terça-feira, 4 de novembro de 2008

Madureira chorou

Zaquia Jorge teve morte trágica, na praia da Barra da Tijuca, quando tomava banho de mar em companhia de várias outras artistas. Era comum as vedetes se bronzearem 'al natural' na Barra, por ser uma praia deserta na época. A edição do jornal O Globo de 23 de abril de 1957 assim noticiou a morte de Zaquia Jorge:

"Rapidamente, a notícia foi propagada, e grande número de atores da Companhia da Revista Zaquia Jorge e de outras empresas chegou ao local. Em poucos instantes as brancas areias da praia foram pisadas por centenas de pés, já que também foi grande o número de curiosos que acorreu.

Quando um guarda-vidas retirou, do perau em que caíra, o corpo da vedete, Celeste Aída, uma das que a acompanhavam, abraçou-se ao cadáver, chorando copiosamente. Celeste Aída vira a amiga desaparecer e tudo fizera para salvá-la, não o conseguindo porque era muito fundo o perau. Enquanto ela se esforçava, os dois homens que integravam o grupo e que estavam longe aproximaram-se. Na areia, muito assustadas, cinco girls assistiam à luta de Celeste Aída, sem poder ajudá-la.

Afinal, cansada e desanimada, Celeste Aída voltou às areias, Zaquia Jorge desaparecera e, quando foi encontrada, já estava quase sem vida. Morreu pouco depois..."

"Foi sepultada no Cemitério de São Francisco Xavier, pranteada por artistas e populares, que a reverenciaram como a pioneira do teatro suburbano carioca. Das 6h às 16h30m de ontem, mais de 4.000 pessoas afluíram ao Teatro de Madureira, em cujo palco ficou exposto o corpo da artista. Com a platéia e os balcões apinhados, o ambiente fazia lembrar um grande dia de récita. Contudo, a emoção do público era intensa, guardando os presentes muito respeito.

No palco, no alto, por cima do caixão de Zaquia Jorge, havia um grande quadro de São Jorge. A artista morrera na véspera do dia consagrado ao santo. Ontem fazia cinco anos que inaugurara seu teatro, com a peça Trem de luxo, de Válter Pinto e Freire Júnior. 

Sobre uma fileira de dez cadeiras havia dezenas de coroas entre elas, do Teatro Santana (São Paulo), do Corpo de Bombeiros, das escolas de samba Sampaio e Império Serrano, de inúmeras entidades e figuras da arte e de outros setores. O povo humilde do subúrbio formou filas, subindo ao palco para dar seu último adeus a Zaquia Jorge..."

Em sua homenagem foi composta a música "Madureira chorou", um samba de sucesso no carnaval de 1958.

Madureira chorou (samba, 1958) - Carvalhinho e Julio Monteiro (marido de Záquia) - Intérprete: Joel de Almeida

Disco 78 rpm / Título da música: Madureira chorou / Carvalhinho (Compositor) / Monteiro, Júlio (Compositor) / Almeida, Joel de, 1913-1993 (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1957 / Nº Álbum 14262 / Gênero musical: Samba.



Madureira chorou,
Madureira, chorou de dor,
Quando a voz do destino,
Obedecendo ao divino,
A sua estrela chamou.

Gente modesta,
Gente boa do subúrbio,
Que só comete distúrbio,
Se alguém os menosprezar,
Aquela gente,
Que mora na Zona Norte,
Até hoje, chora a morte,
Da estrela do lugar.



Fonte: Matéria publicada no jornal O Globo - 23 de abril de 1957

Fanzoca de rádio

Fanzoca de Rádio (marcha/carnaval, 1958) - Miguel Gustavo - Intérprete: Carequinha

Disco 78 rpm / Título da música: Fanzoca de rádio / Gustavo, Miguel (Compositor) / Carequinha (Intérprete) / Carrilho, Altamiro, 1924- (Acomp.) / Carnavalescos (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Copacabana, Indefinida / Nº Álbum 5845 / Gênero musical: Marcha.



Ela é fan da Emilinha
Não sai do César de Alencar
Grita o nome do Cauby
E depois de desmaiar
Pega a Revista do Rádio
E começa a se abanar.
(bis)

É uma faixa aqui, outra faixa ali
O dia inteirinho ela não quer nada
Enquanto isso na minha casa
Ninguém arranja uma empregada!

Eu chorarei amanhã

Orlando Silva
Eu chorarei amanhã (samba/carnaval, 1958) - Raul Sampaio e Ivo Santos - Intérprete: Orlando Silva

Disco 78 rpm / Título da música: Eu chorarei amanhã / Santos, Ivo (Compositor) / Sampaio, Raul (Compositor) / Silva, Orlando (Intérprete) Imprenta [S.l.]: Odeon, 1957 / Nº Álbum 14302 / Gênero musical: Samba.


Tom: D

(D  G  A7  D  B7  Em7  A7  D  A7)

D       B7     Em7
Eu chorarei amanhã
A7          A/G      D
Hoje eu não posso chorar
        B7     Em7
Eu chorarei amanhã
A7          A/G      D     D7
Hoje eu não posso chorar

   G         Fº      Em7
Um dia é pra gente sofrer
  A7        F#m7   B7
O outro é pra desabafar
D       B7     Em7
Eu chorarei amanhã
A7            A/G        D
Hoje o que eu quero é sambar

Engole ele paletó

Samba de J. Audi e David Nasser de grande sucesso no carnaval de 1958, lançado em janeiro desse ano nas gravações do Trio de Ouro (RCA Victor) e João Dias (Copacabana), esta última aqui ouvida, em disco de 78 rpm 5854-A, matriz M-2073, que gerou polêmica e briga na justiça entre alguns grandes compositores de nossa MPB (ao lado o Vasco vai enfrentar um time da cidade de Bicas - Jornal Última Hora, 1958).

O compositor Antônio Almeida, com o apoio da UBC, ingressou na justiça contra o que considerou este samba um "plágio deslavado" de O que é que dou?, de sua autoria e do baiano Dorival Caymmi, gravado por Jorge Veiga em 1947. No final de janeiro de 1958, Caymmi, ausente do Rio, cumprindo sua agenda profissional na Bahia, recebeu um telegrama pedindo uma procuração sua, para dar início à busca e apreensão do disco. No entanto, Edigar de Alencar, em seu livro O carnaval carioca através da música, quando menciona Engole ele, paletó e seu autor assinala o samba como sendo de autoria discutida.

Na coluna de Stanislaw Ponte Preta e Lan, (charge ao lado) do Jornal Última Hora de 14/02/1958, relata o caso com bastante humor: "Em virtude do fundamentado despacho do Juiz Alcino Pinto Falcão, procedeu-se ontem à tarde, a busca e apreensão da música de carnaval "Engole ele, paletó", havida como cópia servil de outra, isto é, do samba de Dorival Caymmi e Antônio Almeida - "O que é que eu dou". 

E quem é o autor do plágio? Pois é Herivelto Martins (um dos dez mais apitos de 57), que já deu entrevista dizendo que "Engole ele" é plágio de um plágio, pois a música plagiada era plágio, não do plágio que se quer, mas de uma outra música plagiada pelos que lhe acusam de plagiador.

É, companheiros... nem só de teleco-teco vive o samba!."

Se os autores do suposto plágio são J. Audi e David Nasser, o que tem a haver Herivelto Martins, que apenas interpretava no Trio de Ouro, citado na coluna acima? As primeiras gravações, os discos, esgotaram-se rapidamente, tamanho o sucesso. Engole eu, confusão!

Engole ele paletó (samba/carnaval, 1958) - J. Audi e David Nasser - Interpretação de João Dias

Disco 78 rpm / Título da música: Engole ele, paletó / Audi, J (Compositor) / Nasser, David (Compositor) / Dias, João (Intérprete) / Imprenta [S.l.]: Copacabana, 1958 / Nº Álbum 5854 / Lado A / Matriz M-2073 / Gênero musical: Samba.



Engole ele / Engole ele, paletó
Engole ele, paletó / Que o dono dele era maior.

Paletó de gente pobre / Não tem tamanho nem cor
No verão é guarda-chuva / No inverno é cobertor.

Gente rica quando morre / Papai do céu quem levou
Gente pobre quando morre / Foi bebida quem matou.



Fontes: Jornal Última Hora, de 14/02/1958; Dorival Caymmi – O Mar e o Tempo – Editora 34, de Stella Caymmi; Samuel Machado Filho (Youtube).