sábado, 18 de março de 2006

No bico da chaleira

Banda da Casa Edison - Inícios do séc. XX

Diariamente, o Morro da Graça no bairro das Laranjeiras no Rio de Janeiro era frequentado por dezenas de pessoas - senadores, deputados, juízes, empresários ou, simplesmente, candidatos a cargos públicos ou mandatos eletivos. A razão da romaria era que no alto do morro morava o general senador José Gomes Pinheiro Machado, líder do Partido Republicano Conservador, que dominou a política nacional no início do século.

Pois foi para satirizar o comportamento desses bajuladores que o maestro Costa Júnior (Juca Storoni) fez a animada polca "No Bico da Chaleira", sucesso do carnaval de 1909: "Iaiá me deixe subir nessa ladeira / eu sou do grupo que pega na chaleira...". E tamanha foi a popularidade da composição que acabou por consagrar o uso dos termos "chaleira" e "chaleirar" como sinônimos de bajulador e bajular. Isso porque, dizia-se na época, o pessoal que subia a ladeira da Graça disputava acirradamente o privilégio de segurar a chaleira que supria de água quente o chimarrão do chefe.

Com a morte de Pinheiro Machado, assassinado por um débil mental em 1915, deram seu nome à Rua Guanabara, onde começava a subida para sua casa, na qual passou a funcionar o Colégio Sacre Coeur e tempos depois uma empresa construtora.

No bico da chaleira (polca, 1909) - Juca Storoni (Costa Júnior) - Interpretação: Banda da Casa Edison

Disco 78 rpm / Título da música: No bico da chaleira / Juca Storoni (Compositor) / Banda da Casa Edison (Intérprete) / Gravadora: Odeon Record / Nº do Álbum: 108086 / Nº da matriz: xR619 / Data de Gravação: 1908 / Lançamento: 1908 / Lado único / Gênero musical: Polca / Obs.: Na gravação anuncia "marcha carnavalesca"



Iaiá / Me deixa subir esta ladeira
Eu sou do bloco / Mas não pego na chaleira
Na casa do Seu Tomaz / Quem grita
É que manda mais

Que vem de lá / Bela Iaiá
Ó abre alas / Que eu quero passar
Sou Democrata / Águia de Prata
Vem cá mulata / Que me faz chorar


Neste mesmo ano, Eustórgio Wanderley compôs uma versão mais picante e maliciosa desta polca: No bico da chaleira - versão II, gravada na Casa Edison pelos Os Geraldos.


Fonte: A Canção no Tempo - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34

Clélia (Ao desfraldar da vela)

A valsa Clélia é um clássico do repertório seresteiro de nossa música. Considerado um dos maiores trompetistas de sua época, o autor, Luiz de Souza (RJ, 12/03/1865 / 08/12/1920), também conhecido como Souza Pistom, iniciou os estudos de trompete com José Soares Barbosa, autor da famosa polca Que é da chave?. Mais tarde chegou a contramestre da Banda do 23º Batalhão de Caçadores, em Fortaleza, CE.

No Rio de Janeiro, aperfeiçoou-se na Banda do Arsenal de Guerra e fez parte, ao lado de Albertino Pimentel (Carramona), da primeira formação da Banda do Corpo de Bombeiros sob a regência de Anacleto de Medeiros. Foi integrante de orquestras de cinematógrafos, além de fazer parte do rancho Ameno Resedá. Frequentou, no início do século, a loja de música O Cavaquinho de Ouro, ponto de encontro de chorões como Quincas Laranjeiras, Anacleto de Medeiros, Irineu de Almeida, Villa-Lobos, entre outros. Gravou alguns discos com músicas de sua autoria para a Casa Edison, como líder do Grupo Luiz de Souza.

A valsa Clélia foi gravada pela Banda da Casa Edison, pela Banda da Casa Faulhaber e pelo cantor Mário Pinheiro, com letra de Catulo da Paixão Cearense, e reintitulada Ao desfraldar da vela. Parte da programação da Rádio Nacional, nos anos 1940, a valsa recebeu arranjos para orquestra escritos por Radamés Gnattali e Alexandre Gnattali. De 1947 a 1952 o trecho inicial da valsa era executado semanalmente, fazendo parte do prefixo do programa O pessoal da velha guarda, produzido por Almirante na Rádio Tupi, com direção musical de Pixinguinha, com o intuito de valorizar a memória musical brasileira. As partituras desses arranjos se encontram digitalizadas e podem ser consultadas no acervo do Museu da Imagem e do Som.

Clélia (Ao desfraldar da vela) (valsa, 1907) - Catulo da Paixão Cearense e Luiz de Souza - Interpretação: Gilberto Alves

LP Os Ídolos Do Rádio Vol. IX - Gilberto Alves / Título da música: Clélia (Ao Desfraldar da Vela) / Luís de Souza (Compositor) / Catulo da Paixão Cearense (Compositor) / Gilberto Alves (Intérprete) / Gravadora: Collector's / Álbum: S/nº / Ano: 1989 / Tracklist: A4 / Gênero musical: Valsa / Obs.: Gravações recuperadas de acetato radiofônico, realizadas ao vivo na Rádio Tupi - Rio de Janeiro, entre 1947 e 1952, e inéditas em disco.



Clélia adeus! / Adeus, minha doce Clélia adeus!
Desce à praia e vem calmar o verde mar
Que em breve irei sulcar além / Clélia, ó vem!
Adeus, vou me separar de ti / Vem. Ó vem meu bem!
Vem ouvir-me aqui

Vou singrar a vastidão do mar / A imensidão do mar, do mar
Vou cantar a minha dor / Sob este céu primaveril
Clélia, adeus! / Que o céu é todo puro anil, gentil
Beija a lua o verde mar / Na areia a se enrolar


Ai, que lancinante é o meu sofrer! 
Ai, pensar em nunca mais te ver!
Ó, são horas de partir meus ais! / A vela a desfraldar
Pede um sorrir, um teu olhar
Ó vem, ó minha Clélia, adeus!
Vai meu coração em chaga / De vaga em vaga
À solidão do mar clamar

Clélia adeus! / Adeus, vem dizer-me o eterno adeus!
Desce à praia e vem calmar o verde mar
Que em breve irei sulcar além / Vem, ó vem!
Por Deus, vem me dar um beijo aqui
Vem, ó vem, Clélia meu bem! / Vem me ouvir aqui



Fonte: MIS Blog - A valsa Clélia, escrita por Luiz de Souza

Três estrelinhas (O que tu és)

Três estrelinhas (O que tu és) (polca, 1906) - Catulo da Paixão Cearense e Anacleto de Medeiros - Interpretação: Gilberto Alves

LP Os Ídolos Do Rádio Vol. IX - Gilberto Alves / Título da música: O Que Tu És (Três Estrelinhas) / Anacleto de Medeiros (Compositor) / Catulo da Paixão Cearense (Compositor) / Gilberto Alves (Intérprete) / Gravadora: Collector's / Álbum: S/nº / Ano: 1989 / Tracklist: B2 / Gênero musical: Polca

Obs.: Gravações recuperadas de acetato radiofônico, realizadas ao vivo na Rádio Tupi - Rio de Janeiro, entre 1947 e 1952, e inéditas em disco.



Se um riso vem / Teus lábios colorir de almo rubor / As almas a teus pés / Vêm prosternar-se com ardor / A luz transluz nos céus / Nos céus dos olhos teus / Saudosos como o luar / No mar a cintilar

Tua alma cheira mais / Que um alvo jasmineiro todo em flor / Onde tu passas fica um aroma a soluçar / Tu és de Deus a obra-prima / Não tens par! / És uma rima singular

Tu és a pérola ideal / Que o mar gerou / Tu és a flor mais aromal / Que Deus sonhou / A mais plangente e meiga lira sons não tira / Como as notas desse teu falar

Teus seios têm o sacro / E doce aroma de um missal / Teus lábios têm a eterna / Sensação da extrema-unção / Tu fazes sem pensar os astros palpitar / Tu fazes sem querer as almas padecer

Tuas tranças cheiram mais / Que as rosas trescalantes de um rosal ; Que a madrugada vem de orvalho perolar / És uma flor da fonte à margem / De cristal / És um poema divinal!

És a mais sonora estrofe do Senhor / És a irradiação mais branca do luar / És a luz solar / Um hino sideral! / Nos olhos tens os raios / De uma estrela vesperal

Nos lábios tens a graça / Inebriante de hidromel / Da imagem do perdão / Tu és a cópia mais fiel / Tu és um coração de orvalho lá do céu / Que um anjo a chorar verteu



Os olhos dela

Mário Pinheiro
Os olhos dela (chótis, 1906) - Catulo da Paixão Cearense e Irineu de Almeida - Interpretação: Mário Pinheiro

Disco selo: Victor Record / Título da música: Os olhos d'ella / Irineu de Almeida (Compositor) / Catulo da Paixão Cearense (Compositor) / Mário Pinheiro (Intérprete) / Violão (Acomp.) / Nº do Álbum: 98943 / Lançamento: 1910 / Gênero musical: Modinha / Coleção de Origem: IMS, Nirez



Eu sou capaz de confessar / Aos pés de Deus / Que eu nunca vi em mundo algum / Uns olhos como os teus! / Eu não sei mesmo / Como os hei de comparar, não sei / Eu já tentei cantar / O teu divino olhar

Depois de tanto versejar / Debalde em vão / Depois de tanto apoquentar / A minha inspiração / Cheguei à triste conclusão / De que eu só sei sofrer / E o que teus olhos são / Não sei dizer

Deixa-te estar que quando eu morrer / Irei verter os prantos meus nos céus / Hei de contar em segredo a Deus / As travessuras desses olhos teus / Hei de mostrar ao Senhor Jesus / Ao Pai nos céus, apiedado / Meu coração crucificado / Nos braços teus de luz

Os olhos teus são lágrimas do amor / Os olhos teus são dois suspiros de uma flor / São dois soluços d’alma / São dois cupidos de poesia / Que sinfonia tem o teu olhar / Que até às vezes já nos faz chorar! / Ai, quem me dera me apagar assim / À luz do teu olhar!

Os olhos teus / Quando nos querem castigar / Parecem dois astros de gelo / Que nos vêm gelar / Mas quando querem nos ferir / Direito o coração / Eu não te digo não / O que os teus olhos são

Pois quando o mundo quiser / De vez findar / Basta acendê-lo com um raio / Desse teu olhar / Que os olhos todos das mulheres / Que mais lindas são / Dos olhos teus / Não têm a irradiação