quarta-feira, 22 de março de 2006

Talento e formosura

A obra mais famosa de Edmundo Otávio Ferreira, foi o chótis Talento e formosura, que recebeu versos de Catulo da Paixão Cearense, sendo gravado, entre outros, pela Banda da Casa Edson e pela Banda do Corpo de Bombeiros, na Odeon; pelos cantores João Barros e Mário Pinheiro, já com versos de Catulo, na Victor Record e pelo Grupo Lulu o Cavaquinho, na Columbia, todas no início do século XX.

Em 1977, Talento e formosura foi regravada por Paulo Tapajós na série "Cantares brasileiros - vol. 1 - a modinha", distribuído pela Companhia Internacional de Seguros como brinde de Natal.

Talento e Formosura (modinha, 1905) - Edmundo Otávio Ferreira e Catulo da Paixão Cearense - Interpretação: Vicente Celestino



Tu podes bem / Guardar os dons da formosura / Que o tempo um dia / Há de implacável trucidar / Tu podes bem / Viver ufana da ventura / Que a natureza / Cegamente quis te dar

Prossegue embora / Em flóreas sendas sempre ovante / De glórias cheia / No teu sólio triunfante / Que antes que a morte / Vibre em ti funéreo golpe seu / A natureza irá roubando / O que te deu

E quanto a mim / Irei cantando o meu ideal de amor / Que é sempre novo / No viçor da primavera / Na lira austera / Em que o Senhor me fez tão destro / Será meu estro / Só do que for imortal

Terei mais glória / Em conquistar com sentimento / Pensantes almas / De varões de alto saber / E com amor / E com pujança de talento / Fazer um bardo / Ternas lágrimas verter

Isto é mais nobre / É mais sublime e edificante / Do que vencer / Um coração ignorante / Porque a beleza é só matéria / E nada mais traduz / Mas o talento é só espírito / E só luz

Descantarei na minha lira / As obras-primas do Criador / O mago olor da flor / Desabrochando à luz do luar / O incenso d’água / Que nos olhos faz / A mágoa rutilar / Nuns olhos onde o amor / Tem seu altar

E o verde mar que se debruça / N’alva areia a espumejar / E a noite que soluça / E faz a lua soluçar / E a Estrela Dalva / E a Estrela Vésper languescente / Bastam somente / Para os bardos inspirar

Mas quando a morte / Conduzir-te à sepultura / O teu supremo orgulho / Em pó reduzirá / E após a morte / Profanar-te a formosura / Dos teus encantos / Mais ninguém se lembrará

Mas quando Deus / Fechar meus olhos sonhadores / Serei lembrado / Pelos bardos trovadores / Que os versos meus hão de na lira / Em magos tons gemer / Eu morto embora / Nas canções hei de viver



Fonte: A Canção no Tempo (Vol. 1) - Jairo Severiano, Zuza Homem de Mello - Editora 34
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