domingo, 30 de julho de 2006

Coração bobo

Alceu Valença
Depois de gravar três elepês na Som Livre, Alceu Valença sentia não ter mais ambiente para dar continuidade à sua carreira no Brasil e resolveu passar uns tempos na Europa. Fixou-se então em Paris, onde realizou shows, em dupla com o violonista Paulo Rafael, e até um disco, Saudade de Pernambuco, inédito no Brasil. Este disco era reflexo de uma aproximação muito forte com as raízes nordestinas, que sentiu rebrotar no exterior.

Foi nessas condições que compôs no apartamento da Avenue Gobelin a canção “Coração Bobo”, dedicada a Jackson do Pandeiro, de quem recebera inestimáveis lições sobre os ritmos do Nordeste. A composição é dividida em duas partes distintas, sendo a primeira lenta, uma toada quase ad libitum, que começa com os seguintes versos: “Meu coração tá batendo / como quem diz não tem jeito / zabumba, bumba esquisito / batendo dentro do peito...” Já a segunda parte, a ritmo, é um baião: “Coração bobo, coração bola / coração balão, coração São João / a gente se ilude dizendo / já não há mais coração...”

Os sons onomatopaicos que se encaixam no ritmo desta segunda parte, contrastam com o andamento e a sonoridade de uma reza de procissão da primeira. Retornando ao Brasil, Alceu inscreveu “Coração Bobo” no mencionado Festival 79 da TV Tupi, convidando o próprio Jackson a defendê-lo em dupla. Embora não tenha sido sequer classificada para a final, o que foi corretamente lamentado na imprensa por jornalistas como José Nêumane Pinto, do Jornal do Brasil, a canção serviu para que Alceu Valença retomasse a sua carreira no Brasil, despertando o interesse da gravadora Ariola, que o contratou. Por sinal, o início das atividades dessa gravadora no país, em novembro de 79, revolucionou o meio fonográfico, levando para o seu elenco artistas como Toquinho e Vinicius, MPB 4, Marina, Elba Ramalho, Kleiton e Kledir, Ney Matogrosso, Moraes Moreira, Milton Nascimento e Chico Buarque, os dois últimos contratados a peso de ouro.

Alceu lançou “Coração Bobo”, em seu disco de estréia na Ariola, o primeiro em que ultrapassou a marca de cem mil cópias vendidas (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Coração bobo (1980) - Alceu Valença

Em                G
Meu coração tá batendo
  Em                   G  
Como quem diz não tem jeito
 Em                 G
Zabumba, bumba esquisito
 A/Db    Ab/C  G/B   G
Batendo dentro do peito


 Em                G
Teu coração tá batendo
 Em                   G
Como quem diz não tem jeito
    Em7          G
O coração dos aflitos
A/Db     Ab/C G/B  G
Pipoca dentro do peito


         Bm            Em
Coração bobo, coração bola
          Bm                G
Coração balão, coração São João
     C             G      
A gente se ilude dizendo
   A     C          G
Já não há mais coração

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