domingo, 18 de junho de 2006

Insensatez

Tom Jobim
Algumas canções de Tom Jobim como o “Samba de uma Nota Só” e “Insensatez” — são vez por outra acusadas de plágios. Ao primeiro atribui-se uma semelhança com o recitativo de “Night and Day”, que não se justifica, uma vez que a divisão e os encadeamentos harmônicos, portanto a concepção das duas canções são totalmente diferentes.

Já “Insensatez” é uma composição chopiniana, aparentada com o “Prelúdio n°4, em mi menor, opus 28”, na melodia e na harmonia, o que necessariamente não significa que seja plágio. A influência de Chopin, também presente na obra de Ernesto Nazareth, jamais foi negada por Jobim que ainda a admitia em seu “Retrato em Branco e Preto” e no samba “Apelo”, que chamava de “aquele samba do Baden”.

O ponto de partida de uma composição, sua célula melódica inicial, sugere uma seqüência natural e isso pode confundir o leigo pouco habilitado a reconhecer uma estrutura harmônica. Mais ainda: o plágio implica, naturalmente, aspectos dolosos, direitos que nunca foram reclamados por Cole Porter (autor de “Night and Day”), falecido em 15.10.64, quando “One Note Samba” já rendia milhões nos Estados Unidos e na Europa. Ou seriam os advogados do compositor tão distraídos que não atentaram para o caso?

A semelhança de “Insensatez” com a música de Chopin foi motivo de muitas brincadeiras de músicos americanos, amigos de Jobim, como o saxofonista Gerry Mulligan que chegou a gravar o “Prelúdio n°4” em arranjo bossanovístico. Enfim, a questão do plágio musical é assunto complexo e controvertido, que nem sempre é focalizado com uma argumentação técnica, isenta de paixão.

Mas, voltando a “Insensatez”, esta canção foi lançada por João Gilberto no seu terceiro elepê, que completa a vital trilogia estabelecedora dos padrões característicos da bossa nova. Aliás, das 62 composições lançadas por Tom Jobim nesse período de intensa produtividade (1957 a 1961), apenas três (“Desafinado”, “Corcovado” e “Insensatez”) tiveram sua primeira gravação por João Gilberto.

“Insensatez” é basicamente formada por uma frase de oito compassos no modo menor, usada com extremo bom gosto em quatro seqüências que baixam em três tons inteiros, com a quarta permanecendo na tonalidade da terceira. Esses 32 compassos são repetidos em funçao da letra, dirigida ao coração do poeta, a princípio recriminando-o por fazer chorar de dor o seu amor, um amor tão delicado”, depois exortando-o a pedir perdão, “porque quem não pede perdão não é nunca perdoado”.

A qualidade da canção proporcionou-lhe uma extensa discografia, que vai de Elis, e Sylvia Telles a estrangeiras como Peggy Lee, Nancy Wilson, Morgana King (na versão em inglês intitulada “How Insensitive”), isso sem falar dos interpretes da obra de Jobim (Sinatra, Ella Fitzgerald) e até dos não atuais como Nelson Gonçalves, além de inúmeros músicos de jazz (A Canção no Tempo - Vol. 2 - Jairo Serveriano e Zuza Homem de Mello - Ed. 34).



Insensatez (samba bossa, 1961) - Tom Jobim e Vinícius de Moraes - Intérprete: João Gilberto
Tom: Dm7
Dm7      A/C#          Cm6
A insensatez que você fez
                    G/B
Coração mais sem cuidado
Gm/B           D#7+      
Fez chorar de dor o meu amor
   A5+/7       Dm7
Um amor tão delicado
F7/C                      A#7+
Ah! Porque você foi fraco assim
Gm7           Dm7
Assim tão desalmado
F7/C       E7/B             A4/7
Ah! Meu coração quem nunca amou
     A5+/7      Dm7
Não merece ser amado
Dm7       A/C#           Cm6
Vai meu coração, usa a razão
            G/B
Usa só sinceridade
A#6          D#7+          
Quem semeia vento, diz a razão
        A5+/7      Dm7
Colhe sempre tempestade
F7/C      
Vai meu coração
       A#7+    Gm7       Dm7
Pede perdão, perdão apaixonado
F7/C             E7/B      A7/4
Vai porque quem não pede perdão
      A5+/7     Dm7
Não é nunca perdoado


Nenhum comentário: