sábado, 22 de julho de 2006

Cálice

Este é mais um exemplo de letra contra a censura, predominante entre nossos compositores à época (1973) em que a canção foi criada. Na verdade, “Cálice” destinava-se a um grande evento promovido pela PolyGram, que reuniria em duplas os maiores nomes de seu elenco, e no qual deveria ser cantada por Gilberto Gil e Chico Buarque.

No livro Todas as letras, Gil narra em detalhes a história da canção, a começar pelo encontro inicial dos dois no apartamento em que Chico morava, na Lagoa Rodrigo de Freitas, ocasião em que lhe mostrou os versos que fizera na véspera, uma sexta-feira da Paixão. Tratava-se do refrão (“Pai, afasta de mim este cálice/de vinho tinto de sangue”), uma óbvia alusão à agonia de Jesus no Calvário, cuja ambigüidade (cálice / cale-se) foi imediatamente percebida por Chico.

Gil levara-lhe ainda a primeira estrofe (“Como beber dessa bebida amarga / tragar a dor, engolir a labuta / mesmo calada a boca, resta o peito / silêncio na cidade não se escuta / de que vale ser filho da santa / melhor seria ser filho da outra...”), lembrando a “bebida amarga”, uma bebida italiana chamada Fernet, que o dono da casa muito apreciava e sempre lhe oferecia, enquanto “o silêncio na cidade não se escuta” significava que “no barulho da cidade não é possível escutar o silêncio”, ou “não adianta querer o silêncio porque não há silêncio”, ou seja, metaforicamente: “não há censura, a censura é uma quimera”, pois “mesmo calada a boca, resta o peito, resta a cuca”.

Deste e mais outro encontro, dias depois, saíram a melodia e as demais estrofes, quatro no total, sendo a primeira e a terceira (“De muito gorda a porca já não anda...”) de Gil, a segunda (“Como é difícil acordar calado...”) e a quarta (“Talvez o mundo não seja pequeno...”) de Chico. No dia do show, quando os dois começaram a cantar “Cálice” desligaram o microfone. “Tenho a impressão de que ela tinha sido apresentada à censura, tendo-nos sido recomendado que não a cantássemos, mas nós fizemos uma desobediência civil e quisemos cantá-la”, conclui Gil.

Irritadíssimo com o microfone desligado, Chico tentava outro mais próximo, que era cortado em seguida, e assim, numa cena tragicômica, foram todos sendo “calados”, impedindo-o de cantar “Cálice” até o fim. Liberada cinco anos depois, a canção foi incluída no elepê anual de Chico, com ele declarando que aquele não era o tipo de música que compunha na época (estava trabalhando no repertório de “Ópera do Malandro”), mas teria que ser registrado, pois sua tardia liberação (juntamente com “Apesar de Você” e “Tanto Mar”) não pagava o prejuízo da proibição.

Na gravação, as estrofes de Gilberto Gil, que estava trocando a PolyGram pela WEA, são interpretadas por Milton Nascimento, fazendo o coro o MPB 4, em dramático arranjo de Magro (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Cálice (1978) - Chico Buarque e Gilberto Gil
Introd.:E A E B A G# F#m7 C#m7 F#7
B7 E A E B7 E
  E                       Ab
Pai, afasta de mim esse cálice
A
Pai, afasta de mim esse cálice
F#/A#        E/B
Pai, afasta de mim esse cálice
B7             E
De vinho tinto de sangue

REPETE

C#m                    C#m7+
Como beber dessa bebida amarga
C#m7             C#m6
Tragar a dor, engolir a labuta
C#m5+               C#m6
Mesmo calada a boca, resta o peito
B7/13                  E9
Silêncio na cidade não se escuta
C#m                      C#m7+
De que me vale ser filho da santa
C#m7              C#m6
Melhor seria ser filho da outra
C#m5+          C#m6
Outra realidade menos morta
B7/13                E
Tanta mentira, tanta força bruta

REPETE

C#m             C#m7+
Como é difícil acordar calado
C#m7                C#m6
Se na calada da noite eu me dano
C#m5+             C#m6
Quero lançar um grito desumano
B7/13              E9
Que é uma maneira de ser escutado
C#m                C#m7+
Esse silêncio todo me atordoa
C#m7               C#m6
Atordoado eu permaneço atento
C#m5+                   C#m6
Na arquibancada pra a qualquer momento
B7/13                    E
Ver emergir o monstro da lagoa

REPETE

C#m                   C#m7+
De muito gorda a porca já não anda
C#m7                 C#m6
De muito usada a faca já não corta
C#m5+                  C#m6
Como é difícil, pai, abrir a porta
B7/13                     E
Essa palavra presa na garganta
C#m                      C#m7+
Esse pileque homérico no mundo
C#m7               C#m6
De que adianta ter boa vontade
C#m5+                      C#m6
Mesmo calado o peito, resta a cuca
B7/13                   E
Dos bêbados do centro da cidade

REPETE

C#m                   C#m7+
Talvez o mundo não seja pequeno
C#m7              C#m6
Nem seja a vida um fato consumado
C#m5+                 C#m6
Quero inventar o meu próprio pecado
B7/13                   E
Quero morrer do meu próprio veneno
C#m                C#m7+
Quero perder de vez tua cabeça
C#m7              C#m6
Minha cabeça perder teu juízo
C#m5+                   C#m6
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
B7/13                        E
Me embriagar até que alguém me esqueça
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