sábado, 22 de julho de 2006

Construção / Deus lhe pague



O elepê Chico Buarque de Hollanda n°4, lançado em 1970, e que teve as bases gravadas no Brasil e a voz na Itália, é um disco de transição em que ele encerra a fase inicial de sua carreira e anuncia a seguinte, menos lírica e mais preocupada com a realidade. Isso fica claro na faixa “Agora Falando Sério”, em que canta: “Dou um chute no lirismo / um pega no cachorro / e um tiro no sabiá / dou um fora no violino / faço a mala e corro / pra não ver a banda passar.”

Um ano depois, inaugurando a nova fase, Chico lançaria outro disco importante, um verdadeiro marco em sua carreira, no qual se destaca a obra-prima “Construção”. Esta composição tem uma melodia repetitiva, desenvolvida apenas sobre dois acordes, e uma letra extraordinária, de qualidade rara numa canção popular.

É a elegia para um operário morto no exercício da profissão e narra o seu último dia, da saída de casa para o trabalho (“Beijou sua mulher como se fosse a última”), até o momento da queda fatal (“E se acabou no chão feito um pacote flácido”). Nessa letra moderna e requintada, o autor emprega ousados processos de construção poética como, por exemplo, a alternância das proparoxítonas finais, “como se fossem peças de um jogo num tabuleiro”, segundo o próprio Chico em entrevista concedida na época: “Dançou e gargalhou como se ouvisse música / e tropeçou no céu como se fosse um bêbado / (...) / Dançou e gargalhou como se fosse o próximo / e tropeçou no céu como se ouvisse música...”

Apresentando além de “Construção” outras preciosidades, este elepê foi campeão de vendagem, chegando a disputar por várias semanas a primeira colocação nas paradas de sucesso (A Canção no Tempo - Vol. 2 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34).

Construção (1971) - Chico Buarque
Intr/: C5-/F#  Cm5-/F#
                                 Em6/9  Em6/9/B  Em6/9
Amou daquela vez como se fosse a última
Em6/9/B                Em6/9  Em6/9/B Em6/9
Beijou sua mulher como se fosse a última
Em6/9/B               Em/B
E cada filho seu como se fosse o único
Em5-/Bb    Em4/A        Em/G  C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
E atravessou a rua com seu passo tímido
Em6/9  Em6/9/B  Em6/9
Subiu a construção como se fosse máquina
Em6/9/B                Em6/9  Em6/9/B Em6/9
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Em6/9/B             Em/B
Tijolo por tijolo num desenho mágico
Em5-/Bb    Em4/A      Em/G    C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Am   Am/E  Am
Sentou prá descansar como se fosse sábado
Am/E                     Am  Am/E  Am
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Am/E         Am5+/F   C5-/F#
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
C5-/F#  Cm5-/F#
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
Em6/9  Em6/9/B  Em6/9
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
Em6/9/B               Em6/9  Em6/9/B Em6/9
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
Em6/9/B               Em/B
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Em5-/Bb    Em4/A     Em/G  C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
E agonizou no meio do passeio público
Em6/9  Em6/9/B
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
                                 Em6/9  Em6/9/B  Em6/9
Amou daquela vez como se fosse o último
Em6/9/B                Em6/9  Em6/9/B Em6/9
Beijou sua mulher como se fosse a única
Em6/9/B               Em/B
E cada filho seu como se fosse o pródigo
Em5-/Bb    Em4/A        Em/G  C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Em6/9  Em6/9/B  Em6/9
Subiu a construção como se fosse sólido
Em6/9/B                Em6/9  Em6/9/B Em6/9
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Em6/9/B             Em/B
Tijolo por tijolo num desenho lógico
Em5-/Bb    Em4/A      Em/G    C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Am   Am/E  Am
Sentou prá descansar como se fosse um príncipe
Am/E                   Am  Am/E  Am
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Am/E        Am5+/F  C5-/F#
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
C5-/F#  Cm5-/F#
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
Em6/9  Em6/9/B  Em6/9
E tropeçou no céu como se ouvisse música
Em6/9/B             Em6/9  Em6/9/B Em6/9
E flutuou no ar como se fosse sábado
Em6/9/B               Em/B
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Em5-/Bb    Em4/A     Em/G  C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
E agonizou no meio do passeio náufrago
Em6/9  Em6/9/B
Morreu na contramão atrapalhando o público
                                Em
Amou daquela vez como se fosse máquina
Em7+/D#               Em7/D
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Em6/C#                 Em5+/C
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Em4/A                   E/G#
Sentou prá descansar como se fosse um pássaro
Em/G                  Em/B
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
Em5-/Bb    Em4/A        Em/G  C5-/7+/F#  Cm5-/7+/F#
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Em6/9  Em6/9/B
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
Deus lhe pagueEm Em9/F# Em/G Em9/F#                      C7+
Por esse pão prá comer, por esse chão prá dormir
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                    C7+
A certidão prá nascer e a concessão prá sorrir
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                   C7+  C7
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
C6     Em
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                       C7+
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                          C7+
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                       C7+  C7
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
C6   Em
Deus lhe pague
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                    C7+
Pela mulher carpideira prá nos louvar e cuspir
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                    C7+
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
Em Em9/F# Em/G Em9/F#                     C7+  C7
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
C6  Em
Deus lhe pague


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