sexta-feira, 24 de março de 2006

O matuto

A partir de meados dos anos dez, a música rural paulista saiu do âmbito regional, espalhando-se pelo país. Para isso foi decisivo o trabalho do compositor Marcelo Tupinambá, estilizador do gênero. Com toadas, cateretês e tanguinhos - preferia usar o diminutivo para diferenciar seus tangos dos de Ernesto Nazareth -, ele reinou no meio musical até o início da década de vinte.

Um de seus maiores sucessos é o cateretê O matuto, em que conta o desejo de um cearense desgarrado de voltar à sua terra: "Pro sertão do Ceará / tomara já vortá / tomara já vortá...". A escolha de um tema como este, ligado a outro estado, parece indicar uma aspiração do autor a se popularizar além das fronteiras paulistas.

Natural de Tietê, filho de uma família de músicos, Marcelo Tupinambá chamava-se realmente Fernando Lobo, tendo adotado o pseudônimo em razão dos preconceitos que existiam na época contra a música popular. A mudança de nome aconteceu por volta de 1915 em conseqüência do sucesso do maxixe São Paulo Futuro, de sua autoria. Ele contava que na ocasião, cursando a Escola Politécnica de São Paulo, onde se formou no ano seguinte, foi chamado ao gabinete do diretor Paula Souza, que o censurou: "Não permito que aluno meu ande fazendo maxixes. Quem vai confiar num engenheiro que faz maxixes?". Depois desta advertência, Fernando Lobo virou Marcelo Tupinambá.

O matuto (Canção Cearense) (cateretê, 1918) - versos de Cândido Costa e música de Marcelo Tupinambá - Intérprete: Os Geraldos / Gravadora Phoenix / Data de Gravação: 1918 / Lado B / Disco 78 rpm:


Quando foi da meia-noite para o dia, / que eu deixei com cortezia / minha terra, o Ceará / as foias véias já cabia pela estrada, / vim marchando na picada / só na seca a matutá:

Pro sertão do Ceará / Tomára eu já vortá... / Tomára eu já vortá... (bis)

No cemiterio os mortos se alevantaram / uns aos outros perguntaram / que qu'eu havéra de querê? / nas catacumba os defunto té gemia / no céo as coruja ria / Eu mesmo não sei porquê...

Pro sertão do Ceará / Tomára eu já vortá... / Tomára eu já vortá... (bis)

As santas fêmea, na igreja já chorava / os santos macho só me oiava / com cada ôio assim! / Até os gallo e as gallinha não sabia / de corrê p'ra onde havia / tudo com medo de mim!

Pro sertão do Ceará / Tomára eu já vortá... / Tomára eu já vortá.... (bis)

Quando eu cheguei dessa viagem cá no Rio / foi qu'antão logo se viu / qu'é qu'eu vinha cá fazê: / eu fui chamado só p'ra sê o presidente / desta terra, desta gente / sê o rei de vosmucês

Pro sertão do Ceará / Tomára eu já vortá... / Tomára eu já vortá... (bis)

Logo o povo, muito amavo, foi dizendo / o dote qu'eu ia tendo: / o Pará, França, o Japão, / um iscalé com doze remo e vinte peça / mas abanei co'a cabeça / dizendo "Não quero, não!"

Pro sertão do Ceará / Tomára eu já vortá... / Tomára eu já vortá... (bis)

Agora vorto p'r'o meu ceará querido / sinão fico home perdido / é mió eu i p'ra lá! / Quero i m'imbora e hei de i até a nado / sinão fico avaccaiado / como todo mundo está!

Pro sertão do Ceará / Tomára eu já vortá... / Tomara eu já vortá...


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.
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