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Homero Dornellas, compositor, instrumento e professor nasceu no Rio de Janeiro-RJ em 14/12/1901 e faleceu em 28/12/1990. Filho do maestro Sofonias Dornellas, estudou piano e teoria musical com o pai e uma tia, dos sete aos 14 anos. Em 1916 ingressou no I.N.M., do Rio de Janeiro, na classe de Frederico Nascimento, cursando teoria, solfejo e física acústica. Cinco anos depois, abandonou o piano para dedicar-se exclusivamente ao violoncelo, estudando com Eurico Costa. Foi também aluno de harmonia de Nevvton Pádua e Paulo Silva, e de composição de Lorenzo Fernandez.
Em 1923 passou a atuar como violoncelista em diversos conjuntos sinfônicos e camerísticos, como o da Sociedade de Concertos Sinfônicos, Orquestra Arcângelo Corelli e Orquestra do I.N.M. Paralelamente, tocava em cinemas, acompanhando filmes mudos, em teatros de revista, restaurantes, serviços religiosos e em circos, o que deu origem à sua ligação com a música popular.
Data de 1923 sua primeira composição, Parisete, feita em parceria com o pai, que usava o pseudônimo de Sallendor. Em 1926 passou a se dedicar a composições populares, escrevendo sambas, marchas carnavalescas e foxes, sendo, inclusive, convidado, dois anos depois, para supervisionar e revisar os trabalhos de orquestração, arranjo e harmonização de músicas para o Carnaval na Casa Vieira Machado.
Como compositor popular adotou o pseudônimo de Candoca da Anunciação, consagrando-se definitivamente em 1929 com o samba Na Pavuna (com Almirante), que foi grande sucesso no Carnaval de 1930. Lançado pela Parlophon com Almirante e o Bando de Tangarás, Na Pavuna foi o primeiro disco a reproduzir uma batucada, em estúdio, com instrumental de percussão semelhante ao usado nas ruas durante o Carnaval.
Três anos depois, a convite de Villa-Lobos, passou a trabalhar no SEMA, e em 1939 ingressou, por concurso, na Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal, do Rio de Janeiro. Dois anos depois, licenciou-se dessa orquestra, transferindo-se para a Sinfônica Brasileira, a chamado de Eugen Szenkar, e em 1941 foi contratado como músico instrumentista da Rádio Nacional, do Rio de Janeiro. No ano seguinte foi nomeado professor de canto orfeônico e matérias teóricas do Colégio Pedro II.
Deixou o SEMA em 1959 e a Rádio Nacional cinco anos depois, parando de lecionar no Pedro II em 1972. Publicou Orquestras em desfile, Rio de Janeiro, 1974 (que dá relação nominal dos músicos que integraram os diversos conjuntos atuantes no Rio de Janeiro de 1894 a 1974). Em sua carreira, usou ainda dos pseudônimos Romeoh Sallendor, Sallendor Filho e My Self.
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Joraci Schafflär Camargo, teatrólogo e letrista, nasceu no Rio de Janeiro RJ em 18/10/1898 e faleceu em 11/3/1973. Começou no teatro amador em 1912, no Clube Vinte e Quatro de Maio, e mais tarde passou a escrever revistas, estreando com Me leva, meu bem, em colaboração com Pacheco Fialho. Marcadores: joraci camargo biografia
Hekel Tavares, compositor, regente e arranjador nasceu em Satuba AL (16/9/1896) e faleceu no Rio de Janeiro RJ (8/8/1969). Estudou piano com uma tia e, ainda criança, aprendeu harmônica e cavaquinho, já demonstrando grande interesse pelas manifestações populares. Foi para o Rio de Janeiro em 1921 e iniciou-se em orquestração com J. Otaviano. Ao lado de Valdemar Henrique, Marcelo Tupinambá e Henrique Vogeler, sob a influência nacionalista da Semana de Arte Moderna (1922), criou um tipo de música situado na fronteira do erudito e do popular. Autor de mais de 100 canções, alcançou seu maior êxito com Casa de caboclo (com Luiz Peixoto), gravada em 1928 por Gastão Formenti na Parlophon, e no mesmo ano Eu ri da lagartixa foi lançada por Patrício Teixeira, naquela gravadora. Em 1927, para o Teatro de Brinquedo (idealizado por Álvaro Moreira e outros), que funcionava no subsolo do Teatro Cassino Beira-Mar, musicou a peça de estréia, sendo também o pianista desse espetáculo e de outros que se seguiram. Essa experiência de teatro ligeiro e elegante teve pouca duração, pois era ainda muito reduzido o público de alta classe média, para o qual eram dirigidos os espetáculos. Assim, ainda em 1927, o compositor se viu na contingência de voltar às revistas mais populares dos teatros da Praça Tiradentes.
Em 1933 Jorge Fernandes gravou, na Odeon, O que eu queria dizer ao teu ouvido (com Mendonça Júnior). Nesse início da década de 1930, fez ainda Favela) (com Joraci Camargo), Chove!... chuva!... (com Ascenso Ferreira), Bahia (com Álvaro Moreira), Banzo (com Murilo Araújo), Na minha terra tem (com Luís Peixoto), Felicidade (com Luís Peixoto), Guacyra (com Joraci Camargo), Leilão (com Joraci Camargo), lançada em 1933 por Jorge Fernandes, na Odeon, e Caboclo bom (com Raul Pederneiras), gravada na Columbia em 1942, por Jorge Fernandes etc.
Em 1935 fez sua primeira composição erudita, André de Leão e o demônio de cabelo encarnado, poema sinfônico baseado no poema de Cassiano Ricardo (1895-1974) e lançado em álbum, com libreto ilustrado pelo gravador Osvaldo Goeldi. Inspirando-se sempre na música regional, continuou a produzir no gênero erudito, editando suas obras por conta própria.
De 1949 a 1953 percorreu quase todo o Brasil, em missão especial do então Ministério da Educação e Saúde Pública, pesquisando motivos folclóricos que utilizaria em diversas obras, como no poema sinfônico O Anhangüera, para orquestra, coro misto, solistas e coros infantis (com argumento de sua esposa, Marta Dutra Tavares, e poemas de Murilo Araújo), composição em que utilizou instrumentos de percussão dos índios Tucuna, do alto Solimões, e o conhecido motivo indígena Canide ioune. Ainda com o material obtido na viagem, em 1955 fez Oração do guerreiro, para baixo profundo. Compôs ainda Concerto, para piano e orquestra; Concerto em formas brasileiras, p/violino e orquestra; O sapo domado e A lenda do gaúcho, fantasias infantis. Deixou inacabados: Rapsódia nordestina e Fantasia brasileira, ambas para piano e orquestra, e o drama folclórico Palmares.
Em 1996 Fernando de Bortoli escreveu Hekel Tavares - O mais lindo concerto para piano e orquestra, São Paulo, Edição do autor, onde incluiu listagem das obras, discografia e bibliografia sobre o compositor.
Obras
Azulão (c/Luís Peixoto), canção, 1929; Bahia (c/Álvaro Moreira), s.d.; Banzo (c/Murilo Araújo), canção, 1933; Biá-tá-tá (c/Jaime d'Altavitta), coco, 1934; Caboclo bom (c/Raul Pederneiras), canção, 1942; Casa de caboclo (c/Luís Peixoto), canção, 1928; Chove!... chuva!... (c/Ascenso Ferreira), canção, 1931; Engenho novo, folclore, 1929; Eu ri da lagartixa, cateretê, 1928; Favela (c/Joraci Camargo), canção, 1933; Felicidade (c/Luís Peixoto), s.d.; Funeral de um rei nagô, s.d.; Guacyra (c/Joraci Camargo), canção, 1933; Humaitá, coco, 1934; Leilão (c/Joraci Camargo), 1933; Moleque namorador, fox-trot, 1927; Na minha terra tem (c/Luís Peixoto), canção, 1929; O que eu queria dizer ao teu ouvido (c/Mendonça Júnior), s.d.; Sabiá, canção, 1927; Suçuarana (c/Luís Peixoto), toada sertaneja, 1927.
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Pioneiro em todas as atividades as quais se dedicou, Heitor dos Prazeres nasceu no Rio de Janeiro em 23 de setembro de 1898 e morreu na mesma cidade em 4 de outubro de 1966. Seu pai era marceneiro e tocava na banda da Policia Militar, atividades seguidas por Heitor que se iniciou como polidor de móveis e encontrou sucesso na área musical. Estudou até a quarta série do primário e mesmo trabalhando desde os sete anos foi preso, por dois meses, aos treze, por vadiagem. Sua adolescência transcorreu entre a praça Onze e o Mangue, em contato com os "chorões" e os bambas do samba.Marcadores: heitor dos prazeres
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José Francisco de Freitas, o Freitinhas, foi compositor e instrumentista. Nasceu no Rio de Janeiro no ano de 1897 e faleceu em 13 de fevereiro de 1956. Estudou piano e teve aulas iniciais de composição com Francisco Braga, compondo sua primeira música aos oito anos, a valsa Treze de Setembro. Em 1912 publicou a valsa Tarde e, dois anos depois, Amor que engana, despertando atenção como autor.
A partir de 1918 começou a escrever partituras para revistas e burletas do teatro musicado, compondo para a revista Zé dos Pacotes, de Miguel Santos, que marcou sua estréia no gênero. Aos 21 anos começou a atuar também como pianista, tocando na Casa Carlos Wehrs.
Em 1923 já havia editado nessa casa 64 composições. No mesmo ano obteve seu primeiro grande sucesso, com o fox-trot Vênus, dedicado a Zezé Leone, vencedora de concurso nacional de beleza. Três anos depois, lançou-se como compositor de músicas para o Carnaval, com a marcha Zizinha (com Carlos Bittencourt e Cardoso de Meneses), lançada na burleta de Freire Júnior Ai, Zizinha. Obteve sucesso também com outras músicas, grandemente influenciadas pelo charleston, entre as quais Eu vi Lili. Por essa época, animava bailes, regendo uma pequena orquestra, no estilo jazz band, com um repertório que incluía suas composições carnavalescas. Para divulgá-las, mandava imprimir folhetos com a letra e a partitura, que distribuía gratuitamente.
Em 1927, sua marcha Dondoca obteve sucesso tão grande que seus editores, a Casa Carlos Wehrs, lhe deram uma medalha de ouro. A marcha foi lançada pela atriz Margarida Max na revista Sol nascente, de Carlos Bittencourt, Cardoso de Meneses e Alfredo Pujol. Dois anos depois, apesar do sucesso de Dorinha, meu amor, sua popularidade começou a declinar pelo surgimento de nova geração de compositores carnavalescos.
No Carnaval de 1933 ainda obteve prêmio da prefeitura carioca com Não faço questão de cor, desaparecendo do cenário carnavalesco e limitando-se a novas apresentações em revistas de teatro.
Obras:
Dorinha, meu amor, marcha, 1929; Eu vi Lili, marcha, 1926; Miserê, samba, 1924; Vênus, fox-trot, 1923; Zizinha (com Carlos Bittencourt e Cardoso de Meneses), marcha, 1926.
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O Teatro de revista é um gênero de teatro musicado caracterizado por passar em revista os principais acontecimentos do ano. A encenação é feita numa sucessão de quadros onde os fatos são revividos com intenção e humor. Tudo em meio a muitas danças, canções e outros números musicais.
Surgido no Rio de Janeiro em 1859, com a revista de Justino de Fiqueiredo Novais intitulada As surpresas do Sr. José da Piedade, relacionada ao ano de 1858 em dois atos e quatro quadros. Essa revista foi estreada no Teatro Ginásio, dia 15 de janeiro de 1859. Esse novo gênero de teatro com música firmou-se definitivamente a partir da década de 1880, com o aparecimento do magnifico Artur de Azevedo que se tornou o maior nome do teatro musicado brasileiro em todos os tempos.
No início, as revistas brasileiras sofreram a influência das revistas européias, até 1887, com a encenação da revista La gran via, por uma companhia espanhola. Nessa revistas as coristas cantavam em coro e não se movimentavam pelo palco. As revistas brasileiras inovaram e ganharam estilo próprio mesmo antes do final da década de 1880 quando passou a lançar músicas de sucesso popular.
O tango Araúna ou Xô, araúna, da revista Cocota, de Artur Azevedo, encenada em 1885, é considerada como a primeira música que saiu do palco para as ruas, para o domínio popular. Depois veio a cançoneta A missa campal, de Oscar Pederneiras, 1888, cantada, também, na revista de Oscar pederneiras. Em seguida vieram outras composições que fortificaram ainda mais esse tipo de teatro musicado.
Entre as mais famosas da época, tivemos o tango As laranjas da Sabina, com letra de Artur de Azevedo, que foi lançado pela soprano italiana Ana Manarezzi na revista A República, de Artur e Aluízio Azevedo, em 1890; o lundu Mugunzá, de F. Carvalho, lançado em 1892 na revista portuguesa Tim-tim por tim-tim, e o tango brasileiro Gaúcho, de Chiquinha Gonzaga, tocado pela primeira vez na revista Zizinha Maxixe, de autoria do ator Machado Careca, em 1897, que se tornou um dos maiores sucessos da música popular brasileira de todos os tempos, sob o nome de Corta-jaca.
Além de veículo da popularização de canções populares, o teatro de revista abrigou e deu nome a uma série de maestros-compositores, como a própria Chiquinha Gonzaga, Paulino Sacramento, Nicolino Milano, Bento Mossurunga, Antonio Sá Pereira, Sofonias Dornelas, Adalberto Gomes de Carvalho.
A partir da década de 1920, o teatro de revista sofreu a influência do cinema e seu tempo foi diminuído e passaram a concorrer, também, com os mágicos o que conduziu o gênero para o show, cuja tendência aumentou na década de 1930 com os espetáculos internacionais dos cassinos. Em 1935, foi encenada no Teatro Recreio, a revista de Freire Junior, intitulada Bailarina do cassino. Dessa forma a importância do teatro musicado passou para os shows de boate ou de teatros com o objetivo de atender a um público mais exigente.
O teatro de revista dando sucesso às músicas populares
Até o começo dos anos 20, o teatro de revista que se fazia no Brasil ainda era rudimentar, sem muita preocupação com guarda-roupas, cenários e mesmo com os próprios espaços onde era encenado. Naqueles momentos, aportam no Rio de Janeiro duas companhias européias que iriam ditar a mudança completa do comportamento do gênero, tanto no palco como fora dele.
Salvyano Cavalcanti de Paiva conta, no livro Viva o rebolado, como foi a reação nacional à presença da companhia francesa Ba-Ta-Clan: “Despertaram interesse, surpresa e sensação a saúde e a marcação das coristas, de corpo escultural, a música viva e funcional, os cenários magnificentes, a movimentação de luzes e cores que ampliava os efeitos estéticos e cenográficos e, em especial, o apelo erótico alcançado mediante a mostra generosa do nu feminino – que a Censura, no primeiro momento, não ousou proibir para não parecer matuta... Isto chocou mais aos empresários que ao público; verificaram, por fim, o acanhado das suas realizações. A conseqüência mais imediata foi a supressão das meias e das grosseiras roupas de malha das coristas. E tentativas de melhorar, enriquecer, as apoteoses: isto representou mudança radical na cenografia e nos figurinos e a introdução de uma coreografia consciente nos números de dança coletiva, até então executados na base do improviso”.
As observações se prestam também à companhia madrilense Velasco, que junto com a francesa trouxeram a feérie para o público carioca. Foi tal o impacto das mulheres européias no país que, em São Paulo, um jovem tentou suicidar-se, saltando do viaduto do Chá, por amor a uma das francesinhas, e Juca Paranhos, futuro barão do Rio Branco, casou-se com a corista belga Marie Stevens.
A primeira revista brasileira não chegou a ficar em cartaz uma semana, por falta de público e proibição da censura, após a estréia. Denominava-se As surpresas do Sr. José da Piedade e foi encenado no Teatro Ginásio, no Rio de Janeiro, em 1859. A segunda tentativa foi em 1875, com a A Revista do Ano de 1875, escrita por Joaquim Serra, mas que acabou fracassando por excesso de sátiras políticas. Ainda nesse ano, do mesmo Serra, Rei morto, rei posto dá sinais de que público começava a aceitar o novo tipo de teatro.
O grande sucesso brasileiro apareceria em 1883, com o O Mandarim, espetáculo de Artur Azevedo e Moreira Sampaio, com a participação do cançonetista e compositor Xisto Bahia, considerado um dos maiores artistas populares de sua época e, segundo o próprio Artur Azevedo, “o ator mais nacional que tivemos”. Como revista inteiramente brasileira, a primeira carnavalesca a ser montada intitulava-se O Boulevard da Imprensa de Oscar Pederneiras.
Portugal nos manda, em 1892, suas cançonetistas da revista Tintim por tintim, com bastante êxito. A revista como balanço do ano desaparece no início do século. É o momento em que a música começa a tomar espaço maior no palco e o Carnaval a ser um dos seus principais motes, envolvendo-se o teatro de revista com as grandes sociedades carnavalescas, como os clubes dos Fenianos, Tenentes do Diabo, dos Democráticos e outros.
Na revista O Maxixe, em 1906, é lançado Vem cá mulata (Arquimedes de Oliveira e Bastos Tigre), no mesmo ritmo do título. Vira grito de guerra dos Democráticos nos carnavais seguintes, tal êxito que foi no palco. É um dos primeiros exemplares do teatro de revista como lançador de músicas que o povo adotaria de imediato. A fase das revistas do ano ficara para trás. O público crescente deixava-se seduzir por um tipo de teatro que alcançava uma estrutura tipicamente brasileira, mais que isso, carioca, e a revista assumia agora o papel que cumpriria nos anos seguintes, de lançadora de sucessos da música popular brasileira.
Cidade essencialmente musical, mesmo assim, o Rio de Janeiro só veria o prestígio do teatro de revista consolidado, nos últimos anos da década de 10 e nos primeiros da de 20. Assumida inteiramente a função de vitrine, abriria os palcos para compositores populares, que os levariam à celebridade, transformaria vedetes-cantoras nas mulheres mais desejadas e cobiçadas do país. Desejo e cobiça que, muitas vezes eram orientados para diferentes finalidades, visto que, na realidade, os compositores as desejavam como intérpretes de seus sambas nos palcos revisteiros e cobiçavam o resultado financeiro que, certamente, adviria de um lançamento feito por uma daquelas deusas.
Nos anos 20, o nome mais famoso a ter suas composições levadas a cenas foi José Barbosa da Silva, o Sinhô, que se auto-intitulava o Rei do Samba. Chegou à proeza – em duas ocasiões – de ter o mesmo samba cantado em duas revistas diferentes, encenadas simultaneamente. Além dele. A fase é de destaque para Freire Júnior, Eduardo Souto, Henrique Vogeler, Luiz Peixoto, Lamartine Babo, Hekel Tavares, Ary Barroso, entre outros.
Desde Pelo telefone, o propalado primeiro samba gravado, detecta-se um vínculo mais forte entre o teatro de revista e o samba. Inspirados na gravação do cantor Bahiano, os revistógrafos Álvaro Pires e Henrique Júnior apresentavam, no dia 7 de agosto de 1917, no Teatro Carlos Gomes, na praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, a revista Pelo Telefone. A repercussão do samba no Carnaval daquele ano não se transmitiu ao espetáculo, que ficou em cartaz apenas uma semana.
A que consegue êxito digno de nota, com mais de quatrocentas representações, e a revista Pé de Anjo, musicada pelo paranaense Bento Mossurunga e Bernardo Vivas. Nela aparecem as figuras de Júlia Martins, que gravou dezenas de duetos com o pioneiro Bahiano, nos discos da Casa Edison, e uma estreante que viria a ser a maior das vedetes de todos os tempos, a paulista Margarida Max. O sucesso era a marcha Pé de anjo, de Sinhô, que consolidou a aliança entre o teatro de revista e a música popular.
Considerada uma das maiores estrelas do teatro de revista em todos os tempos, a paulista Margarida Max, formou, com Augusto Aníbal e João Lins, o trio principal de atrações da revista 'Onde está o Gato". De autoria de Geysa Bôscoli e Luiz Iglésias foi montada em 1929, no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro.
Tanto assim que, no mesmo 1920, estréia a revista Papagaio Louro, com mais um samba de Sinhô, Fala meu louro, e no Teatro São José, Quem é bom já nasce feito, aproveitando o nome de outro samba dele. Quem apresenta é Otília Amorim, uma das grandes vedetes que disputavam as preferências do público carioca.
No ano seguinte, a revista Reco-Reco, estrelada pela mesma Otília, com música de Bento Mossurunga, destaca a presença do “tenor” Francisco Alves, vestido de malandro e cantando um samba que dizia: “Olha a menina / sem saia / freguês”. No Teatro São José, um samba de Caninha (José Luiz Morais) dava o que falar e o que cantar, emprestando seu nome à revista Esta nega qué mi dá. Francisco Alves e Otília lançaram o samba a duas vozes.
Uma “figurinha de brasileira petulante”, no dizer do crítico Mário Nunes, estreava na revista em 1922, destinada a ser a maior lançadora de talentos de toda a história do gênero. Vinda de espetáculos circenses, Araci Cortes iniciava a carreira em Nós pelas costas, estreada no Teatro Recreio, na última noite do ano de 1921.
Chegaram então as francesas e as espanholas. As comemorações do centenário de independência do Brasil, enchendo o Rio de Janeiro de festas e convidados, mais as presenças das coristas européias incendiaram os teatros de revista. As modificações começaram a ser adotadas e a aparecer já nos novos espetáculos. Um samba classificado como “à moda paulista”, composto por Eduardo Souto, transforma-se no sucesso do Carnaval de 1923 e na revista do mesmo nome. Tatu subiu no pau, montada pela empresa Paschoal Secreto, no Teatro São José, ultrapassando cem representações.
O elenco completo da revista "Ai se eu pudesse voá", montada no Rio de Janeiro, no final dos anos 20. Na fotografia destacam-se o ator Brandão Sobrinho, que está logo abaixo do estandarte, e o cantor Vicente Celestino, o último da esquerda, na fileira do meio. A estrela com o leque, é Vitória Soares.
Luiz Peixoto chega de Paris e encena Meia noite e trinta, colocando no palco tudo o que aprendera lá. É a pá de cal no enterro da velha revista, que agora tem gosto refinado em cenários, guarda-roupa, iluminação, textos, e oferece muito melhores condições aos seus lançamentos musicais. Francisco Alves é uma das atrações, ao lado de sua mulher Nair. Além de cantar, dança desenvolto com ela. Ainda em 1923, Chico Alves participaria, junto com da iniciante Araci Cortes, da revista Sinhô de ópio, na qual interpretava um almofadinha cantor. A partir daí, sua presença torna-se mais rara até por volta de 1930, quando abandona o teatro e passa a se interessar mais por gravações e programas radiofônicos. Durante 15 anos, o teatro de revista foi a sua vitrine.
Um êxito estrondoso marcou o aparecimento, como estrela, de Margarida Max. A cinco de maio de 1924, estreou no Teatro Recreio, de Marques Porto e Afonso de Carvalho, a revista À La Garçonne, que modificaria costumes no país. Depois de trezentas representações, excursionou pelo Brasil, lançando a moda dos cabelos curtos para mulheres, “a lá garçonne” ou “a la homme”, tal como usava Margarida. Bonita, vistosa, talentosa e jovem, com enorme força interior, que faria dela a maior das vedetes do gênero. Iniciava ali uma carreira que acabaria por desbancar a estrelíssima Otília Amorim, vencendo as concorrências de Antônia Denegri, Eva Stachino, Lia Binatti, Zaíra Cavalcanti e da própria Araci Cortes, que ao final seria sua sucessora, sem contudo, alcançar seu status de grande dama do teatro de revista.
Uma das vezes em que o destino fez com que Margarida e Araci se cruzassem deve-se a um samba clássico. Araci lançou, em 1929, na revista É de Outro Mundo o samba de Ary Barroso e J. Carlos, A Grota Funda. Em 14 de maio de 1931, Margarida Maux, na revista Brasil do Amor, lança a versão definitiva do samba, agora com letra de Lamartine Babo e rebatizada como... No Rancho Fundo.
"Penas de Pavão", de Marques Porto e Afonso de Carvalho, foi encenada em janeiro de 11923, no Teatro Recreio, do Rio de Janeiro. O quadro chamava-se "Shimmy e Fox".
O decorrer dos anos 20 foi um contínuo ritmo de ascensão do teatro de revista e de suas belas mulheres cantoras. A catarinense Lia Binatti era procurada por compositores como Hekel Tavares, Henrique Vogeler, Sá Pereira, Otília Amorim, já veterana, mas bela e experiente, era exemplo para as que chegavam. Henriqueta Brieba iniciava sua longa carreira, que terminaria na televisão como comediante. Araci Cortes vai se firmando como protótipo da beleza da mulher brasileira.
Braço de cera consagra Margarida Maux, que canta o samba de Nestor Brandão, e Lia Binatti leva A favela vai abaixo, a revista e o samba de Sinhô, ao sucesso absoluto. A relação de grandes composições cresce a cada estréia de revista. Novos e antigos compositores se valem da revista para iniciar ou consolidar carreiras. Otília Amorim bisa e trisa o novo samba de Sinhô, Que vale a nota sem o carinho da mulher?, na revista Eu quero é Nota!. Simultaneamente, Vicente Celestino canta o mesmo samba em outra revista, Cadê As Notas?.
O bonito e original guarda-roupa da revista "Comidas, Meu Santo!" de Marques Porto e Ari Pavão, encenada no Teatro Recreio, do Rio de Janeiro, em 1925.
Com Gosto que me enrosco, Sinhô repete a proeza, Nelly Flores o canta em Seminua (agosto de 1928) e novamente Vicente Celestino fazia o eco, agora na revista Cachorro quente. Ainda em Seminua, Nelly lança outro clássico do Rei do Samba, Deus nos livre dos castigos das mulheres. Araci Cortes tem um dos seus maiores sucessos com Jura, na revista Microlândia, enquanto gente nova começa a aparecer.
A montagem de Miss Brasil apresenta, como um dos autores, o compositor Ary Barroso, que teria longa carreira na revista. Foi ele quem, por exemplo, lançou um jovem, cantando seu samba Gente bamba, que depois seria gravado como Faceira, na revista Brasil do amor, em 1931, no Teatro Recreio. O cantor estreante era ninguém menos que Sílvio Caldas, outro que, como Francisco Alves, cantou muito tempo no teatro de revista, lançando sambas como Caboclo da cidade e Malandro, de Freire Júnior, ou Cordiais saudações e Mulato bamba, de Noel Rosa, antes de se dedicar apenas ao rádio e ao disco. Ary lançou no palco sucessos como Dá nela, Eu sou do amor, Orgia, o já citado No rancho fundo, Boneca de piche, Vamos deixar de intimidade, Na batucada da vida, Foi ela, No tabuleiro da baiana e outras.
Entre os grandes sambistas que se envolveram com a revista, um dos pioneiros foi Alcebíades Barcelos, o Bidê, de quem Francisco Alves cantou o samba A malandragem, na revista Seu Julinho vem, de Freire Júnior, encenada pela Companhia de Alda Garrido no Teatro Carlos Gomes, em 1929. Margarida Max e suas coristas levantavam o público com o samba-choro O Gavião, de Pixinguinha, na revista Guerra ao mosquito, e Wilson Batista contava quem aos 16 anos, já tinha seu primeiro samba, Na estrada da vida, cantado pela estrela Aracy Cortes, em uma revista no Recreio.
Mas é claro que o teatro de revista tinha o seu lado de malícia, de duplo sentido, e musicalmente não fugiria também desse aspecto. O sambista Luís Soberano soube explora-lo entregando para Aracy Cortes cantar, na revista Não adianta chorar, em 1929, o samba Costureira, em que ela explorava todo o seu talento junto à platéia: “Eu quero ver, por ventura minha / qual dos senhores é que se orgulha / de conseguir meter a linha / no buraquinho, desta agulha / Que o consiga é o que desejo / E como prêmio eu darei / ao vencedor um beijo / E coisa mais, que não direi”, e seguia até o final: “Que tem seu ponto fraco / Se a gente perde a linha / Não dá com o buraco”.
A mesma Aracy lançou de Ismael Silva e Nilton Bastos, o Se você jurar, de Noel Rosa, os sambas Com que roupa?, Queixume, Eu vou pra Vila, Gago apaixonado e Dona Aracy. De Almirante e Homero Dornellas, a estrelíssima cantou no Teatro Recreio, na revista Dá nela (1930) um samba que fez furor, usando pela primeira vez a cuíca, o pandeiro, o surdo, o ganzá, o reco-reco, o tamborim e o triângulo. Tratava-se de Na Pavuna, que com a repercussão acabou virando ele próprio uma revista, de Freire Júnior e Luiz Iglesias, estreando no Cassino Beira Mar, naquele mesmo ano.
No Teatro João Caetano, em setembro de 1930, estreou a revista Vai dar o que falar, de Luiz Peixoto, com música de Ary Barroso. Nela, estreava Carmen Miranda, que passou por um susto. A platéia vaiou um dos seus quadros, do qual participavam cavalos da Polícia Militar e que representava o meretrício do Mangue. Ouviu-se um estampido de um tiro, os cavalos se assustaram e dispararam no local. Carmen foi praticamente empurrada para o palco, mas acalmou o público cantando. Os jornais creditaram a ela o fato de não ter ocorrido uma tragédia.
Ainda no reinado de Aracy, em 1932, na revista Com a letra, ela registra um raríssimo samba da lavra de Lamartine Babo, Só dando com uma pedra nela, que o autor viria a gravar em parceria com Mário Reis. E, em Angu de caroço, ela contribui para o início da carreira, no teatro de revista, do ator Oscar Tereza Dias, o Oscarito, que, em dupla com ela, lança o samba de Noel, Mulato bamba, gravado no ano seguinte por Mário Reis.
Surge então a Casa de Caboclo, uma companhia montada pelo bailarino Duque (Antônio Lopes de Amorim Diniz), o mesmo que levara o maxixe e os Oito Batutas a Paris. Na companhia, aparece um duo chamado Jararaca e Ratinho e uma nova vedete com o nome de Dercy Gonçalves. A revista chama-se Que-qué qué casa e limitava-se a repetir os sambas lançados em outros teatros.
Até a chegada dos anos 40, o teatro de revista manteve sua missão de lançador da música brasileira. Em 1939, na revista Camisa amarela, no Teatro Recreio, Moreira da Silva ainda encontra espaço para popularizar o samba de breque. Daí para frente, mudaria a filosofia, entrariam as vedetes estrangeiras, reinariam as plumas e os paetês, o texto ganharia o espaço maior e o rádio passaria a ser o grande divulgador da música do povo.
A malícia do samba no teatro de revista
Dizem todos: / Tem uma graça feiticeira, / Só porque aqui nasci / Nesta terra brasileira / Com meu cheiro de canela / Minha cor de sapoti, / Dizem todos: / Lá vem ela! / O demônio da Araci!
O samba Graça de Araci, de Ary Barroso, na revista Não adianta chorar, encenada em agosto de 1929, no Teatro Recreio do Rio de Janeiro, retratava musicalmente a mais polêmica, musical e importante vedete que o teatro de revista brasileiro teve em toda a sua história.
Zilda de Carvalho Espíndola começou a escalada para a fama no teatro de revista brasileiro, ao integrar o elenco de Sonho de Ópio, estreada em novembro de 1923, no Teatro São José. A figura de mulher bem brasileira, a morenice tentadora e petulante, somadas à boa voz, segura interpretação e presença dominante em cena, logo fizeram dela atriz disputada pelos empresários para as montagens de revistas subseqüentes.
Aliás, disputada foi a palavra que Aracy Cortes, nome artístico adotado por Zilda, mais ouviu em toda a sua vida. Disputava-se Aracy atriz, Aracy mulher e, principalmente, Aracy cantora. Em muito pouco tempo, a fama de intérprete afinada, maliciosa, de excelente estampa, agradando plenamente ao público, fazia com que todos os compositores a procurassem para ver suas músicas incluídas nas revistas por ela estreladas.
A princípio, Aracy era obrigada a cantar as músicas apontadas pelo repertório original dos espetáculos, mas sua força cresceu tanto que passou a impor composições e compositores de seu agrado. De tal forma que até mesmo algumas revistas acabavam por serem batizadas com nomes de suas músicas favoritas.
No início da carreira, houve, entre ela e o compositor Sinhô, como que uma troca de favores. Era ele quem tinha fama, enquanto ela era principiante. Mas depois de ter aprendido muito de interpretação com o maestro Paulino Sacramento, de ser dirigida e orientada por Luís Peixoto, Aracy começou a se ombrear com o compositor e, quando cantou dele, em 1929, o samba Jura, estava efetivamente consagrada. Todas as noites bisava e trisava, na revista Microlândia, de Marques Porto, Luís Peixoto e Alfredo de Carvalho, no Teatro Fênix, de início, e posteriormente no Palace-Théâtre. Interessava, então, a Sinhô que a força de Aracy fosse usada no lançamento de suas músicas
Mulher muito à frente de seu tempo, Aracy Cortes desde sempre desafiava preconceitos. Escorada na beleza física e na graça com que se apresentava nos palcos do teatro de revista, construiu carreira que lhe permitia todas as ousadias. Como a posar praticamente nua, "vestida" apenas com um violão, foto de 1924, resultando em um dos seus maiores sucessos, a canção "Gemer num violão", que ela interpretava de forma desabusada, sempre na certeza de ser chamada de volta ao palco, três ou quatro vezes por noite. Até encerrar em definitivo a carreira, no musical "Rosa de ouro", que a conduziu ao palco nos anos 60, manteve a pose e o charme de grande estrela.
Força que ficou patente em outro clássico absoluto da música popular brasileira, tido pelos pesquisadores como o primeiro samba-canção que se conhece. Linda flor, de Henrique Vogeler, fora lançado, com letra de Cândido Costa, em uma comédia musicada de Freire Júnior, chamada A verdade ao meio-dia, em agosto de 1928. Cantada por Dulce de Almeida, passou despercebida. Mais tarde, ao montar a revista Miss Brasil (no Teatro Recreio, em dezembro do mesmo ano), Luís Peixoto colocou nova letra, rebatizou-a como Iaiá, que acabou famosa como Ai, Ioiô, e entregou-a a Aracy. Sucesso imediato no palco e definitivo em disco, com prêmio ganho até na Alemanha.
A voz de Aracy Cortes tinha o “toque de Midas”. Nada mais natural, portanto, que fosse assediada por todos os grandes compositores. Desde o maestro Paulino Sacramento, seu mestre musical, de quem lançou o samba Ai, madame, logo na estréia, até o consagrado Ary Barroso, todos a cortejavam. E ela rainha que era, aceitava tranquilamente a corte. De Ary começou logo com Vou à Penha e Vamos deixar de intimidade (ambos, depois gravados por Mário Reis), lançados na revista Laranja da China, de Olegário Mariano, no Teatro Carlos Gomes, em 1929. Lançou no teatro e no disco (de Ary e Lamartine Babo), Gemer num violão e, só de Ary, o citado Graça de Aracy, além de Eu sou do amor, Orgia, Boneca de piche, Deixa disso, Na batucada da vida, entre os mais conhecidos.
Noel Rosa, que pouca gente sabe ter andado pelo teatro de revista, entregou muito samba de sua autoria à voz de Aracy. Em janeiro de 1931, na revista Deixa essa mulher falar, ela cantava do Poeta da Vila, Com que roupa?. Além deste, em outras revistas, Aracy voltou a interpretar Noel em primeira mão, com sambas depois consagrados em diversas gravações: Queixume, Gago apaixonado e Dona Aracy.
Muitos outros sambistas de respeito pediram a bênção à grande estrela. Wilson Batista contava que aos 16 anos, trabalhando como eletricista no Teatro Recreio, teve seu samba Na estrada da vida lançado por ela. Almirante viu seu clássico (em parceria com Candoca da Anunciação) Na Pavuna cantado por Aracy na revista Dá nela, no Teatro Recreio, em 1930. Com tanto sucesso que virou nome de outra revista, montada por Freire Júnior no Teatro Cassino Beira Mar. De Ismael Silva e Nilton Bastos, ela lançou Se você jurar e, de Lamartine Babo, o samba Lua cor de prata e o antológico Canção para inglês ver. Mário Lago entregou-lhe Beijei, e Custódio Mesquita fez para ela, em parceria com Paulo Orlando, O tempo passa. De Kid Pepe, Germano Augusto e Seda, Aracy imortalizou o samba Implorar.
Bastaria, enfim, a simples carreira de Aracy Cortes para justificar o teatro de revista como palco lançador de sucessos da música popular brasileira, em particular o samba. Mas, a revista ainda fez mais, durante algum tempo, antes de se tornar apenas um festival de plumas, pernas e piadas.
Em junho de 1941, por exemplo, estreava no Teatro João Caetano, sempre na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, a revista Brasil Pandeiro, de Freire Júnior e Luís Pereira, musicada pelo baiano Assis Valente. Luxuosa e feérica, a revista apresentava quadros empolgantes e apoteóticos, ideal para a sambista Horacina Correia, uma mulata transpirando ritmo, lançar o samba que dava título à revista: “O tio Sam está querendo / conhecer a nossa batucada. / Anda dizendo que o molho da baiana / melhorou seu prato. / Vai entrar no cuscuz, / acarajé e abará”.
No ano seguinte, Assis Valente volta à revista, musicando A vitória é nossa, de Geysa Bôscoli e Freire Júnior, e, em 1943, sempre tendo como pano de fundo a presença brasileira na Segunda Guerra Mundial, Assis e Freire se juntam de novo e encenam Rei Momo na Guerra, estrelado por Dercy Gonçalves. O ponto alto era a figura do compositor Geraldo Pereira e 150 passistas e ritmistas da Escola de Samba da Mangueira, que pela primeira vez evoluía em um palco de revista.
Em 1944, Walter Pinto encena, assinada por Geysa Bôscoli e Luís Peixoto, a revista Momo na fila, sempre no seu reduto, o Teatro Recreio. Novamente Dercy é a estrela, e o êxito alcançado no ano anterior leva a Mangueira de volta ao teatro de revista, desta vez uma mini-escola de samba completa, sempre dirigida por seu compositor Geraldo Pereira. Para encenar To aí nessa boca, de 1949, J. Maia aproveitou a composição Que samba bom, de Geraldo Pereira, e criou a revista.
Não foi, porém, apenas Aracy Cortes que lançou grandes sambas e sambistas no teatro de revista. Mas, intérpretes de outros sambas alcançaram também sucesso, paralelas a Aracy, ou mesmo depois de a estrela entrar em declínio. Em 1933, por exemplo, quando da montagem de É batata, de Luiz Iglesias e Freire Júnior, da qual a própria estrela era Aracy, estava no palco uma estrela-mirim, apelidada Shirley Temple brasileira, que se chamava Isa Rodrigues. O comediante Oscarito, oriundo dos circos e que já tinha projeção na revista, sua mulher Margot Louro e a atriz Eva Todor dividiam, com a revelação infantil, as preferências do público. Aracy Cortes cantava Mulher, samba do portelense João da Gente, e Isa Rodrigues, que se tornaria grande caricata, arrebatava o público, cantando com Oscarito, de Ary Barroso, No tabuleiro da baiana, que Carmen Miranda acabara de gravar.
O gênero – designado mais como batuque que samba -, uma apoteose de basilidade, a figura da “baiana” sempre agradando, às vezes a mulher branca fingindo-se de mulata, fora lançado nos palcos por outra sambista de bossa e talento, a bela Deo Maia. Esta sim, mulata autêntica, que por longos anos manteve seu sucesso no teatro de revista, sempre com uma multidão de fãs. Fora do teatro, Deo Maia jamais conseguiu o mesmo êxito.
Ainda por muito tempo, o teatro de revista lançaria sambas e sambistas. As modificações sociais e políticas pelas quais passariam o Brasil não deixariam, porém, de atingi-lo e, ao fim dos anos 50, as coisas já tomavam outros rumos.
No final do ciclo como lançador de sucessos, o teatro de revista tem seu magnífico canto de cisne. No Teatro Carlos Gomes, na revista Branco tu é meu, em janeiro de 1952, Linda Baptista lança, de Lupicínio Rodrigues, o samba Vingança.
Praça Tiradentes e o teatro de revista
Centro nervoso dos teatros de revista do Rio de Janeiro, a Praça Tiradentes atraía compositores, músicos e cantores, à procura de emprego para seus talentos, nos muitos palcos iluminados, que faziam a cidade sonhar e cantar.
Nos anos 20 e 30, com a popularização do teatro, em particular as revistas, os “musicais”, o cenário teatral no Rio de Janeiro, antes sem oferecer nenhum conforto e com poucas opções de diversão melhorada, se vitaliza. As casas de espetáculo não somente se multiplicam pelos vários espaços centrais da cidade, como se vão adequando aos novos estratos sociais emergentes, principalmente as classes médias.
Dentro desse contexto, a Praça Tiradentes e seu entorno constituíram-se em um dos privilegiados locais para divulgação e circulação dos artistas – em especial, músicos, compositores e cantores – do período. Além de dos teatros João Caetano, Recreio, São José, Carlos Gomes, entre outros, onde se concentravam aqueles profissionais, bares e leiterias também representavam lugares de atração e de encontro para os que buscavam na praça uma oportunidade para exercer profissionalmente seus talentos.
Os mais procurados eram a Leiteria Dom Pedro II e o Café Carlos Gomes, onde hoje existe o Café Thalia, pontos de reunião de compositores como Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito, Wilson Batista, Henrique de Almeida, Roberto Martins, Bidê, Marçal, Jorge Faraj, Ataulfo Alves, Antonio Almeida e tantos outros.
Sabiam eles que, a qualquer momento, poderia surgir a chance de um trabalho ser aproveitado em uma das muitas revistas que eram encenadas nos teatros da praça. Custódio Mesquita, Ary Barroso, Sinhô, André Filho, Francisco Matoso já tinham se consagrado por ali e de repente a sorte poderia aparecer. No caso de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, jamais conseguiram participar das revistas, mas acabaram por se encontrar nos bares da praça e formar uma das mais importantes parcerias da música popular brasileira.
A maioria dos cantores e compositores “ainda do time de aspirantes” freqüentava a Praça Tiradentes, uma espécie de vestibular. Depois de famosos e ganhando dinheiro para pagar elegantes alfaiates, já bem-sucedidos, transferiam-se para o Café Nice ou para o Café Papagaio, ao lado da conceituada Confeitaria Colombo.
Enquanto isso não acontecia, a solução era enfrentar as xícaras de café com leite nos botequins da Praça Tiradentes, compor os sambas em suas mesas, com tampo de mármore e pé de ferro, e aguardar que o sucesso os viesse resgatar dali. Ou que o próprio teatro de revista se encarregasse de os fazer famosos.
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Carmen Miranda (Maria do Carmo Miranda da Cunha), cantora, atriz e dançarina, nasceu em Marco de Canaveses, Portugal, em 9/2/1909, e faleceu em Beverly Hills, Los Angeles, EUA, em 5/8/1955. Com um ano e meio veio para o Brasil com a mãe, Maria Emília Miranda da Cunha, e Olinda, a irmã mais velha. Seu pai, José Maria Pinto da Cunha, barbeiro, chegara antes.
No Rio de Janeiro RJ nasceriam Amaro, Cecília, Aurora e Oscar. Em 1919 foi matriculada na Escola Santa Teresa, de freiras, que dava instrução gratuita às meninas pobres da Lapa. Aos 15 anos conseguiu trabalho como balconista de loja de gravatas e depois em loja de chapéus femininos, onde aprendeu a confeccioná-los. A pensão da mãe era freqüentada também por músicos, como Pixinguinha e seu grupo. Vivia cantando e fazendo planos, até ser convidada por Aníbal Duarte, futuro deputado, para participar de um festival de caridade no Instituto Nacional de Música, em 1929.
Cantou então tangos e a canção Chora violão, acompanhada do pianista Julinho de Oliveira, tendo atraído a atenção justamente do autor da canção, Josué de Barros, professor de violão, que se ofereceu para ajudá-la. Depois de algumas apresentações nas Rádios Sociedade e Educadora, foi levada por Josué para gravar na etiqueta Brunswick um disco com Não vá simbora e Se o samba é moda, duas músicas dele, só lançado em janeiro de 1930, ano também de seu segundo disco, pela Victor com Triste Jandaia e Dona Balbina (ambas de Josué de Barros).
O sucesso veio em seu segundo disco Victor, com a marcha de Josué, laiá Ioiô, lançado no Carnaval de 1930. A fama viria no disco seguinte, com Pra você gostar de mim (Ta-hi), marcha do médico Joubert de Carvalho especialmente para ela e que, depois do Carnaval, bateria o recorde nacional de vendas com 36 mil cópias. Ainda em 1930, apenas cantando, atuou na revista musical Vai dar o que falar, no Teatro João Caetano.
Em 1931 gravou sucessos como Carnavá tá ai (Pixinguinha e Josué de Barros), Amor, amor (Joubert de Carvalho) e realizou sua primeira viagem ao exterior, à Argentina, com Francisco Alves, Mário Reis, os músicos Luperce Miranda e Tute e um casal de bailarinos. Em 1932 estreou no cinema, no filme Carnaval cantado de 1932 no Rio, um semidocumentário de média metragem, produzido pelo exibidor Vital Ramos de Castro, no qual canta o samba Bamboleô, de André Filho.
Em 1933 participou do filme Voz do Carnaval, da Cinédia, dirigido por Ademar Gonzaga e Humberto Mauro. Já era chamada A Pequena Notável, slogan criado por César Ladeira. Lançou sucessos como Good bye e Etc (Assis Valente), Moleque indigesto (Lamartine Babo), este junto com o autor, Chegou a hora da fogueira (Lamartine Babo), em dueto com Mário Reis, Inconstitucionalíssimamente (Hervé Cordovil). São destaques de 1934 Alô, alô (André Filho) e Isto é lá com Santo Antônio (Lamartine Babo), ambas em dueto com Mário Reis, Primavera no Rio (João de Barro), Coração (Sinval Silva) e outras.
No início de 1935 aparece no filme Alô, alô Brasil!, da Waldow-Cinédia, no qual cantou Primavera no Rio. Transferiu-se mais tarde para a gravadora Odeon e apareceu no filme Estudantes, da Waldow-Cinédia, único filme brasileiro em que atuou como atriz. Nele cantou a famosa marcha junina Sonho de papel, de Alberto Ribeiro. Lançou pela Odeon, além do citado Sonho de papel, O tic-tac do meu coração (Alcir Pires Vermelho e Valfrido Silva), Adeus batucada (Sinval Silva), Casaquinho de tricô (Paulo Barbosa), entre outros sucessos.
Começou 1936 com o filme Alô alô Carnaval, da Waldow-Cinédia, dirigido por Ademar Gonzaga, no qual cantou Querido Adão (Benedito Lacerda e Osvaldo Santiago) e Cantores de Rádio (Alberto Ribeiro, João de Barro e Lamartine Babo), em dupla com Aurora Miranda, ambas de fraque e cartola dourados (foto ao lado), traje criado por Carmen, numa cena clássica. Entre os seus maiores sucessos desse ano estão o citado Querido Adão, Como vaes você e No tabuleiro da baiana (ambas de Ary Barroso) e Polichinelo (Gadé e Almanir Grego).
No final de 1937, voltou para a sua querida Rádio Mayrink Veiga. São desse ano O samba e o tango (Amado Régis), Camisa listrada (Assis Valente), Eu dei (Ary Barroso), Quem é? (Custódio Mesquita e Joraci Camargo) e outros sucessos.
Em 1938, abalada pela morte de seu pai, afastou-se por alguns meses, só voltando para receber mais uma confirmação de ser a maior cantora do Brasil por votação dos leitores da revista Fon-Fon. Em fins de 1938 apresentou-se pela primeira vez vestida de baiana no Cassino da Urca, cantando Na Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso. Então conheceu o ator Tyrone Power e sua noiva Annabella, presenteada por ela com uma baiana, traje que estilizou e fixou como típico da mulher brasileira em todo o mundo.
No início de 1939, vestida de baiana, foi a atração do filme Banana da terra, da Sonofilms, dirigido por J. Rui, cantando O que é que a baiana tem?, do estreante Dorival Caymmi, samba gravado em seguida com ele, e Pirulito, marcha de João de Barro e Alberto Ribeiro, que substituíram Na Baixa do Sapateiro e Boneca de piche, porque Ary Barroso, autor das duas músicas, pedira muito alto para cedê-las. Logo depois, acompanhada do Bando da Lua, que até estão colaborava com ela apenas por amizade e quando suas apresentações coincidiam, foi vista no Cassino da Urca pelo grande empresário americano Lee Shubert e pela atriz-patinadora Sonja Henie, que insistiu em sua contratação. Carmen aceitou ir para os EUA mas impôs como condição a ida do Bando da Lua, para garantia do ritmo.
Consagrada na América do Sul e absoluta no Brasil, embarcou em 4/5/1939 com uma multidão na despedida mas chegou a New York completamente desconhecida e sabendo umas poucas palavras em inglês. Foram-lhe reservados apenas seis minutos num dos quadros da revista musical Streets of Paris, que aproveitou para cantar trechos de Mamãe eu quero (Jararaca e Vicente Paiva), Marchinha do grande galo (Lamartine Babo e Paulo Barbosa), Bambo de bambu (Donga, P. Teixeira, Almirante e V. Abreu), Touradas em Madri (João de Barro e Alberto Ribeiro), além da canção South American Way (Al Dubin e Jimmy McHugh) adaptada ao ritmo de samba e cantada em português e inglês. Da noite para o dia seu êxito extraordinário passou para os anais do mundo do espetáculo. Lançou moda, gravou na Decca e fez com que a 20th Century Fox deslocasse sua equipe a New York para filmar seus números da revista, encaixados no filme Serenata tropical (Down Argentine Way, direção de Irving Cummings, 1940). Tornou-se popularíssima como a Brazilian Bombshell.
Voltou ao Brasil em 1940 e teve majestosa recepção popular no cais e na avenida Rio Branco. No Cassino da Urca foi recebida com frieza por uma platéia diferente, de grã-finos, por dizer algumas palavras em inglês e cantar South American Way. Suspendeu a temporada e voltou com músicas em que rebateu as acusações de se ter americanizado, como Disseram que voltei americanizada, Disso é que eu gosto, Voltei pro morro, todas de Vicente Paiva e Luís Peixoto. Seria esse triunfo sua última apresentação pessoal no Brasil, pois fixaria residência em Beverly Hills.
Pela Fox filmou Uma noite no Rio (That Night in Rio, de Irving Cummings, 1941). Nesse ano imprimiu mãos e sapatos de plataforma (para compensar seus 1,53 m de altura) na calçada do Teatro Chinês, primeira e única sul-americana a receber tal honraria. Depois filmou Aconteceu em Havana (Weekend in Havana, de Walter Lang, 1941), Minha secretária brasileira (Springtime in the Rockies, de Irving Cummings, 1942), Entre a loura e a morena (The Gang`s All Here, de Busby Berkeley, 1943), Quatro moças num jeep (Four Jills in a Jeep, de William A. Seiter 1944), Serenata boêmia (Greenwich Village, de Walter Lang, 1944), Alegria rapazes (Something for the boys, de Lewis Seiler, 1944), Sonhos de estrela (Doll Face, de Lewis Seiler, 1945).
Requisitada pelo cinema, rádio, gravações, cassinos e casas noturnas tornou-se a mais bem paga mulher em 1945 considerados todos os ramos de atividade. Em 1946, fez seu último filme na Fox, Se eu fosse feliz (If I'm Lucky, de Lewis Seiler). No ano seguinte, casou-se com o americano David Sebastian e estrelou, com Groucho Marx, Copacabana (de Alfred E. Green). A convite do produtor Joe Pasternak, da MGM, atuou no filme O príncipe encantado (A Date With Judy, de Richard Thorpe, 1948), contracenando com Wallace Beery Jane Powell e a jovem Elizabeth Taylor.
Foi das primeiras artistas a atuar na televisão. Em 1950, mais um filme na Metro, Romance carioca (Nancy Goes to Rio, de Robert Z. Leonard). Em 1953 foi lançado seu último filme, Morrendo de medo (Scared Stiff; de George Marshall), ao lado de Dean Martin e Jerry Lewis.
No final de 1954, depois de 14 anos fora, voltou ao Brasil para tratamento de esgotamento nervoso. Restabeleceu-se mas teve de voltar aos EUA. Quatro meses mais tarde o Brasil foi paralisado com a notícia de seu falecimento por colapso cardíaco em sua casa em Beverly Hills, depois de filmar com Jimmy Durante um programa de televisão em Los Angeles. No dia 12 seu corpo embalsamado chegou ao Rio de Janeiro, foi velado na Câmara dos Vereadores e sepultado no dia seguinte no Cemitério de São João Batista, com mais de um milhão de pessoas, quase a metade da população carioca.
Em 1995 Helena Solberg fez o filme Bananas is my business, documentário-ficção elogiado pelos jornais The New York Times e Village Voice. No mesmo ano, o Lincoln Center, de New York, promoveu espetáculo em lembrança do 40° aniversário de sua morte, com direção de Nelson Mota e participações de Bebel Gilberto, Aurora Miranda, Eduardo Dusek, Maria Alcina, Marília Pêra e outros. Deixou sua voz e personalidade em 281 gravações brasileiras e 32 americanas. Lançou internacionalmente a moda dos turbantes, colares, brincos, balangandãs e sapatos de sola alta, contraponto de uma gesticulação peculiar das mãos em compasso com olhos irrequietos.
O "mirandismo", mais de 40 anos depois, mantém aura que ainda fascina a juventude, justificando a afirmação de que ela é um dos ícones mundiais do séc. XX.
Algumas letras e cifras:
Adeus batucada, Bambo de bambu, Bamboleô, Cachorro vira-lata, Camisa listrada, Cantores de Rádio, Chegou a hora da fogueira, Como vaes você, Coração, Disseram que voltei americanizada, Diz que tem, Eu dei, Good bye, Iaiá, Ioiô, Isto é lá com Santo Antônio, Mamãe eu quero, Marchinha do grande galo, Moleque indigesto, Na Baixa do Sapateiro, No tabuleiro da baiana, O que é que a baiana tem?, O tic-tac do meu coração, Pirulito, Pra você gostar de mim (Ta-hi), Querido Adão, Sonho de papel, Touradas em Madri, Voltei pro morro.

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O compositor José Luís de Morais, apelidado de "Caninha", nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 06 de julho de 1883, e faleceu na mesma cidade, em 16 de junho de 1961. O apelido lhe foi dado em criança, quando vendia roletes de cana na estação da Estrada de Ferro Central do Brasil. Nessa época aprendia cavaquinho com Adolfo Freire.
Por 1900, começou a freqüentar as reuniões de sambistas nas casas da Tia Dadá e da Tia Ciata, baianas da Cidade Nova. Um dos fundadores do Dois de Ouro, rancho pioneiro no Rio de Janeiro, participou ainda do Balão de Rosa, do Rosa Branca, do Recanto das Fadas, do União dos Amores, chegando a ser diretor de canto do Recreio das Flores.
Já havia feito várias músicas, mas o seu primeiro sucesso foi o maxixe Gripe espanhola, lançado na festa da Penha em 1918. Depois, tornou-se freqüentador constante da festa e passou a integrar vários grupos carnavalescos, como o Grupo de Caxangá, do qual participava com o nome de Mané do Riachão, o Grupo Cidade Nova, integrado também por Pixinguinha, e o Grupo Sou Brasileiro.
Em 1919 compôs o tango O kaiser em fuga e o samba Até parece coisa feita, e, em 1920, fez os sambas Quem vem atrás fecha a porta, outro sucesso, e Ninguém escapa ao feitiço. No ano seguinte obteve êxito com sua primeira composição gravada, Esta nega qué mi dá (com Lezute). Ainda em 1921, compôs um samba e um tango, ambos com o mesmo título, Que vizinha danada. Em 1922, com a marcha-rag-time Me sinto mal, derrotou Sinhô no concurso da festa da Penha. Para o Carnaval de 1923, compôs o maxixe Não é conversa, a marcha Meu amor qué me batê e o samba Não se ganha pra comer.
Em 1927 obteve o primeiro prêmio no concurso do jornal Correio da Manhã, com Rosinha. Em 1933 venceu concurso oficial de músicas carnavalescas, com É batucada, feita em parceria com o jornalista Horácio Dantas (que usava o pseudônimo de Visconde de Bicoíba), que lhe valeu um Diploma de Sambista, dado pelo prefeito da cidade. Essa música foi gravada por Moreira da Silva, na Columbia, com acompanhamento do grupo instrumental Gente do Morro, de Benedito Lacerda.
Em 1954 foi um dos participantes do Festival da Velha Guarda, organizado por Almirante. Morreu em 1961, embora em 1950 a prefeitura do Rio de Janeiro já o tivesse incluído numa homenagem prestada a sambistas famosos falecidos, ao lado de Noel Rosa, Sinhô e outros.
Obras: Deixa ela, samba, 1927; É batucada (com Visconde de Bicoíba), samba, 1933; Essa nega qué me dá (com Lezute), samba, 1921; Está na hora, marcha-carnaval, 1925; O kaiser em fuga, tango, 1919; Me sinto mal, marcha-rag-time, 1922; Quem vem atrás fecha a porta, samba, 1920.
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Américo Jacomino, o Canhoto, conhecido também como Canhoto do Violão, compositor e instrumentista, nasceu na rua do Carmo, em São Paulo, em fevereiro de 1889 e faleceu no dia 7 de setembro de 1928. Filho de imigrantes napolitanos, nunca freqüentou escola, tendo aprendido a ler e a escrever em casa, com o pai e o irmão mais velho, Ernesto, que tocava violão e bandolim. Desde garoto interessou-se por violão, que ele tocava, mesmo sem inverter as cordas, na posição de canhoto, o que deu origem a seu nome artístico. Aos 16 anos começou sozinho a aprender cavaquinho, época em que já tocava em serenatas. Ao mesmo tempo arranjou emprego de pintor de painéis, chegando a fazer pinturas murais em casas elegantes de São Paulo.Marcadores: americo jacobino, canhoto, canhoto biografia, compositor, instrumentista, violonista
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Avô e pai do Carnaval, o Entrudo era festejado antes de Cristo para comemorar a chegada da primavera. D. Pedro II e membros da família imperial gostavam de participar do Entrudo. É lógico que o faziam em palácio, que o imperador não iria sair pelas ruas molhando suas irmãs. A brincadeira que precedeu o Carnaval era adotada em todo o país, embora às vezes beirasse à violência e algumas leis municipais proibissem a prática considerada nociva.
Oriundo de Portugal, onde acontecia entre o Sábado Gordo e a quarta-feira de Cinzas, na abertura da primavera, o Entrudo era realizado entre famílias amigas ou pessoas conhecidas, ganhando mais tarde as ruas, envolvendo desconhecidos, atingidos por baldes de água, farinha, cinzas, lama, onde quer que a vítima se encontrasse. Casas ficavam inundadas, passantes nas ruas encharcados e todos, senhores e escravos, senhorinhas e mucamas, se divertiam.
Já mais civilizado, o costume chegou ao início do século XX, as pessoas sendo atingidas por limõezinhos de cera, cheios de água perfumada. Até o Carnaval se impor no país.
Diário de Thomas Ewbank sobre o Entrudo
Dia 21/02
"Durante a semana passada, encontrei à venda, aqui e acolá, bolas coloridas expostas sobre pratos. As verdes poderiam confundir-se com pequenas maçãs, as amarelas com laranjas e limão. Algumas têm a forma de peras e outras de melão. O conhecimento que tive de algumas esta manhã eliminou a indiferença com que vinha passando a seu lado. Outro artigo também chamou-me a atenção. Tratava-se do amido nativo, não granulado como o nosso, mas sim um pó extraordinariamente branco e fino, colocado em cilindros de papel de quinze centímetros de comprimento por trinta de diâmetro. Para usá-lo, abre-se uma das extremidades do cilindro e deixa-se o pó sair.
Enquanto estava sentado tomando o seu café da manhã, S. passou por trás da cadeira de J. e, com grande espanto meu, esvaziou um par de cilindros sobre a cabeça e os ombros do mesmo. A operação foi realizada tão silenciosamente e o pó caiu tão leve que J. não percebeu o acontecido, senão quando um punhado de pó lhe foi aplicado ao rosto e às orelhas. Cuspiu, ergueu-se e, meio cego, foi saudado com esguichos de líquidos de uma garrafa de água da colônia de gargalo comprido. Meio encolerizado e entre muitas risadas, efetuou uma rápida retirada, vestiu-se e saiu para a cidade.
Enquanto perguntava a mim mesmo o que significaria tal coisa, senti caírem de minha testa uma ou duas partículas. Erguendo a mão verifiquei que meus cabelos também haviam sido cobertos de pó. Meus gritos provocaram gritaria geral. Levantei-me para fugir, mas isso fora previsto e a única porta através da qual podia escapar encontrava-se fechada à chave. Cercado agora por um exército de inimigos femininos, esquivei-me e corri até me sentir quase exausto, tentando fugir aos incessantes ataques de amido e água. Finalmente protestei que se a desonesta guerra continuasse, eu deveria chegar e chegaria a um corpo a corpo e, "vi et armis", capturaria e utilizaria contra o inimigo a sua própria artilharia. Tais ameaças foram recebidas com novos ruídos de alegria e novos ataques. Finalmente todos concordaram com um armistício, que se prolongaria durante aquele dia. Contaram-me então que o entrudo começava no dia seguinte quando os membros de todas as classes, dentro ou fora das casas, empoeiram e borrifam uns aos outros, sendo habitual fazer um pouco disso no dia anterior à guisa de prefácio.
Retirei-me para trocar roupa, mas não tinha ainda dado cinco passos quando fui assaltado por uma tempestade de bolas coloridas carregadas com algum líquido e semelhante às que eu notara na cidade. Surpreendido diante dessa violação declarada de um compromisso e pelos fragmentos vermelhos e azuis com que eu for a salpicado, não perdi tempo em chegar a meu quarto e fechar a porta. Tirei da estante um antigo dicionário português para obter informações. De acordo com o mesmo, entrudo ou intrudo deriva-se do latim introitu – entrada ou princípio. O dicionário descrevia o festival como algo em que, como bacantes, as pessoas brincam, festejam-se, dançam e fazem travessuras dentro das casas, enquanto for a realizam toda espécie de brincadeiras, molhando e empoeirando umas às outras. Sobre a origem da festa – da qual eu já experimentara um pouco antecipadamente – não pude descobrir nada. Nem o vigário nem qualquer outra pessoa a quem perguntei, puderam dar-me o menor detalhe sobre sua história. Admite-se, porém, que date de épocas remotas.
Talvez seja de perguntar se o entrudo e o carnaval da Itália sejam a mesma cousa. Embora ambos estejam associados ao grande jejum da Quaresma, existe entre eles grandes pontos de divergência aparente. O primeiro, em sua etimologia, não faz referência à abstinência de carne, de que o último é uma expressão literal. Carni, carne; vale, adeus. A época do carnaval estende-se desde primeiro de janeiro até o princípio da Quaresma, ao passo que o entrudo se realiza na parte final de fevereiro e dura apenas três dias, principiando invariavelmente no domingo que prece à quarta-feira de cinzas. Além disso, o lançamento de pós e água é sua característica especial e o mais destacado de seus ritos.
As bolas de entrudo, como são chamados aqueles objetos coloridos, ao invés de serem os frutos com que se parecem, são apenas cascas de cera cheias de água. Têm resistência suficiente para conter o líquido e para serem delicadamente apanhadas e lançadas a considerável distância. Da mesma forma que outras bombas fatais, explodem quando atingem o alvo; a cera fragmenta-se então e fica em sua maior parte grudada onde atinge. Recebi como presente espécimes de superior qualidade, em forma de garrafa ou jarro de mesa e decorados com pintura e douração. O gargalo era fechado numa imitação de rolhas seladas. Para serem utilizadas, são carregadas com água de colônia ou outros líquidos perfumados.
Dia 22/02
Hoje é dia do entrudo. Ao se levantar, meu amigo R. encontrou as extremidades inferiores de suas calças costuradas. Não é anormal colocar meia dúzia de bolas em cada perna, mas como R. encontra-se bastante indisposto, foram-lhe poupadas essas singulares manifestações de afeição e banhos de pé. Por ocasião dos cumprimentos habituais, esmagaram-me uma ou duas bolas na mão. Alguém encontrou seu café da manhã sem açúcar, outro achou o seu com sal e um terceiro começou a tirar fios da boca, o que causou novas explosões de riso; nos dois pratos de torradas todos os pedaços haviam sido envoltos em fios finos, de tal forma que os dentes de quem os comesse fatalmente ficariam presos àquela rede de fios. Alguns negociantes estrangeiros pararam, a caminho do Jardim Botânico. T. convidou-os a entrar. Os simplórios aceitaram! Pouco depois seus trajes de montaria estavam transformados em trajes de banho. Um deles saiu sem chapéu e afastou-se de cabeça descoberta! Voltou porém durante a tarde com um escravo trazendo uma grande cesta de projéteis de cereais e, entrando calmamente pela retaguarda, pagou com juros a seus adversários.
O vigário entrou e foi recebido com água de colônia. Sua sotaina porém foi poupada aos ataques do amigo. Mencionou então vários casos em que ficara quase afogado após receber as mais solenes promessas de que não seria molestado. Acreditei realmente e, voltando-me para algumas senhoras, perguntei-lhes como podiam, em um domingo, mentir assim… "Oh!", responderam-me, "As mentiras do entrudo não são pecados". Não é possível acreditar em coisa alguma enquanto dura o entrudo. O padre prudentemente safou-se; não ousou ficar para o jantar, pois seus aposentos poderiam ser roubados por amigos que em seu nome iriam buscar tudo que lá houvesse de valioso, dona F., por meio de uma esperteza dessa espécie, conseguiu uma dúzia de garrafas de cerveja do carpinteiro de J., que as tinha sob sua guarda. Ele próprio pregou uma peça no vigário no ano passado. Além disso, com o auxílio de um escravo, privou um amigo de um peru e várias outras aves, que foram servidas num jantar em que o próprio proprietário e sua família supunham que fossem convidados sem sonhar sequer que haviam contribuído para o ágape. Era costume colocar diante dos comensais pernis de madeira, pastéis de areia, doces e pudins de materias não comestíveis, pratos dos quais saltavam sapos, etc. No entanto, o entrudo, como outros festivais, não é mantido da mesma forma que outrora.
O senhor F. levantou-se para sair, mas foi convencido a sentar-se de novo em sua cadeira sobre a qual um vizinho colocara uma quantidade de farinha e bolas de água. Ergueu-se de um salto quando esse ninho de ovos foi esmagado e os autores da brincadeira tiveram convulsões de riso. A algazarra não esmoreceu com o seu jeito de limpar as partes afetadas Achando impossível permanecer, despediu-se com bom humor, acenando com uma das mãos, enquanto com a outra colocava o chapéu na cabeça – para cair em nova armadilha. O chapéu estava cheio dos ingredientes habituais do dia. Duas extremidades de sua pessoa encontravam-se agora nas mesmas condições em que a cabeça de dom Quixote, quando pediu inesperadamente seu elmo, num momento inconveniente para Sancho entregá-lo.
Retirando-me para meu quarto, encontrei uma senhora desconhecida escrevendo sobre a mesa. Parei e dirigi-lhe a palavra. Não deu resposta alguma, nem fez qualquer movimento. Avancei então. A intrusa era apenas um travesseiro ao qual haviam adicionado mangas, saias, gorros, xale, etc. muito artisticamente. Abrindo as gavetas, verifiquei que as mangas e os colarinhos de todas as camisas estavam costurados, enquanto as outras peças de roupas encontravam-se também hermeticamente fechadas, de tal forma que seria necessário muito tempo ou paciência para vesti-las.
As pessoas de ambos os sexos são peritas em acalmar uma vítima após o ataque e fazê-la abandonar sua atitude de reação. As senhoras mostram as palmas da mão abertas, esfregam-nas no corpo, para provar que não têm projéteis ocultos, sentam-se ao lado da vítima, manifestam cansaço e dizem que um pouco de brincadeira é bastante bom, mas seu excesso é uma tolice e uma vulgaridade; mostram-se inocentes, como madonas e concluem dizendo: "Chega de entrudo". Desfazem-se as suspeitas, mas em dez vezes contra uma, naquele mesmo momento, a vítima recebe no rosto um par de bolas de cera, cheias de água com sabão ou é alvo de um canudo de um amigo. A bela inimiga afasta-se da vítima com um grito e causa-lhe nova surpresa. Retira de sua pessoa miríades de bolas e canudos, até forçar a vítima à conclusão de que é feita de tais coisas ou tem consigo alguma máquina para produzi-las.
É costume também enviar pessoas em missões que só podem ser consideradas idiotas. Assim, por exemplo, uma pessoa de boa fé é mandada tratar do que imagina ser um assunto confidencial de grande importância para seu amigo – tomar dinheiro emprestado, por exemplo. A carta que leva em síntese: "Envie o tolo para o senhor B. e peça-lhe para enviá-lo a outro, com o mesmo pedido!"
Aconteceu o caso de uma família ser banqueteada com suas próprias vitualhas. Um guloso reverendo vingou-se de uma peça semelhante que lhe haviam pregado, aproveitando-se prodigamente da mesa de um vizinho. Sua hilariedade foi maior quando um esplêndido bolo foi trazido e colocado à sua frente. Com os olhos brilhantes investiu decisivamente sobre o bolo e, quando três quartos do mesmo já haviam sido consumidos, uma insinuação fê-lo levantar-se, permanecer em pé horrorizado e pedir paciência! O bolo – presente valiosíssimo de uma amiga – fora surrupiado de sua própria despensa.
Caminhei em direção do Passeio e vi alguns indivíduos serem molestados. Um cavalheiro vestindo terno novo recebeu duas ou três bolas e indignou-se deveras; dirigiu-me algumas observações e apontou para a janela de onde haviam partido as bolas. É inútil ficar encolerizados, pois aqueles que o fazem terão sua cólera refrescada por um chuveiro frio.
Os jovens aqui e acolá brincam com seringas. Há algum tempo notei enormes aparelhos de lata pendurados à porta dos funileiros e certa vez encontrei um indivíduo levando um deles para casa. Desejando saber para que eram destinados, detive-me um dia a examiná-los. Tudo o que pude saber do sorridente profissional foi que o preço de cada um era de dois mil réis. Eram seringas de entrudo de um ou dois litros. Os jovens marotos negros, que as enchem nos esgotos, raramente molestam qualquer pessoa que não seja da sua cor. Os rapazes brancos, porém, não têm cerimônia em molhar os etíopes. B. falou-me de alguns conhecidos seus que ocultavam as bombas no jardim para saudarem com ele seus amigos. Ele próprio tinha uma delas, mas estava desarranjada.
A ilustração, de um artista do Rio, representa magnificamente uma cena de entrudo nas ruas. Vi certa vez um negro carregando água da fonte da Carioca ser atacado precisamente da mesma maneira assim representada. O negro tropeçou e caiu de cabeça para frente. Felizmente sem se ferir.Retirando-me já à noite, não pude encontrar meios de me deitar na cama. Os lençois e as colchas haviam sido transformados em um saco, cuja boca fechada estava por baixo do travesseiro. Acendendo de novo o candeeiro, desmanchei a costura e finalmente deitei-me para descansar, exausto do entrudo e considerando que ainda devia ser grato por não ter encontrado um monte de bolas no fundo do saco.
As puerilidades do entrudo não seriam dignas de menção se não ilustrassem costumes antigos. Da mesma forma que outros divertimentos, sobreviveram às instituições que deviam comemorar, o que é muito natural, pois todas as pessoas apreciam divertimentos e alegrias.
Têm sido freqüentemente observadas coincidências notáveis na língua, costumes e outras questões que estabelecem uma intimidade, senão identidade, entre os ancestrais dos povos da Europa Ocidental e da Ásia Central. Não tenho conhecimento de que o entrudo tenha tido quanto à sua origem explicação desta maneira. Parece, porém, haver pouca dúvida de que seja o mesmo Hohlee do Indostão – festa que data de épocas míticas e conseqüentemente se envolve em densa obscuridade.
Alguns escritores supõe que o Hohlee refere-se à volta vitoriosa de um famoso herói após a batalha. Outros pensam que se baseia nas orgias de Krishnu, deus mais licencioso que o Júpiter grego. Outros ainda imaginam que se refere ao encerramento do ano velho e à aproximação da primavera, quando a natureza espalha suas flores pela terra. O epíteto de "purpúreo" foi dado à primavera pelos poetas antigos e a mesma estação é caracterizada pelo pó vermelho que os hindus, ao celebrarem o Hohlee, lançam uns sobre os outros.
Um relatório escrito da participação que teve na celebração deste festival na Corte de um princípe hindu é dado pelo senhor Broughton, que diz:
"Celebrar o Hohlee consiste em lançar uma certa quantidade de farinha feita de uma noz aquática chamada singara e colorida com tinta vermelha: essa farinha chama-se abeer e o principal divertimento é lançá-la aos olhos, à boca e ao nariz dos foliões e enlameá-los completamente com água tingida de cor de laranja. A abeer é muitas vezes misturada com talco em pó, para fazê-la brilhar, e quando penetra nos olhos causa bastante dor. É algumas vezes encerrada em pequenos glóbulos feitos de um material gelatinoso mais ou menos do tamanho de um ovo, com os quais é posssível fazer boa pontaria contra aqueles a quem se deseja atingir; necessitam porém ser manejados habilmente, pois rompem ao mais ligeiro contato…
Poucos minutos depois de termos sentado, grandes bandejas de lata, cheias de abeer e das pequenas bolas já descritas foram trazidas e colocadas diante do grupo, juntamente com água amarelada e uma grande seringa de prata para cada indivíduo. O Mha Raj iniciou a brincadeira atirando um pouco de água vermelha ou amarela sobre nós, com goolabdans – pequenas vasilhas de prata para borrifar água de rosas nas visitas de cerimônia. Todos começaram então a lançar abeer e a orvalhar seus vizinhos. É contra a etiqueta qualquer coisa contra o Raj; no entanto já lhe havíamos dito que tínhamos tomado a resolução de atacar quem quer que nos atacasse e, com bom humor, respondeu que "com todo o seu coração estava preparado para nos enfrentar e disposto a apostar quem atacava melhor". Verificamos, porém, logo que com ele não tínhamos a menor probabilidade, pois além de seus servidores segurarem um pano diante de seu rosto, tinham-lhe posto na mão uma mangueira de bomba de incêndio, cheia de água amarela e operada por meia dúzia de homens. Com esta arma atacou os que se encontravam em torno, com tal resultado que dentro de algum tempo não havia na barraca um único homem que tivesse seca qualquer parte do corpo.
Às vezes dirigia a água contra os que estavam sentados a seu lado com tal força que não era fácil à pessoa conservar-se sentada. Toda oposição a esse formidável aparelho seria fútil. Pazadas inteiras de abeer eram lançadas, seguidas imediatamente por um esguicho de água amarela, de tal forma que éramos alternadamente empoeirados e ensopados, até que o chão em que nos sentávamos tivesse ficado coberto com algumas polegadas de espessura de uma espécie de lama cor de rosa e alaranjada. Nunca testemunharia em minha vida cena semelhante.
Imaginai grupos sucessivos de dançarinos, enfeitados com fitas de ouro e prata, com seus vistosos enfeites manchados de abeer e gotejantes como náiades, com água cor de laranja – cantando agora as canções do Hohlee, com todas as árias da libertinagem e pouco depois gritando com afetadas exclamações, quando recebiam um novo jato de água de parte do Raj; a dissonância dos tambores, trombetas, violinos e címbalos, tocando como se tentassem apenas abafar os outros ruídos que se ouviam ao redor; o triunfo daqueles que lançavam com êxito a abeer e os clamores das vítimas dos ataques; as grandes explosões de risos e os aplausos que se ouviam por todos os lados entre a multidão alegre; imaginai se puderdes tal reunião de objetos extraordinários, em seguida pintai-os com duas brilhantes pinceladas de róseo e amarelo, e tereis uma idéia da cena, que vai além absolutamente de qualquer descrição".
Em outros pontos o entrudo e o Hohlee concordam. O último, ao que nos informa "é realizado quase na mesma época que nossa quarta-feira de cinzas e também precede a Quaresma ou temporada de expiação hindu" – coincidência de época e finalidades, tornada ainda mais notável pelo fato de ambos os festivais serem celebrados com poeira e água, com bolas e seringas. O Hohlee é celebrado por todas as classes na India inteira, constituindo uma oportunidade de divertimento universal. Entre suas principais brincadeiras incluem-se as que entre nós caracterizam o primeiro de abril.
Em diversos aspectos o festival asiático assemelha-se à antiga Saturnália e ao moderno carnaval, sendo permitidas as maiores liberdades às pessoas de todas as categorias. Já foi comparado ao Hilaria celebrado em Roma no equinócio vernal em honra da mãe dos deuses, quando sua estátua era levada em procissão acompanhada por pessoas fantasiadas que por seus trajes e maneiras assumiam então a máscara da personalidade que lhes agradava.
Na verdade quase todas as nossas antigas festas religiosas são ligadas a instituições semelhantes da India, Egito, Grécia e Roma.
Para concluir este curioso assunto, deve-se recordar que nos últimos anos a borracha da India tem sido aplicada a uma multidão de finalidades úteis. Contribui com numerosos aparelhos valiosos para a ciência. Garrafas de borracha constituem uma espécie nova e única de instrumentos de exaustão e compressão. Fazem-se também com borracha cintas e ventosas assim como substitutos para seringas. Esta última invenção é devida aos aborígenes do norte do Brasil. No Pará, região da borracha, as seringas de goma elástica são comuns desde há muito tempo, e durante o entrudo podem ser vistas nas mãos dos índios, dos brancos e dos negros.
É também bastante curioso o fato de ser lançada pelos foliões uma terra ou ocre amarelo, assim como amido de caçava."
Fontes: História do Samba - Editora Globo; EWBANK, Thomas. A vida no Brasil; ou Diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1976. Reconquista do Brasil, 26
Melo Morais Filho (Alexandre José de Melo Morais Filho), poeta, cronista e folclorista, nasceu em Salvador (BA), em 23/02/1843 e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), em 01/04/1919. Formou-se em medicina em Bruxelas, Bélgica, e revalidou o diploma no Rio de Janeiro em 1876. Diretor do Arquivo Municipal, aposentou-se em 1918. Colaborador de jornais e revistas, deixou grande bibliografia etnográfica e folclórica.Marcadores: mello moraes filho, melo morais filho

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Angelino de Oliveira, compositor e instrumentista, nasceu em Itaporanga SP (21/4/1888) e faleceu em São Paulo SP (24/4/1964). Filho único de modestos lavradores que se mudaram para Botucatu SP quando ele tinha seis anos. Autodidata, tocava violão, guitarra portuguesa e violino, na orquestra do Gabinete Literário e Recreativo, e trombone na Banda de Música São Benedito. Marcadores: angelino de oliveira biografia, compositor, instrumentista
Alberto Marino, regente, compositor, instrumentista e professor, nasceu em São Paulo SP, em 23/3/1902, e faleceu em 11/2/1967. Descendente de imigrantes italianos, nasceu no bairro do Brás, revelando desde cedo gosto pela música.Marcadores: alberto marino, alberto marino biografia, compositor, instrumentista, professor, valsas letras
Em 1927, quando cumpria serviço militar no Tiro Naval e era ordenança do comandante Mathias Costa, foi que Henrique Foreis Domingues virou Almirante. Chegava ao Rio de Janeiro o hidroavião Jahú, que cruzara o Atlântico, na primeira travessia entre a Europa e o Brasil, e a cidade parou para festejar os pilotos. Encarregado de cuidar de um arranjo de flores e de fazer a saudação aos homenageados, o ordenança Foreis desfilava no carro, ao lado do comandante. Foi com tal elegância que cumpriu suas funções, empertigado e posudo, que a certa altura alguém apontou para Mathias Costa e perguntou quem era. Ao saber ser o comandante, voltou a indagar: "E o outro?". "É o almirante" - foi o gracejo.Marcadores: almirante, almirante biografia, apresentador, cantora, compositor, musicologo, pesquisador
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O inverno é rigoroso / Bem dizia a minha vó
Que dorme junto tem frio / Quanto mais quem dorme só
Isto é bom, isto é bom / Isto é bom que dói...
Se eu brigar com meus amores / Não se intrometa ninguém
Que acabado os arrufos / Ou eu vou, ou ela vem
Quem ver mulata bonita / Bater no chão com o pezinho
No sapateado a meio / Mata o meu coraçãozinho
Minha mulata bonita / Vamos ao mundo girar
Vamos ver a nossa sorte / Que Deus tem para nos dar
Minha mulata bonita / Que te deu tamanha sorte
Foi o Estado de Minas / Ou Rio Grande do Norte
Minha viola de pinho / Que eu mesmo fui o pinheiro
Quem quiser ter coisa boa / Não tenha dó de dinheiro
Agora a outra versão da música, possivelmente a original:
Já já você quer morrer (Lundu) - Xisto Bahia
Já já você que morrer / Quando morrer, morramos juntos / Que eu quero ver como cabe / Numa cova dous defuntosIsto é bom / Isto é bom / Isto é bom que dóe
A saia da Carolina / Me custou cinco mil reis / Arrasta mulata a saia / Que eu dou mais cinco e são dez
Isto é bom / Isto é bom / Isto é bom que dóe
Mulata levanta a saia / Não deixa a renda arrastar / A saia custa dinheiro / Dinheiro custa ganhar
Isto é bom / Isto é bom / Isto é bom que dóe
Os padres gostão de moças / E os solteiros tambem / Eu como rapaz solteiro / Gosto mais do que ninguém
Isto é bom / Isto é bom / Isto é bom que dóe
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Xisto Bahia (Xisto de Paula Bahia), compositor, cantor e ator, nasceu em Salvador (BA), em 6/8/1841, e faleceu em Caxambu (MG), em 30/10/1894. O pai, o major Francisco de Paula Bahia, casado com Teresa de Jesus Maria do Sacramento, recebeu como prêmio por sua participação nas campanhas da Cisplatina e Independência a administração da fortaleza de Santo Antônio de Além do Carmo, onde o filho nasceu e iniciou sua carreira musical, como comediante amador e seresteiro. Aos 17 anos já cantava suas primeiras modinhas.
Escreveu e representou comédias no grupo Regeneração Dramática, do qual era presidente o futuro visconde do Rio Branco, levadas à cena no teatro da Rua São José de Cima. Com a morte do pai, em 1858, tentou, sem conseguir, trabalhar no comércio, decidindo-se então pela carreira teatral. Em 1859 apresentou-se como corista (barítono) da Companhia Lírica Clemente Mugnai, no Teatro São João, de Salvador. Transferiu-se depois para a companhia de seu cunhado, o ator Antônio Araújo, com a qual viajou pelas principais cidades da província. Em 1861 tocava e cantava chulas e lundus de sua autoria na companhia organizada peio comendador Constantino do Amaral Tavares, na época diretor do Teatro São João. Em 1864 foi contratado pelo empresário Couto Rocha, excursionando durante dez anos pelo Norte do país.
No Ceará, em 1866, atravessou uma crise de depressão, por considerar sua carreira fracassada, o que o levava a entrar em cena sem saber seu papel nas comédias. Recuperou-se, entretanto, no Maranhão: atendendo aos conselhos do crítico Joaquim Serra, passou a estudar sob a direção de Joaquim Augusto. Os resultados não tardaram. Logo depois, voltou a se apresentar com sucesso no Ceará, retornando consagrado à Bahia em 1873. A Companhia de Mágicas de Lopes Cardoso, na qual ingressou, montou então a comédia de sua autoria Duas páginas de um livro, impressa em 1872 no Maranhão, de conteúdo abolicionista e republicano.
Em 1875 estreou no Rio de Janeiro, no Teatro Ginásio, na Companhia de Vicente Pinto de Oliveira. Essa atuação representou grande salto na sua carreira, surgindo daí o convite para atuar em outras comédias, gênero para o qual sua contribuição foi marcante. Corriam paralelamente suas carreiras de comediante, de compositor e de intérprete. Tanto a modinha como o lundu eram grandes atrações da época: o sentimentalismo da primeira como a irreverência da segunda eram admirados nos salões. No Rio de Janeiro, surgiu como concorrente de Laurindo Rabelo, que fazia grande sucesso com seus versos maliciosos e satíricos, utilizando a mesma linguagem chistosa. O publico dividiu-se entre um e outro, e essa competição veio a influenciar o teatro de costumes, que passou a adotar a gíria e a linguagem popular de sentido dúbio.
Em 1875 trabalhou na peça Uma véspera de Reis, de Artur Azevedo, que conseguira a aprovação de Rui Barbosa, então diretor do Conservatório Dramático de Salvador, para montá-la. Representou o papel do tabaréu Bermudes com tal imaginação, que o autor da peça, em artigo publicado em O País, de 7 de novembro de 1894, considerou-o como seu parceiro. Apresentada pela primeira vez no Teatro São João, essa peça de Artur Azevedo marcou o sucesso definitivo do ator.
Em 1878, no drama As duas órfãs, inaugurou o Teatro da Paz, de Belém (PA), e no ano seguinte voltou a exibir-se na Bahia, pela última vez, com Pontes de Oliveira, indo em seguida para o Rio de Janeiro. Aí passou a integrar o conjunto de Furtado Coelho, encabeçando o elenco de Jacinto Heller.
Em 1880 recebeu os aplausos de Pedro II, pelo seu desempenho na peça comemorativa da batalha do Riachuelo, Os perigos do coronel. Atuou em teatros de São Paulo e Minas Gerais, sempre com sucesso. Em 1887 passou a dirigir o Teatro Lucinda, do Rio de Janeiro, onde montou cerca de cinco revistas e mágicas.
Em 1891 afastou-se do palco, obtendo do então presidente do Estado do Rio de Janeiro, Francisco Portela, um lugar de amanuense na Penitenciária de Niterói, que ocupou até 1892. Voltou à cena pela última vez no Teatro Apolo (Rio de Janeiro) na Companhia Garrido, com a mágica O filho do averno, de Eduardo Garrido. Pelo sucesso alcançado com a peça, Artur Azevedo escreveu um perfil do artista, publicado no semanário Álbum.
Em 1892 recebeu convite do empresário português Sousa Bastos para uma temporada no Teatro das Novidades, de Lisboa, Portugal, a qual não chegou a se realizar devido à revolta da Armada, ocorrida em setembro daquele ano.
Em 1893, já doente, retirou-se para Caxambu, onde morreu em 1894, deixando viúva a atriz portuguesa Maria Vitorina de Lacerda Bahia e quatro filhos, Augusto, Maria, Teresa e Manuela. Sem qualquer formação musical, notabilizou-se por seu talento espontâneo, instintivo. Sua produção, embora pequena, é de excelente qualidade, valorizando-se por seu estilo ao violão e sua bela voz de barítono.
Ficaram célebres as interpretações de algumas de suas obras, como a modinha Quis debalde varrer-te da memória, e o famoso lundu Isto é bom, com o qual a Casa Edison iniciou em 1902 suas gravações de música popular brasileira. O disco, com a marca Zon-o-phone e o n° 10.001, traz a interpretação do cantor Bahiano.
Último ato
"Está na terra, na terra que ele tanto ama, o simpático e inteligente ator Xisto Bahia. Depois de uma longa ausência, ausência que lhe deu ensejo de mostrar ao Sul um talento superior, que se criou no Norte, e que lá viu glorificar-se; depois de receber as ovações de um público ilustrado, eis que aporta às nossas plagas o verdadeiro intérprete da arte dramática, que encontra em cada paraense um amigo, em cada cidadão um apologista do talento, do merecimento real. Um aperto de mão, Xisto Bahia! Depois do abraço fraternal, cumprimos um dever apresentando o filho da arte ao público paraense".
Como mostra a nota publicada em março de 1884 no Diário de Notícias, em Belém, se elogios pudessem ser transformados automaticamente em dinheiro, os bolsos de Xisto de Paula Bahia estariam cheios de notas gordas. Aclamado pelo público e pela crítica, o problema de Xisto era justamente a falta de uma remuneração justa, pelo menos comparável à importância que já havia alcançado no teatro brasileiro.
Nos jornais e revistas, ele era aclamado como "o mais brasileiro de todos os atores", como escreveu Arthur Azevedo na publicação Álbum. Em casa, ele era o marido da atriz Maria Vitorina e o pai de cinco filhos: Augusto, Maria, Augusta, Thereza e Manuela. Como todo pai que se prezava, queria dar uma vida digna à família. Era exatamente isso que o atormentava.
"Consumido, torturado por não poder assegurar aos filhos e à esposa o conforto da vida e um futuro independente, foi salteado sempre pelas provações da pobreza", diz o sobrinho de Xisto, o jornalista Torquato Bahia, num texto publicado no Anuário de baianos ilustres, de 1910. Luiz Américo Lisboa Júnior explica que, mesmo com todo o reconhecimento, Xisto sentia-se deprimido por não conquistar independência financeira. "Não tinha outra alternativa a não ser representar e cantar suas modinhas para sobreviver. Por outro lado, decepcionava-se com o ambiente que lhe dera fama, incomodava-se com a falta de ética e o aspecto meramente mercantil nos bastidores dos teatros entre agentes e organizadores de temporadas", explica.
Américo Lisboa ressalta que, apesar do momento difícil, Xisto continua a atuar com sucesso e, em 1887, recebe o convite da empresa Dias Braga para dirigir o Teatro Lucinda, no Rio de Janeiro, na função de ator e administrador. "Sob sua direção, o Teatro Lucinda passa a ser o primeiro do Rio de Janeiro a ter iluminação elétrica, o que foi um feito notável para a época", revela o pesquisador.
Desilusão
Mas a desilusão de Xisto com a profissão parecia estar além do sucesso que alcançava com suas peças. Por isso, afasta-se do palco em 1891, quando obtém um emprego do então presidente do estado do Rio de Janeiro. Um dos maiores artistas do país abandonava o teatro para se tornar escrevente da penitenciária de Niterói. A mudança é sintomática. Com a habilidade de disfarçar a própria tristeza, como saber a realidade que o ator enfrentava no cotidiano para tomar essa decisão?
Mas, assim como passou pouco tempo atuando no comércio durante a adolescência, o próprio destino se encarregaria de afastar Xisto do novo emprego. Um ano depois, em 1892, com a deposição do presidente, ele foi demitido. Voltou à cena, e apesar do período afastado, reapareceu com o mesmo sucesso de antes no Teatro Apolo, ao lado das atrizes baianas Isabel Porto e Clélia Araújo. Em 1893, uma nova possibilidade poderia ter mudado o rumo da vida de Xisto. Ele foi convidado pelo empresário português Souza Bastos para interpretar seus personagens no Teatro das Novidades, em Lisboa. Mas a Revolução da Armada, desencadeada em 6 de setembro desse mesmo ano, frustrou a excursão.
Toda essa série de acontecimentos nos leva de volta ao ano de 1887. Com a caneta à mão e a carta por responder, Xisto não escuta mais os aplausos. Pensa nos filhos e na mulher, e volta a redigir a carta ao amigo Tomaz Antônio Espiúca. "Tu saíste quando se manifestavam os primeiros sintomas da decomposição geral que lavrava no teatro desse espantalho chamado império do Brasil. Eu, porém, fiquei e fui preso do contágio. Fiquei e hoje, para mim, o hábito constituiu-se lei, que jamais poderei derrogar, senão quiser arriscar-me a sucumbir na luta. Queres voltar? Queres comer novo pão, ainda mais amargo e duro do que o que já comeste? Ah! Não venhas, eu t´o peço. Como teu amigo velho e prático nestas coisas teatrais, faço a mais descarnada e franca oposição ao teu regresso".
Esta carta é um dos poucos momentos em que Xisto despe-se de todos os seus papéis, tira o riso da face, mostra a dor e a desilusão que guardava dentro de si. É esse Xisto que parte com a família, em 1894, para a cidade mineira de Caxambu, em busca de tratamento para uma doença até hoje não explicada. Segundo Torquato Bahia, o mal teria sido conseqüência de "padecimentos antigos". Caxambu, que fica no sul do estado e tem clima de montanha, é considerado o maior complexo hidromineral do mundo. A água de suas 12 fontes é considerada miraculosa e possui propriedades que teriam poderes curativos sobre problemas digestivos, hepáticos, de formação dos ossos e de pele, além da anemia.
Em 1868, foi lá que a princesa Isabel se curou de uma suposta infertilidade. Mas nem as águas de Caxambu, nem os saberes do médico baiano Paulo Fonseca, que teria cuidado de Xisto sem cobrar nada, apenas pela amizade, foram suficientes para fazê-lo sobreviver. No dia 30 de outubro de 1894, aos 53 anos, um dos maiores artistas brasileiros do século XIX se despedia da vida. Arthur Azevedo, o dramaturgo e amigo que, assim como Xisto, lutara pela abolição da escravatura e pela República, escreveu uma carta em sua homenagem. Anos depois, o sobrinho de Xisto afirmaria: "Entre o seu berço, que é a pobreza cheia de esperanças, e o seu túmulo, que é a pobreza cheia de lúgubres tristezas, está a sua existência inteira, que é a pobreza crucificada pela dor e mascarada por um riso eterno".
Difícil mesmo é saber onde está o túmulo ao qual Torquato Bahia se refere. Os livros que falam, em algumas poucas linhas ou páginas, sobre a vida de Xisto, não fazem qualquer referência sobre onde estão os restos mortais do artista baiano. Na verdade, muito pouco tem se falado sobre Xisto e, com a falta de referências a ele, se perde uma parte importante da história da música e do teatro baiano e brasileiro. "Xisto, até hoje, ainda não recebeu um estudo suficientemente profundo para avaliá-lo e explicá-lo", opina o professor de etnomusicologia da Ufba, Manuel Veiga.
A Fundação Cultural do Estado publicou, em 2003, na Revista da Bahia, um artigo especial em homenagem a Xisto Bahia. "O que Chiquinha Gonzaga fez com a música de carnaval, levando-a para os salões da corte, ele faz na Bahia e em Belém", compara o co-editor da publicação e produtor cultural Sérgio Sobreira.
Referências esparsas
O artigo - assinado por Armindo Bião, Cristiane Ferreira, Ednei Alessandro e Carlos Ribas - reúne indicações de fontes e referências relacionadas ao artista baiano. Entre elas, uma rua que leva o nome do artista, no bairro do Engenho Velho da Federação. "Os monumentos que traduzem uma determinada ideologia estão em pontos privilegiados. Temos uma prática, aqui em Salvador, de considerarmos herói só aquele que parte em batalha. Não temos aqui um teatro municipal com o nome de Xisto Bahia", diz Jaime Sodré.
O cineasta e professor de história Joel de Almeida pensa em fazer um filme sobre a vida de Xisto há cerca de 15 anos. A idéia inicial era produzir um documentário, mas devido à escassez de informação audiovisual sobre o artista, ele fez, há quatro anos, o projeto de um curta-metragem de ficção, aliando a ele fatos verídicos da vida do ator. "Xisto era um artista que reunia todos os elementos da cultura brasileira. Ele antecipou, de certo modo, a Semana de Arte Moderna. Se ela veio despertar a sociedade brasileira, ele foi isso no século XIX, um pioneiro. Ele tinha uma comunicação visceral com o povo", analisa. O projeto do filme está concorrendo a um edital do governo. Já o livro de Luiz Américo Lisboa Junior, Compositores e intérpretes baianos - de Xisto Bahia a Dorival Caymmi, está pronto, à espera de edição.
O professor da Escola de Teatro e diretor da Funceb, Armindo Bião, já coordenou um grupo de pesquisas na Ufba que estudava, entre outras questões, a obra de Xisto Bahia. Os alunos produziram, em 2001, o espetáculo Isto é bom, em homenagem ao artista. Parte das composições de Xisto pode ser encontrada no site do Instituto Moreira Sales, como informam o professor Manuel Veiga e o pesquisador Luciano Carôso.
Em meio a essas iniciativas, ao empenho de profissionais da música, do teatro, da história e do cinema, fica ainda a impressão de que muito falta a ser dito sobre Xisto Bahia. O reconhecimento à sua obra e trajetória pode trazer informações valiosas que ajudem a entender melhor o panorama da música popular e do teatro brasileiros hoje. Na opinião de Jaime Sodré, parte desse esquecimento tem raízes num dos problemas contra os quais o próprio Xisto Bahia lutava: a discriminação. "Esse esquecimento é doloroso. É importante saber o fim dessas personalidades, quem são seus descendentes. O que faltou para Xisto entrar na história da música brasileira? Aí tem o fator racial. Existe uma historiografia nacional que produz essas personalidades que, às vezes, não têm a cara do Brasil mestiço".
Uma das mais profundas descrições sobre a personalidade difícil de ser decifrada de Xisto Bahia foi feita pelo sobrinho dele, Torquato, filho de seu cunhado, o ator Antônio da Silva Araújo. "Os que o encontraram em vida viram nele um espírito jovial e alegre; uma alma cheia de abnegação e amor; um boêmio e um filantropo, capaz de passar a noite cantando ao luar, e de vender o relógio para matar a fome à primeira boca necessitada que lhe pedisse pão. Mas, tendo sempre o cuidado de não deixar seu rosto, em que acusava uma expressão de bem-estar, trair-lhe as dores íntimas, denunciar os temores de sua alma".
Adriana Jacob (Correio da Bahia) - 25 de julho de 2005
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Alexandre Gonçalves Pinto, instrumentista, Rio de Janeiro (RJ), primeira metade do século XX. Carteiro de profissão, tocava flauta, violão e cavaquinho. Publicou O choro - Reminiscências dos chorões antigos, Rio de Janeiro, 1936.O Choro (Reminiscências dos chorões antigos), 1936- Alexandre Gonçalves Pinto
Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora / PubliFolha.
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Tesourinha - 1927 (Sinhô) Marcadores: sinho, sinho letras
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Se meu amor me vê - 1930 (Sinhô) Marcadores: sinho, sinho letras
Sabiá, sabiá cantou na mata
e anunciou chiu, chiu
No melhor de minha vida
meu amor fugiu
Procurei me aproximar
do sabiá encantador
Sentindo o meu pisar
fez tal qual o meu amor
Quem roubou o meu sossego
a Deus eu fiz entregar
Ainda hei de ver um dia
alguém por mim se vingar
Papagaio, maitaca
piriquito, sabiá
quando cantam faz saudade
dos carinhos de Iaiá
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Deus nos livre dos castigos das mulheres (samba, 1928) - SinhôMarcadores: sinho, sinho letras
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Confissões de Amor - 1930 (Sinhô)Marcadores: sinho, sinho letras
Como se gosta - 1929 (Sinhô)Marcadores: sinho, sinho letras
Chequerê - 1929 (Sinhô) Marcadores: sinho, sinho letras
Canjiquinha quente - 1930 (Sinhô)Marcadores: sinho, sinho letras
Burucuntum (1930) - SinhôMarcadores: sinho, sinho letras
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Amar a uma só mulher (samba, 1927) - Sinhô
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Alivia estes olhos (samba, 1920) - SinhôMarcadores: sinho, sinho letras
Alegrias de caboclo – 1928 (Sinhô)Marcadores: sinho, sinho letras
A medida do Senhor do Bonfim (samba, 1929) - SinhôMarcadores: sinho, sinho letras
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No ano de 1929, Sinhô, em São Paulo, participa da campanha eleitoral de Júlio Prestes e se apresenta no Teatro Municipal, onde mostra a nova composição Cansei:Marcadores: sinho, sinho letras
A pequenina cruz do teu rosário (modinha, 1907)
- Fernando Weyne e Roberto Xavier de Castro
---------------Gb7---------------------- Bm
Faz tanto tempo, não me lembro quando,
---------------Gb7------------------ Bm
A vida é longa e o pensamento vário,
-------------B7 -------------------------Em Em6
Tu me mostravas, a rir, que delírio santo !
----------Bm----Gb7------- (Bm) (Gb7) (Bm)
A pequenina cruz do teu rosário.
---------Bm-------- Gb7----- Bm B7
E sempre que a via, recordava
--------------Em------- Em6-- Bm
Do nosso amor a fantasia louca.
----------B7------------------------- Em Em6
Toda vez que a pequenina cruz beijava
---------Bm--- Gb7------- Bm Bm/D
Eu beijava, feliz, a tua boca.
-------------Gb7 ---------------------Bm
Já vou trilhando a estrada da amargura
------------Gb7-------------------------- Bm
Antes, porém, que chegue ao meu calvário.
---------------B7 --------------Em Em6
Dá-me a beijar, ò Santa criatura
--------Bm -----Gb7------- (Bm) (Gb7) (Bm)
A pequenina cruz do teu rosário
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Flautista excepcional e muito bom compositor, Patápio Silva começou ainda adolescente atuando em bandas do interior, cursando a seguir o Instituto Nacional de Música, onde se formou em 1903. A partir de então, desenvolveu uma vitoriosa carreira, que seria interrompida pela morte aos 27 anos. A popularidade de Patápio era tão grande que seus discos permaneceram em catálogo por mais de duas décadas.
Um de seus maiores sucessos foi a graciosa valsa Primeiro amor, um clássico do repertório flautístico brasileiro, que dá bem uma idéia do estilo musical do autor, situado na fronteira do popular com o erudito. É provável que Patápio optasse pela música de concerto se tivesse vivido por mais tempo (clique na figura abaixo para escutar a melodia).
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A partir de meados dos anos dez, a música rural paulista saiu do âmbito regional, espalhando-se pelo país. Para isso foi decisivo o trabalho do compositor Marcelo Tupinambá, estilizador do gênero. Com toadas, cateretês e tanguinhos - preferia usar o diminutivo para diferenciar seus tangos dos de Ernesto Nazareth -, ele reinou no meio musical até o início da década de vinte.Marcadores: marcelo tupinamba
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Callado criou, provavelmente, o primeiro grupo de choro em 1875. Inicialmente composto por dois violões, uma flauta e um cavaquinho, o grupo começou adotando a polca-de-serenata, que trazia passagens modulantes em ritmo acelerado. No começo, o choro possuía improvisações, em que os violões criavam o ambiente para a flauta solar e o cavaquinho fazia um papel intermediário entre eles.Marcadores: calado, callado, catulo da paixao cearense, flor amorosa, joaquim antonio da silva calado
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