de divertimento universal. Entre suas principais brincadeiras incluem-se as que entre nós caracterizam o primeiro de abril.

Em diversos aspectos o festival asiático assemelha-se à antiga Saturnália e ao moderno carnaval, sendo permitidas as maiores liberdades às pessoas de todas as categorias. Já foi comparado ao Hilaria celebrado em Roma no equinócio vernal em honra da mãe dos deuses, quando sua estátua era levada em procissão acompanhada por pessoas fantasiadas que por seus trajes e maneiras assumiam então a máscara da personalidade que lhes agradava.

Na verdade quase todas as nossas antigas festas religiosas são ligadas a instituições semelhantes da India, Egito, Grécia e Roma.

Para concluir este curioso assunto, deve-se recordar que nos últimos anos a borracha da India tem sido aplicada a uma multidão de finalidades úteis. Contribui com numerosos aparelhos valiosos para a ciência. Garrafas de borracha constituem uma espécie nova e única de instrumentos de exaustão e compressão. Fazem-se também com borracha cintas e ventosas assim como substitutos para seringas. Esta última invenção é devida aos aborígenes do norte do Brasil. No Pará, região da borracha, as seringas de goma elástica são comuns desde há muito tempo, e durante o entrudo podem ser vistas nas mãos dos índios, dos brancos e dos negros.

É também bastante curioso o fato de ser lançada pelos foliões uma terra ou ocre amarelo, assim como amido de caçava."

Fontes: História do Samba - Editora Globo; EWBANK, Thomas. A vida no Brasil; ou Diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1976. Reconquista do Brasil, 26

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Melo Morais Filho

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Melo Morais Filho (Alexandre José de Melo Morais Filho), poeta, cronista e folclorista, nasceu em Salvador (BA), em 23/02/1843 e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 01/04/1919. Formou-se em medicina em Bruxelas, Bélgica, e revalidou o diploma no Rio de Janeiro em 1876. Diretor do Arquivo Municipal, aposentou-se em 1918. Colaborador de jornais e revistas, deixou grande bibliografia etnográfica e folclórica.
Foi o primeiro tradicionalista do seu tempo. encabeçando campanha pela valoriazação de festas, autos e bailes populares, muitos dos quais encenou. Publicou Cancioneiro dos ciganos, Rio de Janeiro, 1885; Ciganos no Brasil, Rio de Janeiro, 1886. Festas populares do Brasil, Rio de Janeiro, 1888, Festas do Natal, Rio de Janeiro, 1895; Cantares brasileiros: cancioneiro fluminense, 2 volumes, Rio de Janeiro, 1900; Festas e tradições populares no Brasil, nova edição, revista e aumentada, Rio de Janeiro, 1901 (3a. ed., revisão e notas de Luís da Câmara Cascudo, Rio de Janeiro, 1946); Serenatas e saraus (Coleção de autos populares, lundus, recitativos, modinhas, duetos, serenatas, barcarolas, etc.), 3 volumes, 1901-1902; Histórias e costumes, Rio de Janeiro, 1904; Fatos e memórias, Rio de Janeiro, 1904; Quadros e crônicas, Rio de Janeiro, s.d. O pai do grande poeta e compositor Vinícius de Moraes era sobrinho de Melo Moraes Filho.

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Araci Cortes

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Araci Cortes (Zilda de Carvalho Espíndola), cantora e atriz, nasceu no Rio de Janeiro em 31/03/1904 e faleceu na mesma cidade em 08/01/1985. Filha do chorão Carlos Espíndola, até os 12 anos morou no bairro do Catumbi, onde foi vizinha de Pixinguinha. Após alguns anos vivendo com a madrinha, deixou a família aos 17 anos, passando a atuar em circos.

Cantava e dançava maxixes no Democrata Circo, da Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro, quando foi descoberta por Luiz Peixoto e levada para fazer teatro de revista. Com o pseudônimo de Araci Cortes, que lhe foi dado por Mário Magalhães, crítico teatral do jornal A Noite, fez grande sucesso nas décadas de 1920 e 1930.

Foi a responsável pelo lançamento de diversos compositores em revistas da Praça Tiradentes, como Ary Barroso, Zé da Zilda, Benedito Lacerda e outros. Em 1923 já era intérprete consagrada, com o sucesso do samba Ai, madama, incluído na revista Que pedaço, de Sena Pinto, com música de Paulino Sacramento, no Teatro Recreio.

Em 1925 estreou em disco, com três gravações na Odeon, Serenata de Toselli, A casinha (motivo mexicano com versão de Luiz Peixoto, mais conhecida como A casinha da colina e Petropolitana (sem autor no disco).

Em 1928 atuou na revista Miss Brasil, de Luiz Peixoto e Marques Porto, cantando o samba-canção Iaiá (Linda flor), com música de Henrique Vogeler, e uma terceira letra, Iaiá, ioiô, já então de Luiz Peixoto. A peça foi sucesso em dezembro de 1928 e janeiro de 1929, e sua interpretação desta música, gravada na Parlophon, fez sucesso no Carnaval de 1929.

Ainda em 1928, na peça Microlândia, de Luiz Peixoto, Marques Porto e Afonso de Carvalho, com música de Serafim Rocha e Sinhô, fez com grande êxito o lançamento do samba amaxixado Jura (Sinhô), que teve duas gravações simultâneas, por ela e por Mário Reis. Na revista Laranja da China, de Olegário Mariano, com música de Júlio Cristóbal, Pedro Sá Pereira e Ary Barroso, encenada no Teatro Recreio, interpretou o samba Vamos deixar de intimidade, responsável pelo lançamento de Ary Barroso como compositor.

Em 1932, na revista Angu de caroço, de Carlos Bittencourt, Luís Iglésias e Jardel Jércolis, estreada no Teatro Carlos Gomes, apresentou-se com grande êxito, ao lado de Sílvio Caldas, interpretando o samba Mulato bamba (Noel Rosa). Em 1933 o empresário Jardel Jércolis realizou a primeira excursão de uma companhia brasileira de revistas à Europa, sendo ela a estrela.

De 1929 a 1935 lançou 32 discos, a maioria pela Odeon, registrando sua melhor fase como intérprete. Em 1930 lançou, na revista Diz isso cantando, a música No morro (Ary Barroso e Luís Iglésias), que oito anos mais tarde seria reescrita e se tornaria o sucesso Boneca de piche. Em 1939, novamente no Teatro Recreio, atuou na revista Entra na faixa, de Luís Iglésias e Ary Barroso, na qual lançou o samba-exaltação Aquarela do Brasil.

Foi em 1953 que gravou, pela Odeon, seus últimos três discos de 78 rpm; em seguida, afastou-se do meio artístico. Atuaria no teatro de revistas até 1961, sendo a última É por aqui Sinhô, no Teatro Zaqui Jorge, no bairro carioca de Madureira.

Em 1965 o poeta e compositor Hermínio Belo de Carvalho promoveu sua volta ao palco no show Rosa de ouro, no Teatro Jovem, do Rio de Janeiro, no qual se apresentou ao lado de Paulinho da Viola e Clementina de Jesus, entre outros. Deste espetáculo resultaram dois LPs lançados pela Odeon, Rosa de ouro 1 (1965) e Rosa de ouro 2 (1967), nos quais participou em várias faixas.

Em 1976 deu recitais no Teatro Glauce Rocha, e, em 1978, no Teatro Dulcina. Em 1984, em comemoração aos seus 80 anos, foi lançado o LP Araci Cortes, uma coletânea com depoimentos da cantora, e o livro Araci Cortes, de autoria de Roberto Ruiz, ambos pela Funarte. Entre os seus grandes sucessos como cantora, estão ainda Quem me compreende (Benedito Vivas e Ary Barroso), Tem francesa no morro, maxixe que marcou a estréia de Assis Valente como compositor, e Os quindins de Iaiá (Pedro de Sá Pereira e Cardoso de Meneses).

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Angelino de Oliveira

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Angelino de Oliveira, compositor e instrumentista, nasceu em Itaporanga SP (21/4/1888) e faleceu em São Paulo SP (24/4/1964). Filho único de modestos lavradores que se mudaram para Botucatu SP quando ele tinha seis anos. Autodidata, tocava violão, guitarra portuguesa e violino, na orquestra do Gabinete Literário e Recreativo, e trombone na Banda de Música São Benedito.
Por volta de 1917, formou o Trio Viguipi, que com ele no violino, José Maria Castro Pérez no violão e Luís Batista de Carvalho Cardoso no piano, apresentou-se na capital, Santos SP e cidades do interior do Estado.
Apresentou oficialmente em primeira audição sua célebre canção ou toada paulista Tristezas do jeca no Clube 24 de Maio, em 1918, com seu acompanhamento ao violão. Foi gravada originalmente (sem a letra) pela Orquestra Brasil-América, em disco Odeon lançado no final de 1923.
Em 1926 a Odeon lançou Tristezas do Jeca cantada por Patrício Teixeira com grande êxito. Morando em Ribeirão Preto SP desde 1924, voltou a Botucatu e abriu uma loja de instrumentos, A Musical, exercendo também as atividades de dentista prático e diretor artístico da PRF-8 Rádio Emissora de Botucatu.
Sua discografia é pequena em relação ao que produziu. Grande boêmio, nunca se preocupou em gravar ou sequer guardar suas músicas. Só o zelo de amigos conseguiu salvar algumas das 80 relacionadas. Em 1930, Paraguaçu, com o pseudônimo de Maracajá, no selo vermelho de Cornélio Pires na Columbia, gravou A incruziada, canção-toada, e Cantando o aboio. No mesmo ano, o Trio Ortega gravou Cabocla do sertão.
Em 1931, Paraguaçu gravou com sucesso Tenho pena de meus olhos, canção-toada, também cantada por ele no filme O campeão de futebol, da Sincrocinex, desse ano. Em 1936, o mesmo Paraguaçu lançou a canção Lua cheia e, no ano seguinte, regravou Tristezas do Jeca, um enorme êxito. Em 1942, Cobrinha e Capitão, cantores de Piracicaba SP, gravaram Caboclo velho e Saudades de Botucatu.

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Alberto Marino

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Alberto Marino, regente, compositor, instrumentista e professor, nasceu em São Paulo SP, em 23/3/1902, e faleceu em 11/2/1967. Descendente de imigrantes italianos, nasceu no bairro do Brás, revelando desde cedo gosto pela música.

Aos 15 anos fazia serenatas com seus companheiros do bairro e, numa dessas noites de boêmia, compôs Rapaziada do Brás, valsa que o tornaria famoso, gravada pela primeira vez em 1927 na fábrica Brasilphone de São Paulo, por seu Sexteto Bertorino Alma. Este pseudônimo, Bertorino Alma, é um anagrama de seu nome.

Foi um dos fundadores, em 1925, da Rádio Educadora Paulista (depois Gazeta), onde trabalhou como radialista. Regeu muitas vezes a orquestra do hoje extinto Teatro Colombo, no Largo da Concórdia, sendo autor de várias músicas, principalmente valsas.

Entre suas principais composições estão Luar de São Paulo (com letra posterior de Alberto Júnior), Senhoritas do Brás, O amor que faz viver (letra de Judas Isgorogota), Meigo olhar, Amarga serenata (com Jorge Amaral) e Tudo passa (letra de Marcino Marelo).

Em 1931-1932, enquanto durou a gravadora Arte-fone de São Paulo, na Mooca, cujo concessionário era Pedro Giordan, foi seu diretor-artístico. Diplomado em violino pelo Instituto Musical de São Paulo, em 1941, e em composição e regência pelo Conservatório Musical Osvaldo Cruz, de São Paulo, em 1957, passou a dedicar-se às funções de inspetor do Conservatório Musical Santa Cecília e professor do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Foi maestro da Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo.
Em 1960 seu filho, Alberto Marino Júnior compôs uma letra para Rapaziada do Brás, gravada no mesmo ano por Carlos Galhardo.
Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora - PubliFolha.

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Almirante

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Em 1927, quando cumpria serviço militar no Tiro Naval e era ordenança do comandante Mathias Costa, foi que Henrique Foreis Domingues virou Almirante. Chegava ao Rio de Janeiro o hidroavião Jahú, que cruzara o Atlântico, na primeira travessia entre a Europa e o Brasil, e a cidade parou para festejar os pilotos. Encarregado de cuidar de um arranjo de flores e de fazer a saudação aos homenageados, o ordenança Foreis desfilava no carro, ao lado do comandante. Foi com tal elegância que cumpriu suas funções, empertigado e posudo, que a certa altura alguém apontou para Mathias Costa e perguntou quem era. Ao saber ser o comandante, voltou a indagar: "E o outro?". "É o almirante" - foi o gracejo.

Um companheiro ouviu, a resposta virou brincadeira e nunca mais ninguém chamou Henrique a não ser por Almirante, que viria a ser A Maior Patente do Rádio. Henrique nasceu em 19 de fevereiro de 1908 no Rio, filho de Eduardo Foreis Domingues e de Maria José Foreis. Em 1914, morava em Juiz de Fora, onde o pai montara uma loja de armarinhos. Nessa cidade aprendeu a ler com professora particular. A família transferiu-se depois para Friburgo, no estado do Rio de Janeiro, e ele e seus três irmãos foram matriculados no Colégio Alemão.
Veio daí o contato de Almirante com a música. Um professor alemão foi contratado para dar-lhe aulas de violino. A antipatia do aluno pelo instrumento e pelo professor fez com que o curso não fosse muito adiante. Em 1919, Eduardo mandou a família de volta para o Rio de Janeiro e Henrique foi estudar no Liceu Rio Branco, na Tijuca. Em 1920, estava no Colégio Salesiano de Santa Rita, em Niterói.
Com o pai adoecendo, Henrique e seu irmão Eduardo foram obrigados ao trabalho. Henrique se empregou em uma loja de objetos religiosos, cumprindo horário das segundas aos sábados, fazendo faxina aos domingos. À noite, estudava contabilidade. Tinha 16 anos quando seu pai morreu e, dois anos depois, estava no Tiro Naval, transformando-se para sempre em Almirante.
Já tinha alguma experiência como cantor quando foi chamado a integrar o conjunto Flor do Tempo, formado por rapazes da Vila Isabel, entre eles Braguinha. O compositor Braguinha que em 1928 estava a seu lado no Bando de Tangarás, no qual também aparecia outro rapaz da Vila, um certo Noel Rosa.
A fama que angariou e a experiência adquirida deram a Almirante base para iniciar carreira solo, quando os Tangarás se dispersaram. Em 1932, estava em Salvador e, em seguida, no Recife, ao lado de Carmen Miranda, arrancando aplausos. Em 1934, gravou O orvalho vem caindo, de Noel Rosa e Kid Pepe, e, em 1937, o sucesso foi Faustina, de Gadé. Gravou muito em 1938, mas os "estouros" foram Yes, nós temos bananas e Touradas em Madri, de Braguinha e Alberto Ribeiro.
Participou dos filmes Alô Alô Brasil, Estudantes, Alô, Alô Carnaval e Banana da Terra. Como radialista, no Rio e em São Paulo (rádios Nacional, Tupi, Clube, Globo, Record etc.), produziu, escreveu e dirigiu, em mais de 40 anos, quase uma centena de programas. Foi também dublador de desenhos de Walt Disney. Sofreu derrame cerebral em 1958 e sua força de vontade fez com que reaprendesse a falar, ler e escrever. Organizou o maior arquivo da música brasileira e nunca deixou de trabalhar até morrer. O que aconteceu aos 72 anos, no Rio de Janeiro em 22 de dezembro de1980.

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A mulata

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A mulata - Xisto Bahia e Mello Moraes Filho

Eu sou mulata vaidosa, / Linda, faceira, mimosa,
Quais muitas brancas não são! / Tenho requebros mais belos,
Se a noite são meus cabelos, / O dia é meu coração.

Sob a camisa bordada, / Fina, tão alva, rendada,
Treme-me o seio moreno: / É como o jambo cheiroso,
Que pende ao galho frondoso / Coberto pelo sereno!

Nos bicos da chinelinha, / Quem voa mais levezinha,
Mais levezinha do que eu?... / Eu sou mulata tafula;
No samba, rompendo a chula, / Jamais ninguém me venceu.

Ao afinar da viola, / Quando estalo a castanhola,
Ferve a dança e o desafio; / Peneiro num mole anseio,
Vou mansa num bamboleio, / Qual vai a garça no rio.

Aos moços todos esquiva, / Sendo de todos cativa,
Demoro os olhares meus; / "Que tentação... que maldita...
Bravo! Mulata bonita!" / – Adeus, meu ioiô, adeus...

Minhas iaiás da janela / Me atiram cada olhadela...
Aí! Dá-se? Mortas assim! / E eu sigo mais orgulhosa,
Como se a cara raivosa / Não fosse feita pra mim.

Na fronte, ainda que baça, / Me assenta o troço de cassa
Melhor que c’roa gentil; / E eu posso dizer ufana
Que, qual mulata baiana, / Outra não há no Brasil.

Nos meus pulsos delicados / Tragos corais engrazados,
Contas d’ouro e coralinas; / Prendo meu pano à cintura,
Que mais realça à brancura / Das saias de rendas finas.

Se tenho um desejo agora, / De meus afetos senhora,
Sei encontrá-lo no amor. / – Ai! Mulata! Ai! Borboleta!
É tua sina inquieta, / Tu pousas de flor em flor.

Meus brincos de pedraria / Tocam, fazendo harmonia
Com meu cordão reluzente; / Na correntinha de prata
Tem sempre e sempre a mulata / Figuinhas de boa gente.

Eu gosto bem desta vida, / Que assim se passa esquecida
De tudo que é triste é vão! / Um dito bem requebrado,
Um mimo, um riso, um agrado, / Cativam meu coração.

Nos presepes da Lapinha / Só a mulata é rainha,
Meiga a mostrar-se de novo: / De sua face ao encanto
Vai-se o fervor pelo santo, / P’ra o santo não olha o povo!

Minha existência é de flores, / De sonhos, de luz, de amores,
Alegre como um festim! / Escrava, na terra um dono,
Outro no céu sobre um trono, / Que é meu Senhor do Bonfim!

Na fronte, ainda que baça, / Me assenta o troço de cassa,
Melhor que c’roa gentil; / E eu posso dizer ufana
Que, qual mulata baiana, / Outra não há no Brasil.

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Perdão, Emília

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Primeira modinha gravada em 1902 pela Casa Edison. Almirante no programa "O Pessoal da Velha Guarda" de 13 de março de 1952 afirmava: "Entre as velhas e mais plangentes modinhas do Brasil figura a célebre “Perdão Emília”, soturna cantiga que foi [flor?] pelo Brasil afora no tempo das serenatas. Jamais se apurou quem a escreveu. Aproveitando-se dessas circunstâncias, um cantor paulista apossou-se dela, gravando-a em discos com o seu nome. É uma desfaçatez, que foi uma nódoa na decência da profissão de autores e de cantores nessa terra.
“Perdão Emília”, segundo informação de antigos ouvintes, informações a que dão curso sem apoiar ou desapoiar, foi composta por um português chamado José Henrique da Silva, que residiu longo tempo em São João da Barra. Foi escrita há 63 anos, em 1889, quando o seu autor contava 24 anos de idade. Isso, repito, é a informação de um ouvinte que nos deu por carta, e que jamais pudemos apurar."

Perdão, Emília (modinha, 1889) - José Henrique da Silva e Juca Pedaço
Paraguassu

Já tudo dorme, vem a noite em meio, a turva lua se surgindo além: / Tudo é silêncio; só se vê nas campas, piar o mocho no cruel desdém. / Depois, um vulto de roupagem preta, no cemitério com vagar entrou. / Junto ao sepulcro, se curvando a medo, com triste frase nesta voz falou:

"Perdão, Emília, se roubei-te a vida, se fui impuro, fui cruel, ousado... / Perdão, Emília, se manchei teus lábios. / Perdão, Emília, para um desgraçado." / "Monstro tirano, por que vens agora, lembrar-me as mágoas que por ti passei? / Lá nesse mundo em que vivi chorando, desde o instante em que te vi e amei.

Chegou a hora de tomar vingança, mas tu, ingrato, não terás perdão... / Deus não perdoa as tuas culpas todas, / Castigo justo tu terás, então. / Perdi as flores da capela virgem, / Cedi ao crime, que perdão não tinha, mas, tu, manchaste a minha vida honesta, / Depois, zombaste da fraqueza minha...

Ai, quantas vezes, aos meus pés, curvado, davas-me prova de teu puro amor. / Quando eu julgava que fosses um anjo, não via fundo nesse olhar traidor. / Mas vês agora, que o corpo em terra tombou, de chofre, sobre a lousa fria."

E quando a hora despontou, na lousa um corpo inerte a dormitar se via: / "Perdão, Emília, se manchei-te a vida, se fui impuro, fui cruel, ousado... / Perdão, Emília, se manchei teus lábios. / Perdão, Emília, para um desgraçado."....

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Urubu malandro

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Com o título de "Samba do Urubu" e classificado como "dança característica", o "Urubu Malandro" foi gravado pela primeira vez em 1914. O disco (Phoenix n° 70589) tinha como intérprete Lourival Inácio de Carvalho, o Louro, compositor, instrumentista e solista do grupo (clarinete, cavaquinho e violão) que levava o seu nome. Este mesmo Louro, a quem é geralmente atribuída a autoria da composição, é na verdade somente o autor das variações que a popularizaram.

Pixinguinha
O "Urubu Malandro" é um antigo tema folclórico da região norte do estado do Rio de Janeiro. Tema, aliás, excelente para improvisos, sendo um dos preferidos de Pixinguinha e outros mestres do choro como Benedito Lacerda e Altamiro Carrilho, ambos nascidos na mesma região onde surgiu o curioso tema.
Urubu malandro (dança característica, 1914) - Autor desconhecido; tema folclórico
------A --------------------------------------E7
Urubu veio de riba / Com fama de dançadô
-----------------------------------------------A
Urubu chegou no Rio / Urubu nunca dançou
---------------------E7-------------- A
Dança, dança urubu / Eu não, sinhô

-------A-------------------------------------- E7
Urubu não vai ao céu / Nem que seja rezadô
-------------------------------------------------A
Urubu catinga muito / Persegue Nosso Senhor
------------------E7-------------- A
Foge, foge urubu / Eu não, sinhô

--------A----------------------------------- E7
Urubu está cantando / Que nada sabe dizê
---------------------------------------------------A
Em Mato Grosso se ouve: / Que foi a tropa fazê?
-----------------E7------------- A
Fala, fala urubu / Eu não, sinhô

--------A -----------------------------------------E7
Urubu lá do Pará / Quem tem fama de avançadô
--------------------------------------------------------A
Larga o trono, vem embora / Deixa o Lauro por favô
--------------------E7-------------- A
Deixa, deixa urubu / Eu não, sinhô

-------A------------------------------ E7
Urubu delegado / É um moço de valô
------------------------------------------------A
É bonito e é letrado / Sabe mais que um dotô
------------------E7------------- A
Sabe, sabe urubu / Eu não, sinhô

-------A ---------------------------------E7
Urubu municipá / Larga o osso por favô
------------------------------------------------------A
Vê se come os intendente / Da mão do bispo, sinhô
--------------------E7------------- A
Come, come urubu / Eu não, sinhô

-------A--------------------------------------- E7
Urubu chega disposto / Deixa o povo por amô
-----------------------------------------------------A
Corta os casaca-lavado / Que é pessoá avançadô
--------------------E7------------- A
Corta, corta urubu / Eu não, sinhô

--------A------------------------------------ E7
Urubu Nascimento / Carinha que Deus pintô
-----------------------------------------------A
Meta a mão na algibeira / Paga aquele cantor
-------------------E7------------- A
Paga, paga urubu / Eu não, sinhô

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Isto é bom

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Xisto Bahia compôs a primeira música gravada no Brasil, o lundu "Isto é bom", que completou mais de cem anos. A voz do cantor Bahiano, o primeiro cantor profissional da Casa Edison soava fanhosa, os discos eram frágeis - feitos de cera de carnaúba - e o aparelho para ouvi-los, o gramofone, funcionava a corda. Mas nada disso tirava o glamour de levar para casa, no distante ano de 1902, o registro de uma gravação nos raros discos produzidos pela Casa Edison. O primeiro deles, o Zono-o-Phone 10.001, traz o registro do lundu Isto é bom, do baiano Xisto de Paula Bahia com a honraria de ter sido a primeira música gravada no Brasil.
Isto é bom (lundu, 1902) - Xisto Bahia

O inverno é rigoroso / Bem dizia a minha vó
Que dorme junto tem frio / Quanto mais quem dorme só

Bahiano

Isto é bom, isto é bom / Isto é bom que dói...

Se eu brigar com meus amores / Não se intrometa ninguém
Que acabado os arrufos / Ou eu vou, ou ela vem

Quem ver mulata bonita / Bater no chão com o pezinho
No sapateado a meio / Mata o meu coraçãozinho

Minha mulata bonita / Vamos ao mundo girar
Vamos ver a nossa sorte / Que Deus tem para nos dar

Minha mulata bonita / Que te deu tamanha sorte
Foi o Estado de Minas / Ou Rio Grande do Norte

Minha viola de pinho / Que eu mesmo fui o pinheiro
Quem quiser ter coisa boa / Não tenha dó de dinheiro

Agora a outra versão da música, possivelmente a original:

Já já você quer morrer (Lundu) - Xisto Bahia

Já já você que morrer / Quando morrer, morramos juntos / Que eu quero ver como cabe / Numa cova dous defuntos

Isto é bom / Isto é bom / Isto é bom que dóe

A saia da Carolina / Me custou cinco mil reis / Arrasta mulata a saia / Que eu dou mais cinco e são dez

Isto é bom / Isto é bom / Isto é bom que dóe

Mulata levanta a saia / Não deixa a renda arrastar / A saia custa dinheiro / Dinheiro custa ganhar

Isto é bom / Isto é bom / Isto é bom que dóe

Os padres gostão de moças / E os solteiros tambem / Eu como rapaz solteiro / Gosto mais do que ninguém

Isto é bom / Isto é bom / Isto é bom que dóe

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Xisto Bahia

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Xisto Bahia (Xisto de Paula Bahia), compositor, cantor e ator, nasceu em Salvador (BA), em 6/8/1841, e faleceu em Caxambu (MG), em 30/10/1894. O pai, o major Francisco de Paula Bahia, casado com Teresa de Jesus Maria do Sacramento, recebeu como prêmio por sua participação nas campanhas da Cisplatina e Independência a administração da fortaleza de Santo Antônio de Além do Carmo, onde o filho nasceu e iniciou sua carreira musical, como comediante amador e seresteiro. Aos 17 anos já cantava suas primeiras modinhas.

Escreveu e representou comédias no grupo Regeneração Dramática, do qual era presidente o futuro visconde do Rio Branco, levadas à cena no teatro da Rua São José de Cima. Com a morte do pai, em 1858, tentou, sem conseguir, trabalhar no comércio, decidindo-se então pela carreira teatral. Em 1859 apresentou-se como corista (barítono) da Companhia Lírica Clemente Mugnai, no Teatro São João, de Salvador. Transferiu-se depois para a companhia de seu cunhado, o ator Antônio Araújo, com a qual viajou pelas principais cidades da província. Em 1861 tocava e cantava chulas e lundus de sua autoria na companhia organizada peio comendador Constantino do Amaral Tavares, na época diretor do Teatro São João. Em 1864 foi contratado pelo empresário Couto Rocha, excursionando durante dez anos pelo Norte do país.

No Ceará, em 1866, atravessou uma crise de depressão, por considerar sua carreira fracassada, o que o levava a entrar em cena sem saber seu papel nas comédias. Recuperou-se, entretanto, no Maranhão: atendendo aos conselhos do crítico Joaquim Serra, passou a estudar sob a direção de Joaquim Augusto. Os resultados não tardaram. Logo depois, voltou a se apresentar com sucesso no Ceará, retornando consagrado à Bahia em 1873. A Companhia de Mágicas de Lopes Cardoso, na qual ingressou, montou então a comédia de sua autoria Duas páginas de um livro, impressa em 1872 no Maranhão, de conteúdo abolicionista e republicano.

Em 1875 estreou no Rio de Janeiro, no Teatro Ginásio, na Companhia de Vicente Pinto de Oliveira. Essa atuação representou grande salto na sua carreira, surgindo daí o convite para atuar em outras comédias, gênero para o qual sua contribuição foi marcante. Corriam paralelamente suas carreiras de comediante, de compositor e de intérprete. Tanto a modinha como o lundu eram grandes atrações da época: o sentimentalismo da primeira como a irreverência da segunda eram admirados nos salões. No Rio de Janeiro, surgiu como concorrente de Laurindo Rabelo, que fazia grande sucesso com seus versos maliciosos e satíricos, utilizando a mesma linguagem chistosa. O publico dividiu-se entre um e outro, e essa competição veio a influenciar o teatro de costumes, que passou a adotar a gíria e a linguagem popular de sentido dúbio.

Em 1875 trabalhou na peça Uma véspera de Reis, de Artur Azevedo, que conseguira a aprovação de Rui Barbosa, então diretor do Conservatório Dramático de Salvador, para montá-la. Representou o papel do tabaréu Bermudes com tal imaginação, que o autor da peça, em artigo publicado em O País, de 7 de novembro de 1894, considerou-o como seu parceiro. Apresentada pela primeira vez no Teatro São João, essa peça de Artur Azevedo marcou o sucesso definitivo do ator.

Em 1878, no drama As duas órfãs, inaugurou o Teatro da Paz, de Belém (PA), e no ano seguinte voltou a exibir-se na Bahia, pela última vez, com Pontes de Oliveira, indo em seguida para o Rio de Janeiro. Aí passou a integrar o conjunto de Furtado Coelho, encabeçando o elenco de Jacinto Heller.

Em 1880 recebeu os aplausos de Pedro II, pelo seu desempenho na peça comemorativa da batalha do Riachuelo, Os perigos do coronel. Atuou em teatros de São Paulo e Minas Gerais, sempre com sucesso. Em 1887 passou a dirigir o Teatro Lucinda, do Rio de Janeiro, onde montou cerca de cinco revistas e mágicas.

Em 1891 afastou-se do palco, obtendo do então presidente do Estado do Rio de Janeiro, Francisco Portela, um lugar de amanuense na Penitenciária de Niterói, que ocupou até 1892. Voltou à cena pela última vez no Teatro Apolo (Rio de Janeiro) na Companhia Garrido, com a mágica O filho do averno, de Eduardo Garrido. Pelo sucesso alcançado com a peça, Artur Azevedo escreveu um perfil do artista, publicado no semanário Álbum.

Em 1892 recebeu convite do empresário português Sousa Bastos para uma temporada no Teatro das Novidades, de Lisboa, Portugal, a qual não chegou a se realizar devido à revolta da Armada, ocorrida em setembro daquele ano.

Em 1893, já doente, retirou-se para Caxambu, onde morreu em 1894, deixando viúva a atriz portuguesa Maria Vitorina de Lacerda Bahia e quatro filhos, Augusto, Maria, Teresa e Manuela. Sem qualquer formação musical, notabilizou-se por seu talento espontâneo, instintivo. Sua produção, embora pequena, é de excelente qualidade, valorizando-se por seu estilo ao violão e sua bela voz de barítono.

Ficaram célebres as interpretações de algumas de suas obras, como a modinha Quis debalde varrer-te da memória, e o famoso lundu Isto é bom, com o qual a Casa Edison iniciou em 1902 suas gravações de música popular brasileira. O disco, com a marca Zon-o-phone e o n° 10.001, traz a interpretação do cantor Bahiano.

Último ato

"Está na terra, na terra que ele tanto ama, o simpático e inteligente ator Xisto Bahia. Depois de uma longa ausência, ausência que lhe deu ensejo de mostrar ao Sul um talento superior, que se criou no Norte, e que lá viu glorificar-se; depois de receber as ovações de um público ilustrado, eis que aporta às nossas plagas o verdadeiro intérprete da arte dramática, que encontra em cada paraense um amigo, em cada cidadão um apologista do talento, do merecimento real. Um aperto de mão, Xisto Bahia! Depois do abraço fraternal, cumprimos um dever apresentando o filho da arte ao público paraense".

Como mostra a nota publicada em março de 1884 no Diário de Notícias, em Belém, se elogios pudessem ser transformados automaticamente em dinheiro, os bolsos de Xisto de Paula Bahia estariam cheios de notas gordas. Aclamado pelo público e pela crítica, o problema de Xisto era justamente a falta de uma remuneração justa, pelo menos comparável à importância que já havia alcançado no teatro brasileiro.

Nos jornais e revistas, ele era aclamado como "o mais brasileiro de todos os atores", como escreveu Arthur Azevedo na publicação Álbum. Em casa, ele era o marido da atriz Maria Vitorina e o pai de cinco filhos: Augusto, Maria, Augusta, Thereza e Manuela. Como todo pai que se prezava, queria dar uma vida digna à família. Era exatamente isso que o atormentava.

"Consumido, torturado por não poder assegurar aos filhos e à esposa o conforto da vida e um futuro independente, foi salteado sempre pelas provações da pobreza", diz o sobrinho de Xisto, o jornalista Torquato Bahia, num texto publicado no Anuário de baianos ilustres, de 1910. Luiz Américo Lisboa Júnior explica que, mesmo com todo o reconhecimento, Xisto sentia-se deprimido por não conquistar independência financeira. "Não tinha outra alternativa a não ser representar e cantar suas modinhas para sobreviver. Por outro lado, decepcionava-se com o ambiente que lhe dera fama, incomodava-se com a falta de ética e o aspecto meramente mercantil nos bastidores dos teatros entre agentes e organizadores de temporadas", explica.

Américo Lisboa ressalta que, apesar do momento difícil, Xisto continua a atuar com sucesso e, em 1887, recebe o convite da empresa Dias Braga para dirigir o Teatro Lucinda, no Rio de Janeiro, na função de ator e administrador. "Sob sua direção, o Teatro Lucinda passa a ser o primeiro do Rio de Janeiro a ter iluminação elétrica, o que foi um feito notável para a época", revela o pesquisador.

Desilusão

Mas a desilusão de Xisto com a profissão parecia estar além do sucesso que alcançava com suas peças. Por isso, afasta-se do palco em 1891, quando obtém um emprego do então presidente do estado do Rio de Janeiro. Um dos maiores artistas do país abandonava o teatro para se tornar escrevente da penitenciária de Niterói. A mudança é sintomática. Com a habilidade de disfarçar a própria tristeza, como saber a realidade que o ator enfrentava no cotidiano para tomar essa decisão?

Mas, assim como passou pouco tempo atuando no comércio durante a adolescência, o próprio destino se encarregaria de afastar Xisto do novo emprego. Um ano depois, em 1892, com a deposição do presidente, ele foi demitido. Voltou à cena, e apesar do período afastado, reapareceu com o mesmo sucesso de antes no Teatro Apolo, ao lado das atrizes baianas Isabel Porto e Clélia Araújo. Em 1893, uma nova possibilidade poderia ter mudado o rumo da vida de Xisto. Ele foi convidado pelo empresário português Souza Bastos para interpretar seus personagens no Teatro das Novidades, em Lisboa. Mas a Revolução da Armada, desencadeada em 6 de setembro desse mesmo ano, frustrou a excursão.

Toda essa série de acontecimentos nos leva de volta ao ano de 1887. Com a caneta à mão e a carta por responder, Xisto não escuta mais os aplausos. Pensa nos filhos e na mulher, e volta a redigir a carta ao amigo Tomaz Antônio Espiúca. "Tu saíste quando se manifestavam os primeiros sintomas da decomposição geral que lavrava no teatro desse espantalho chamado império do Brasil. Eu, porém, fiquei e fui preso do contágio. Fiquei e hoje, para mim, o hábito constituiu-se lei, que jamais poderei derrogar, senão quiser arriscar-me a sucumbir na luta. Queres voltar? Queres comer novo pão, ainda mais amargo e duro do que o que já comeste? Ah! Não venhas, eu t´o peço. Como teu amigo velho e prático nestas coisas teatrais, faço a mais descarnada e franca oposição ao teu regresso".

Esta carta é um dos poucos momentos em que Xisto despe-se de todos os seus papéis, tira o riso da face, mostra a dor e a desilusão que guardava dentro de si. É esse Xisto que parte com a família, em 1894, para a cidade mineira de Caxambu, em busca de tratamento para uma doença até hoje não explicada. Segundo Torquato Bahia, o mal teria sido conseqüência de "padecimentos antigos". Caxambu, que fica no sul do estado e tem clima de montanha, é considerado o maior complexo hidromineral do mundo. A água de suas 12 fontes é considerada miraculosa e possui propriedades que teriam poderes curativos sobre problemas digestivos, hepáticos, de formação dos ossos e de pele, além da anemia.

Em 1868, foi lá que a princesa Isabel se curou de uma suposta infertilidade. Mas nem as águas de Caxambu, nem os saberes do médico baiano Paulo Fonseca, que teria cuidado de Xisto sem cobrar nada, apenas pela amizade, foram suficientes para fazê-lo sobreviver. No dia 30 de outubro de 1894, aos 53 anos, um dos maiores artistas brasileiros do século XIX se despedia da vida. Arthur Azevedo, o dramaturgo e amigo que, assim como Xisto, lutara pela abolição da escravatura e pela República, escreveu uma carta em sua homenagem. Anos depois, o sobrinho de Xisto afirmaria: "Entre o seu berço, que é a pobreza cheia de esperanças, e o seu túmulo, que é a pobreza cheia de lúgubres tristezas, está a sua existência inteira, que é a pobreza crucificada pela dor e mascarada por um riso eterno".

Difícil mesmo é saber onde está o túmulo ao qual Torquato Bahia se refere. Os livros que falam, em algumas poucas linhas ou páginas, sobre a vida de Xisto, não fazem qualquer referência sobre onde estão os restos mortais do artista baiano. Na verdade, muito pouco tem se falado sobre Xisto e, com a falta de referências a ele, se perde uma parte importante da história da música e do teatro baiano e brasileiro. "Xisto, até hoje, ainda não recebeu um estudo suficientemente profundo para avaliá-lo e explicá-lo", opina o professor de etnomusicologia da Ufba, Manuel Veiga.

A Fundação Cultural do Estado publicou, em 2003, na Revista da Bahia, um artigo especial em homenagem a Xisto Bahia. "O que Chiquinha Gonzaga fez com a música de carnaval, levando-a para os salões da corte, ele faz na Bahia e em Belém", compara o co-editor da publicação e produtor cultural Sérgio Sobreira.

Referências esparsas

O artigo - assinado por Armindo Bião, Cristiane Ferreira, Ednei Alessandro e Carlos Ribas - reúne indicações de fontes e referências relacionadas ao artista baiano. Entre elas, uma rua que leva o nome do artista, no bairro do Engenho Velho da Federação. "Os monumentos que traduzem uma determinada ideologia estão em pontos privilegiados. Temos uma prática, aqui em Salvador, de considerarmos herói só aquele que parte em batalha. Não temos aqui um teatro municipal com o nome de Xisto Bahia", diz Jaime Sodré.

O cineasta e professor de história Joel de Almeida pensa em fazer um filme sobre a vida de Xisto há cerca de 15 anos. A idéia inicial era produzir um documentário, mas devido à escassez de informação audiovisual sobre o artista, ele fez, há quatro anos, o projeto de um curta-metragem de ficção, aliando a ele fatos verídicos da vida do ator. "Xisto era um artista que reunia todos os elementos da cultura brasileira. Ele antecipou, de certo modo, a Semana de Arte Moderna. Se ela veio despertar a sociedade brasileira, ele foi isso no século XIX, um pioneiro. Ele tinha uma comunicação visceral com o povo", analisa. O projeto do filme está concorrendo a um edital do governo. Já o livro de Luiz Américo Lisboa Junior, Compositores e intérpretes baianos - de Xisto Bahia a Dorival Caymmi, está pronto, à espera de edição.

O professor da Escola de Teatro e diretor da Funceb, Armindo Bião, já coordenou um grupo de pesquisas na Ufba que estudava, entre outras questões, a obra de Xisto Bahia. Os alunos produziram, em 2001, o espetáculo Isto é bom, em homenagem ao artista. Parte das composições de Xisto pode ser encontrada no site do Instituto Moreira Sales, como informam o professor Manuel Veiga e o pesquisador Luciano Carôso.

Em meio a essas iniciativas, ao empenho de profissionais da música, do teatro, da história e do cinema, fica ainda a impressão de que muito falta a ser dito sobre Xisto Bahia. O reconhecimento à sua obra e trajetória pode trazer informações valiosas que ajudem a entender melhor o panorama da música popular e do teatro brasileiros hoje. Na opinião de Jaime Sodré, parte desse esquecimento tem raízes num dos problemas contra os quais o próprio Xisto Bahia lutava: a discriminação. "Esse esquecimento é doloroso. É importante saber o fim dessas personalidades, quem são seus descendentes. O que faltou para Xisto entrar na história da música brasileira? Aí tem o fator racial. Existe uma historiografia nacional que produz essas personalidades que, às vezes, não têm a cara do Brasil mestiço".

Uma das mais profundas descrições sobre a personalidade difícil de ser decifrada de Xisto Bahia foi feita pelo sobrinho dele, Torquato, filho de seu cunhado, o ator Antônio da Silva Araújo. "Os que o encontraram em vida viram nele um espírito jovial e alegre; uma alma cheia de abnegação e amor; um boêmio e um filantropo, capaz de passar a noite cantando ao luar, e de vender o relógio para matar a fome à primeira boca necessitada que lhe pedisse pão. Mas, tendo sempre o cuidado de não deixar seu rosto, em que acusava uma expressão de bem-estar, trair-lhe as dores íntimas, denunciar os temores de sua alma".

Adriana Jacob (Correio da Bahia) - 25 de julho de 2005

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Alexandre Gonçalves Pinto

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Alexandre Gonçalves Pinto, instrumentista, Rio de Janeiro (RJ), primeira metade do século XX. Carteiro de profissão, tocava flauta, violão e cavaquinho. Publicou O choro - Reminiscências dos chorões antigos, Rio de Janeiro, 1936.

Esse importante documento, além de traçar a vida e a obra dos chorões da velha guarda e dos chorões de então, revivendo grandes artistas já esquecidos, descreve fatos e costumes dos antigos pagodes, a partir de 1870, constituindo-se em rico repositório de informações sobre a formação dos conjuntos instrumentais que passariam à história sob a denominação de choro.
A obra está disponível no formato "pdf" e pode ser copiada no endereço abaixo:

O Choro (Reminiscências dos chorões antigos), 1936- Alexandre Gonçalves Pinto

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora / PubliFolha.

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Neco

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Neco (Manuel Antenor de Souza), compositor e cantor nasceu em Petrópolis (RJ), em 25/05/1893 e faleceu em 24/05/1968. Aprendeu a tocar violão com irmão, Paulino, na época em que trabalhava como tecelão na fábrica Santa Helena, em Petrópolis. Aos 17 anos foi para o Rio de Janeiro e, um ano depois, já compunha e cantava suas modinhas.

Em 1912 compôs sua primeira música Amor ingrato, que ele mesmo gravaria em disco da Casa Faulhaber, um dos maiores sucessos de sua carreira. Compôs nas duas primeiras décadas do século as modinhas Meu anjo, escuta, Sou teu escravo, Por que desprezas?, Simples desejos, Por teu sorriso, e o lundu A mulata carioca. Retornando à Petrópolis em 1913, voltou a trabalhar como tecelão, depois como chofer de táxi e funcionário dos Correios e Telégrafos.

Sem deixar a música de lado, tocava em conjuntos de jazz nos clubes locais e continuou a compor. Na década de 1950, sua música Amor ingrato foi regravada por Silvinho, com êxito. Em 1950, já aposentado dos Correios e Telégrafos, compôs, com Fernando Martins o samba Nunca mais digo adeus, obtendo grande destaque. Entre seus maiores sucessos estão a valsa Meu maior pecado (com Mário Rossi), 1949; Uma saudade a mais, valsa (1951); Alice, baião (1955); o bolero O pranto dos meus olhos (com D. Carvalho) e As águas correm para os rios, gravado por Marco Antônio.

Em 1964 encerrou sua carreira de compositor com o samba de Carnaval Foi ela (com Darci de Souza), e a marcha Oito garrinhas (com Darci de Souza e Marcílio Lopes).

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Patrão, prenda seu gado

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Martinho da Vila
Patrão, prenda seu gado (chula-raiada, 1931)
- João da Baiana, Donga e Pixinguinha
Martinho da Vila

Ô patrão / Ô patrão / Ô patrão, prenda seu gado /
Na lavra tem um ditado / Quem mata gado é jurado /
Missa de padre é latim/ Rapaz solteiro é letrado /
Em vim preso da Bahia / Só porque era namorado /
Madame Diê, lalá


Samba ioiô, samba iaiá / Que o dia e vem, doná

Eu bem sei / Eu bem sei / Eu bem sei que fui culpado/
De vir preso da Bahia / Só porque fui namorado /
Vou tirar meu passaporte / Meu camarote de proa /
Eu aqui não vou ficar / Vou-me embora pra Lisboa /
Senhorita vai ver, doná


Samba ioiô, samba iaiá / Que o dia e vem, doná

Ô, Joana, ô Maria, / Saruê pra que trabalha /
No pescoço da cutia / No pavilhão, da atalaia /
Era hoje, era ontem, era donte / Era donte, era ontem, era hoje /
Sinhazinha mandou me chamá / Corri quatro cantos /
Balão de iaiá / Balão ê, balão á

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Cabide de molambo

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Cabide de molambo (samba, 1928) - João da Baiana

LP Gente da Antiga 1968
Meu Deus eu ando / Com o sapato furado
Tenho a mania / De andar engravatado
A minha cama / É um pedaço de esteira
E é uma lata velha / Que me serve de cadeira
Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus

Minha camisa / Foi encontrada na praia
A gravata foi achada / Na Ilha da Sapucaia
Meu terno branco / Parece casca de alho
Foi a deixa de um cadáver / Do acidente no trabalho
Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus

O meu chapéu / Foi de um pobre surdo e mudo
As botinas foi de um velho / Da revolta de Canudos
Quando eu saio a passeio / As damas ficam falando
Trabalhei tanto na vida / Pro malandro estar gozando
Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus

A refeição / É que é interessante
Na tendinha do Tinoco / No pedir eu sou constante
E o português / Meu amigo sem orgulho
Me sacode o caldo grosso / Carregado no entulho

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Tesourinha

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Tesourinha - 1927 (Sinhô)
Ai, ai, ai / Seja este ou aquele
Ó minha tesourinha / Corta já a língua dele

Há muito vens batalhando / Pra ver aborrecido
Mas desiste desta farsa / Pois que é tempo perdido

Não faças como o garoto / Que a mando do vizinho
Apedrejou-me a gaiola / E matou meu passarinho

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Sou da fandanga

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Sou da fandanga - 1930 (Sinhô)
Sou da fandanga de malafuá
E é por isso mesmo
Que eu não quero me casá

E não se zangue, ó minha flor!
Eu tenho medo, meu amor!
De conhecer a dor

Não tenho jeito pra namorar
Pois na fandanga me deleito
Sem saber amar

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Se meu amor me vê

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Se meu amor me vê - 1930 (Sinhô)
Se meu amor / Me vê brincando assim
Não sei, não sei / O que será de mim

Dela eu não tenho medo / Porém não devo abusar
Vou pra casa hoje cedo / Pra pequena não zangar

Se a encontrasse / Na rua a farrear
Garanto que / O meu braço ia trabalhar

Dele eu não tenho medo / Porém não devo abusar
Vou pra casa hoje cedo / Pro pequeno não zangar

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Sabiá

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Sabiá (canção, 1928) - Sinhô

Sabiá, sabiá cantou na mata
e anunciou chiu, chiu
No melhor de minha vida
meu amor fugiu

Procurei me aproximar
do sabiá encantador
Sentindo o meu pisar
fez tal qual o meu amor

Mário Reis

Quem roubou o meu sossego
a Deus eu fiz entregar
Ainda hei de ver um dia
alguém por mim se vingar

Papagaio, maitaca
piriquito, sabiá
quando cantam faz saudade
dos carinhos de Iaiá

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Que vale a nota sem o carinho da mulher? - 1928 (Sinhô)

Amor! Amor!
Não é para quem quer
De que vale a nota, meu bem
Sem o puro carinho da mulher?
(Quando ela quer)

Por isso mesmo
Que às vezes numa orgia
Um terno riso eu peço emprestado
E faço o palhaço na vida, meu bem
Com o meu coração magoado

E quantas vezes
Eu imploro um só beijinho
De um coração que seja companheiro
Para ter a certeza que o carinho, meu bem
É bem puro e bem verdadeiro


Mário Reis

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Ora vejam só

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Ora vejam só - 1927 (Sinhô)
Ora vejam só
A mulher que eu arranjei
Ela me faz carinhos até demais
Chorando
Ela me pede meu benzinho
Deixa a malandragem se és capaz

A malandragem eu não posso deixar
Juro por Deus e Nossa Senhora
É mais certo ela me abandonar
Meu Deus do Céu, que maldita hora

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O bobalhão

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O bobalhão - 1927 (Sinhô)
Os brasileiros já nasceram na folia
Dão pé nas bolas e farreiam noite e dia
No carnaval vendem tudo quanto tem
Para gozarem essa festa sem igual

Sai, sai sai bobalhão / Sai, sai sai charlatão
O carnaval jamais se acabará / Com essa boba e tola opinião

Tu procuraste foi sarna pra se coçar
E muitas pragas sem que possa se livrar
Se te apanha o povo do carnaval
Faz de ti um enterro infernal

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Não sou baú

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Não sou baú - 1929 (Sinhô)
Não zangues não / Meu doce bem
Não fui nem sou baú / Para guardar lindos
Segredos de ninguém / (Meu doce bem)

Têm muita graça / Os teus queixumes
Mas falar de todos / São os teus costumes

Não tens razão / Meu doce amor
Viver cismando / Que fui eu quem
Espalhou a tua dor / (Meu doce amor)

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Não quero saber mais dela (samba, 1927) -Sinhô
Por que foi que tu deixaste / Nossa casa na favela
Não quero saber mais dela / Não quero saber mais dela

A casa que eu te dei / Tem uma porta e uma janela
Também não quero saber mais dela
Também não quero saber mais dela

Português, tu não me invoca / Me arrespeita, eu sou donzela
Não vou na sua potoca / Nem vou morar na favela
Francisco Alves
e Rosa Negra

Eu bem sei que tu és donzela / Mas isto é uma coisa à toa
Mulata, lá na favela / Mora muita gente boa

Aquela crioulinha / Que tu dava tanto nela
Não quero saber mais dela / Não quero saber mais dela

E aquela portuguesa / Que tu te casou com ela
Também não quero saber mais dela
Também não quero saber mais dela

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Minha branca

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Minha branca - 1929 (Sinhô)
Os óio da minha branquinha têm / Meiguice de quem sabe querer bem / Teu riso me traz a recordação / Das trovas dos tempos que lá se vão

Ai, como é bom saber querer! / Tudo n'alma é um prazer
Mesmo dentro de um sofrer / Passa-se a vida tão sutil
Num sorrir primaveril / Igual todo o céu de anil

A boca da minha branquinha tem / O cheiro que as flores também contêm
Teu rosto me inspira a consagração / Da Virgem Maria da Conceição

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Meus ciúmes

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Meus ciúmes - 1931 (Sinhô)
Dia a dia vai crescendo / O amor que em ti consagrei
Os ciúmes vão nascendo / E com jura que te jurei
No altar da Santa Cruz / Tu rezaste, eu implorei
Bem juntinho de Jesus / Nem te lembras que até chorei
Eis a razão que eu peço / Pra não fugir ao juramento
Que fizeste ao Senhor / Pois não terás perdão
Já se fizeres morrerás na solidão
Pois que a dor do amor conhece a ingratidão
Que pode muito bem ferir o coração
Daí vem o sofrer e a triste confusão
Para vingar, morrer

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Maldito costume

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Maldito costume - 1929 (Sinhô)

Eu juro acabar com esse costume
Que você tem / Falando de mim
Dizendo horrores / E me querendo bem

Ai, o amor é um capitoso vinho!
Que nos embriaga / Que nos embriaga com um só pinguinho

Você há de saber que / Este costume não te fica bem
Porque toda gente sabe a paixão / Que você me tem

Todo mal que procuras dizer / Do meu nome nenhum valor tem
A mulher quando gosta deve ser feliz / E atacar seu bem

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Mal de amor

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Mal de amor - 1931 (Sinhô)

Não deves rir de me ver chorar / Meu santo bem, minha paixão
O mesmo mal podem te vibrar / ferindo bem teu coração
(teu coração)

Não há razão / pra gracejar desta adoração

A tua vez de chorar, sofrer / não tardará, ha' de chegar
Todo o meu mal pode a ti volver / mas não rirei do teu penar
(do teu penar)

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Maitaca

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Maitaca (Sinhô)
Era u'maitaca / Que ao ouvir a voz
Me sempre gritava / Quando chegava entre nós

Como sei / Quem espalhou
Essa coisa de dor / Que entre nós se passou

Eu não sei como foi / Assim tão veloz
Que já descobriram / Todo o segredo entre nós

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Já é demais

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Já é demais (samba, 1930) - Sinhô
Já é demais!
Meu bem, já é demais!
Deves dar fim a este modo de pensar
Basta de queixumes e ciúmes
Eu já notei que tu queres me acabar

Será que a santa de minha devoção
Abandonou o meu pobre coração?
Na tristonha solidão da futura traição
Da dor de uma paixão

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Gosto que me enrosco

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Gosto que me enrosco (samba, 1928) - Sinhô

---G -------------D7------------- G
Não se deve amar sem ser amado
-----------------------------Am
É melhor morrer crucificado!
---------------B7--------------------------- Em
Deus nos livre das mulheres de hoje em dia
----------------------A7
Desprezam um homem
-----------------------D7
Só por causa da or - gia!
Carlos Galhardo

---Am----------------- D7----------- G
Gosto que me enrosco de ouvir dizer
------G7--------------------------- C
Que a parte mais fraca é a mulher
-------------Cm------------------- G
Mas o homem com toda a fortaleza
---------E7------- Am--------- D7----- G
Desce da nobreza e faz o que ela quer!

----G-------------- D7----------- G
Dizem que a mulher é parte fraca ...
------------------------------------Am
Nisto é que eu não posso acreditar
-------------B7------------------- Em
Entre beijos, e abraços e carinhos ...
----------------------A7
O homem não tendo
------------------------D7
É bem capaz de roubar (Estrib.)

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Deus nos livre dos castigos das mulheres (samba, 1928) - Sinhô

Deus criador
Fez da mulher o seu divino resplendor
Só por ser a parte fraca
Deu-lhe o poder de convencer
(Este sexo mau que deve padecer)

E sofrer
Pela razão de se julgar superior
Quando conseguem, preso o amor
Fazem do mesmo uma peteca (sem ser)
Só pra ver a mulher padecer
Mário Reis

Mas o amor é uma prece
Que o homem desconhece
E só procura conhecer
Quando do mesmo mal
Venha a sofrer

Eis a razão que eu sempre peço
A Jesus pra me livrar
Dos castigos da mulher
Que um dia os olhos meus
Venham a gostar

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Dá nele

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Um incidente de rua em que populares gritavam "dá nela", ameaçando bater numa mulher, acabou fornecendo o mote para Ary Barroso escrever a marchinha "Dá nela", vencedora do concurso de músicas para o carnaval de 30.
Mas, como sempre acontece em competições musicais, houve quem não gostasse de sua vitória, no caso o polêmico Sinhô que, com o pseudônimo de Zé Baião, replicou com o samba "Dá Nele", que começava com o verso "Esses mineiros vem pra cá com a mania de abafar".
Dá nele - 1930 (Sinhô)

Não tens razão / Pra falar mal da mulher
Dá nele! Dá nele! / Isto é paixão
Porque ela não te quer / Dá nele! Dá nele!

Ela não teme / Que chames "língua de trapo"
Pois que o povo conhece / As maldades do farrapo

Por isso mesmo / Muito tens que apanhar
Nas vistas de toda gente / Pra língua endireitar

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Confissões de amor

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Confissões de Amor - 1930 (Sinhô)

Fiz da luz do teu olhar um poema de amor
Que traduz odor da mais pura flor
Do jardim do meu penar
E tornei-me sonhador, infeliz e sofredor
Somente por querer a luz dos olhos teus
Só para os meus, que sem os teus irão morrer

Eu vejo em ti o ideal, meu santo amor
Quando contemplo o teu olhar encantador
Nas madrugadas quando a luz se desfaz
Em esplendor, eu peço em vão ao Criador
Sempre a cantar em serenatas de amor
Nas minhas preces de poeta e de cantor
Num santo altar junto à cruz do Bom Jesus
Eu rezo só por teu amor

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Como se gosta

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Como se gosta - 1929 (Sinhô)

Se passas cantando / Juntinho da choça
Meu peito que apita / Em mim se remoça
Desperta a atenção / Corro logo a escutar
Pra sentir mais perto / Teu meigo cantar

E ouvindo o dolente / Cantar docemente
Pletora silente / Que tudo se sente
E eu penso teus olhos / Fingir não saber
Pra fazer saudades / A teu bem querer
Se não mais te escuto / Porque longe vais
Eu sinto a saudade / Bater nos meus ais
Do eco saudoso / Que chama silente
Que prende por certo / A alma da gente

E volvendo os meus olhos / Pra minha viola
E abraço-me a ela / Que as mágoas consola
E após num acorde / Da fibra serena
Vou reproduzindo / O cantar da morena

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Chequerê

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Chequerê - 1929 (Sinhô)

D7+------------- Em----------- A7----------- D7+
Não calculas como sofre o meu pobre coração
---------D#º----------- Em ------A7-------- D7+
Por faltar o teu carinho junto do meu violão
--------------------Em
E assim é tudo enfim
---------A7 ---------D7+
Meu doce chequerê
----D#º---------------- Em
Mas eu não me conformo
-----A7------------- D7+
Viver longe de você
-----------------Em -----------A7--------------- D7+
Vem depressa, sem demora pra eu não mais viver em vão
-------D#º--------- Em---------- A7------------- D7+
Que as saudades já são tantas dentro do meu coração
------------Em
E assim é tudo enfim
-----A7---------- D7+
Meu doce chequerê
---D#º------------- Em
Mas eu não me conformo
------A7----------- D7+
Viver longe de você

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Canjiquinha quente

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Canjiquinha quente - 1930 (Sinhô)

É um pratinho / Bem suculento
Que faz babar / Canjiquinha quente, Ioiô
(Tá quentinha)

E temperada / Com a simpatia
Que foi Jesus / Que ensinou Santa Bahia

(Prova Ioiô Uh... tá gostoso)
Ioiô vai provar / Um pinguinho só
Certo vai gostar / Desse meu ebó

Ai deixa louco / Só de vontade
De acabar / Canjiquinha quente, Ioiô
(Ai, tá quentinha)

Depois de provar / Ioiô vai dizer:
Viva Jesus / Que ensinou Santa Bahia

(Quer vatapá? He, he Também tem)

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Burucuntum

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Burucuntum (1930) - Sinhô

Foi, foi, foi o destino
que nos quis indicar
a Colombina para conosco brincar

Burucuntum
Isto dê no que der
Gozar a folia não é pra qualquer
Burucuntum
Venta lá, venta cá
Se há diferença desmancha-se já
Carmen Miranda

Nesta chula de amor
que seduz a qualquer
e predomina o riso ideal da mulher

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Fala meu Louro

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Uma sátira à derrota de Rui Barbosa na eleição presidencial de 1919 em que obteve menos da metade dos votos do vencedor, Epitácio Pessoa -, "Fala Meu Louro" é o melhor samba da fase inicial de Sinhô. Mas a letra referindo-se à terra de Rui ( "A Bahia não dá mais coco / pra botar na tapioca..." e ao súbito mutismo do conselheiro, sempre tão falante ( "Papagaio louro / do bico dourado / tu falavas tanto / qual a razão que vives calado..."), acabou por irritar os baianos ligados ao samba, que se julgaram atingidos.
Assim, o revide foi imediato através de "Entregue o Samba aos Seus Donos", composição de Hilário Jovino Ferreira, que já havia alfinetado Sinhô no ano anterior com "Não És Tão Falado Assim". Só que agora Mestre Hilário partia para o ataque direto, acusando-o de plagiário. Naturalmente nada impede, e é até provável, que ao fazer "Fala Meu Louro"', Sinhô tenha pretendido provocar ao mesmo tempo Rui e os baianos liderados por Jovino, um pernambucano criado em Salvador.
Mário Reis
Fala meu Louro (samba, 1919) - Sinhô

A Bahia não dá mais coco
para botar na tapioca
Pra fazer o bom mingau
para embrulhar o carioca

Papagaio louro do bico dourado
Tu falavas tanto
qual a razão que vives calado

Não tenhas medo
coco de respeito
Quem quer se fazer não pode
Quem é bom já nasce feito

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Amor de poeta

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Amor de poeta – 1930 (Sinhô)

Melhor será dizer /Que padecer em vão
Não deve mais sofrer / Meu rico coração

A confissão da dor / Traduz o bem-querer
De duas vidas / Numa gancha de prazer

Por Deus, ó vem / Ó vem, meu coração
Apagar o fogo desta rude / E voraz paixão

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Amar a uma só mulher

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Em "Amar a Uma Só Mulher" Sinhô faz a apologia da fidelidade no amor, virtude que jamais praticou. E o faz na forma de sempre, com versos pitorescos, impregnados de um lirismo simplório, bem característico de seu estilo: "Quem pintou o amor foi um ceguinho / mas não disse a cor que ele tem / penso que só Deus dizer-nos vem ensinando com carinho / a pura cor do querer bem..."
Dedicado ao poeta Álvaro Moreira, cuja casa em Copacabana era freqüentada por Sinhô, este samba foi lançado na revista Língua de Sogra, em janeiro de 28, ao mesmo tempo em que era gravado por Francisco Alves. "Amar a Uma Só Mulher" assemelha-se nos compassos iniciais à canção "La vie en rose". Mas, se plágio existe no caso, é de Pierre Louiguy, autor da melodia francesa, composta dezesseis anos depois da morte de Sinhô.

Amar a uma só mulher (samba, 1927) - Sinhô

Francisco Alves

Amar a uma só mulher
deixando as outras todas sempre em vão
Pois a uma só a gente quer
com todo fervor do coração

Quem pintou o amor foi um ceguinho
mas não disse a cor que ele tem
Penso que só Deus dizer-nos vem
ensinando com carinho
a pura cor do querer bem

Quem pintou o amor foi bem querido
Decorou também a ingratidão
e deixou rascunhos da paixão
como lema preferido
a uma só no coração

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Alivia estes olhos

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Alivia estes olhos (samba, 1920) - Sinhô

Eu queria saber por que é
Que este homem bateu na mulher
Eu queria saber por que é
Que este homem bateu na mulher

Que mulher engraçada e adorada
Que se acostumou com a pancada!
Que mulher engraçada e adorada
Que se acostumou com a pancada!
Lira Carioca

Ai, como é bão querer!
Sofrer calado
Sem ninguém saber

Alivia estes olhos pra lá
Que ainda ontem eu fui me rezar
Tenho medo desse olhar
Que procura-me a vida atrasar

Ai, como é bão querer!
Sofrer calado
Sem ninguém saber

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Alegrias de caboclo

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Alegrias de caboclo – 1928 (Sinhô)

Caboclo não tem tristeza / Ai, ai, meu bem!
São traços da natureza / Ai, ai, meu bem!

Faz da manhã poesia / Do dia uma sinfonia
Da tarde rude harmonia / Da noite rica alegria

Ai, como é bom / O luar do meu sertão!
Se escurece / Nos olhos deixa o clarão

Caboclo sabe que quer / Ai, ai, meu bem!
Também por seu bem morrer / Ai, ai, meu bem

Das folhas secas que caem / Faz a fogueira do amor
E do calor que provém / Faz sua prece de dor

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A medida do Senhor do Bonfim (samba, 1929) - Sinhô

Enquanto a verdade
No mundo existir
Será morta a falsidade a sorrir
Desses invejosos
Que não cansam de fingir
Que gostam da gente
Sem terem maldade
Eis o prisma transcendente
Da real fatalidade
Que traduz a saudade
Mário Reis

Mas eu tenho um guia sacrossanto
Que conduz-me à luz do Ser
Para me valer
Meu anjo de guarda
Com o seu manto me ensina
Tudo quanto eu sei dizer
Tanto que ganhei lá na Bahia
Uma caixa de marfim
Vinda só pra mim
A pura medida, bela e santa
Do Sagrado Coração
Do Senhor do Bonfim

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A favela vai abaixo

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Contratado pelo prefeito Prado Júnior, o urbanista Alfred Agache elaborou, em 1927, um extenso plano de remodelação da cidade do Rio de Janeiro, que incluía a demolição do morro da Favela, situado próximo da zona portuária. Muito discutido pela imprensa, o projeto inspiraria o samba "A Favela Vai Abaixo", no qual Sinhô protestava contra a ameaça de desabrigo dos moradores: "Minha cabrocha, a Favela vai abaixo / quanta saudade tu terás deste torrão / (...) / vê agora a ingratidão da humanidade / (...) / impondo o desabrigo ao nosso povo da Favela".
Contava o poeta Luís Peixoto que o compositor, valendo-se de sua popularidade, chegou a pedir a um ministro de estado sua intercessão junto ao prefeito para que a demolição não se realizasse. Sendo uma das melhores melodias de Sinhô, "A Favela Vai Abaixo" foi destaque numa revista teatral de nome idêntico.
Mário Reis
Contrastando com a pesada versão original de Francisco Alves, a composição ganhou uma graça especial, bem mais fiel ao estilo do autor, na gravação realizada por Mário Reis, em 1951 (álbum de três discos sobre Sinhô, com preciosos arranjos de Radamés Gnattali). Isso leva a crer que, na dupla formada pelos dois cantores, nos idos de trinta, foi benéfica a influência de Mário sobre Chico, ajudando-o a se desfazer do ranço operístico, incompatível com a interpretação de sambas como este.
A favela vai abaixo (samba, 1927) - Sinhô

Minha cabocla, a Favela vai abaixo
Quanta saudade tu terás deste torrão
Da casinha pequenina de madeira
que nos enche de carinho o coração

Que saudades ao nos lembrarmos das promessas
que fizemos constantemente na capela
Pra que Deus nunca deixe de olhar
por nós da malandragem e pelo morro da Favela
Vê agora a ingratidão da humanidade
O poder da flor sumítica, amarela
quem sem brilho vive pela cidade
impondo o desabrigo ao nosso povo da Favela

Minha cabocla, a Favela vai abaixo
Ajunta os troço, vamo embora pro Bangú
Buraco Quente, adeus pra sempre meu Buraco
Eu só te esqueço no buraco do Caju

Isto deve ser despeito dessa gente
porque o samba não se passa para ela
Porque lá o luar é diferente
Não é como o luar que se vê desta Favela
No Estácio, Querosene ou no Salgueiro
meu mulato não te espero na janela
Vou morar na Cidade Nova
pra voltar meu coração para o morro da Favela

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Quem são eles?

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A carreira de Sinhô começa já com um sucesso, o samba "Quem São Eles", cantado no carnaval de 1918. Com seus versos pitorescos ( "A Bahia é boa terra / ela lá e eu aqui..."), o samba era dedicado a um bloco homônimo, ligado ao Clube dos Fenianos. Como os ânimos no meio musical continuassem agitados com a polêmica do Pelo telefone, o título Quem são eles? acabou sendo tomado como uma provocação pelos adversários de Sinhô, causando nova polêmica. Proposital ou não, esta provocação apenas prenunciava outras tantas que se sucederiam na vida do irrequieto sambista, ajudando-o em sua permanente busca de promoção.
"Quem São Eles" já revela o talento rítmico de Sinhô especialmente no habilidoso uso das síncopes naturais na letra, independentemente da música, presente nos "que" dos versos "Não era assim que meu bem chorava" e "Não precisa pedir que eu vou dar". No entanto, seu estilo como compositor só iria se definir a partir de 1920.
Quem são eles? (samba, 1918) - Sinhô
Lira Carioca
A Bahia é terra boa
Ela lá e eu aqui - Yayá
Ai, ai, ai
Não era assim que meu bem chorava

Não precisa pedir eu que eu vou dar
Dinheiro não tenho mas vou roubar

Carreiro olha a canga do boi
Carreiro olha a canga do boi
Toma cuidado que o luar já se foi
Ai que o luar já se foi
Ai que o luar já se foi

O castelo é coisa a toa
Entretanto isso não tira - Yayá
Ai, ai, ai
É lá que a brisa respira

Não precisa pedir que eu vou dar
Dinheiro não tenho mas vou roubar

Quem são eles?
Quem são eles?
Diga lá e não se avexe - Yayá
Ai, ai, ai
São peixinhos de escabeche

Não precisa pedir que eu vou dar
O resto do caso pra que cantar

O melhor do luar já se foi
O melhor do luar já se foi

Entre menina que aqui estão de horror
Ai, que aqui estão de horror
Ai, que aqui estão de horror

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Jura

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"Jura" é o maior sucesso de Sinhô. Bem representativo da última e melhor fase do compositor, mostra algumas características marcantes de seu estilo, como a repetição de palavras no início do estribilho- "Jura, jura, jura..." -, com orações que trausbordam de um verso para outro, e o decantado pernosticismo, presente, mais uma vez, na atrevida imagem do "beijo puro da catedral do amor". Tudo isso sobre um fraseado musical simples, original, ao mesmo tempo alegre e sentimental, entrecortado de síncopes, uma herança do maxixe.
Mário Reis
Lançado por Araci Cortes na revista Microlândia, reprisado em Miss Brasil, e gravado simultâneamente por Araci e Mário Reis, em fins de 1928, "Jura" foi uma das músicas mais cantadas no Brasíl nos anos seguintes. O jornalista Jota Efegê (João Ferreira Gomes), que assistiu a estréia de "Jura" no teatro, relembrou o fato em interessante artigo publicado em O Jornal, muitos anos depois. Conta Efegê que a platéia exigiu a repetição do número várias vezes, tendo Sinhô subido ao palco onde, abraçado a Araci, recebeu do público verdadeira consagração, Detalhe pitoresco ressaltado pelo jornalista foi a maneira como o espanhol Antônio Rada, maestro do espetáculo, "conduzia a orquestra, dançando e fazendo vibrar uma espécie de chocalho, comunicando aos músicos seu allegro molto vivo".
Jura (samba, 1928) - José Barbosa da Silva (Sinhô)

A6 ---Bm6 --E7(9)------- A6 ----------------E/B
Jura, jura, jura pelo Senhor / Jura pela imagem
---------------B7 --------E7/B------------- E7
Da Santa Cruz do Redentor / Pra ter valor a tua...

A6---- Bm6--E7(9) -------A6--- A7
Jura, jura, jura de coração / Para que um dia
----------------D -------Dm7 A ---------------E7--------- A
Eu possa dar-te o amor / -----Sem mais pensar na ilusão

-----------E7----------- A ------------Bm7------ E7--------- A
Daí então dar-te eu irei / O beijo puro da catedral do amor
-------------------E7------------------ A
Dos sonhos meus / Bem junto aos teus
------------Bm7---------- E7------ A
Para fugirmos das aflições da dor

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Cansei

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No ano de 1929, Sinhô, em São Paulo, participa da campanha eleitoral de Júlio Prestes e se apresenta no Teatro Municipal, onde mostra a nova composição Cansei:

Cansei (samba, 1929) - (José Barbosa da Silva - Sinhô)
Cansei, cansei / Cansei de te querer
Pois fui de plaga em plaga / O além do além
Numa esperança vaga / E eu pude compreender

Por que cansei / Cansei de padecer
Marcos Sacramento

Pois lá ouvi de Deus / A Sua voz dizer
Que eu não vim ao mundo
Somente com o fito eterno de sofrer

Quis assim a sorte evitar a dor
Deste que te quis como todo o seu calor
Numa verdadeira fonte de valor
Que jamais se inspira nesse amor

Cansei, cansei / Cansei de te querer
Pois fui de plaga em plaga / O além do além
Numa esperança vaga / E eu pude compreender

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A pequenina cruz do teu rosário

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A pequenina cruz do teu rosário (modinha, 1907)
- Fernando Weyne e Roberto Xavier de Castro

----Bm--------- Gb7------- Bm B7
Agora não te vejo a meu lado
------------Em------------ Em6-- Bm
A segredar-me apaixonadas juras,
-------------B7----------------------- Em---Em6
Busco, às vezes, em nosso amor passado,
--------Bm--------- Gb7------ Bm Bm/D
Recordar essas íntimas loucuras.

---------------Gb7---------------------- Bm
Faz tanto tempo, não me lembro quando,

Carlos Galhardo

---------------Gb7------------------ Bm
A vida é longa e o pensamento vário,
-------------B7 -------------------------Em Em6
Tu me mostravas, a rir, que delírio santo !
----------Bm----Gb7------- (Bm) (Gb7) (Bm)
A pequenina cruz do teu rosário.

---------Bm-------- Gb7----- Bm B7
E sempre que a via, recordava
--------------Em------- Em6-- Bm
Do nosso amor a fantasia louca.
----------B7------------------------- Em Em6
Toda vez que a pequenina cruz beijava
---------Bm--- Gb7------- Bm Bm/D
Eu beijava, feliz, a tua boca.

-------------Gb7 ---------------------Bm
Já vou trilhando a estrada da amargura
------------Gb7-------------------------- Bm
Antes, porém, que chegue ao meu calvário.
---------------B7 --------------Em Em6
Dá-me a beijar, ò Santa criatura
--------Bm -----Gb7------- (Bm) (Gb7) (Bm)
A pequenina cruz do teu rosário

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Meu ideal

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Meu Ideal (música de Irineu de Almeida e versos de Catulo da Paixão Cearense)

Pudesse esta paixão na dor cristalizar / E os ais do coração em pérolas congelar / De tudo o que sofreu na tela deste amor / Faria ao nome teu divino resplendor / Pudesse est’alma assim com a tua entrelaçar / E aos pés de Deus num surto ao fim voar / E as nossas almas transmutar / Numa só alma de um insonte querubim

Lá, lá nos céus então / Contigo ali / Do amor na pura e etérea floração / Lá, junto a Deus então / Cantar uma canção / De adoração a ti / Lá eu diria aos pés do Redentor / Perante os imortais: / Senhor, eu venero muito a ti / Mas confessor sem temor/ Que a ela eu amo mais

Minh’alma ascende além, que Deus já te esqueceu / E a terra não contém afeto igual ao teu / Procuras, mas em vão, na térrea solidão / Ouvir a pulsação do coração do amor / Num raio inspirador, no plaustro do luar / Percorre o céu, o inferno, a terra e o mar / Não acharás, não acharás amor igual / Que o teu amor é imortal

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Primeiro amor

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Flautista excepcional e muito bom compositor, Patápio Silva começou ainda adolescente atuando em bandas do interior, cursando a seguir o Instituto Nacional de Música, onde se formou em 1903. A partir de então, desenvolveu uma vitoriosa carreira, que seria interrompida pela morte aos 27 anos. A popularidade de Patápio era tão grande que seus discos permaneceram em catálogo por mais de duas décadas.

Um de seus maiores sucessos foi a graciosa valsa Primeiro amor, um clássico do repertório flautístico brasileiro, que dá bem uma idéia do estilo musical do autor, situado na fronteira do popular com o erudito. É provável que Patápio optasse pela música de concerto se tivesse vivido por mais tempo (clique na figura abaixo para escutar a melodia).

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Pierrô e Colombina

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Antes do advento do samba e da marchinha, fazia sucesso no carnaval qualquer tipo de música, nem sempre alegre, como é o caso de "Pierrô e Colombina". Também chamada de "O despertar de Pierrô" e "Paixão de Pierrô", esta valsa de versos ("A vós que acabais de ouvir meu pranto, meu padecer / quero um pedido fazer / tenham dó do meu carpir...") e melodia carregados de tristeza, tomou conta do Rio de Janeiro nos carnavais de 1915 e 16, por paradoxal que possa parecer.
Eduardo das Neves
Embora atribuída em algumas publicações à dupla Oscar de Almeida e Eduardo das Neves, "Pierrô e Colombina" é só de Almeida, segundo Almirante em sua coluna no jornal O Dia: "'Pierrô e Colombina' é letra e música de Oscar de Almeida dos Correios; o Edu das Neves somente a gravou". Como vários personagens da música popular brasileira no início do século, Almeida era funcionário dos Correios e Telégrafos.
Pierrot e Colombina (valsa, 1913)
- Oscar de Almeida e Eduardo das Neves

Há quanto tempo saudoso / Procuro em vão Colombina
Sumiu-se a treda ladina / Deixou-me em trevas choroso
Procuro-a sim como um louco / Nos becos, nas avenidas
As esperanças perdidas / Tendo-as vou já pouco a pouco


Se em todo o carnaval / Não conseguir ao menos
Seu rosto fitar / Palavra de Pierrot
Eu juro me matar / Não posso suportar
Esta cruel ausência / Que me afoga em dor
Meu coração morrer / Sinto de amor


É dia de risos e flores / Todos folgam só eu não
Ela, talvez num cordão / Procure novos amores
Oh! Companheira impiedosa / Vê que suplício cruel
Vejo a minha alma afogar-se / Num oceano de fel


Oh!: Vós que acabaes de ouvir / Meu pranto, meu padecer
Tenho um pedido a fazer / Tenham dó do meu carpir
Se encontrarem Colombina / Que é da minha alma o vigor
Digam-lhe que assim se fina / Procurando-a, seu Pierrot
Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34

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Hermes Fontes

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Hermes fontes, compositor e poeta, nasceu em Buquim SE, em 28/8/1888 e faleceu no Rio de Janeiro RJ, em 25/12/1930. Filho de lavradores, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais no Rio de Janeiro, para onde se mudou com a ajuda do governador da Província de Sergipe. Foi oficial de gabinete do Ministério da Viação durante o governo de Washington Luiz. Suicidou-se no Rio de Janeiro.
Em 1908, publicou Apoteoses, sua primeira obra poética. Em 1913 publicou Gênese, seu segundo livro de poesias. No mesmo ano, teve gravada pelo cantor Roberto Roldan, na Odeon, a modinha Constelações, parceria com Cupertino de Menezes. Colaborou com o jornal "O Fluminense", de Niterói (RJ), e mais tarde fundou o jornal "A Estréia", trabalhando ao mesmo tempo nos Correios e Telégrafos.
Em 1922, o cantor Bahiano lançou na Odeon, o fado-tango Luar de Paquetá, composta dois anos antes, em parceria com Freire Júnior e que alcançou enorme sucesso, tornando-se no ano seguinte, título de uma revista que logrou mais de uma centena de apresentações. Regravada várias vezes, entre outros por Francisco Alves, logrou repetir o sucesso em 1944, quando foi regravada em dueto por Dircinha Batista e Deo, com acompanhamento de orquestra e coro. Publicou ainda os livros de poesias Ciclo da perfeição, Mundo em chamas, Miragem do deserto, Epopéia da vida, Microcosmo, Despertar, A lâmpada velada e A fonte da mata.

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Ontem ao luar Por sua semelhança com a canção "Love Story", do filme homônimo, a polca "Choro e Poesia" voltou a ser sucesso na década de 1970. Esse retorno rendeu-lhe mais de dez gravações, só que com um detalhe: todas traziam apenas o título "Ontem ao Luar", que recebeu de Catulo da Paixão Cearense quando, em 1913, o poeta lhe pôs uma letra, à revelia do autor. E o que é pior, várias dessas gravações tal como edições da partitura, somente registravam o nome de Catulo, omitindo o de Pedro de Alcântara.
Em 1976, graças aos esforços de uma neta de Alcântara, sua autoria foi restabelecida através de uma decisão judicial. "Choro e Poesia" tem duas partes, ambas construídas com variações de um mesmo motivo, usado com muita engenhosidade especialmente na segunda parte, em tom maior.
Ontem ao Luar (Choro e Poesia) (polca, 1907) - Pedro de Alcântara e Catulo da Paixão Cearense
Vicente Celestino

----Am-------------------------- B7
Ontem ao luar / Nós dois em plena solidão
E7
Tu me perguntaste
-----------------Am
O que era a dor de uma paixão
A7 -------------------Dm
Nada respondi, calmo assim fiquei
B7 -----------------------------------(E7)
Mas fitando o azul / Do azul do céu a lua azul
-------------Am---------------------------- B7
Eu te mostrei, mostrando a ti os olhos meus
------------------------E7--------------- Am
Correr sem ti uma nívea lágrima e assim te respondi
A7----------------- Dm-------------------- Am
Fiquei a sorrir por ter o prazer de ver a lágrima
---(B7)-- (E7)--- Am--- E7
Dos olhos a sofrer

A--------------------- B7
A dor da paixão, não tem explicação
E7------------------ A
Como definir o que só sei sentir
Dm ------------A ------------Gbm
É mister sofrer, para se saber
---------------Bm------ E7 ------A -----E7
O que no peito o coração não quer dizer
A---------------------- B7
Pergunta ao luar, travesso e tão taful
E7 -----------------------A
De noite a chorar na onda toda azul
-------Dm-------------- A-------- Gbm
Pergunta ao luar, do mar a canção
--------------B7------- E7---------- (A) (E7) (A) (E7)
Qual o mistério que há na dor de uma paixão
-----A----------- Gb7------------ Bm
Se tu desejas saber o que é o amor e sentir
----------E7------------------ A------------ Dbm7
O seu calor o amaríssimo travor do seu dulçor
------------------ E7
Sobe o monte a beira mar ao luar
------------E7-------- A
Ouve a onda sobre a areia lacrimar
--------------A------Gb7------ Bm------------------ E7
Ouve o silêncio a falar na solidão do calado coração
----------------A -----------A7
A pena a derramar os prantos seus
D ----------Dm -----A -----------Gb7------- Bm
Ouve o choro perenal / A dor silente universal
-------------E7---------------- A F A
E a dor maior que é a dor de Deus

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora Publifolha e A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34

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Viola cantadera

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Viola cantadera (canção sertaneja, 1917) - Da opereta sertaneja Scenas da Roça, original de Arlindo Leal e música de Marcelo Tupinambá
Ely Camargo

Temperada minha viola / Vou rasgando logo a toada... / E a minh'arma' se aconsola / Já não véve amargurada... / Minha viola é cantadera, / Vae chorando a minha dô... / E pôr ser bôa companhera / Nunca nunca me deixou / Ai!...
C'om a viola, no sertão, / Quando a noite é de luá... / Vou abrindo o coração, / Nunca deixo de cantá

Quando alembro, com sôdade, / Da muié que me enganô... / Eu renego a mocidade / Que não vorta e já passô!... / Quando eu canto, quando eu chóro, / A viola vae gemendo / E na serra adonde móro, / Minha vois se vae perdendo... / Ai!...

E sosinho, no sertão, / Quando a noite é de luá... / Vou abrindo o coração, / Aliviando o meu pená...

Quando eu canto, no terrêro, / Minha vois correndo, avôa... / Corre as matta, corre os sêrro / E bem longe ela resôa... / Quando eu canto, com tristura, / Minha viola, num gemido, / C'o meu canto se amistura. / Mais me deixa intrestecido!.. / Ai!...

C'om a viola, no sertão / Quando a noite é de luá... / Vou abrindo o coração, / Aliviando o meu pená / Aliviando o meu pená...

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Tristeza de caboclo

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Tristeza de Caboclo é um tanguinho, a primeira música que Marcelo Tupinambá compôs sob o contrato com Campassi & Camin, editores de São Paulo. Com letra de Arlindo Leal, ela se tornou um sucesso instantâneo, vendendo o número fenomenal de 120.000 partituras para piano em um ano.
Tristeza de Caboclo (tanguinho, 1919)– Arlindo Leal e Marcelo Tupinambá
Marcelo Guelfi

Quando na roça anoitece / Fico sempre a meditá!.. / (Coro) Fica sempre a meditá!... (bis) / Meu coração, que padece, / Não me deixa sossegá!... / (Coro) Não o deixa sossegá!.. (bis)
Estribilho: Minh'arma, com fervô, / Quando ha lua / Chora o seu amo / E sem podê se aconsolá / Garra logo a suspirá!... / (Coro) Quem ama, com fervô, etc.

Meu coração, com tristeza, / Quando surge o bom luá. / (Coro) Quando surge o bom luá... (bis) / Sabe, com muita firmeza, / Seus queixumes disfarçá!... / (Coro) Seus queixumes disfarçá!.. (bis)

Estribilho: Minh'arma, com fervô, etc.

Quem sabe amá, com ternura, / Nunca deixa de sonhá... / (Coro) Nunca deixa de sonhá! (bis) / Não sofre a negra amargura / Que me anda a acabrunhá! (Coro) Que o anda a acabrunhá!.. (bis)

Estribilho: Minh'arma, com fervô, etc.

Quando eu pego na viola, / Com vontade de cantá, / (Coro) Com vontade de cantá!... (bis) / Meu coração se aconsola, / Alliviando seus pená!.../ (Coro) Alliviando seus pená!... (bis)

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Maricota, sai da chuva

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Maricota, sai da chuva (tanguinho, 1917)
- Canção sertaneja da opereta sertaneja Scenas da Roça - original de Arlindo Leal e música de Marcelo Tupinambá

Côro: Maricóta, sáe da chúva / Deixa, deixa de embromá / Maricóta, sáe da chúva / Que tu vaé te aconstipá / A chúva tá penêrano / Tá penêrano no á / Maricóta, sáe da chúva / Que tu vaé te aconstipá

Maricóta: Não tenho medo da chúva / Nem do ronco do trovão / Eu quero mêmo que chôva / Pra lavá meu coração

Penêra, chuva, penêra; / Não deixa de penêrá... / E prô sê triste rocêra / Como tu anda a chorá...

Côro: Maricóta, sáe da chúva, etc... / Maricóta: Não tenho medo da chúva, etc...

Lá no ceo tá fuzilano / Vejo as nuvens a se mexê, / Pode sê que seja engano / Se chovê logo se vê...

Côro: Maricóta, sáe da chúva, etc... / Maricóta: Não tenho medo da chúva, etc...

Óia o sór já pareceu... / Já, não chóve, nhô Vadô, / Óia o arco, lá no céu, / A trovada já passô...

Côro: Maricóta, sáe da chúva, etc... / Maricóta: Não tenho medo da chúva, etc...

Cala a bocca, nhô Vadô / Que essa chúva não me móia... / Vá s'imbora, minha gente, / Que moiada eu não estô...

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São Paulo Futuro

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São Paulo Futuro (Maxixe Curtindo) (maxixe, 1914) - Marcelo Tupinambá
Roberto Fioravante
Vem morena / pro teu furrié / tu não tens penado teu Mané.
Eu te espero / gemendo de dô / e desespero sem o teu amô
Ai, vem meu bem, / tu já deu teu coração...
Ai, tu não vem, / pois eu morro de paixão. (bis)
Vem marvada / este pranto secá / nas labaredas do teu olhar
Tu parece não ter coração / porque tu some, faz ingratidão.

Ai, vem meu bem...
Eu te imploro / pela última vez: /
Fica lá em casa / somente um mês, /
E depois que esse amô / tu prová /
Tu nunca mais há / de me abandoná.
Ai, vem meu bem...

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O matuto

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A partir de meados dos anos dez, a música rural paulista saiu do âmbito regional, espalhando-se pelo país. Para isso foi decisivo o trabalho do compositor Marcelo Tupinambá, estilizador do gênero. Com toadas, cateretês e tanguinhos - preferia usar o diminutivo para diferenciar seus tangos dos de Ernesto Nazareth -, ele reinou no meio musical até o início da década de vinte.
Um de seus maiores sucessos é o cateretê O matuto, em que conta o desejo de um cearense desgarrado de voltar à sua terra: "Pro sertão do Ceará / tomara já vortá / tomara já vortá...". A escolha de um tema como este, ligado a outro estado, parece indicar uma aspiração do autor a se popularizar além das fronteiras paulistas.
Natural de Tietê, filho de uma família de músicos, Marcelo Tupinambá chamava-se realmente Fernando Lobo, tendo adotado o pseudônimo em razão dos preconceitos que existiam na época contra a música popular. A mudança de nome aconteceu por volta de 1915 em conseqüência do sucesso do maxixe São Paulo Futuro, de sua autoria. Ele contava que na ocasião, cursando a Escola Politécnica de São Paulo, onde se formou no ano seguinte, foi chamado ao gabinete do diretor Paula Souza, que o censurou: "Não permito que aluno meu ande fazendo maxixes. Quem vai confiar num engenheiro que faz maxixes?". Depois desta advertência, Fernando Lobo virou Marcelo Tupinambá.
O matuto (Canção Cearense) (cateretê, 1918) - versos de Cândido Costa e música de Marcelo Tupinambá
Quando foi da meia-noite para o dia, / que eu deixei com cortezia / minha terra, o Ceará / as foias véias já cabia pela estrada, / vim marchando na picada / só na seca a matutá:

Pro sertão do Ceará / Tomára eu já vortá... / Tomára eu já vortá... (bis)

No cemiterio os mortos se alevantaram / uns aos outros perguntaram / que qu'eu havéra de querê? / nas catacumba os defunto té gemia / no céo as coruja ria / Eu mesmo não sei porquê...

Pro sertão do Ceará / Tomára eu já vortá... / Tomára eu já vortá... (bis)

As santas fêmea, na igreja já chorava / os santos macho só me oiava / com cada ôio assim! / Até os gallo e as gallinha não sabia / de corrê p'ra onde havia / tudo com medo de mim!

Pro sertão do Ceará / Tomára eu já vortá... / Tomára eu já vortá.... (bis)

Quando eu cheguei dessa viagem cá no Rio / foi qu'antão logo se viu / qu'é qu'eu vinha cá fazê: / eu fui chamado só p'ra sê o presidente / desta terra, desta gente / sê o rei de vosmucês

Pro sertão do Ceará / Tomára eu já vortá... / Tomára eu já vortá... (bis)

Logo o povo, muito amavo, foi dizendo / o dote qu'eu ia tendo: / o Pará, França, o Japão, / um iscalé com doze remo e vinte peça / mas abanei co'a cabeça / dizendo "Não quero, não!"

Pro sertão do Ceará / Tomára eu já vortá... / Tomára eu já vortá... (bis)

Agora vorto p'r'o meu ceará querido / sinão fico home perdido / é mió eu i p'ra lá! / Quero i m'imbora e hei de i até a nado / sinão fico avaccaiado / como todo mundo está!

Pro sertão do Ceará / Tomára eu já vortá... / Tomara eu já vortá...

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O cigano

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Nem só de música sertaneja se constitui a obra de Marcelo Tupinambá. Um bom exemplo de seu lado cosmopolita é "O Cigano", uma das primeiras composições brasileiras a receberem a designação de fox-canção. Seguindo a moda de músicas sobre motivos exóticos, que imperava na época, Tupinambá fez em estilo andaluz esta canção, que trata da transitoriedade do amor, através do canto de um misterioso cigano.
Vicente Celestino

Com uma bela melodia (que lembra a composição Oriental, de Patápio Silva) vestindo esta fantasia de gosto duvidoso, O cigano fez sucesso em 1924, quando foi gravado por Vicente Celestino, e 22 anos depois, ao ser revivido por Francisco Alves. Até então, segundo Tupinambá, as edições impressas da canção já haviam vendido mais de cem mil exemplares, o dobro de O matuto, seu segundo maior sucesso. Gastão Barroso, que assina a letra com o pseudônimo de João do Sul, era um amigo de Tupinambá desde os tempos de mocidade.

O Cigano (fox-canção, 1924) - Marcelo Tupinambá e João do Sul

Um dia
eu em Andaluzia
ouvi um cigano cantar
Havia
no canto a nostalgia
de castanholas batidas ao luar
Mas era
a canção tão sincera
que eu a julguei para mim
E agora
que a minh'alma te chora
ouve bem a canção que era assim:

"O amor
tem a vida da flor
Não sonhe alguém
do seu sonho a colher
do seu sonho a colher
Pois bem
como acontece à flor
o lindo amor
principia a morrer
principia a morrer"

Cigano
que sabias o engano
por que me fizeste tão mal?
Não fôra
a canção traidora
e o meu sonho seria eternal
Quem há de
fugir à realidade
que vem desmentir a ilusão?

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Flor amorosa

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Callado criou, provavelmente, o primeiro grupo de choro em 1875. Inicialmente composto por dois violões, uma flauta e um cavaquinho, o grupo começou adotando a polca-de-serenata, que trazia passagens modulantes em ritmo acelerado. No começo, o choro possuía improvisações, em que os violões criavam o ambiente para a flauta solar e o cavaquinho fazia um papel intermediário entre eles.

Foi parceiro de Viriato Figueira da Silva, Ismael Correia, Lequinho e outros chorões. Era amigo do compositor de modinhas Chiquinho Albuquerque e do flautista belga Matheus André Reichert, que D. Pedro II contratou para animar os Saraus do Paço em 1859.

Em 1879, Callado recebeu a mais alta condecoração do Império: A Ordem da Rosa. Um ano depois, no dia 20 de março de 1880, falece de meningo-encefalite perniciosa. Depois de onze dias, foi colocada à venda sua última composição, a polca "Flor amorosa".

Flor amorosa (polca, choro, 1880)
Música de Joaquim Antônio da Silva Calado e letra de Catulo da Paixão Cearense

C-------- G------- -G7b------ -C3b----- C----- G3b--- G
Flor amorosa, compassiva, sensitiva, vem porque
C- C#° Dm7- Fm C Am--- Dm7----- G7----- C ----G
Versão cantada
É uma rosa orgulhosa, presunçosa, tão vaidosa
---------------G-------- G7b----------- C3b--- C-- G3b-- G
Pois olha a rosa tem prazer em ser beijada, é flor, é flor
C-- C#°--------- Dm7- Fm ----C -Am-- Dm7-- G7-- C ---E7/5b
Oh, dei-te um beijo, mas perdoa, foi à toa, meu amor
-------------Am----------------- Dm
Em uma taça perfumada de coral
Dm7b--- Bm5-/7 E7 ----Am
Um beijo dar não vejo mal
E7------ Am------------ A7-------- Dm
É um sinal de que por ti me apaixonei
----------------Am------- B7/9 E7 Am E7 Am
Talvez em sonhos foi que te beijei
------------Am------------------------ Dm
Se tu pudesses extirpar dos lábios meus
Dm7b-- Bm5-/7 E7------- Am
Um beijo teu tira-o por Deus
E7--------------- Am------------------- Dm
Vê se me arrancas esse odor de resedá
Bm5-/7 ---------Am7------ B7/9- -E7 Am G C
Sangra-me a boca, é um favor, vem cá
F ------------------(Gm7 C7)
Não deves mais fazer questão
----------------------------F
Já perdi, queres mais, toma o coração
--------------------------Am
Ah, tem dó dos meus ais, perdão
B7/9- ----------E7
Sim ou não, sim ou não
Am------------ Gm --C7---- F
Olha que eu estou ajoelhado
--------------------(Gm7 C7)
A te beijar, a te oscular os pés
------------------------------F
Sob os teus, sob os teus olhos tão cruéis
Dm---------------- A#-------
Se tu não me quiseres perdoar
---------F----- Em----------Gm---- C7 --F-- G
Beijo algum em mais ninguém eu hei de dar
-----------------G -----------G7b--------- C3b
Se ontem beijavas um jasmim do teu jardim
C ---G3b--- G
A mim, a mim
C -C#° -------Dm7-- Fm--- C
Oh, por que juras mil torturas
Am ----Dm7-- G7 -----C ---G
Mil agruras, por que juras?
-----------G------------ G7b --------C3b------ C --G3b G
Meu coração delito algum por te beijar não vê, não vê
C -C#° ------Dm7 -Fm --C --=-Am---- Dm7
Só por um beijo, um gracejo, tanto pejo
-G7-------- C
Mas por quê?

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Santa

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Santa (Chiquinha Gonzaga)

Creio no bem, creio em ti, / Quando teu lábio sorri. / Falas e me parece... / Que a tua voz é uma prece.

Creio no bem, creio em ti, / Quando teu lábio sorri. / Falas e me parece... / Que a tua voz é uma prece.

Ah, ahahaha... / Quem de ti pudera levar. / Ah ah haha... / Para te por num altar.

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A brasileira

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A brasileira (Chiquinha Gonzaga e José Sena)

Eu adoro uma morena sacudida / De olhos negros e faces cor de jambo / Lábios rubros, cabelos de azeviche / Que me mata, me enfeitiça, põe-me bambo / A cintura, Meu Deus, é delicada / O seu porte é faceiro e bem decente / As mãozinhas são enfeites, são berloques / Que fazem enlouquecer a toda gente

Ai morena a quem amo, a quem adoro / Não me sai um só momento da idéia / É faceira, dengosa e muito chique / Tem um pé... que beleza, que tetéia!

Há segredos, quem diz, naquele corpo / Tremeliques, desmaios, sensações / Que nos põe a cabeça andar à roda / Sonhando com delícias, com paixões / Seus dentes são marfim de alto preço / Sua boca um cofre perfumado / O resto do corpinho uma delícia / O melhor é não dizer, ficar calado

Ai morena a quem amo, a quem adoro / Não me sai um só momento da idéia / É faceira, dengosa e muito chique / Tem um pé... que beleza, que tetéia!

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Machuca

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Machuca (Chiquinha Gonzaga e Patrocínio Filho)

Sou morena bonita e galante / Tenho raios e setas no olhar / E nem pode uma lira de Dante / Os encantos que tenho cantar / Quando passo, os bilontras me olhando / De binóculo erguido com ardor / Dizem todos se bamboleando / Abrasados em chama de amor

Ai morena, morena querida / Tu nos põe a cabeça maluca / Pisa e mata, destrói essa vida / Ai morena, morena, machuca!

Eu machuco deveras a todos / Até fico contente por isso / Ao fitá-los os deixo por loucos / Pois fitando-os lhe deito o feitiço / Sou morena que quando passeio / Deixo calda de luz como um astro / É uma récua de gente que veio / Me dizendo, seguindo meu rastro

Ai morena, morena querida / Tu nos põe a cabeça maluca / Pisa e mata, destrói essa vida / Ai morena, morena, machuca!

Esses fogos que tenho nos olhos / E que tem até o dom de encantar / São na vida, no mundo os espólios / Onde os petos se vêm quebrar / Mas a culpa não é, não é minha / É dos homens que vêm com ardor / Me julgando dos céus a rainha / Me dizendo abrasados de amor / Ai morena, morena querida / Tu nos põe a cabeça maluca / Pisa e mata, destrói essa vida / Ai morena, morena, machuca!

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Casa de caboclo

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Os versos desta canção "Numa casa de caboco / um é pouco / dois é bom / três é demais", consagraram-se como um verdadeiro dito popular. Este fato, por si só, comprova a grande popularidade alcançada pela composição, que tornou conhecido o seu lançador, o então jovem cantor Gastão Formenti.
Autores de "Casa de Caboclo", Hekel Tavares e Luiz Peixoto acabaram inspirando, juntamente com Joubert de Carvalho, uma onda de canções sobre motivos sertanejos, que proliferou no final dos anos vinte. Como acontece muitas vezes a músicas de sucesso, houve à época do lançamento quem considerasse "Casa de Caboclo" plágio de um tema de Chiquinha Gonzaga, levando a discussão aos jornais. Daí a informação que figura em algumas de suas regravações: "Canção baseada em motivos de Chiqu