quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Lua nova

Francisco Alves
Os letristas do nosso cancioneiro popular, como quaisquer outros que manipulem a palavra escrita, estão sujeitos a enganos semânticos. Este artigo não tem pretensões professorais e nem de longe pretende ferir susceptibilidades.

É apenas um painel divertido dos tropeços dos nossos poetas da música, cometidos por desinformação ou incultura, alguns perfeitamente releváveis, porém outros capazes de doer nos tímpanos. Friso que essas escorregadelas não depõem em nada contra os nossos compositores.

Muita gente famosa andou soltando disparates por aí. Cito vários: Eça de Queiroz falou em mudez taciturna; Aloísio de Castro em estátua escultural; Ataulfo de Paiva, referindo-se ao avião, chamou-o de viatura alígena; Luiz Delfino comparou as mãos da amada: louras como manteiga; Alberto de Oliveira encontrou águas úmidas; Alberto Faria assim descreveu o lança-perfume: etérea língua de áspide aromal.

Feita a ressalva, vamos em frente. A Lua nova tem sido uma casca de banana para os poetas populares, que sempre a confundem com a lua cheia e se derramam em louvores. A lua nova é justamente a fase em que a lua, por estar entre o sol e a terra, fica com sua face escura, não sendo vista. Luis Iglésias, na canção Lua Nova, que compôs em 1928 com Francisco Alves, mostra que a geografia não foi o seu forte.

Lua Nova (canção, 1929) - Francisco Alves e Luís Iglesias

Disco 78 rpm / Título da música: Lua nova / Autoria: Alves, Francisco (Compositor) / Iglésias, Luiz (Compositor) / Alves, Francisco (Intérprete) / Orquestra (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1951 / Nº Álbum 13143 / Gênero musical: Canção


Quando surgistes, que encantamento
Na minha alcova, toda taful
Pensei que a lua, nesse momento
Tinha caido do céu azul

Vinhas de branco, teu véu ao vento
Mais parecia sonho ou visão
Quando surgiste, que encantamento
Bateu cá dentro meu coração!

Pela janela transparecia,
A lua branca, a lua nova,
Muito espantada vendo a alegria
Que tranbordava da minha alcova

Foi uma noite, apenas uma
Não mais volvestes ao ninho em flor
O leito branco da cor da espuma
Chora saudoso do nosso amor

Na minha alcova imersa em bruma
Emudecida depois ficou
Foi uma noite, apenas uma
Foi uma noite que já passou

Pela janela eu vejo agora
A lua branca, a lua nova
Muito espantada fitar de fora
Toda tristeza da minha alcova.



Fonte: Livro MPB História de Sua Gente - Capítulo 1 - Esses Destoaram
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