domingo, 23 de julho de 2006

Cotidiano



Da mesma safra de “Construção” é a também obra-prima “Cotidiano”, segunda faixa do elepê de 71. De versos impregnados do que poderia ser chamado de realismo conjugal, a composição inicia na obra de Chico Buarque um ciclo que renderia sucessos como “Atrás da Porta”, “Eu Te Amo” etc.

Justificando o título, “Cotidiano” trata da monótona rotina da vida em comum de um casal, o fenômeno psicológico da habituação, responsável pelo fracasso de muito casamento: “Todo dia ela faz tudo sempre igual / me sacode às seis horas da manhã / me sorri um sorriso pontual / e me beija com a boca de hortelã.” E a canção prossegue em seis estrofes curtas, entoadas sobre uma melodia igual, o que acentua o clima de monotonia desejado.

O mais curioso na letra é a marcação de alguns atos do ritual diário pelos sabores identificados pelo paladar do protagonista: “E me beija com a boca de hortelã / (...) / e me beija com a boca de café! (...) / e me calo com a boca de feijão...” A canção termina com a repetição da estrofe inicial, ou seja, anunciando que o novo dia será idêntico ao anterior. Admirador de “Cotidiano”, Vinícius de Moraes fez com Toquinho, em 1972, “Cotidiano n° 2”, dando ao tema um enfoque diferente (A Canção no Tempo - Vol. 2 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34).

Cotidiano (1971) - Chico Buarque
Intro: D7/9+  D7/9b  Gm
Gm 
Todo dia ela faz tudo sempre igual 
                              F
Me sacode as seis horas da manhã
                      D#
Me sorri um sorriso pontual 
                  D7         Gº
E me beija com a boca de hortelã 
                 
 Gm
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
                              F
E essas coisas que diz toda mulher
                                D#
Diz que está me esperando pro jantar
                  D7      Gm    D7/9+  D7/9b
E me beija com a boca de café

Gm 
Todo dia eu só penso em poder parar
                               F
Meio dia eu só penso em dizer não
                          D#
Depois penso na vida pra levar
                 D7        Gº
E me calo com a boca de feijão

Gm
Seis da tarde, como era de se esperar
                          Cm
Ela pega e me espera no portão
                           
Diz que está muito louca prá beijar
                  D#       D7
E me beija com a boca de paixão
Gm
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
                            F
Meia-noite ela jura eterno amor
                          D#
Me aperta pra eu quase sufocar
                  D7       Gº        
E me morde com a boca de pavor

Gm
Todo dia ela faz tudo sempre igual
                             F
Me sacode as seis horas da manhã
                       D#
Me sorri um sorriso pontual
                  D7        Gm   D7/9+  D7/9b  Gm
E me beija com a boca de hortelã


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