terça-feira, 22 de agosto de 2006

Ao luar

Ao luar (modinha, 1880) - Catulo da Paixão Cearense

Vê que amenidade,
que serenidade
tem a noite, em meio,
quando, em brando enleio,
vem lenir o seio
de algum trovador!
O luar albente
que do bardo a mente
no silêncio exalta,
chora a tua falta
rutilante estrela
de eteral candor!

Minha lira geme
no concento extreme
que a Saudade inspira!
Vem ouvir a lira,
que, sem ti, delira
nesta solidão!
Vem ouvir meu canto
no fluir do pranto,
com que a dor rorejo!
Lacinante harpejo,
que das fibras tanjo
deste coração!
nosso amor fanado,
quando, eu, a teu lado,
mais que aventurado
por te amar vivi!
Quero a fronte tua
ver à luz da lua
resplandente e bela!
Descerra a janela
que eu durmo as noites,
só pensando em ti!

Dá-me um teu conforto,
que este afeto é morto
que me consagravas...
quando protestavas,
quando me juravas
eviterno amor!
Vem um só momento
dar ao pensamento
radiosa imagem
depois, na miragem,
deixa, eu tua ausência,
cruciar-me a dor!

De saudade o dardo
vem ferir do bardo
o coração silente!
Esta dor latente
só na campa algente
poderá findar!
Mas se ainda o peito
palpitar no leito
de eternal abrigo,
hei de só, contigo,
sob a lousa, em sono
funeral, sonhar. 
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