segunda-feira, 19 de junho de 2006

Carcará

João do Vale
João do Vale já tinha mais de dez anos de Rio de Janeiro e várias músicas gravadas — algumas em seu nome, outras em nomes de terceiros quando Cartola o convidou a frequentar o Zicartola. Era uma oportunidade para ele mostrar seu repertório, pois lá os compositores podiam cantar à vontade.

E foi naquele ambiente que surgiu a idéia do “Opinião”, um musical de protesto contra a ditadura recém-instalada. O espetáculo — cuja autoria era de Paulo Pontes, Ferreira Guliar, Armando Costa e Oduvaldo Viana Filho e a direção de Augusto Boal — juntava um compositor urbano (Zé Keti), um nordestino (João do Vale) e uma moça da alta classe média (Nara Leão), três personagens bem diferentes e uma só opinião.

Encenado no então Teatro de Arena, em Copacabana, a partir de 10.12.64, mostrava canções contestadoras, como “Carcará”, lançada por Nara, mas que acabaria consagrando a estreante Maria Bethânia, que assumiu o seu papel em 13.2.65, permanecendo até o final da temporada.

“Carcará” é a mais conhecida composição da obra impregnada de realismo do rude maranhense João do Vale, um observador profundo da paisagem e da vida nordestina. Um tipo de gavião (“grande, do tamanho de um galo”, assegura João), o carcará, ou caracará, sabe superar os problemas de sobrevivência, porque ao sentir fome “pega, mata e come”, e quando em perigo “avoa que nem avião”. Valente e decidido, “mais coragem do que home”, o carcará simboliza o ideal libertário da canção.

Um dos momentos mais explosivos do número era o trecho discursivo, com informações sobre dados estatísticos de caráter social, exaltado numa crescente e proposital agressividade de Bethânia, que produzia um efeito ameaçador. Isso prenunciava seu pendor para a declamação de textos dramáticos, uma característica marcante de seu estilo.

Detalhe: o tal trecho declamado — “1950, mais de dois milhões de nordestinos viviam fora de seus estados natais. 10% da população do Ceará emigrou; 13% do Piauí; 15% da Bahia; 1% de Alagoas...” — foi copiado de um relatório da Sudene. Outro enxerto utilizado no arranjo é um pequeno trecho da “Missa Agrária”, de Carlos Lira e G. Guarnieri (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).



Carcará (canção, 1965) - João do Vale e José Cândido - Interpretação de Maria Bethânia
Tom: D  

Em
Carcará / Lá no sertão
É um bicho que avoa que nem avião
                A7
É um pássaro malvado
               B7                Em
Tem o bico volteado que nem gavião
Carcará
       A7             Em7
Quando vê roça queimada
                A7
Sai voando, cantando,
      Em
Carcará
       A7        Em
Vai fazer sua caçada
               A7          Em
Carcará come inté cobra queimada
                 A7           Em
Quando chega o tempo da invernada
                   A7           Em
O sertão não tem mais roça queimada
                A7           Em
Carcará mesmo assim num passa fome
                 A7           Em
Os burrego que nasce na baixada
Carcará
A7           Em
Pega, mata e come
Carcará
A7                  Em
Num vai morrer de fome
Carcará
A7                   Em
Mais coragem do que home
Carcará
A7             Em
Pega, mata e come
              A7           Em
Carcará é malvado, é valentão
              A7           Em
É a águia de lá do meu sertão
               A7              Em
Os burrego novinho num pode andá
            A7           Em
Ele puxa o umbigo inté matá
Carcará
A7             Em
Pega, mata e come
Carcará
        A7           Em
Num vai morrer de fome
Carcará
          A7           Em
Mais coragem do que home
Carcará
 A7             Em
Pega, mata e come
 
 

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