quarta-feira, 26 de abril de 2006

Chão de Estrelas

Numa visita ao poeta Guilherme de Almeida, em 1935, Sílvio Caldas (foto) mostrou-lhe uma canção inédita, intitulada "Foste a Sonoridade Que Acabou". Terminada a apresentação, a canção recebeu um novo nome: "Chão de Estrelas". Aconteceu a mudança por sugestão de Guilherme, tomado de súbito entusiasmo pelos versos, que eram de Orestes Barbosa.

Sobre o fato, ele escreveria trinta anos depois (em crônica incluída no livro Chão de Estrelas, de Orestes): "Nem de nome eu conhecia o autor. Mas o que então dele pensei e disse, hoje o repito: uma só dessas duas imagens - o varal das roupas coloridas e as estrelas no chão (... ) - é quanto basta para que ainda haja um poeta sobre a terra".

Mas não pára em Guilherme de Almeida o fascínio despertado por "Chão de Estrelas" entre nossos poetas. Em 1956, numa crônica em louvor a Orestes, Manuel Bandeira terminava assim: "Se se fizesse aqui um concurso (...) para apurar qual o verso mais bonito de nossa língua, talvez eu votasse naquele de Orestes: ‘tu pisavas os astros distraída..."'.

Composto por Sílvio Caldas sobre um poema em decassílabos - que Orestes relutou em consentir que fosse musicado -, "Chão de Estrelas" é a obra-prima da dupla, que produziu um total de quinze canções, a maioria de muito boa qualidade ("Quase Que Eu Disse", "Suburbana", "Torturante Ironia" etc.). Essas composições cantam amores perdidos ou impossíveis, tratados do ponto de vista masculino e quase sempre localizados em cenários urbanos arranha-céus, apartamentos, cinemas... Embora tenha se destacado no seu lançamento em 1937, "Chão de Estrelas" só se tornaria um sucesso nacional na década de 1950, quando Sílvio Caldas a gravou pela segunda vez.

Chão de Estrelas (canção, 1937) - Sílvio Caldas e Orestes Barbosa

Disco 78 rpm / Título: Chão de estrelas / Autoria: Caldas, Silvio (Compositor) / Barbosa, Orestes (Compositor) / Caldas, Silvio (Intérprete) / Lacerda, Benedito, 1903-1958 (Acompanhante) / Regional (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1937 / Álbum 11475 / Lado B / Gênero: Canção /
Tom: Am

   Am            E7           Am
minha vida   era um palco iluminado
     E7               Gm6
eu vivia vestido de dourado
    A7                   Dm   A7
palhaço das perdidas ilusões
  Dm                E7           Am
cheio   dos guisos falsos da alegria 
                            B7
andei cantando a minha fantasia
                                E7
entre as palmas febris dos corações

    Am          E7             Am
meu barracão   no morro do salgueiro
   E7                         Gm6
tinha o cantar alegre de um viveiro
  A7                        Dm  A7
foste a sonoridade que acabou
Dm               Dm6          Am
e hoje,  quando do sol,  a claridade
  C7                              A#7
forra o meu barracão,  sinto saudade
      E7                  Am  E7
da mulher pomba-rola que voou
F#m                         C#m
nossas roupas comuns dependuradas
                              D
na janela qual bandeiras agitadas
        D7            C#7
pareciam um estranho festival
F#7                         B7
festa dos nossos trapos coloridos
                                E7
a mostrar que nos morros mal vestidos
                       A    C#7
é sempre feriado nacional
F#m                     C#m
a porta do barraco era sem trinco
                      D
mas a lua furando nosso zinco
          D7           C#7
salpicava de estrelas nosso chão
  F#7                        B7
tu pisavas nos astros distraída
                               E7
sem saber que a ventura desta vida
                             A
é a cabrocha, o luar e o violão


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

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