terça-feira, 2 de maio de 2006

Ave Maria no morro

Recém-chegado ao Rio, por volta de 1930, Herivelto Martins costumava frequentar o Morro da Favela, onde havia uma singela capelinha. Por muito tempo ele guardou a imagem dessa capela, com a intenção de usá-la numa canção que descrevesse de forma mística o anoitecer no morro.

Um dia, estando num bilhar na Praça Tiradentes, despertou-lhe a atenção a algazarra de um bando de pardais, que se recolhia às arvores para dormir. Transportando os pardais para o morro, ele escreveu e musicou os seguintes versos: "Tem alvorada / tem passarada / alvorecer / sinfonia de pardais / anunciando o anoitecer" - que logo complementou, compondo o que viria a ser a segunda parte de "Ave Maria no Morro". Entusiasmado com o esboço de samba que acabara de fazer, Herivelto resolveu mostrá-lo ao compadre Benedito Lacerda, na época seu vizinho na Ilha do Governador.

É ele próprio quem conta essa história, no depoimento que prestou para o Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, em 18.08.83: "Eu me preparei para mostrar ao Benedito essa segunda parte. Ensaiei com a Dalva, bem ensaiadinho, e todo animado fui procurá-lo. ‘Ouve aqui, Benedito, este negócio que eu fiz.' E então cantamos, cantamos, a Dalva com aquela voz bonita e eu, no violão, crente que estávamos agradando, pois estava mesmo uma beleza. Terminada a cantoria, uma decepção. O Benedito tirou os óculos, esfregou os olhos e disse com a maior frieza: 'Meu compadre, isso é música de igreja. Vamos fazer música pra ganhar dinheiro, meu compadre'. E, para amenizar o meu desapontamento, acrescentou: ‘Tá bem, tá bem pra vocês cantarem no rádio, mas isso não é música pra dar dinheiro. Cadê aquele sambinha que você me mostrou outro dia?"'.

Desiludido com a rejeição, Herivelto arquivou a composição, só a concluindo meses depois, quando aprontou a primeira parte ( "Barracão de zinco / sem telhado / sem pintura / lá no morro...").

Gravada em junho de 42, "Ave Maria no Morro" foi o primeiro sucesso do Trio de Ouro na Odeon. A repercussão do disco, entretanto, trouxe um problema. O cardeal, Dom Sebastião Leme, considerou a canção uma heresia e pediu sua proibição, o que só não aconteceu porque o autor tinha pistolão no serviço de censura. Realmente, a posteridade provaria que Sua Excelência Reverendíssima não estava com a razão: a partir dos anos sessenta, "Ave Maria no Morro" tornou-se a composição que maiores dividendos renderia na obra de Herivelto, especialmente por sua execução em igrejas da Alemanha, Áustria, Suíça e outros países.

Ave Maria no morro (samba, 1942) - Herivelto Martins

Disco 78 rpm / Título: Ave Maria no morro / Autoria: Martins, Herivelto (Compositor) / Trio de Ouro (Intérprete) / Dalva de Oliveira (Intérprete) / Fon-Fon, 1908-1951 (Acompanhante) / Orquestra (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1942 / Nº Álbum 12185 / Lado A / Gênero: Samba canção /
G           G7
  barracão  de zinco
         C           Cm              G
  sem telhado  sem pintura   lá no morro
       D7          G  D7 G
  barracão é bangalô
           G7                             C
   lá não existe  felicidade  de arranha-céu
             Cm         G
  pois quem mora lá no morro
      D7                G   D7   G
  já vive  pertinho do céu

          G7                              C
  tem alvorada    tem passarada  ao alvorecer
       Cm         G   E7
  sinfonia de pardais
        Am   D7          G
  anunciando    o anoitecer

              Cm                    G
  e o morro inteiro      no fim do dia
             D7                G
  reza uma prece       à ave Maria
               Cm                 G
  e o morro inteiro    no fim do dia
             D7               G
  reza uma prece      à ave Maria
         D
  ave Maria
  C G
  ave


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

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