segunda-feira, 6 de novembro de 2017

A realidade indesejada: o bêbado e a equilibrista

Nossos compositores sempre tiveram o costume de registrar em música e verso acontecimentos relevantes, às vezes nem tanto, da vida brasileira. Um rápido exame do repertório nacional encontrará revoluções, campanhas políticas, feitos de brasileiros e outros fatos inspirando canções de crítica ou louvação. Nem mesmo a censura ferrenha de duas ditaduras foi capaz de impedir essa prática, muitas vezes disfarçada pelo uso de imagens alegóricas.

Este é o caso de “O Bêbado e a Equilibrista”, uma notável composição de João Bosco e Aldir Blanc, que focaliza uma promessa de abertura democrática, na ocasião cercada de incertezas. Parodiando a forma de um samba enredo, a canção descreve uma cena patética em que dois personagens — o bêbado e a equilibrista — movimentam-se ridiculamente num fim de tarde sombrio — “E nuvens / lá no mata-borrão do céu / chupavam manchas torturadas”. O bêbado, trajando luto e lembrando a figura de Carlitos — “Fazia irreverências mil / pra noite do Brasil / (...) / que sonha / com a volta do irmão do Henfil / e tanta gente que partiu” — ou seja, para a situação brasileira da época. Já a equilibrista era — “A esperança (que) dança / na corda bamba de sombrinha (e) em cada passo dessa linha / pode se machucar” — o que correspondia à expectativa ansiosa de um projeto de êxito imprevisível.

E a canção prossegue, utilizando conscientemente o mau-gosto e o lugar-comum como forma chocante de expressar a crítica a uma realidade indesejada — “Chora / a nossa pátria, mãe gentil / choram Marias e Clarisses / no solo do Brasil”. Diga-se de passagem, que “o irmão do Henfil” e as “Clarisses” citados nos versos referem-se a personagens reais, sendo o primeiro o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, irmão do cartunista Henfil, na época exilado, e a segunda, Clarisse, viúva do jornalista Wladimir Herzog, enforcado numa prisão da ditadura, em São Paulo.

“O Bêbado e a Equilibrista” foi lançado por Elis Regina em junho de 79, numa gravação orquestrada e dirigida por César Camargo Mariano, integrante do elepê Elis, essa mulher, o primeiro da cantora na gravadora WEA (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

O Bêbado e a Equilibrista (1979) - João Bosco e Aldir Blanc - Intérprete: Elis Regina

LP Elis, Essa Mulher / Título da música: O Bêbado E A Equilibrista / João Bosco (Compositor) / Aldir Blanc (Compositor) / Elis Regina (Intérprete) / Gravadora: WEA / Ano: 1979 / Nº Álbum: BR 36.113 / Lado A / Faixa 2 / Gênero musical: Samba.


Intro.: A7M

A7M
Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
C#m7(b5)   F#7     Bm7    F#7(b13)
Me      lembrou Carlitos
Bm7                              D7M
A  lua, tal qual a dona de um bordel
E7(9)
Pedia a cada estrela fria
Bm7   E7(9)  C#m7 Cm7 Bm7 E7(9)
Um brilho de  alu------guel

A7M                            C#m7
E nuvens, lá no mata-borrão do céu
   Em/G                  F#7
Chupavam manchas tortura----das
C#m7(b5)    F#7  Bm7
Que su---foco
Dm7    G7(13)                    D#º
Louco,       o bêbado com chapéu-coco
A7M         F#7         B7(13) B7(b13)
Fazia irreverências mil
Bm7  E7(9)  A7M         E7(9)
Pra noite do   Bra----sil, meu Brasil

A7M
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
C#m7(b5)  F#7   Bm7   F#7(b13)
Num rabo      de  foguete
Bm7                          D7M
Chora a nossa pátria, mãe gentil
E7(9)
Choram Marias e Clarices
Bm7  E7(9)  C#m7 Cm7 Bm7 E7(9)
No solo do   Bra----sil

A7M                       C#m7
Mas sei que uma dor assim pungente
Em/G                 F#7
Não há de ser inutilmen----te
C#m7(b5)     F#7  Bm7
A espe---rança
Dm7   G7(13)                        D#º
Dança        na corda bamba de sombrinha
A7M           F#7         B7(13) B7(b13)
E em cada passo dessa linha
Bm7      E7(9)     F#7
Pode se ma----chu----car

Dm7  G7(13)                   D#º
Azar,       a esperança equilibrista
A7M            F#7            B7(13) B7(b13)
Sabe que o show de todo artista
Bm7         E7(9)    A7M
Tem que conti---nu-----ar...

domingo, 4 de junho de 2017

Acessos Principais


Biografias dos artistas que contribuíram e fizeram a História de nossa MPB no século XX. Cronologia de sucessos do final do século XIX até 1985, com várias letras cifradas para violão, incluindo artigos sobre festivais da canção, danças, ritmos, folclore e teatro. Localize abaixo artista, artigo, dança, folclore ou instrumento musical:


















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Cronologia da MPB

Grupo de chorões do Rio de Janeiro, com Sinhô no centro (Festa da Penha, 15/11/1916).


A História da MPB com as músicas que se destacaram ano por ano até 1985. Em muitos casos a música aparece no ano em que fez sucesso e não quando foi feita. Um exemplo disso é a música "Carinhoso" composta por Pixinguinha em 1917 e que aparece em 1937, porque esse foi ano em que se destacou com o público:


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Destaques para Julho/2014

Neiva Gomes e a paixão pelo tango
— "O tango argentino (1) é grande, mas o samba é maior" — Palavras de Neiva Gomes (2) a CARIOCA. "A gente lê nos olhos de Neiva Gomes a nostalgia das coxilhas gaúchas. Eles são grandes, e límpidos; parecem espelhar a imensidão verde dos pampas. Sua voz...

Muraro: o tango e o foxtrote
Considerações sobre o tango e o fox a propósito do espírito nacional — Eriberto Muraro fala ao semanário "Carioca" de julho de 1937. "No Brasil o tango argentino e o foxtrote gozam de um prestígio imenso e permitem classificar duas psicologias...

Bidu Reis na Rádio Nacional
"Se viéssemos dizendo que Edila Luiza Reis é uma pequena muito interessante, os leitores ficariam intrigados. Porque tal nome é estranho ao noticiário dos jornais. Basta, todavia, uma simples explicação de nossa parte, para que tudo entre na linha e o bonde siga...

Figuras de cartaz: Dilu Melo
"Outro dia eu vi Dilu Melo na Mayrink Veiga. Estava dentro de um cubículo aprendendo uma canção que a Sylvinha lhe ensinava. As duas possuem os olhos pequeninos, tem Melo no sobrenome, cantam no rádio, e se dedicam a gêneros semelhantes. — Aquela é a Dilu...

Alvarenga, Ranchinho e Capitão Furtado
"O Capitão Furtado juntamente com Ranchinho e Alvarenga constitui um magnífico terceto que interpreta o nosso folclore em todas as suas manifestações. São paulistas e em São Paulo iniciaram suas carreiras que no entretanto somente tiveram pleno desenvolvimento...

Figuras de cartaz: Orlando Silva
"Orlando Silva é um nome da Rádio Nacional, de renome internacional. Sua fama de intérprete da voz macia já voou célere por todo o Brasil e foi até as capitais platinas onde também há mulheres sonhadoras capazes de compreender que o samba é o presidente...

Radamés Gnatalli e o Congresso Radiofônico
O grande maestro Radamés Gnatalli, numa foto da Carioca de 3/7/1937. "No Brasil é recente o cultivo da música artística. Mas se considerarmos que a música de um país deve ser constituída principalmente de elementos próprios, concluiremos que a nossa...

Carmen Barbosa, um exemplo de perseverança
"Carmen Barbosa é uma das nossas estrelas do samba, e a história de sua ascensão é bem curiosa. No Brasil, o rádio já tem vida própria e nessa vida a nossa heroína de hoje penetrou, foi derrotada, lutou, venceu -- bem como acontece nas outras vidas. Eis a bem...

Horacina Correia, a Patativa do Sul
"Estava pela metade o programa de Horacina Correia na Tupi. Ela acabou de cantar e veio respirar um pouco de ar livre. O repórter a cumprimentou. Horacina chegou de Porto Alegre no dia 2 de abril e estreou no dia 5. Agradou muito, pois canta sambas e marchas...

Gastão Formenti para os fãs do rádio
"Gastão Formenti é um artista que vive afastado da publicidade rumorosa e que pouca atenção dá ao meio radiofônico. Sua atuação é discreta, sem alardes. Antes da radiofonia se ter desenvolvido no Rio, seu nome já era conhecido por todo o Brasil, como um...

Gutta Pinho, o "Sabiá dos Pampas"
Intérprete de canções gaúchas e tangos argentinos, Gutta Pinho fez seu nome em Pelotas e na Rádio Farroupilha. Teve relativo sucesso no Rio de Janeiro, em fins dos 1930, ao microfone da Rádio Cruzeiro do Sul. Não possui biografia em enciclopédias musicais...

A amnésia musical brasileira
Pandeirista e compositor, Darcy de Oliveira era internacionalmente conhecido nos fins da década de 1930 e começo dos 1940. Porém, hoje nem é citado em enciclopédias da MPB e nem em "dicionários virtuais", tipo Cravo Albin ... Na foto ao lado, publicada...

Darcy de Oliveira
Darcy de Oliveira, pandeirista / compositor, foi um artista notável nas décadas de 1930 e 1940, mas que, mesmo assim, como a grande maioria dos músicos de sua época, hoje em dia é um nome esquecido. Não há dados biográficos sobre ele nos trabalhos...

Sambistas ...
Manuel Bandeira, um dos nossos maiores cronistas, acaba de publicar um interessante volume, "Chronicas da Província do Brasil" que é um agradável passeio entre as letras, as artes e recantos pitorescos da terra brasileira. O livro de Manuel Bandeira tem dois...

Olga Praguer para os fãs do rádio
"Olga Praguer Coelho é uma das primeiras figuras do rádio no Brasil. A sua atuação frente aos microfones brasileiros data dos primeiros tempos da Rádio Sociedade. Tem cantado em quase todas as estações do Rio, sendo atualmente exclusiva da Rádio Tupy. Fora do...

Leny Eversong e sua carreira artística
"Leny Eversong é uma artista que se firmou na radiofonia nacional em menos tempo do que todos, inclusive ela própria, esperavam. O foxtrote tem em Leny uma grande admiradora e uma fiel intérprete. Parece que a nova estrela do "broadcasting" da Cidade...

A viagem de Sylvinha Mello
"A attracção do cinema - Um film dramatico que será produzido no Ceará" (Carioca, de 13/3/1937) "A pouco e pouco o nosso meio radiofônico está perdendo os seus ases ante o evidente progresso do nosso meio cinematográfico. Quando começou a se firmar...

A marcha chinesa que dominou um carnaval
De todas as músicas surgidas para os próximos festejos de Momo, só uma conseguiu um sucesso fulminante até agora: -- é a marcha chinesa "Lig-Lig-Lig-Lé", de Paulo Barbosa e Oswaldo Santiago. Em poucos dias, mal as estações de rádio começaram a rodar...

Baptista Júnior e sua família Resmungo-Chorão
"Baptista Júnior, o grande ventríloquo brasileiro que todos os aficionados do teatro conhecem e todos os fãs do rádio estão agora conhecendo, em qualquer meio em que exerça as suas faculdades de artista se torna logo querido. Muito tempo ele se exibiu nos...

A atividade dupla de Henrique Batista
Henrique Batista - Carioca, 6/3/1937 Foi numa das leiterias do centro da cidade. O professor Henrique Baptista tomava calmamente grandes goles de leite gelado. Face pensativa. Barbas negras, esquisitas. Olhar distraído. O repórter, viu e abordou. — Professor Baptista!...