terça-feira, 2 de maio de 2006

Praça Onze


Delimitada pelas ruas de Santana (a leste), Marquês de Pombal (a oeste), Senador Euzébio (ao norte) e Visconde de Itaúna (ao sul), a Praça Onze existiu por mais de 150 anos. A princípio denominada Rocio Pequeno, depois Praça Onze de Junho (data da Batalha de Riachuelo), tornou-se, nas primeiras décadas do século XX, o local mais cosmopolita do Rio de Janeiro.

Em suas redondezas misturaram-se imigrantes espanhóis, italianos e judeus de várias procedências com milhares de negros, na maioria oriundos da Bahia. E foram os negros que transformaram a Praça Onze em reduto de sambistas, ao usarem o seu espaço para os desfiles das primeiras escolas de samba.

Em 1941, quando a prefeitura começou as demolições para a abertura da Avenida Presidente Vargas, que extinguiria a praça, Grande Otelo teve a idéia de protestar em ritmo de samba. Ótimo ator, mas letrista medíocre, ele escreveria uma versalhada sobre o assunto, que mostrou aos compositores Max Bulhões, Wilson Batista e Herivelto Martins, sem lhes despertar o menor interesse.

Mas Otelo era teimoso e Herivelto, para se livrar dele, compôs o samba em que aproveitou a idéia, desprezando os versos. Diga-se de passagem, que na época os dois trabalhavam nos cassinos da Urca e de Icaraí, atravessando todas as noites a Baía de Guanabara, numa lancha que fazia a ligação entre as duas casas.

Foi numa dessas travessias que Herivelto começou a escrever "Praça Onze". Acontece que a composição – anunciando o fim da praça e dos desfiles e, de uma maneira comovente, exortando os sambistas a guardarem os seus pandeiros - superou as expectativas do autor, sugerindo-lhe uma gravação diferente, em que se reproduzisse o clima de uma escola de samba. E assim ele fez, tendo a novidade se tornado padrão para a execução de sambas do gênero.

Além do canto, no estilo "empolgação", a cargo do Trio de Ouro reforçado por Castro Barbosa, foi primordial para que se estabelecesse tal clima o uso destacado de três elementos rítmicos - o tamborim, o apito e o surdo. Até então, o apito era usado nas escolas de samba somente como elemento sinalizador, para comandar o desfile. Sua função rítmica, sibilando em tempo de samba, foi uma invenção de Herivelto, lançada nesta gravação.

Por tudo isso, "Praça Onze" alcançou extraordinário sucesso, ganhando, ao lado de "Ai, que saudades de Amélia", o concurso de sambas promovido pelo Fluminense. E naquele carnaval, onde se cantou "Praça Onze" tinha sempre alguém soprando um apito, o que acabou causando a Herivelto uma despesa inesperada: caridosamente, ele assumiu metade do prejuízo sofrido por Murilo Caldas, autor da marcha "Passarinho Piu Piu", que distribuíra mil apitos entre os foliões, indiferentes à sua música.

Praça Onze (samba/carnaval, 1942) - Herivelto Martins e Grande Otelo

Disco 78 rpm / Título da música: Praça Onze / Autoria: Grande Otelo, 1915-1993 (Compositor) / Martins, Herivelto (Compositor) / Barbosa, Castro (Intérprete) / Trio de Ouro (Intérprete) / Lacerda, Benedito, 1903-1958 (Acompanhante) / Grande Conjunto (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Columbia, 1941 / Nº Álbum 55319 / Lado A / Lançamento: 1942 / Gênero musical: Samba /
(intro) F C A7 Dm G7  C

       C    Dm    G7    C
Vão acabar com a Praça Onze
          C                    C7        F
Não vai haver mais Escola de Samba, não vai
  Fm6         C
Chora o tamborim
  Fm6         C
Chora o morro inteiro
  Fm6      C
Favela, Salgueiro
  Fm6                  C Am Dm G7
Mangueira, Estação Primeira
     C                           Em    Am
Guardai os vossos pandeiros, guardai
    Fm6                      C
Porque a Escola de Samba não sai

  G7                       C
Adeus, minha Praça Onze, adeus
      C7                     F
Já sabemos que vais desaparecer
                G7          C     Am
Leva contigo a nossa recordação
        D7                        G7      C7
Mas ficarás eternamente em nosso coração
         F                   Em     A7
E algum dia nova praça nós teremos
           Dm    G7   C
E o teu passado cantaremos

(instrumental)

  Fm6      C
Favela, Salgueiro
  Fm6                  C Am Dm G7
Mangueira, Estação Primeira
     C                           Em    Am
Guardai os vossos pandeiros, guardai
    Fm6                      C
Porque a Escola de Samba não sai
     C                           Em    Am
Guardai os vossos pandeiros, guardai
    Fm6                      C
Porque a Escola de Samba não sai
   Bb                     C
Praça Onze, Praça Onze, adeus
   Bb                     C
Praça Onze, Praça Onze, adeus


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

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