quarta-feira, 26 de julho de 2006

Roda viva

Chico Buarque de Holanda e MPB4 - Interpretando "Roda Viva".

Ao mesmo tempo em que se classificava em terceiro lugar no FIC, com “Carolina”, Chico Buarque repetia a colocação no III Festival da TV Record com “Roda Viva”. Não seria, porém como música de festival e sim como tema de uma peça homônima que “Roda Viva” entraria para a história.

Escrita por Chico em 25 dias e montada por José Celso Martinez Corrêa, essa peça estrearia no Teatro Princesa Isabel, no Rio, em 15.1.68. Criticando a situação do artista, triturado pela mídia — o personagem principal, o cantor Ben Silver, é um ídolo inventado e imposto ao público pela publicidade —, o espetáculo teve uma encenação chocante, agressiva e provocadora, pela maneira livre e audaciosa como José Celso tratou o texto, com a aprovação total do autor. Aliás, Chico aproveitaria a oportunidade para se livrar da incômoda imagem de bom moço, que teimavam em lhe impingir.

Acontece que apresentada no agitado ano de 1968, quando a radicalização da ditadura caminhava para a edição do AI5, Roda Viva gerou uma intensa reação de grupos de direita ligados ao regime, que culminou com a agressão aos atores e a destruição dos cenários no Teatro Galpão, em Porto Alegre, em 17.7.68. Isso determinou o final das encenações, sendo os participantes da peça enfiados num ônibus e despachados para São Paulo, com a recomendação de não retornarem.

Mas, voltando à canção, “Roda Viva” é uma longa e muito bem elaborada composição, com uma melodia soturna que realça e complementa o pessimismo fatalista do poema (“Faz tempo que a gente cultiva/a mais linda roseira que há /mas eis que chega a roda viva/e carrega a roseira pra lá...”). A canção foi defendida no festival e gravada pelo próprio Chico, com o apoio do MPB 4, numa versão que pode ser considerada como definitiva (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).




Roda viva (samba, 1967) - Chico Buarque
Int.: Em7/9  A7  D7+ D6  C#7  F#7  G7+

Bm7                       G7 
Tem dias que a gente se sente
F#7
como quem partiu ou morreu
Em7/9 A7    D7+ 
A gente estancou de repente
C#7        F#7 
ou foi o mundo então que cresceu
B7       Em7               A7     D7+
A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar
C#7     F#7  Bm7 
Mas eis que chega a roda viva
G7                 F#7
e carrega o destino pra lá

       Bm7         Bm7/A        Em7          A7
Roda mundo, roda-gigante, roda moinho, roda pião
   Am7     D7/9 G7+             F#7/5+  F#7   Bm7
O tempo rodou num instante nas voltas do   meu  coração

                         G7                     F#7
A gente vai contra a corrente até não poder resistir
Em7      A7  D7+                 C#7     F#7
Na volta do barco é que sente o quanto deixou de cumprir
   B7        Em7 
Faz tempo que a gente cultiva
                A7       D7+
a mais linda roseira que há
   C#7     F#7  Bm7 
Mas eis que chega a roda viva
              G7       F#7
e carrega a roseira pra lá
...

Bm7                  G7   
A roda da saia, a mulata,
                            F#7
não quer mais rodar, não senhor
   Em7/9  A7  D7+           C#7     F#7
Não posso fazer    serenata, a roda de samba acabou
   B7           Em7            A7       D7+
A gente toma a iniciativa, viola na rua, a cantar
  C#7     F#7  Bm7               G7     F#7
Mas eis que chega a roda viva e carrega a viola pra lá
...

Bm7                    G7                          F#7
O samba, a viola, a roseira, um dia a fogueira queimou
          Em7/9    A7  D7+                 C#7    F#7
Foi tudo ilusão passageira que a brisa primeira levou
   B7       Em7                A7     D7+
No peito a saudade cativa faz força pro tempo parar
              F#7          Bm7
Mas eis que chega a roda viva
               G7        F#7
e carrega a saudade pra lá...
 
 
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