domingo, 26 de março de 2006

A favela vai abaixo

Contratado pelo prefeito Prado Júnior, o urbanista Alfred Agache elaborou, em 1927, um extenso plano de remodelação da cidade do Rio de Janeiro, que incluía a demolição do morro da Favela, situado próximo da zona portuária. Muito discutido pela imprensa, o projeto inspiraria o samba "A Favela Vai Abaixo", no qual Sinhô protestava contra a ameaça de desabrigo dos moradores: "Minha cabrocha, a Favela vai abaixo / quanta saudade tu terás deste torrão / (...) / vê agora a ingratidão da humanidade / (...) / impondo o desabrigo ao nosso povo da Favela".

Contava o poeta Luís Peixoto que o compositor, valendo-se de sua popularidade, chegou a pedir a um ministro de estado sua intercessão junto ao prefeito para que a demolição não se realizasse. Sendo uma das melhores melodias de Sinhô, "A Favela Vai Abaixo" foi destaque numa revista teatral de nome idêntico.

Contrastando com a pesada versão original de Francisco Alves, a composição ganhou uma graça especial, bem mais fiel ao estilo do autor, na gravação realizada por Mário Reis, em 1951 (álbum de três discos sobre Sinhô, com preciosos arranjos de Radamés Gnattali). Isso leva a crer que, na dupla formada pelos dois cantores, nos idos de trinta, foi benéfica a influência de Mário sobre Chico, ajudando-o a se desfazer do ranço operístico, incompatível com a interpretação de sambas como este.

A favela vai abaixo (samba, 1927) - José Barbosa da Silva (Sinhô) - Interpretação: Mário Reis (1951)

Disco 78 rpm / Título da música: A Favela Vai Abaixo / José Barbosa da Silva "Sinhô" (Compositor) / Mário Reis (Intérprete) / Vero e Sua Orquestra (Acomp.) / Gravadora: Continental / Nº do Álbum: 16456-a / Nº da Matriz: 2704 / Gravação: 22/Agosto/1951 / Lançamento: Outubro/1951 / Gênero musical: Samba / Coleções: IMS, Nirez



Abaixo a versão original de 1928, interpretação de Francisco Alves:

Disco 78 rpm / Título da música: A Favela Vai Abaixo / José Barbosa da Silva "Sinhô" (Compositor) / Francisco Alves (Intérprete) / Orquestra Pan American do Cassino Copacabana (Acomp.) / Gravadora: Odeon / Nº do Álbum: 10096-a / Nº da Matriz: 1441 / Lançamento: Janeiro/1928 / Gênero musical: Samba / Coleções: IMS, Nirez


Minha cabocla, a Favela vai abaixo
Quanta saudade tu terás deste torrão
Da casinha pequenina de madeira
que nos enche de carinho o coração

Que saudades ao nos lembrarmos das promessas
que fizemos constantemente na capela
Pra que Deus nunca deixe de olhar
por nós da malandragem e pelo morro da Favela
Vê agora a ingratidão da humanidade
O poder da flor sumítica, amarela
quem sem brilho vive pela cidade
impondo o desabrigo ao nosso povo da Favela

Minha cabocla, a Favela vai abaixo
Ajunta os troço, vamo embora pro Bangú
Buraco Quente, adeus pra sempre meu Buraco
Eu só te esqueço no buraco do Caju

Isto deve ser despeito dessa gente
porque o samba não se passa para ela
Porque lá o luar é diferente
Não é como o luar que se vê desta Favela
No Estácio, Querosene ou no Salgueiro
meu mulato não te espero na janela
Vou morar na Cidade Nova
pra voltar meu coração para o morro da Favela



Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Quem são eles?

A carreira de Sinhô começa já com um sucesso, o samba "Quem São Eles", cantado no carnaval de 1918. Com seus versos pitorescos ( "A Bahia é boa terra / ela lá e eu aqui..."), o samba era dedicado a um bloco homônimo, ligado ao Clube dos Fenianos.

Como os ânimos no meio musical continuassem agitados com a polêmica do Pelo telefone, o título Quem são eles? acabou sendo tomado como uma provocação pelos adversários de Sinhô, causando nova polêmica. Proposital ou não, esta provocação apenas prenunciava outras tantas que se sucederiam na vida do irrequieto sambista, ajudando-o em sua permanente busca de promoção.

"Quem São Eles" já revela o talento rítmico de Sinhô especialmente no habilidoso uso das síncopes naturais na letra, independentemente da música, presente nos "que" dos versos "Não era assim que meu bem chorava" e "Não precisa pedir que eu vou dar". No entanto, seu estilo como compositor só iria se definir a partir de 1920.

Quem são eles? (samba, 1918) - Sinhô

Interpretação de Bahiano em disco Odeon lançado pela Casa Edison (1918):

Disco selo: Odeon Record / Título da música: Quem São Eles (Bahia Boa Terra) / J. B. da Silva "Sinhô" (Compositor) / Bahiano (Intérprete) / Conjunto e Coro (Acomp.) / Nº do Álbum: 121445 / Lançamento: 1918 / Gênero musical: Samba / Coleção de fontes: IMS, Nirez



Interpretação da Lira Carioca (2000):

CD É Sim, Sinhô - Vol. II / Título da música: Quem São Eles? / J. B. da Silva "Sinhô" (Compositor) / Lira Carioca (Intérprete) / Referência / Tributo: J. B. da Silva "Sinhô" / Gravadora: Independente / Álbum: FS445 / Ano: 2000 / Artistas relacionados: Clara Sandroni / Marcos Sacramento



A Bahia é terra boa
Ela lá e eu aqui - Yayá
Ai, ai, ai
Não era assim que meu bem chorava

Não precisa pedir eu que eu vou dar
Dinheiro não tenho mas vou roubar

Carreiro olha a canga do boi
Carreiro olha a canga do boi
Toma cuidado que o luar já se foi
Ai que o luar já se foi
Ai que o luar já se foi

O castelo é coisa a toa
Entretanto isso não tira - Yayá
Ai, ai, ai
É lá que a brisa respira

Não precisa pedir que eu vou dar
Dinheiro não tenho mas vou roubar

Quem são eles?
Quem são eles?
Diga lá e não se avexe - Yayá
Ai, ai, ai
São peixinhos de escabeche

Não precisa pedir que eu vou dar
O resto do caso pra que cantar

O melhor do luar já se foi
O melhor do luar já se foi

Entre menina que aqui estão de horror
Ai, que aqui estão de horror
Ai, que aqui estão de horror



Fontes: Dicionário Cravo Albin; A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello.

Jura


"Jura" é o maior sucesso de Sinhô. Bem representativo da última e melhor fase do compositor, mostra algumas características marcantes de seu estilo, como a repetição de palavras no início do estribilho- "Jura, jura, jura..." -, com orações que transbordam de um verso para outro, e o decantado pernosticismo, presente, mais uma vez, na atrevida imagem do "beijo puro da catedral do amor". Tudo isso sobre um fraseado musical simples, original, ao mesmo tempo alegre e sentimental, entrecortado de síncopes, uma herança do maxixe.

Lançado por Araci Côrtes na revista Microlândia, reprisado em Miss Brasil, e gravado simultâneamente por Araci e Mário Reis, em fins de 1928, "Jura" foi uma das músicas mais cantadas no Brasíl nos anos seguintes. O jornalista Jota Efegê (João Ferreira Gomes), que assistiu a estréia de "Jura" no teatro, relembrou o fato em interessante artigo publicado em O Jornal, muitos anos depois.

Conta Efegê que a platéia exigiu a repetição do número várias vezes, tendo Sinhô subido ao palco onde, abraçado a Araci, recebeu do público verdadeira consagração, Detalhe pitoresco ressaltado pelo jornalista foi a maneira como o espanhol Antonio Rada, maestro do espetáculo, "conduzia a orquestra, dançando e fazendo vibrar uma espécie de chocalho, comunicando aos músicos seu allegro molto vivo".

Jura (samba, 1928) - José Barbosa da Silva (Sinhô) - Interpretação: Mário Reis

Disco 78 rpm / Título da música: Jura / José Barbosa da Silva "Sinhô" (Compositor) / Mário Reis (Intérprete) / Orquestra Pan American (Acomp.) / Gravadora: Odeon / Nº do Álbum 10278-a / Nº da Matriz: 2070 / Lançamento: Novembro/1928 / Gênero musical: Samba / Coleções: IMS, Nirez



Gravação de Araci Côrtes também em 1928:

Disco 78 rpm / Título da música: Jura / José Barbosa da Silva "Sinhô" (Compositor) / Araci Côrtes (Intérprete) / Simão Nacional Orquestra (Acomp.) / Gravadora: Parlophon / Nº do Álbum 12868-a / Nº da Matriz: 2071 £ / Lançamento: Novembro/1928 / Gênero musical: Samba / Coleções: Nirez, José Ramos Tinhorão, Humberto Franceschi



A6 ---Bm6 --E7(9)------- A6 ----------------E/B
Jura, jura, jura pelo Senhor / Jura pela imagem
---------------B7 --------E7/B------------- E7
Da Santa Cruz do Redentor / Pra ter valor a tua...

A6---- Bm6--E7(9) -------A6--- A7
Jura, jura, jura de coração / Para que um dia
----------------D -------Dm7 A ---------------E7--------- A
Eu possa dar-te o amor / -----Sem mais pensar na ilusão

-----------E7----------- A ------------Bm7------ E7--------- A
Daí então dar-te eu irei / O beijo puro da catedral do amor
-------------------E7------------------ A
Dos sonhos meus / Bem junto aos teus
------------Bm7---------- E7------ A
Para fugirmos das aflições da dor



Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

Cansei

No ano de 1929, Sinhô, em São Paulo, participa da campanha eleitoral de Júlio Prestes e se apresenta no Teatro Municipal, onde mostra a nova composição Cansei.

Cansei (samba, 1929) - José Barbosa da Silva (Sinhô) - Intérprete: Mário Reis

Disco 78 rpm / Título da música: Cansei / José Barbosa da Silva "Sinhô" (Compositor) / Mário Reis (Intérprete) / Orquestra Pan American (Acomp.) / Gravadora: Odeon / Nº do Álbum: 10459-a / Nº da Matriz: 2813 / Lançamento: Agosto/1929 / Gênero musical: Samba / Coleções: IMS, Nirez


Cansei, cansei / Cansei de te querer
Pois fui de plaga em plaga / O além do além
Numa esperança vaga / E eu pude compreender

Por que cansei / Cansei de padecer

Pois lá ouvi de Deus / A Sua voz dizer
Que eu não vim ao mundo
Somente com o fito eterno de sofrer

Quis assim a sorte evitar a dor
Deste que te quis como todo o seu calor
Numa verdadeira fonte de valor
Que jamais se inspira nesse amor

Cansei, cansei / Cansei de te querer
Pois fui de plaga em plaga / O além do além
Numa esperança vaga / E eu pude compreender


Fontes: Discografia Brasileira - IMS; Instituto Memória Musical Brasileira.