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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A música dos vice-reis da Guanabara

Dominava ainda a cidade a alegria e a sátira das modinhas e lundus de Domingos Caldas Barbosa (1740-1800), filho de pai português e mãe escrava da Angola.

O descaso da época guardou apenas as letras das Cantigas de Sereno Selinuntino com que Caldas Barbosa ingressou na Arcádia de Roma, alta e meritória honra. Perderam-se as relíquias musicais. Devem andar em retalhos e fragmentos na memória do povo.

Foi quando em 16 de outubro de 1763, Dom José ou melhor Marquês de Pombal reuniu o governo do Brasil no Rio de Janeiro, nomeando para primeiro vice-rei Dom Antônio àlvares da Cunha, o conde de Cunha.

Foi um governo infeliz. Pior ainda, era o ajudante oficial de sala e até o próprio bispo dom Frei Antonio do Desterro.

O povo sofria e a oposição popular desabafava-se, cantando o lundu, pregando-o nas paredes das casas, nos muros das igrejas, e assim dizia o que era preciso dizer.

Cantou-se por toda a parte, embora às escondidas, o lundu tremendo de muitas cópias e um arrasador estribilho:

Já não se canta o lundu
Que o não o quer o senhor bispo
Mas, eu já pedi licença
Da Bahia ao arcebispo.

E hei de cantar
E hei de dançar
Saracotear

Com as moças brincar
E impunemente
Cantando o lundu
Ao bispo ferrenho
Direi uh! uh! uh!

Ontem como hoje o povo era feito da mesma massa.

Mas o ponto de partida da música característica do estado da Guanabara foi a chamada "música de barbeiro". Porque até então a música que se tocava nas festas religiosas ou públicas, em instrumental, canto e dança era de influência jesuítica e mais tênue ameríndia. Salvo a intromissão do negro que reviveu nas senzalas os seus ritmos e festas.

Essa música dos barbeiros, era uma espécie de filarmônica formada por negros ensaiados na rua da Alfândega pelo mestre de barbeiros, um tal Dutra.

As figuras vestiam-se grotescamente. Jaqueta de brim branca, calça preta, ajustada e meio curta, chapéu branco de palha com a copa em funil e abas caídas. Andavam descalços.

Tocavam as músicas em moda: modinhas, lundus, fados, tiranas, habaneras e fandangos.

Os que não sabiam de cor, liam-nas pregadas com alfinetes nas costas dos companheiros.

Foi daí com os esticados, remelexos e quebradinhos que a música abrasileirou-se.

A modinha é a expressão mais genuína do Brasil de antanho. Originária das serranilhas galezianas, modificada no Brasil das canções românticas portuguesas do século XVI ou quem sabe até nascida na Bahia e harmonizada em modo menor e sempre inspirada em tema lírico.

A modinha teve um fulgar estranho, cantava-se nos salões e nas serestas. Muitos poetas de valor relevante e musicistas célebres como José Maurício, Francisco Manuel da Silva (autor do Hino Nacional) e tantos mais fizeram modinhas.

Muitas se celebrizaram. A mais antiga pertence a coleção Langsdorff.

Temos, porém, popularíssimas como: Perdão Emília, Na casa branca da serra, Gentil Carolina, Sempre te amando, Mucama, Casinha pequenina, A mulata (Xisto Bahia e Melo Morais Filho), Bem te vi (Melo Morais e Miguel Emídio Pestana) e muitas e muitas outras.

A modinha continuava puramente européia.

O lundu, ritmo que animava as festas das colheitas no Congo africano, passou a ser música simples, mais marcação que harmonia como se nota no velho lundu de Pai João e alguns mais.

Tornou-se de uma variabilidade incrível. Ritmo bem marcado, foi depois se complicando em síncopes, pequenos apressados, rubatos quase imperceptíveis para acomodar versos mal feitos sobre todos os assuntos.

Foi por assim dizer a sátira do tempo, a crítica maldosa da época.

Laurindo Rabelo, Paula Brito, Fagundes Varela, João Cunha, Casemiro de Abreu, Bruno Serra, Sátiro Bilhar e muito mais.

O ritmo assemelhava-se ao da polca que nos chegou depois.

O lundu satirizou tudo.

O "choro", de pura origem carioca, era um que muito especial que se emprestava a todas a todas as modalidades dançantes. A valsa sestrosa, a polca saltitante ou a quadrilha movimentada mesmo sem ser choro podia ser interpretada com um cunho tão particularmente brasileiro que se dizia "choro" ou "chorinho". Parece incrível mas, é a expressão da verdade até Heitor Villa-Lobos aderiu ao choro como toda a gente.

Um grande flautista carioca, Joaquim Antônio da Silva Callado, boêmio querido pelos seus dotes musicais, ia com outros "chorões" do tempo animando os "arrasta-pés" ou "assustados" da estalagens e cabeças-de-porco da época com interpretações originais.

Popularizou-se rapidamente.

De técnica instrumental perfeita foi chamado para exercer o cargo de primeiro professor de flauta do Conservatório Nacional de Música.

Dom Pedro II entusiasmado com suas audições impecáveis agraciou-o com a comenda da Ordem da Rosa.

Calado, nas suas interpretações "chorosas", lançou um ritmo original, o ritmo brasileiro. Fez escola.

Chiquinha Gonzaga (Francisca Edwiges Neves Gonzaga) cujo avô fora padrinho de Calado, seguiu-lhe as pegadas. Fixou nas suas composições sincopadas a tentativa Calado.

De inspiração inesgotável tendo vivido 87 anos, a nossa primeira maestrina alegrou três gerações compondo em todos os gêneros, milhares de música e perto de uma centena de partituras teatrais com vários sucessos retumbantes.

Foi a primeira mulher que regeu orquestra em cena aberta.

Graças ao famoso Corta-jaca (Gaúcho) de sua autoria, em 1914 a nossa música popular ingressou nas reuniões aristocráticas do Palácio do Catete. A compreensão artística de Nair de Teffé, esposa do presidente Hermes, incluiu-o na última recepção palaciana. Foi, um passo gigantesco para a ascensão da música popular.

Todos sentiam que o ritmo brasileiro estava lançado e fixado por essa força nova que o marcara na música do povo do Rio de Janeiro. Havia nele algo de mais rico, de precioso, de insuperável, que era esse ritmo nosso, inconfundível.

Foi então que surgiu o maxixe. Fusão da polca irrequieta e da habanera ondulante ao calor da sincope africana, o maxixe refletia o nosso temperamento tropical.

Tinha de tudo um pouco. Lúbrico, em excesso, era número picante das revistas licenciosas e a dança lasciva dos bailes carnavalescos.

Como, onde e quando nascera? Ainda é ponto controvertido. Repudiado pelas famílias conservava-se entre a boemia e o Zé de Terceira.

Muitos autores buscavam na expressão tango brasileiro um sucedâneo para o termo que não era bem aceito.

Estava a findar-se o século, quando apareceu um moço — Ernesto Nazareth. Pianeiro apreciadíssimo pelo dedilhado assombroso. Talento musical invulgar.

Deixando-se influenciar pela obra chopiniana compôs mais principalmente — tangos brasileiros, de um repinicado novo, excelente, bem brasileiro. Tanto que às vezes revela Calado em suas produções.

Fez uma preciosa obra pianística e era de técnica tão apurada que só um exímio executor a interpreta com perfeição.

Verdadeiras obras primas para piano, Ernesto Nazaré, fez de suas composições perfeitas interpretações entre a música ligeira e a popular.

Depois de um certo marasmo na música popular Catulo da Paixão Cearense, poeta sertanista de inspiração e rimas prodigiosas, repentista admirável, influenciou grandemente na modernização da modinha.

Quer a toada como a letra de nossas músicas são ricas, por vezes, tão belas que nos assombram. A melodia então é tão bonita, tão torturada, a síncopa ou a sétima abaixada embelezam-na de tal forma que é difícil escrevê-la. Em geral, quem inventa, quem cria nem sempre a escreve. Esse trabalho gigantesco de fixação e embelezamento na nossa música popular cabe a esse verdadeiro gênio musical que é o nosso Pixinguinha (Alfredo Viana).

É ele o autor feliz das mais lindas harmonizações da música carioca.

Não que não crie também e o execute melhor ainda. Pixinguinha, porém, de atividade e modéstia incríveis, vai escrevendo a música de quase todos os compositores, dando um quê extraordinário a tudo que faz.

A instrumentação carioca vem sem querer no Braz Macacão, de Catulo Cearense, quando o caboclo enumera:

Rebeca, frauta, pandero
Crarineta, violão
Uma bandão de cavaquinho
Um oficreide, um gaitero
Que era um cabra mesmo bão Caxambu...
Só falta o recorreco que que não me dava ao acaso do metro.

O som das cantigas das baianas da Favela, da Bahia, que dançavam na casa da tia Ciata ou Aciata encontraram ecos nos moços boêmios daquela geração.

Ernesto Santos — Donga — filho da primeira diretora de rancho, os ouviu com João da Baiana, com J. B. Silva.

Quis trazer o samba que se cantava ali para as ruas do velho Rio. Fez seu samba — Pelo telefone — editou, gravou com o João Gonzaga da Casa Edson e ficou dono do primeiro samba carioca.

Foi, pois, esse grande "chorão" que fez parte dos Oito Batutas, que teve toda uma vida dedicada à música, quem lançou no Rio de Janeiro o samba carioca. J. B. Silva — o Sinhô — deu-se indevidamente por dono do samba. Ótimo compositor, pianeiro da Kananga do Japão, tocando em várias sociedades continuou a compor, a fazer lindas músicas das quais a mais bela foi — Jura — um mimo de melodia que a grande Araci Cortes interpretou magnificamente.

O batuque, o jongo eram músicas do povo, como o era toda a música das serestas. Os chorões e os seresteiros, compositores e intérpretes foram encantando nossa gente com a fascinação de suas produções. Veio o rádio. A propagação se tornou maior. O samba continuou a evoluir.

Um moço modesto e culto, poeta muito inspirado, revelou o lamento dos oprimidos em sambas, que são verdadeiras sátiras de grande filosofia, ritmados, originais, estilizados — Noel Rosa, nome que logo se tornou querido. Em pleno apogeu de uma carreira artística vitoriosa, ceifou-o a morte, deixando um grande vácuo.

Interpretações inimitáveis: Francisco Alves, Carmem Miranda.

Ele brasileiro de voz maravilhosa. Ela, a pequena notável, foi início de uma grande época. Ninguém os substituiu ainda.

Surgiu Ari Barroso, nome acatadíssimo nos meios musicais da cidade.

Ari Barroso compondo, compondo muito, compondo lindamente tornou-se o mais inspirado compositor da nossa terra desde que pintou-a na música em Aquarela do Brasil. Não pára, continua a inspiração a rondar-lhe a inteligência a deixar que produza para a glória da música popular.

Nos tempos atuais quando maior é a luta e a competição, surgem numa alvorada de sons as figuras de Vinicius de Morais e Antonio Carlos Jobim, tentando dar à música popular um tom novo de brasilidade, algo de estranho, muito expressivo, originalíssimo que é bossa-nova do estado da Guanabara.

E nessa luta titânica de produção apuradora, nomes e intérpretes surgem ou desaparecem mas, fica sempre como um marco o esforço do povo em tornar a música do estado da Guanabara, o centro cultural do Brasil, a mais linda e rica música popular do mundo.

(Lira, Mariza. A música popular dos vice-reis do estado da Guanabara. Diário de Notícias.(Rio de Janeiro, 26 de junho de 1961).

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Constelações

Hermes Fontes
Constelações (modinha, 1908) - Cupertino de Menezes e Hermes Fontes - Intérprete: Roberto Roldan

Disco selo: Odeon Record / Título da música: Constellações / Cupertino de Menezes (Compositor) / Hermes Fontes (Compositor) / Roberto Roldan (Intérprete) / Violão (Acomp.) / Nº do Álbum: 120566 / Gravação: 16/Abril/1913 / Lançamento: 1913 / Gênero musical: Modinha / Coleção de Origem: IMS


Constelações, que fulgurais
Iluminai as minhas lágrimas finais
Carbonizai meu coração
Para domar e sufocar
E exterminar essa paixão
Oh! sol crestai, vento esfolhai
Das rosas d’alma as frias pétalas de gelo
A minha vida é um pesadelo
E o pesadelo uma visão
Que pouco a pouco vai roubando-me a razão.

Só é feliz quem não se diz
Saber libar os flébeis beijos do luar
Alma sem luz, vinde sonhar
Ao terno som consolador
Das flautas mágicas do amor
Oh! coração sem ilusões
Que inda bateis, mas não viveis, não tendes vida
Minh’alma é como uma ferida a gotejar sangue de luz
Como a do mártir que morreu pregado à cruz

Quando anoitece, a sombra desce
A voz da prece nos espíritos languesce
Fica a cismar meu pensamento
No firmamento que se fulge num momento
A fulgurar
Quando amanhece, o céu floresce
A loura messe das abelhas estremece
Fica a gemer meu coração, fica a sentir, a palpitar
Como o vulcão na tíbia luz crepuscular

Manhãs de abril, dai-me esta luz
Que ao sonho induz meu coração primaveril
Em ouro e anil se fulge o azul
Sobre o paul em que vivemos num monótono torpor
Como um clarim descanta em mim
Um serafim que marca o fim dos meus pesares
Nos vagalhões de etéreos mares hei de ser navegador
Para sulcar ou naufragar num mar de amor

Oh! corações, como tufões
Passai, voai por sobre todas as paixões
Amai a luz, ò rosicler
Amai as flores, esquecei os vãos amores da mulher
Sois loucos pois, vós todos sois
As mariposas que se vão queimar na chama
Jesus tem pena de quem ama
Indulta amor que tudo quer
Ai! Quanta força tem o amor de uma mulher.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Ao luar


Ao Luar (modinha, 1880) - Catulo da Paixão Cearense - Intérprete: Paulo Tapajós

LP Luar Do Sertão - Paulo Tapajós Com Orquestra E Coro Interpretando Catullo Da Paixão Cearense / Título da música: Ao Luar / Gravadora: Sinter / Ano: 1959 / Nº Álbum: SLP 1770 / Lado A / Faixa 5 / Gênero musical: Modinha.



Vê que amenidade,
que serenidade
tem a noite, em meio,
quando, em brando enleio,
vem lenir o seio
de algum trovador!
O luar albente
que do bardo a mente
no silêncio exalta,
chora a tua falta
rutilante estrela
de eteral candor!

Minha lira geme
no concento extreme
que a Saudade inspira!
Vem ouvir a lira,
que, sem ti, delira
nesta solidão!
Vem ouvir meu canto
no fluir do pranto,
com que a dor rorejo!
Lacinante harpejo,
que das fibras tanjo
deste coração!
nosso amor fanado,
quando, eu, a teu lado,
mais que aventurado
por te amar vivi!
Quero a fronte tua
ver à luz da lua
resplandente e bela!
Descerra a janela
que eu durmo as noites,
só pensando em ti!

Dá-me um teu conforto,
que este afeto é morto
que me consagravas...
quando protestavas,
quando me juravas
eviterno amor!
Vem um só momento
dar ao pensamento
radiosa imagem
depois, na miragem,
deixa, eu tua ausência,
cruciar-me a dor!

De saudade o dardo
vem ferir do bardo
o coração silente!
Esta dor latente
só na campa algente
poderá findar!
Mas se ainda o peito
palpitar no leito
de eternal abrigo,
hei de só, contigo,
sob a lousa, em sono
funeral, sonhar. 

quarta-feira, 29 de março de 2006

Elvira escuta

Elvira escuta - José Marcelo de Andrade - Adaptação e interpretação: Luiz Cláudio



Tom: Lá maior.
        A     A7         D
Elvira escuta os meus gemidos
               E7            A    A7
Que aos teus ouvidos irão chegar.    
              D                A
Não sejas traidora, tem dó de mim
            E7                 A
Tem dó dest´alma que te sabe amar. 

          A    A7         D
Se tu me amas como eu te amo
         E7                A     A7
Eu te prometo não te desprezar.
              D               A
Não sejas traidora tem dó de mim
            A7                 A
Tem dó dest’alma que te sabe amar. 

       A             D
Teu coração é um rochedo
         E7           A    A7
Este rochedo é meu penar.
              D               A
Não sejas traidora tem dó de mim  
            A7                 A
Tem dó dest’alma que te sabe amar.

       A      A7      D
Sobe a escada bem devagar
        E7             A
Elvira dorme, pode acordar.
               D              A
Não sejas traidora tem dó de mim
            A7                 A
Tem dó dest’alma que te sabe amar. 

       A       A7        D
Ainda mesmo depois de morta
      E7              A    A7
A tua face eu irei beijar.
              D               A
Não sejas traidora tem dó de mim
            A7                 A
Tem dó dest’alma que te sabe amar 

Amo-te muito

João Chaves
Amo-te muito (modinha, 1910) - João Chaves - Interpretação de Berenice Chaves



-------------C--- G7
Amo-te muito
C
Como as flores amam
-------------------------Ebo---- G7
O frio orvalho que infinito chora
-------------Dm A7
Amo-te como
-----------------Dm--- Dm/C
O sabiá da praia
---------------G7----------------------- C--- C7
Numa sangüinea e deslumbrante aurora

-------------------F ----G7
Oh não te esqueças
------------------C---- A7
Que te amo assim
-------------------Dm---------- G7---- C--- (C7)
Oh não te esqueças nunca mais de mim (bis)

--------------C---- G7
Amo-te muito
-----------------------C
Como a onda, a praia
--------------------------Ebo---- G7
Que a praia, a onda a vem beijar
-------------Dm A7
Amo-te tanto
---------------------Dm ----Dm/C
Como a branca pérola
----------------G7---------------- C C7
Numas entranhas do infinito mar

---------------------F ---G7 ----------C ---A7
Oh não te esqueças que te amo assim
-------------------Dm --------G7-------- C (C7)
Oh não te esqueças nunca mais de mim

É a ti flor do céu

É a ti, flor do céu (modinha) - Teodomiro Alves Pereira e Modesto A. Ferreira - Interpretação: Zé Renato e Wagner Tiso:



É a ti flor do céu que me refiro
Neste trino de amor nesta canção
Vestal dos sonhos meus, por quem suspiro
E sinto palpitar meu coração

Oh! dias de risonha primaveras
Oh! noites de luar que tanto amei
Oh! tardes de verão ditosa era
Em que junto de ti amor gozei

Não te esqueças de mim por piedade
Um só dia, um só instante, um só momento
Não me lembro de ti sem ter saudades
Nem podes me fugir do pensamento

Quem me dera outra vez este passado
Esta quadra ditosa em que vivi
Quantas vezes eu na lira debruçado
Cantando em teu colo adormeci.

terça-feira, 21 de março de 2006

Quem sabe?

Carlos Gomes
Carlos Gomes ficou reconhecido internacionalmente como compositor de óperas. O que pouca gente sabe é que ele compôs a partir de um universo bastante diversificado, bem próprio de seu estilo, influências e contexto histórico. No seu repertório encontramos música sacra, modinhas, cantatas e operetas. Quando ouvimos suas modinhas nos lembramos de sua origem interiorana, das festas de salões em volta do piano, dos saraus lítero-musicais tão freqüentes no Rio e São Paulo do século XIX.

Nas modinhas e canções de Carlos Gomes encontramos um pouco do lirismo francês e muito dos tons humorísticos das canções italianas, sobretudo a forte presença do estilo verdiano, tão em voga no ensino musical da época. Da sua primeira fase, ainda como estudante de música, destacamos os títulos mais famosos: Hino acadêmico e Quem Sabe? ambas de 1859. A grande parte dos textos musicados por Carlos Gomes eram de caráter romântico, realçando o estilo melodramático, típico das árias de salão.

Quem sabe? (modinha, 1859) - Antônio Carlos Gomes e Bittencourt Sampaio - Interpretação: Francisco Petrônio

LP Uma Voz E Um Violão Em Serenata - Vol. 4 - Francisco Petrônio e Dilermando Reis / Título da música: Quem Sabe / Antônio Carlos Gomes (Compositor) / F. L. Bittencourt Sampaio (Compositor) / Francisco Petrônio (Intérprete) / Dilermando Reis (Intérprete) / Gravadora: Grand Prix/Continental / Nº do Álbum: GPLP 70.004 / Ano: 1970 / Gênero musical: Modinha



---------C -------------------------------------------------------G7
Tão longe de mim distante / Onde irá, onde irá teu pensamento
-----------------------------------------------------------------C
Tão longe de mim distante / Onde irá, onde irá teu pensamento
-----E7-------------- Am------ G7----------- C
Quisera, saber agora / Quisera, saber agora
--------------F-------------- C---------- G7--------------- C
Se esqueceste, se esqueceste / Se esqueceste o juramento.
-----------G--------------- D7-------------------------------- G
Quem sabe se és constante / Se ainda é meu teu pensamento
-----------G7----------- C------------- D7---------------------------- G G7
Minh’alma toda devora / Dá a saudade dá a saudade agro tormento
---------C------------------------------------------------------- G7
Tão longe de mim distante / Onde irá onde irá teu pensamento
-----------------------------------------------------------------C
Quisera saber agora / Se esqueceste se esqueceste o juramento.

domingo, 12 de março de 2006

A modinha


Nascida no Brasil no século XVII, a modinha teve seu primeiro momento de glória na década de 1770, quando foi apresentada na corte de Lisboa pelo poeta, compositor, cantor e violeiro Domingos Caldas Barbosa (1740-1800). O grande sucesso alcançado pelo gênero – denominado modinha para diferenciar-se da moda portuguesa – levou músicos eruditos portugueses a cultivá-lo, só que de forma requintada, adicionando-lhe características da música de ópera italiana. Assim, aproximaram a cantiga colonial das árias portuguesas, praticamente transformando-a em canção camerística.


Foi com esse feitio que ela voltou ao Brasil no início do século XIX. Ao mesmo tempo suave e romântica, chorosa quase sempre, a modinha seguiu então pelo resto do século como o nosso melhor meio de expressão poético-musical da temática amorosa. Composta geralmente em duas partes, com predominância do modo menor e dos compassos binário e quaternário, a modinha do período imperial jamais se prendeu a esquemas rígidos, primando pelas variações.

O primeiro modinheiro a se destacar no começo dos oitocentos foi o compositor Joaquim Manoel da Câmara, morto por volta de 1840. Exímio violonista e cavaquinista, ele impressionava a todos que o ouviam, inclusive o músico austríaco Sigismund Neukomm, professor de Pedro I, que harmonizou vinte de suas modinhas. Joaquim Manoel deixou várias peças de qualidade como Se Me Desses Um Suspiro, Desde o Dia em Que Nasci e A Melancolia, tendo esta servido de tema para a fantasia L'Amoreux, de Neukomm.

Da mesma época é o compositor Cândido José de Araújo Viana, o Marquês de Sapucaí, hoje nome da avenida carioca que se transformou a passarela das escolas de samba. De vida longa (1793-1875), este mineiro de Sabará exerceu funções importantíssimas no Império, tendo sido deputado, senador conselheiro, desembargador, ministro de estado e presidente de Alagoas e do Maranhão. Apesar de todos esses encargos, o marquês ainda arranjou tempo para dedicar-se à música, sendo de sua autoria algumas composições de sucesso, como as modinhas Mandei um Eterno Suspiro e Já Que a Sorte Destinara. Não seria ele, porém, o nosso único personagem histórico a se interessar por música. O imperador Pedro I, além de razoável compositor, tinha boa voz e gostava de cantar modinhas.

Mas o maior "modinheiro" dessa geração foi o violinista, cantor, poeta e compositor Cândido Inácio da Silva. Nascido no Rio de Janeiro em 1800, estudou com o padre José Maurício, que o orientou em sua trajetória artística. São de sua autoria modinhas como Cruel Saudade, A Hora Que Não Te Vejo, Um Só Tormento de Amor e as famosas Busco a Campina Serena e Quando as Glórias Eu Gozei, publicadas em Modinhas Imperiais, de Mário de Andrade, que o considerava o Schubert brasileiro. Cândido compôs ainda valsas e lundus e mais não fez por que a morte o surpreendeu aos 38 anos.

Entre os numerosos autores de modinhas na primeira metade do século XIX, podem ainda ser citados Quintiliano da Cunha Freitas, Lino José Nunes, Francisco da Luz Pinto, os padres Augusto Baltazar da Silveira e Guilherme Pinto da Silveira Sales, além dos eruditos – como o padre José Maurício (1786-1830), Francisco Manoel da Silva (1795-1865), Domingos da Rocha Mussurunga (1807-1856) – que eventualmente compuseram obras do gênero.

Pertence ainda ao período um vasto repertório de modinhas de autores desconhecidos, sendo algumas delas de ótima qualidade, como é o caso de Vem Cá Minha Companheira, Se Te Adoro, Vem a Meus Braços, Róseas Flores da Alvorada, Deixa Dália, Flor Mimosa e Acaso São Estes (que ganhou letra de Tomás Antônio Gonzaga), famosas depois de sua publicação na citada coletânea Modinhas Imperiais.

No fim do século XIX e início do XX, renovada por músicos do povo e sob a forma de canção ternária, assimilada da valsa, a modinha viveu sua fase de maior popularidade, ganhando as ruas como música serenata. Um dos principais responsáveis por essa popularização foi o mulato baiano Xisto Bahia (1841-1894), que além de ser bom ator, notabilizou-se como cantor e compositor de modinhas e lundus. São de sua autoria, por exemplo, A Mulata (com Melo Moraes Filho) e Quis Debalde Varrer-te da Memória (com Plínio de Lima), duas das modinhas mais conhecidas de todos os tempos. Outros sucessos que também marcaram o fim do século foram Na casa branca da serra (Guimarães Passos e J. C. de Oliveira), Perdão Emília (José Henrique da Silva e Juca Pedaço), Gondoleiro do amor (Salvador Fábregas e Castro Alves), Mucama (Gonçalves Crespo), Quem Sabe? (Carlos Gomes), Elvira escuta (anônimo) Foi Uma Noite Calmosa (anônimo) e O Bem-Te-Vi (Miguel Emídio Pestana e Melo Moraes Filho).

Ainda por essa época, celebrizou-se no Rio de Janeiro o maranhense Catulo da Paixão Cearense (1866-1946), pródigo letrista que abarrotou a praça com dezenas de composições. Incapaz de musicar os seus rebuscados poemas, Catulo especializou-se em fazer versos para música alheia de sucesso, transformando em modinhas a maioria. É esse repertório – Talento e Formosura (com Edmundo Otávio Ferreira), Choro e Poesia (Ontem ao Luar) (com Pedro de Alcântara), Clélia (Ao Desfraldar da Vela) (com Luiz de Souza), Terna Saudade (Por um Beijo) e Iara (Rasga o Coração) (com Anacleto de Medeiros) e outras mais – que a então iniciante indústria do disco no Brasil iria comercializar com bastante sucesso nos primeiros 20 anos do século XX.

Ao chegar a era do rádio, com o crescimento da valsa romântica, muitas vezes classificada como canção, a modinha quase desapareceu, figurando vez por outra nas obras de alguns compositores como Vinícius de Moraes (Modinha, com Tom Jobim, e Serenata do adeus) e Chico Buarque (Até pensei).


Fonte: Modinha, a música do amor de outrora - Jairo Severiano.