quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Garota de Ipanema

 O Tamba Trio foi um dos grupos mais importantes da bossa nova, caracterizou-se pela sofisticação na concepção musical e nos arranjos. Com microfones presos às lapelas, destacavam as realizações vocais que acrescentavam aos ricos arranjos instrumentais. Sua formação: Luís Eça, piano, Hélcio Milito, bateria, Bebeto Castilho, baixo e sopros. Estrearam em 1962 no Bottle's Bar, Beco das Garrafas.

Em depoimento para a revista Manchete, em 1965, Vinícius de Moraes conta como conheceu a garota de Ipanema: “Seu nome é Heloísa Eneida Pais Pinto, mas todos a chamam de Helô (Helô Pinheiro, depois de casada). Há três anos, ela passava ali no cruzamento de Montenegro e Prudente de Morais, e nós a achávamos demais. De nosso posto de observação, enxugando a nossa cervejinha, Tom e eu emudecíamos à sua vinda maravilhosa. (...)

E lá ia ela toda linda, a garota de Ipanema, desenvolvendo no percurso a geometria espacial de seu balanceio quase samba. (...) Para ela fizemos, com todo o respeito e mudo encantamento, o samba que a colocou nas manchetes do mundo inteiro e fez da nossa querida Ipanema uma palavra mágica para os ouvintes estrangeiros.”

Naquele 1962 em que a canção foi feita, a bela Heloísa tinha quinze anos e passava realmente todos os dias pelo bar Veloso, situado na mesma rua Montenegro onde ela morava. Naturalmente, sabia-se admirada pelos freqüentadores do bar, pois nas vezes em que lá entrava era saudada pelos assovios de praxe. O que não sabia era que tinha sido a inspiradora de “Garota de Ipanema”, segredo só revelado pelos autores em 1965.

Mas, se a visão da musa aconteceu no Veloso, a criação do samba teve lugar noutros ambientes e em etapas distintas. Inicialmente, em Petrópolis, Vinícius aprontou-lhe a letra, até com certa dificuldade, tendo composto duas versões, para aproveitar a segunda (a primeira chamava-se “A Menina que Passa”). Em seguida, foi a vez de Tom musicar o poema, tarefa também trabalhosa, que ele realizou em sua então nova moradia na rua Barão da Torre. Ao final, o compositor deu a “Garota de Ipanema” uma de suas mais originais melodias, igualmente alegre e triste, bem de acordo com a letra que exalta a beleza radiante da moça que passa, ao mesmo tempo em que lamenta a solidão do poeta, condenado a admirá-la à distância.

Destinada a uma comédia chamada “Blimp”, jamais concluída por Vinícius, “Garota de Ipanema” acabou sendo lançada no show “Encontro”, que estreou em 2 de agosto de 62 e permaneceu 45 dias em cartaz na boate Au Bon Gourmet, em Copacabana. Este espetáculo reuniu pela única vez num palco os três grandes da bossa nova — Antônio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto — mais o conjunto Os Cariocas, e lançou, além de “Garota de Ipanema”, “Só Danço Samba” e “Samba do Avião”, sendo a primeira e a segunda as últimas canções da dupla Tom - Vinícius. Todas essas composições saíram em disco no início de 63, tendo Pery Ribeiro, Os Cariocas e o Tamba Trio a primazia de gravarem “Garota de Ipanema”.

Em abril, Tom Jobim a apresentava aos americanos no elepê The composer of Desafinado plays. Ao final do ano, a Verve lançou o single de Astrud Gilberto e Stan Getz, disco que vendeu milhões e estabeleceu o prestígio internacional de “The Girl from Ipanema”, título da versão do letrista Norman Gimbel. Amadora até então, Astrud encantou os americanos pela simplicidade e a ausência da afetação das cantoras de experiência formal. Esse single e o álbum Getz / Gilberto, que contém a gravação integral com a participação de João Gilberto cantando em português, receberam quatro prêmios Grammy: melhor single, melhor álbum, melhor performance de jazz instrumental e melhor gravação.

Em meados dos anos noventa, “Garota de Ipanema” ostentava uma discografia de centenas de gravações, com intérpretes das mais variadas tendências, não apenas na área nacional — Astrud, Baden Powell, Os Cariocas, Cauby Peixoto, Dick Farney, Elis Regina, Eumir Deodato, Hermeto Pascoal, João Gilberto, Leny Andrade, Leila Pinheiro, Lúcio Alves, Nara Leão, Tim Maia —, mas, principalmente, na internacional em que, além dos habituais intérpretes da obra jobiniana — Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Stan Getz, Sara Vaughan, Charlie Byrd — ressaltam figuras como Anita O’Day, Al Jarreau, Erroll Garner, Earl Hines, Herbie Mann, Louis Armstrong, Nancy Wilson, Nat King Cole, Oscar Peterson, Peggy Lee, Stephane Grappelli, Vic Damone e muitos outros (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Garota de Ipanema (samba bossa, 1963) - Vinícius de Moraes e Tom Jobim - Intérprete: Tamba Trio


F7M                                     G7/6 
Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça 
          G7/5+              Gm7 
É ela a menina que vem e que passa 
            C7/9-               F7M   Dm7/9+   Gm7   C7/9+ 
Num doce balanço, caminho do mar 
F7M                                 G7/6 
Moça do corpo dourado, do sol de Ipanema 
           G7/5+                 Gm7 
O seu balançado é mais que um poema 
               C7/9-                F7M 
É a coisa mais linda que eu já vi passar 
F#7M                    B7/9 
Ah, por que estou tão sozinho? 
A7M                    D7/9 
Ah, por que tudo é tão triste? 
Bb7M            Eb7/9 
Ah, a beleza que existe 
    Am7               D7/9- 
A beleza que não é só minha 
Gm7                  C7/9- 
Que também passa sozinha 
F7M                                G7/6 
Ah, se ela soubesse que quando ela passa 
           G7/5+               Gm7 
O mundo sorrindo se enche de graça 
           C7/9-                 F7M    F#7+ 
E fica mais lindo por causa do amor 
               F7M 
Por causa do amor 
 
 

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