segunda-feira, 17 de abril de 2006

Sampa

Por incrível que pareça, o elepê Muito (dentro da estrela azulada), com uma bela foto de Caetano e sua mãe, Dona Canô, na capa, que apresentava “Terra”, “Muito Romântico”, uma pungente interpretação de “Eu Sei que Vou te Amar” e, de quebra, a canção-depoimento “Sampa”, não foi bem recebido por parte da crítica paulista.

“Sampa” surgiu em razão de um programa sobre São Paulo, realizado pela TV Bandeirantes, para o qual o produtor Roberto de Oliveira encomendara um depoimento a Caetano Veloso. Então, Caetano teve a ideia de fazê-lo sob a forma de uma canção, com uma longa letra em que expunha suas impressões sobre a cidade, canção que ele comporia em poucos minutos e que gravaria em vídeo já no dia seguinte. Como o elepê ainda não estava pronto, houve tempo para incluir no repertório a nova música, gravada com o acompanhamento de um singelo conjunto regional, no qual se sobressai o violão sete cordas de Arnaldo Brandão.

A letra de “Sampa” registra referências a muita coisa que o autor considera importante na cidade como a poesia concreta dos irmãos Campos, as figuras de Rita Lee e os Mutantes e, em seu arremate, a declaração “e novos baianos te podem curtir numa boa”, cantada sobre a frase melódica final do samba “Ronda”, de Paulo Vanzolini, o que é um achado. Além de difundir a sigla, que o povo consagrou, “Sampa” impressiona como uma sincera homenagem do artista à cidade que o acolheu no início de sua carreira.

Por exemplo, a esquina das avenidas Ipiranga e São João, que a canção converte numa referência na MPB, deve-lhe trazer boas recordações, pois fica apenas a algumas dezenas de metros do apartamento da avenida São Luís, onde ele morou na época.

Quase um hino a São Paulo, com suas descrições, citações e reflexões, “Sampa” criou laços definitivos entre o poeta e a cidade, impondo-se como peça obrigatória em seu repertório, sempre que ele a visita. Passa também a integrar, com especial destaque, o grupo de composições de autores não-paulistas que homenagearam São Paulo, juntando-se a “Eh! São Paulo” (1934), do mineiro Murilo Alvarenga, à suíte “Paulistana-Retrato de uma Cidade” (1974), do paraense Billy Blanco, e “São São Paulo Meu Amor” (1968), do baiano Tom Zé (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Sampa (1978) - Caetano Veloso - Interpretação: Caetano Veloso

LP Muito - Dentro Da Estrela Azulada / Título da música: Sampa / Caetano Veloso (Compositor) / Caetano Veloso (Intérprete) / Gravadora: Philips / Ano: 1978 / Nº Álbum: 6349 382 / Lado B / Faixa 2.

C7+                 Bm7/11    
Alguma coisa acontece
   E7/9-     Am7+ Am7 Gm7 Gb7/11+
no meu  coração
    F                    A7
Que só quando cruzo a Ipiranga
                  Dm7
e a avenida São João
      G7                     G#º
É que quando eu cheguei por aqui
             Am7
eu nada entendi
   D7/9
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta
               Dm7/9  G7/13  G7/13-
de tuas meninas

Gm7                  C7/9
Ainda não havia para mim Rita Lee
  F7+                    F#º  
A tua mais completa tradução
C/G       A7        Dm7     G7      E7
Alguma coisa acontece no meu coração
A7    D7/9                  Abm6
Que só  quando cruzo a Ipiranga
       G7         C6/9 G7/13  G7/13-
e a avenida São João

C7+                  Bm7/11   
Quando eu te encarei frente a frente
    E7/9-    Am7+  Am7 Gm7 Gb7/11+
não vi o teu rosto
   F                      A7
Chamei de mau gosto o que vi
                  Dm7
de mau gosto, mau gosto
G7                 G#º
É que Narciso acha feio
              Am7
o que não é espelho
    D7/9
E a mente apavora o que ainda
não é mesmo velho
Nada do que não era antes
                      Dm7/9 G7/13 G7/13-
quando não somos mutantes

  Gm7                C7/9
E foste um difícil começo
afasto o que não conheço
F7+                         F#º  
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
 C/G       A7        Dm7        G7   E7
Aprende depressa a chamar-te de realidade
A7   D7/9               Abm6
Porque és o avesso do avesso,
    G7        C6/9  G7/13  G7/13-
do avesso do avesso

   C7+               Bm7/11   
Do povo oprimido nas filas,
    E7/9-  Am7+   Am7 Gm7 Gb7/11+
nas vilas, favelas
   F                  A7
Da força da grana que ergue
                Dm7
e destói coisas belas
   G7              G#º
Da feia fumaça que sobe
              Am7
apagando as estrelas
   D7/9
Eu vejo subir teus poetas
de campos e espaços
Tuas oficinas de florestas,
                  Dm7/9 G7/13 G7/13-
teus deuses da chuva

Gm7                C7/9
Pan-américas de Áfricas utópicas, túmulo
F7+                      F#º  
do samba mais possivel, novo quilombo de Zumbi
      C/G     A7     Dm7       G7    E7  A7   
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa
     D7/9             Abm6     G7       C6/9
E os novos baianos te podem curtir numa boa
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