segunda-feira, 24 de abril de 2006

Boa noite, amor

A presença de Francisco Alves no rádio está marcada por esta valsa, prefixo e sufixo de suas audições. Além de gravada por ele duas vezes - em 1936 e 1950 -, a canção tem, na condição de prefixo, outras gravações suas de programas radiofônicos, como o realizado no Largo da Concórdia em São Paulo, em 26.09.52, que foi o último de sua vida.

No dia seguinte, um sábado, um caminhão que trafegava pela Via Dutra, à altura de Pindamonhangaba, chocou-se violentamente com seu automóvel, um Buick azul, tendo o cantor morte instantânea. Chico, que não gostava de viajar de avião, estava com uma certa pressa de chegar ao Rio, a fim de se apresentar descansado em seu programa na Rádio Nacional, domingo ao meio-dia. (Curioso o horário desse programa, sempre anunciado pomposamente pela locutora Lúcia Helena: "Ao se encontrarem os ponteiros na metade do dia...").

"Boa Noite Amor" é a mais conhecida composição da dupla José Maria de Abreu e Francisco Matoso, sendo típica de um pianista (Abreu), como se percebe pelo detalhe harmônico nos compassos 13 a 16 ("Se eu souber que o sonho teu / foi o mesmo sonho meu...") de preparação à idéia principal, que é explorada de três maneiras diferentes. Tem também uma introdução cantada, o recitativo, marcante na obra de José Maria de Abreu e provavelmente herdada da música americana.

Já a letra, de Francisco Matoso, sobre uma despedida apaixonada, não foge ao trivial romântico da época. "Boa Noite Amor" teve uma gravação importante em 1972, que encerra emocionalmente o disco do ano de Elis Regina, em brilhante arranjo de César Camargo Mariano (ao piano), com orquestra de cordas. Embora pouca gente saiba, "Boa Noite Amor" possui uma letra em inglês, de Maria C. Rego, editada pela Vitale ("Good-night sweetheart / my love divine / my dreams belong to you...").

Boa noite amor (valsa, 1936) - José M. de Abreu e Francisco Matoso

Disco 78 rpm / Título da música: Boa noite amor / Autoria: Matoso, Francisco (Compositor) / Abreu, José Maria de, 1911-1966 (Compositor) / Alves, Francisco (Intérprete) / Orquestra Victor Brasileira (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Victor, 1936 / Nº Álbum 34052 / Gênero musical: Valsa



Gbm-------- B7 -----E
Quando a noite descer
Dbm----- Gbm -----B7--------- E---- Dbm
Insinuando ------um triste adeus
Gbm ------B7--------- E
Olhando nos olhos teus
Gb7---------- B--------- Gb7---- B7
Hei de, beijando teus dedos, dizer:
---------Am ----B7
Boa noite, amor
-----------D ------B7
Meu grande amor
-------E ----Db7---- Gbm
Contigo eu sonharei
---------Bm ----Ab7--- Dbm
E a minha dor esquecerei
-------------Gb7
Se eu souber que o sonho teu
----C7------------------ B7
Foi o mesmo sonho meu . . .

---------Am---- B7
Boa noite, amor
-------D------- B7
E sonha, enfim,
---------E -------E7 -------A ------Db7
Pensando sempre em mim,
----------A----------- B7
Na carícia de um beijo
---------E--------- Db7
Que ficou no desejo
--------Am ----------B7 -----E---- C7---- E
Boa noite, meu grande amor !


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Balancê

Carmen Miranda
Balancê (marcha/carnaval, 1936) - João de Barro e Alberto Ribeiro

Disco 78 rpm / Título da música: Balancê / Autoria: Ribeiro, Alberto, 1902-1971 (Compositor) / João de Barro, 1907-2006 (Compositor) / Carmen Miranda, 1909-1955 (Intérprete) / Orquestra Odeon (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1936 / Nº Álbum 11430 / Lado A / Gênero musical: Marcha



Em 1979, Gal Costa relança essa marchinha clássica, grande sucesso em 1980, no LP "Gal Tropical":

LP Gal Tropical / Título da música: Balancê / Alberto Ribeiro (Compositor) / João de Barro (Compositor) / Gal Costa (Intérprete) / Gravadora: Philips / Ano: 1979 / Nº Álbum: 6349 412 / Lado B / Faixa 4 / Gênero musical: Marcha / Carnaval.

A       E7      A
Ô balancê balancê
D                 C#7
Quero dançar com você
F#m      C#m    F#m
Entra na roda morena pra ver
Bm      E7     A E7
Ô balancê balancê

A                    C#7
Quando por mim você passa
D                   A
Fingindo que não me vê
D         G9     C#m7     F#7
Meu coração quase se despedaça
Bm      E7     A
No balancê balancê

Refrão

A                  C#7
Você foi minha cartilha
D            A
Você foi meu abc
D            G9        C#m7     F#7
E por isso eu sou a maior maravilha
B7       E7      A E7
No balancê balancê

Refrão

A                  C#7
Eu levo a vida pensando
D               A
Pensando só em você
D          G9       C#m7       F#7
E o tempo passa e eu vou me acabando
B7       E7      A E7
No balancê balancê

Refrão

O Tic-Tac do meu Coração

A pequena notável
Tic tac do meu coração (samba, 1935) - Alcir Pires Vermelho e Valfrido Silva - Intérprete: Carmen Miranda

Disco 78 rpm / Título da música: Tic-tac do meu coração / Autoria: Pires Vermelho, Alcyr, 1906-1994 (Compositor) / Silva, Valfrido, 1904-1972 (Compositor) / Miranda, Carmen, 1909-1955 (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1935 / Álbum 11260 / Gênero: Samba

Tom: F#m
Introd:  Bm    F#m/C#  D  C#7  F#m

F#m
O tic-tac do meu coração
F#7                 Bm
Marca o compasso do meu grande amor
D              F#m
Na alegria bate muito forte
           G#7
E na tristeza bate fraco
        C#7
Porque sente dor

O tic-tic
F#m
O tic-tac do meu coração
F#7                Bm
Marca o compasso de um atroz viver
D              F#m
É o relógio de uma existência
G#7
E pouco a pouco vai morrendo
C#7     F#m      (C#7   F#m)
De tanto sofrer
E                A
Meu coração já bate diferente
C#7                F#m   F#7
Dando o sinal do fim da mocidade
Bm                  F#m
O seu pulsar é o soluçar constante
G#7             C#7
De quem muito amou na vida com sinceridade
E             A
Às vezes eu penso que o tic-tac
C#7            F#m   F#7
É um aviso do meu coração
Bm               F#m
Que já cansado de tanto sofrer
        G#7      C#7  F#m
Não quer que eu tenha nesta vida uma desilusão 

Sonho de papel

Sonho de Papel (marcha, 1935) - Alberto Ribeiro

Disco 78 rpm / Título da música: Sonho de papel / Autoria: Ribeiro, Alberto, 1902-1971 (Compositor) / Carmen Miranda, 1909-1955 (Intérprete) / Orquestra Odeon (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1935 / Nº Álbum 11228 / Gênero musical: Marcha


E um balão vai subindo
Vem caindo a garoa
O céu é tão lindo
E a noite é tão boa
São João, São João
Acende a fogueira
No meu coração

Sonho de papel
A girar na imensidão
Soltei em teu louvor
Um sonho multicor
Oh meu São João

Meu balão azul
Foi subindo devagar
E o vento que soprou
Meu sonho carregou
Não vai mais voltar

Serenata

Uma das primeiras composições da dupla Sílvio Caldas (foto) - Orestes Barbosa, "Serenata" foi adotada por Sílvio como marca musical de suas audições para o resto da carreira.

Pela beleza de sua letra, carregada de romantismo - "Dorme, fecha este olhar entardecente / não me escutes nostálgico a cantar / pois não sei se feliz ou infelizmente / não me é dado, beijando, te acordar" -, muito bem musicada por Sílvio, "Serenata" é exemplo de modinha do século XX, indispensável em qualquer seresta de bom gosto. Seu sucesso, em 1935, abriu a grande safra de canções de amor que imperaria nos anos seguintes.

Serenata (canção, 1935) - Sílvio Caldas e Orestes Barbosa

Disco 78 rpm / Título da música: Serenata / Autoria: Caldas, Silvio (Compositor) / Barbosa, Orestes (Compositor) / Caldas, Silvio (Intérprete) / Bandolim (Acompanhante) / dois violões (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Victor, 1934 / Nº Álbum 33911 / Gênero musical: Canção


Am------------------------- F
Lá, rá, rá, rá, rá, rá,
----------------------------Am
Lá, rá, rá, rá, rá, rá
---------------------E7
Lá, rá, rá, rá, rá, ri
-------------Am -------E7
La, ri, ri, ri

---Am---------------- E7 ---------Am----- F7
Dorme fecha este olhar entardecente
----------------------------------Am------ F7
Não me escutes nostálgico a cantar
----------------------------------Am
Pois não sei se feliz ou infelizmente
B7 ---------------------------------E7
Não me é dado beijando te acordar
-----A7------------------------- Bb7 ------A7
Dorme deixa o meu canto delirante
---------------------------------------Dm
Dorme que eu olho o céu a contemplar
----------------Eb°-------- Am ---------F7
A lua que procura diamante
---------------------E7 -----------Am------ E7
Para o teu lindo sonho ornamentar
----------Am---------------------- G7
Na serpente de seda dos teus braços
---------------------------------F7
Alguém dorme ditoso sem saber
----------------------E7 ----------A7
Que eu vivo a padecer
Dm -------------Am---------------------- F7
E o meu coração feito em pedaços
Vai sorrindo ao teu amor
--------E7
Mascarado desta dor
Am----------------------------- G7
No teu quarto de sonho e perfume
--------------------------------F7
Onde vive a sorrir teu coração
----------------------E7------ A7
Que é teatro da ilusão
------Dm-------------- Am
Dorme junto a teus pés
--------------------F7
O meu ciúme
Enjeitado e faminto
--------------Am
Como um cão.



A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Vol. 1 - Editora 34

Quase que eu disse


Quase que eu disse (valsa, 1935) - Sílvio Caldas e Orestes Barbosa

Disco 78 rpm / Título da música: Quase que eu disse / Autoria: Caldas, Silvio (Compositor) / Barbosa, Orestes (Compositor) / Caldas, Silvio (Intérprete) / Lacerda, Benedito, 1903-1958 (Acompanhante) / Conjunto (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1935 / Nº Álbum 11271 / Lançamento: 1935 / Lado B / Gênero musical: Valsa


A --------------------- A-------------- E7-------- A
Na febre dos meus desejos / Fui à procura de beijos
---------Gb7--------- Bm --Gb7 --Bm----------------- E7
Em bocas tão desiguais / -------E agora de beijos farto
---Gb7 -------------------B7-------------------------- E7
Tristonho volto pro quarto / Quero chorar nada mais

A ------------------------ A------------ E7---------- A
Sabiam quanto eu te amava/ Sabiam porque eu falava
------Gb7 -----------Bm-- Gb7 --Bm ----------Dm ---------A
A todos do meu amor / ------------E logo a vespa da intriga
------Gb7--------- B7 -----Dm -----------E7--------- A ----E7
Originou esta briga /---- Oh! Minha amiga, que horror

Am-------- C7 ----------B7
Um coração sem carinho
E7
---------É como um galho que perde o ninho
------------------------A7 -------------Dm---- Dm6 ----Am
Na fúria de um vendaval / ------E é triste o ninho rolando
----------------------B7------------------------------ E7
Um passarinho cantando em busca de um canto igual

G7 ------------------------C------------------------ E7
Oh! Quanta desgraça junta / Toda a cidade pergunta
------------------------A7-------- Dm-------------- Am
E vai dizendo o que quer / Na mágoa que me devora
-------------------------B7 -------E7------------ Am
Quase que eu disse agora / O nome desta mulher

Por causa dessa cabocla

Por causa dessa cabocla (samba, 1935) - Ary Barroso e Luiz Peixoto

Disco 78 rpm / Título: Por causa dessa cabocla / Autoria: Barroso, Ary (Compositor) / Peixoto, Luiz (Compositor) / Caldas, Silvio (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1935 / Álbum 11255


À tarde
Quando de volta da serra
Com os pés sujinhos de terra
Vem a cabocla passar
As flores vão pra beira do caminho
Pra ver aquele jeitinho
Que ela tem de caminhar
E quando ela na rede adormece
E o seio moreno esquece
De na camisa ocultar
As rolas
As rolas também morenas
Cobrem-lhe o colo de penas
Pra ele se agasalhar na noite

Dos seus cabelos,
Os grampos são feitos de pirilampos
Que às estrelas querem chegar
E as águas dos rios que vão passando
Fitam seus olhos pensando
Que já chegaram ao mar
Com ela dorme toda a natureza
Emudece a correnteza
Fica o céu todo apagado
Somente com o nome dela na boca
Pensando nesta cabocla
Fica um caboclo acordado

Ouvindo-te

Ouvindo-te (tango-canção, 1935) - Vicente Celestino

Disco 78 rpm / Título da música: Ouvindo-te / Autoria: Celestino, Vicente (Compositor) / Gilda de Abreu, 1904-1979 (Intérprete) / Celestino, Vicente (Intérprete) / Orquestra Victor Brasileira (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Victor, 1935 / Nº Álbum 33969 / Gênero: Tango canção


Basta o castigo que vens dando
Está pouco a pouco me matando
Canto de ti só ouço o contracanto
No entanto queria ver
Justo seria conhecer
Quem vive a amar e adorar

A tua voz estou a ouvir
No entanto eu queria a ti sentir
És tão cruel, que mal te fiz
Que mesmo sem te ver sempre te quis


E teu prazer é que eu sofra de amor por ti
Que te ame sem te ver meu bem-te-vi
E bastaria que só uma vez te visse flor
Depois morrer dizendo bendito amor

Minha Palhoça

Sílvio Caldas
Todas as delícias da vida campestre - o pomar, o riachão, a passarada, a fonte ao pé do monte - são aqui oferecidas à mulher amada, para ela trocar a cidade pelo sertão. Mas, por via das dúvidas, o convite é reforçado com a promessa de alguns bens da civilização - um rádio, uma Kodak... - pois, afinal, conforto nunca faz mal a ninguém.

Seguindo a linha "rancho-fundo", tão em moda na época, "Minha Palhoça" consagrou-se como um dos melhores sambas do gênero, enriquecendo simultaneamente o repertório de dois cantores: Luís Barbosa, que o popularizou no rádio, e Sílvio Caldas, que a gravou. Curiosa a história de Luís Barbosa. Considerado por muitos o grande sambista de sua geração, teve a carreira quase restrita ao rádio, gravando somente 21 discos.

Minha Palhoça (samba, 1935) - J. Cascata

Disco 78 rpm / Título da música: Minha palhoça / Autoria: Cascata, J, 1912-1961 (Compositor) / Caldas, Silvio (Intérprete) / Choro Odeon (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1935 / Nº Álbum 11271 / Lado A / Gênero musical: Samba

D7M           A7             D7M
Mas se você quisesse, morar na minha palhoça
                       A7
 – Lá tem troça e se faz bossa –
  D7M     Eb°                  Em7
Fica lá na roça, à beira de um riachão 
– E à noite tem violão –
F#7                              Bm7
Uma roseira, cobre a banda da varanda e
    B7               E7          Db7
Ao romper da madrugada, vem a passarada, 
         A7
  abençoar nossa união.
  Em                               A7                           
Tem um cavalo, que eu comprei à prestação 
                         D
  e que não estranha a pista 
Tem jornal; lá tem revista.
  D7                            G
Uma Kodak para tirar nossas fotografias 
– Vai ter retrato todo dia –
 Gm                                 D7M
Um papagaio, que eu mandei vir do Pará.
Bm             Em7              A7               D7M
Um aparelho de rádio batata,  e um violão que desacata.
                           E7
Meu Deus do céu que bom seria…
 D7M      A7              D7M
Mas se você quisesse, morar na minha palhoça – 
                       A7
 Lá tem troça e se faz bossa –
    D7M      Eb°               Em7
Fica lá na roça, à beira de um riachão 
– E à noite tem violão –
F#7                            Bm7
Uma roseira, cobre a banda da varanda e 
   B7                   E7
Ao romper da madrugada, vem a passarada
   Db7             A7
   abençoar nossa união.
      Em                           A7
Tem um pomar, que é pequenino, é uma beleza 
                   D
   - É mesmo uma gracinha – Criação, lá tem galinha – 
   D7                                     G
Um rouxinol, que nos acorda ao amanhecer – 
Isso é verdade, podes crer – 
   Gm                       D7M
A patativa quando canta faz chorar,
Bm              Em7            A7             D7M
Há uma fonte na encosta do monte, a cantar – chuá… chuá…


A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Vol. 1 - Editora 34

Lágrimas

Cândido das Neves
Lágrimas (valsa, 1935) - Cândido das Neves (Índio)

Disco 78 rpm / Título da música: Lágrimas / Autoria: Neves, Cândido das, 1899-1934 (Compositor) / Orlando Silva (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Victor, 1935 / Nº Álbum 33975 / Gênero musical: Valsa


Em---- Am------ Em---- Am---- Em--- Em/G
Ai, deixa-me chorar para suavizar
--------------B7
O que não sei dizer, mas sei sentir
Am ---------Am6------------------- B7
Não prantear um amor que se perdeu

É a nossa alma enganar
-------------------Em----- B7---- Em --Am ----Em--- Am
E ao próprio coração querer mentir / Rir é quase iludir
---------------E7 ----------------Am
É querer forçar o próprio coração a gargalhar
-----------Am6------- Em----- Gb7 ---B7--- Em------ E7
Quando ele está solitário na dor / ---A soluçar de amor
Am--------------------------- Em------------------ Em/G-- B7
É mais sublime a lágrima / Que exprime as nossas emoções
------------------Em -------------B7
Amenizando a alma cheia de ilusões
Am --------Am6------------------- Em
Do que sorrir para esconder a mágoa
-------------------Gb7------ B7----- Em
Que o olhar não diz / Não há ninguém feliz
Am----------- Am6-------------- Em
Quero fazer das lágrimas que choro
----------------B7---------------- Em
Estrelas a brilhar / Rosas de cristal
Do pranto emocional
Am
Mas se ela voltar
-----------------Em ----------------Gb7
Fulgente diadema então lhe ofertarei
---------B7--------- Em
Do pranto que chorei
Em -----Am----------- Em ---Am----------------- Em
Sim, quem nunca chorou /------- Certo nunca amou
-----------------B7
Talvez nem alma tenha para sentir
Am------- Am6------- B7
Não me faz inveja este prazer
Eu gosto até de padecer
----------------------Em---------- B7
Chorar é a mágoa em pérolas diluir
Em -----Am----- Em --Am
Mas quem quiser amar
------------------E7
Certo há de chorar
--------------------Am
Há de sentir morrer o coração
------------Am6--- Em -------Gb7
Porque o amor sendo belo falaz / Como os ais
-------B7 ----Em--- Am--- E
Se desfaz em ilusão

João Ninguém

João Ninguém (samba, 1935) - Noel Rosa

Disco 78 rpm / Título da música: João Ninguém / Autoria: Rosa, Noel, 1910-1937 (Compositor) / Rosa, Noel, 1910-1937 (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1935 / Nº Álbum 11257 / Gênero musical: Samba

E7M / Em6/G / B6 D#m7/A# G#m7 / C#7/9 / 
F#7/4 F#7 B7 / / / E7M(9)/G# / Em6/G /
 B6 / G#m7 / C#7/9 / F#7/4 F#7 B6 E6 B6

        B7M                      B7/4(9)
João Ninguém Que não é velho nem moço
B7(b9)              E7M/9            Em6     D#7/13 D#7(b13) D#7
Come  bastante no almoço Pra se esquecer do jantar...
D#7(b5)         G#7/4(b9)      G#7(b9)    C#m7
Num    vão de escada     Fez a sua    moradia
       D°          D#m7 G#m7    C#7/9      C7M  C7/9  B6
Sem pensar na gritaria      Que vem  do primei__ro  andar
        B7/4(9)       B°            F#m7
João Ninguém   Não trabalha e é dos tais
    D°              C#m7(b5)  B7M    E6     B6
Mas joga sem ter vintém     E fuma Liberty Ovais
 B7/4(9) B7(b9)  E7M            D#7      G#m7
Esse     Jo______ão  nunca se expôs ao perigo
      B°         B6         C#7/9 F#7  Fm7(b5) Em6
Nunca teve um inimigo Nunca teve  opinião

        B7M                   B7/4(9)
João Ninguém Não tem ideal na vida
B7(b9)                 E7M/9         Em6    D#7/13 D#7(b13) D#7
      Além de casa e comida Tem seus amores também
D#7(b5)      G#7/4(b9)      G#7(b9)          C#m7
E      muita gente    que ostenta  luxo e vaidade
D°               D#m7 G#m7    C#7/9  C7M  C7/9  B6
Não goza a felicidade     Que goza João   Nin___guém!
        B7/4(9)       B°            F#m7
João Ninguém   não trabalha um só minuto
  D°              C#m7(b5)  B7M      E6     B6
E vive sem ter vintém     E anda a fumar charuto
B7/4(9) B7(b9)  E7M           D#7      G#m7
Esse    Jo______ão nunca se expôs ao perigo
      B°         B6         C#7/9 F#7  B7/4  B7
Nunca teve um inimigo Nunca teve  opinião

E7M / Em6/G / B6 D#m7/A# G#m7 / C#7/9 / F#7/4 F#7 B7 / / /
E7M / Em6/G / B6 / G#m7 / C#7/9 / F#7/4 F#7 B6 E6 B6

Inquietação

Ary Barroso
Fez muito sucesso em 1935 o filme "Favela dos Meus Amores", dirigido por Humberto Mauro, cuja história se passava num morro carioca. Estrelado por Rodolfo Mayer, Carmen Santos, Armando Louzada e com Sílvio Caldas atuando como cantor e ator, o filme apresentava uma rica trilha sonora, em que se destacavam os futuros clássicos "Torturante Ironia" e "Quase que Eu Disse" (de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa) e o extraordinário samba "Inquietação", de Ary Barroso:

"Quem se deixou escravizar / e num abismo despencar / de um amor qualquer..." Infelizmente, as imagens de "Favela dos Meus amores", um marco no início de nosso cinema falado, perderam-se para sempre, só restando as canções que foram gravadas.

Inquietação (samba, 1935) - Ary Barroso

Disco 78 rpm / Título da música: Inquietação / Autoria: Barroso, Ary (Compositor) / Caldas, Silvio (Intérprete) / Orquestra Odeon (Acompanhante) / Bountman, Simon, ca1900-1977 (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 25/06/1935 / Nº Álbum 11255 / Gênero musical: Samba

Em7/9      D7/9       C7/9
Quem se deixou escravizar
D7/9         C7/9   B7/9+
E no abismo, despencar
Em7/9   F#m7/9   F7/9
De um amor qualquer
Em7/9     D7/9       C7/9
Quem, no aceso da paixão
D7/9      C7/9     Am7/9
Entregou o coração
D7/5+ G7+    G6   Am6
A uma mulher
D7/9-         G7+
Não soube o mundo compreender
F#m7   B7/9- Em7
Nem a arte   de  viver
F#m6
Nem chegou, mesmo de leve, a perceber
B7/9          C7/9
(Ai, meu Deus)
D7/9        C7/9
Que o mundo é sonho, fantasia
D7/9     C7/9
Desengano, alegria
B7/9-     Em7/9    Bm7/5-
Sofrimento, ironia
E7/9-         Bm7/5-   E7/9-   Am7
Nas asas brancas da ilusão
F7/13  Am7    D7(9/4)
Nossa imaginação
D7/9- G7+
Pelo espaço  vai
B7/5+ Em7/9
Vai,  vai
D7/9        G7+
Sem desconfiar
Em7            F#7/13   F#7/5+
Que mais tarde cai
B7/9  B7/9-  Em7/9
Para nunca mais voar


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Implorar

Kid Pepe
Um dos maiores sambas dos anos trinta é "Implorar", vencedor do carnaval de 1935. Com uma letra comum, sobre um amor contrariado ("Implorar só a Deus / mesmo assim às vezes não sou atendido..."), "Implorar" tem na melodia da primeira parte a razão de seu sucesso.

Assinado por Kid Pepe, Germano Augusto e João da Silva Gaspar, teve a autoria contestada na imprensa, assim que começou a aparecer. Numa reportagem no Correio da Noite foi divulgado que o verdadeiro autor seria Cedar Silva, o Cedá, um sambista falecido que dirigira a escola de samba Mocidade Louca, do Morro de São Roque. A seguir, noutro jornal, um primo de Cedá chamado Divino dizia-se co-autor e acusava João Gaspar de haver roubado o samba para vendê-lo a Kid Pepe por trinta mil réis.

O dramático da situação era que Divino estava doente, num leito de hospital. Mas, como sempre ocorria em casos dessa natureza, ninguém possuía provas para a acusação, acabando por prevalecer a versão de Kid Pepe: "João Gaspar me mostrou um estribilho que gostei. Consegui então autorização dele, por escrito, para consertar o estribilho (que estava quebrado) e compor uma segunda parte e a introdução. Desse jeito fizemos Implorar. Agora, se provarem que o coro apresentado pelo Gaspar não lhe pertence, darei à família do falecido a parte dele".

Implorar (samba/carnaval, 1935) - Kid Pepe, Germano Augusto e João da Silva Gaspar

Disco 78 rpm / Título da música: Implorar / Autoria: Augusto, Germano (Compositor) / Gaspar, J. da Silva (Compositor) / Pepe, Kid (Compositor) / Moreira da Silva (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Columbia, 24/10/1934 / Nº Álbum 8114 / Lançamento: 1935 / Lado B / Gênero musical: Samba



Implorar, só a Deus / Mesmo assim
As vezes não sou atendido / Eu amei e não venci
Fui um louco / Hoje estou arrependido

Foi-se o meu sonho azulado / Minha ilusão mais querida
Perdi o meu bem amado / Minha esperança na vida
Passei a vida implorando / Aquela infeliz amizade
Tudo na vida se passa / Loucuras da mocidade

Hoje no mundo sozinho / Relembrando o meu passado
Não tenho mais um carinho / Na vida, tudo acabado
Fui um louco, eu bem sei / Implorar tua beleza
Pelo seu amor fiquei / Contemplando a natureza


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Grau Dez

Lamartine
Apesar do predomínio do samba enredo a partir da década de 1970, há em quase todo baile carnavalesco um momento em que a orquestra toca antigos sucessos, sempre presentes na memória dos foliões. Desse repertório fazem parte obrigatória as marchinhas de exaltação a tipos femininos, como "Grau Dez", a nota que Ary Barroso e Lamartine Babo deram à morena no carnaval de 35.

Eleita nos versos "rainha da cabeça aos pés", a morena recebe ainda galanteios de vários gringos, como o inglês, o francês e o alemão, que diz "iá corraçon", uma tirada típica de Lamartine.

Grau Dez (marcha/carnaval, 1935) - Lamartine Babo e Ary Barroso

Disco 78 rpm / Título: Grau dez... / Autoria: Babo, Lamartine, 1904-1963 (Compositor) / Barroso, Ary (Compositor) / Francisco Alves, 1898-1952 (Intérprete) / Babo, Lamartine, 1904-1963 (Intérprete) / Diabos do Céu (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Victor, 16/10/1934 / Álbum 34113

D     Ebº          A7                       D        D7
A vitória de ser tua, tua, tua, moreninha prosa
                     G       D7                G
Lá no céu a própria lua, lua, lua não é mais formosa
  A7                  D
Rainha da cabeça aos pés
E7            A7       D
Morena eu te dou grau 10

    Ebº   A7    Ebº     A7       D
O inglês,       diz: "yes, my baby!"
G    Gb7    Gb7              Bm
O alemão,       diz: "Yá, corraçon!"
G                              D
O francês,      diz: "Bonjour, mon amour!"
     A7        A7          D
Trés bien! Trés bien! Trés bien!
Ebº        A7  Ebº  A7             D
O argentino,       ao te ver tão bonita
G           Gb7      Gb7                  Bm
Toca um tango           e só diz: "Milonguita"
G                              D
O chinês      diz que diz, mas não diz
    A7       A7           D
Pede bis, pede bis, pede bis! 


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Foi ela

Francisco Alves
Foi ela (samba, 1935) - Ary Barroso

Disco 78 rpm / Título da música: Foi ela!... / Autoria: Barroso, Ary (Compositor) / Francisco Alves (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Victor, 1934 / Nº Álbum 33880 / Gênero musical: Samba

Em7/9   E7/9-       Am7     D7/9
Quem quebrou meu violão
Am7 D7/9 B7/5+
de estimação
Em7/9   Cm6   B7/5+  Em7/9
Foi ela!
D11        A7/C#
Quem fez do meu coração
C7+ B7/4  B7/5+
seu barracão
Em7/9  B7/5+  Em7/9
Foi ela!

Eb7/9   D7(9/4)       D7/9
E depois me abando...nou, ô, ô, ô, ô
G6   B7/F#   Em
Minha casa se despovoou
D11         A7/C#         C7+   B7/4  B7/5+
Quem me fez tão infeliz só porque quis
Em7/9  E7/9-  Am
Foi ela!

Am7+         Am7*       Am6    Em
Foi um sonho que findou, ô, ô
Em5+         Em6        C7   B7/5+   Em7/9
Um romance que acabou, ô, ô
D11           A7/C#      C7+   B7/4   B7/5+
Quem fingiu gostar de mim até o fim
Em7/9
Foi ela!

Feitiço da Vila

Noel Rosa
Noel Rosa amou Vila Isabel, o bairro onde nasceu, viveu e morreu. Não é assim de admirar que imortalizasse esse amor em uma de suas melhores composições, o clássico "Feitiço da Vila".

Sobre uma melodia de Vadico muito bem elaborada, ele desenvolveu versos que a enaltecem, ressaltando sua ligação com o samba ("São Paulo dá café / Minas dá leite / e a Vila Isabel dá samba" ), samba que enfeitiça e dignifica ( "Tendo o nome de princesa / transformou o samba / num feitiço decente / que prende a gente" ), uma Vila Isabel, enfim, a que o poeta se orgulha de pertencer ("Paixão não me aniquila / mas tenho que dizer / modéstia à parte / meus senhores, eu sou da Vila").

Tudo isso dito assim de forma clara, objetiva, mas sem prejuízo do lirismo, é bem característico da poesia de Noel. Lançado em dezembro de 1934, em meio ao repertório carnavalesco, "Feitiço da Vila" é dedicado a Lela Casatle, uma beldade do bairro, então eleita Rainha da Primavera. Como se vê, a Vila não dava apenas samba...

Feitiço da Vila (samba, 1935) - Noel Rosa e Vadico

Disco 78 rpm / Título da música: Feitiço da vila / Autoria: Rosa, Noel, 1910-1937 (Compositor) / Vadico (Compositor) / João Petra de Barros, 1915-1948 (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1934 / Nº Álbum 11175 / Lado A / Lançamento: 1934 / Gênero musical: Samba


Tom: C

  C              E7                  F
Quem nasce na lá Vila  / Nem sequer vacila
              E7
Em abraçar o samba
  F   G7          C            A7
Que faz dançar os galhos do arvoredo
        D7    G7        C      G7
E faz a lua nascer mais cedo 

C              E7                          F
O sol da Vila é triste  /   Samba não assiste
                    E7
Porque a gente implora:
F    G7           C               A7
Sol pelo amor de Deus não venha agora
         D7       G7       C      A7
Que as morenas vão logo embora ... 

       Dm         Bb7          Dm
A Vila tem    um feitiço sem farofa
          Fm          G7              C    E7
Sem vela e sem vintém /  Que nos faz bem
  Am        E7      Am
Tendo nome de princesa
      B7      Em            D7        G7
Transformou o samba   num feitiço decente
Que prende a gente 

 C          E7                  Am
Lá em Vila Isabel/ Quem é bacharel
    F            E7      F     G7      C              A7
Não tem medo de bamba /  São Paulo dá café, Minas dá leite
   D7    G7      C     G7   C              E7
E Vila Isabel dá samba,/   Eu sei tudo que faço 
                F                      E7
Sei por onde passo / Paixão não me aniquila
 F     G7       C                 A7
Mas tenho que dizer, modéstia à parte
        D7       G7       C     Fm   C
Meus senhores eu sou da Vila !

Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Eva querida

Mário Reis
Eva Querida (marcha/carnaval, 1935) - Benedito Lacerda e Luiz Vassalo

Disco 78 rpm / Título da música: Eva querida / Autoria: Lacerda, Benedito, 1903-1958 (Compositor) / Vassalo, Luiz (Compositor) / Mário Reis (Intérprete) / Diabos do Céu (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Victor, 1934 / Nº Álbum 33898 / Gênero musical: Marcha


Dm-------- A7
Eva querida
----------------------Dm
Quero ser o teu Adão
----------------------A7
Dar-te-ei o meu amor
A minha vida
-------------------Bb7-- A7-- Dm
Em troca do teu co.....ra.....ção


Hei de conquistar
O teu amor, se Deus quiser
Gm-------------- A7
Custe o que custar
Dm
Haja o que houver
Gm -------A7--------- Dm
Serei capaz de qualquer prejuízo
--E7-------- A7------- Dm
Mas te darei um paraíso

Adeus batucada


Entusiasmada com o samba "Coração",Carmen Miranda propôs ao autor, Synval Silva: "Se você me trouxer uma música que alcance a metade do sucesso de ‘Coração', eu lhe darei três contos de réis". E Sinval trouxe-lhe "Adeus Batucada", que suplantaria "Coração" e outros sucessos, tornando-se um dos números mais representativos de seu repertório.

Choroso, sentimental, um belo canto de despedida ( "Adeus! Adeus! Meu pandeiro do samba / tamborim de bamba, já é de madrugada / vou-me embora chorando..."), "Adeus Batucada" foi executado no carrilhão da Mesbla, por ocasião do funeral de Carmen Miranda.

Adeus Batucada (samba, 1935) - Sinval Silva - Intérprete: Carmen Miranda

Disco 78 rpm / Título da música: Adeus batucada / Autoria: Silva, Sinval (Compositor) / Miranda, Carmen, 1909-1955 (Intérprete) / Orquestra Odeon (Acompanhante) / Bountman, S (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1935 / Nº Álbum 11285 / Gênero musical: Samba

Intr.: Gb7/9+   F7/9+   E7/9+   Eb7/9+
D    Em
: Adeus
F#m     Em
A-a-adeus
                D
Meu pandeiro de bamba
            F#m
Tamborim de samba 
B7        Em
Já é de madrugada
Em5+         A7
Vou me embora chorando
      Em             A7
Com o meu coração sorrindo

E vou deixar todo mundo
        Fº   D   A7
(1ª) Valorizando a batuca...da :
             D     A7
(2ª) Valorizando a batucada

   Dm                    A7    Dm
Criança com o samba eu vivia sonhando
   D7                           Gm
Acordado eu estava tristonho, chorando

Jóia que se perde no mar
        Em7/5-    Dm
Só se encontra no fundo
          E7
Samba, mocidade
            A7         Dm
Sambando se goza neste mundo
     A7                 Dm             A7    Dm
E do meu grande amor eu sempre me despedi cantando
         D7                       Gm
Mas da batucada agora eu despeço chorando
      Em7/5-           Dm
Guardo no lenço uma lágrima  sentida
        E7
Adeus batucada,
          A7      D     A7
Adeus batucada querida



A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Vol. 1 - Editora 34

Conversa de botequim

Não existe em nossa música popular crônica mais espirituosa sobre uma cena do cotidiano que a realizada por Noel Rosa em "Conversa de Botequim". Localizada em um café, ambiente que o autor conhecia como ninguém, a crônica tem como personagem principal um freguês desabusado que, ao preço de uma simples média com pão e manteiga, acha-se no direito de agir como se estivesse em sua casa.

Assim, em ordens sucessivas, ele exige do garçom atendimento rápido e eficiente : "Seu garçom faça o favor / de me trazer depressa / uma boa média que não seja requentada/ um pão bem quente com manteiga à beça / um guardanapo / um copo d'água bem gelada..." -, que inclui ainda o fornecimento de "caneta, tinteiro, envelope, cartão, cigarro, isqueiro, cinzeiro, revistas, o resultado do futebol" e até "o empréstimo de algum dinheiro", pois deixara o seu com o bicheiro.

Tudo isso fiado, pois, para terminar, o sujeito ordena: "Vá dizer ao seu gerente / que pendure essa despesa / no cabide ali em frente". Completa esta obra-prima uma melodia sincopada de Vadico, que se casa com a letra de forma primorosa, como se as duas tivessem sido feitas ao mesmo tempo, por uma mesma pessoa. Noel Rosa é o melhor intérprete de "Conversa de Botequim", uma de suas composições mais gravadas. No seu jeito simples de cantar, ele "diz" a letra com a naturalidade com que um malandro daria todas aquelas ordens a um garçom de botequim.

Conversa de botequim (samba, 1935) - Noel Rosa e Vadico

Disco 78 rpm / Título da música: Conversa de botequim / Autoria: Rosa, Noel, 1910-1937 (Compositor) / Vadico (Compositor) / Rosa, Noel, 1910-1937 (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1935 / Nº Álbum 11257 / Lado B / Gênero musical: Samba


Intr.:
(F D7/F# C/G A7 D7 G7 C7 C/Bb F/A Ab C/G A7 D7 G7 C)

        C           D7/F#         G/F    C/E   
Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
A7/C#   Dm7           G7   C7         C/Bb 
Uma boa média que não seja requentada
           F/A            E7/G#  Am
Um pão bem quente com manteiga à beça
              D7/F#                       G7
Um guardanapo      e um copo d'água bem gelada
                    D7/F#        G/F  C/E
Feche a porta da direita com muito cuidado
       A7/C#        D7         G7   C7        C/Bb
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
          F/A          Ab       C/G
Vá perguntar ao seu freguês do lado
     A7          D7     G7     C  C/Bb
Qual foi o resultado do fute..bol

F/A       A7/C#          Dm
Se você ficar limpando a mesa
F7/C          Bb                  A7
     Não me levanto nem pago a despesa
     D7           G7
Vá pedir ao seu patrão                  
Uma caneta, um tinteiro,
              C7    C/Bb
Um envelope e um cartão,
F/A            A7/C#       Dm    F/Eb
Não se esqueça de me dar palitos 
        Bb/D          Bb7    A7
E um cigarro pra espantar mosquitos 
     D7             G7
Vá dizer ao charuteiro
                       C7
Que me empreste umas revistas,
      C7/E          F
Um isqueiro e um cinzeiro

        C           D7/F#         G/F    C/E   
Seu garçom faça o favor de me trazer depressa...

F/A         A7/C#     Dm  F7/C
Telefone ao menos uma vez
          Bb                      A7
Para três quatro quatro três três três 
     D7          G7
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
                 C7       C/Bb
Aqui pro nosso escritório
F/A             A7/C#          Dm     F/Eb
Seu garçom me empresta algum dinheiro
           Bb/D         Bb7  A7  
Que eu deixei o meu com o  bicheiro,
     D7               G7   
Vá dizer ao seu gerente
                    C7 
Que pendure esta despesa
       C7/E      F
No cabide ali em frente
        C           D7/F#         G/F    C/E   
Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
A7/C#   Dm7           G7   C7         C/Bb 
Uma boa média que não seja requentada
           F/A            E7/G#  Am
Um pão bem quente com manteiga à beça
              D7/F#                       G7
Um guardanapo      e um copo d'água bem gelada
                    D7/F#        G/F  C/E
Feche a porta da direita com muito cuidado
       A7/C#        D7         G7   C7        C/Bb
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
          F/A          Ab       C/G
Vá perguntar ao seu freguês do lado
     A7          D7     G7     C  
Qual foi o resultado do fute..bol


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Boneca

Benedito Lacerda
Boneca (valsa-canção, 1935) - Benedito Lacerda e Aldo Cabral

Disco 78 rpm / Título da música: Boneca / Autoria: Cabral, Aldo (Compositor) / Lacerda, Benedito, 1903-1958 (Compositor) / Sílvio Caldas (Intérprete) / Regional (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1935 / Nº Álbum 13176 / Lado A / Gênero musical: Valsa


-----Em------- B7--------- Em
Eu vi numa vitrine de cristal
----------------B7 ---------Em ----E7
Sobre um soberbo pedestal
-------------------------Am
Uma boneca encantadora
B7----------------------------------------- Em----- Em/G
No bazar das ilusões, no reino das fascinações
Gb7------------------------------ B7
Num cenário de dor todo de amor


---------Em---------- B7-------- Em
Seus lábios entreabertos a sorrir
-------------B7-------- Em----- E7
Na boca rubra a seduzir
---------------------Am
Como se fossem de verdade
-----------Am6-------- Em
Eram dois rubis serenos
----------------------Gb7----- B7--- Em ----Em/G
Dois símbolos carmenos de felicidade

B7
Seu cabelo tinha a cor do sol
---------Em
A irradiar rubros raios de amor
----------B7
Seus olhos eram circunvagos
----------Em--------------- Em/G
No romantismo azul dos lagos

-----------B7
Mãos ideais braços divinais
----------------------Em
O corpo algo sem par
Os pés muito pequenos
-----B7
Enfim eu vi nessa mulher
------------------Em
Uma perfeita Vênus

A última estrofe

Além de ter a melhor letra e a melhor melodia de Cândido das Neves, (na foto ao lado) "A Última Estrofe" é sua canção mais popular. Não há seresteiro que a desconheça, com seus versos apaixonados ( "Lua, vinha perto a madrugada / quando em ânsias minha amada / nos meus braços desmaiou..."), tão representativos do parnasianismo exarcebado de seu autor.

E por falar em seresteiro, coube a Orlando Silva uma participação importante na história de "A Última Estrofe". Gravada inicialmente por Fernando Castro Barbosa, foi na voz de Orlando que a composição tornou-se um sucesso, acompanhando-o por toda a carreira.

A última estrofe (valsa-canção, 1935) - Cândido das Neves (Índio)

Disco 78 rpm / Título da música: A última estrofe / Autoria: Neves, Cândido das, 1899-1934 (Compositor) / Silva, Orlando (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Victor, 1935 / Nº Álbum 33975 / Gênero: Valsa-canção


(Dm)           (Gm)    (Dm)             (E7)
A noite estava assim enluarada, quando a voz
         (Dm)               (E7)          (A7) (Dm)
Já bem cansada   /     eu ouvi de um trovador
    (Dm)           (Gm)                (Dm)
nos versos que vibravam de harmonia, ele em
 (Eb)       (Dm)           (E7)   (A7)    (Dm) (A7) (Dm)
lágrimas dizia  /    da saudade de um amor
    D7             Gm                Eº
Falava de um beijo aapaixonado, de um amor
       Dm          Bb7           A7      D7
desesperado, que tão cedo teve fim
                    Gm            Eº              Dm
E, dos seus gritos e lamentos, eu guardei no pensamento
    E7           A7      (Dm) (A7) (Dm) (A7)
uma estrofe que era assim:

ESTROFE:

  D      A7             D                               Bm
Lua, vinha perto a madrugada, quando, em ânsias, minha amada
                 Em   B7 Em                 A7
em meus braços desmaiou.    E o beijo do pecado
                                         D           A7
 em seu véu estrelejado/    a luzir glorificou
  D         A7           D                       B7
Lua, hoje eu vivo tão sozinho, ao relento, sem carinho
                   Em     Gm                           D
na esperança mais atroz,  /  de que cantando em noite linda
          B7       E7          A7           D     (A7)  (Dm)
esta ingrata, volte ainda, escutando a minha voz
 (Dm)        (Gm)        (Dm)     (Eb)              (Dm)
A estrofe derradeira merencórea revelava toda a história
    (E7)      (A7)     (Dm)       (Dm)      (Gm)         (Dm)
de um amor que não morreu.  E a lua que rondava a natureza,
  Eb                (Dm)        (E7)      (A7)   (Dm)  (A7)  (Dm)
 solidária com a tristeza / entre as nuvens se escondeu.
     D7                 Gm              Eº             Dm
Cantor! Que assim falas à lua, minha história é igual à tua
        Bb7         A7   D7                       Gm
meu amor também fugiu.      Disse a ele em ais convulsos
   Eº           Bb7             (E7)       (Dm)  (A7)  (Dm) (A7)
Ele então entre soluços toda a estrofe repetiu

Lua . . . .   (estrofe)