quarta-feira, 3 de maio de 2006

Dora


Em fins de 1941, Dorival Caymmi fez uma temporada no Nordeste, começando por Fortaleza, onde pretendia passar 18 dias, mas acabou ficando dois meses. De Fortaleza, viajou para Recife, enquanto a esposa Stela, saudosa da filha Nana, seguia direto para o Rio. Foi na sua primeira madrugada em Recife, enquanto aguardava vaga no Grande Hotel, que começou a compor "Dora".

Essa história Caymmi conta em depoimento prestado à Associação de Pesquisadores da Música Popular Brasileira, em 1983: "O bar já estava fechando quando, de repente, ouvi uma banda rasgando um frevo. Era um bloco, o ‘Pão da Tarde', que vinha em direção ao hotel, recolhendo donativos para o carnaval. Na frente, dançando descalça, destacava-se uma mulata clara, monumental, que nem devia ser do bloco, estando ali por gostar de dançar. Então, fiquei visualizando a imagem da moça e naquela madrugada mesmo comecei a fazer os primeiros versos: ‘Dora, rainha do frevo e do maracatu / Dora, rainha cafuza de um maracatu...' e continuei repetindo aqueles versos, até que veio um empregado do hotel me avisar que havia desocupado um quarto. No dia seguinte fiz mais um pedaço. Mais adiante, já em Maceió, cheguei naquela parte que diz: 'Os clarins da banda militar / tocam para anunciar...".

Por fim, meses depois, Caymmi completou "Dora"; um notável samba-canção que tem a novidade da introdução em forma de frevo. Este, aliás, é um dos pontos altos da composição, estabelecendo um curioso contraste entre o instrumental vibrante do frevo e o canto dolente do samba-canção. "Dora" pode ser considerada uma homenagem ao Recife, inclusive com a citação nos versos de três expressões do carnaval local: a passista, o frevo e o maracatu. Com sua calma habitual, Caymmi guardou este samba por três anos, somente o gravando em 1945.

Dora (samba-canção, 1945) - Dorival Caymmi

Disco 78 rpm / Título: Dora / Autoria: Caymmi, Dorival, 1914-2008 (Compositor) / Caymmi, Dorival, 1914-2008 (Intérprete) / Fon-Fon, 1908-1951 (Acompanhante) / Orquestra (Acompanhante) / Imprenta [S.l.]: Odeon, 1945 / Nº Álbum 12606 / Lado A / Gênero: Samba canção /
D6/9                             Em7      
Dora, rainha do frevo e do maracatu   
A7(13)                          D6/9  
Dora, rainha cafuza de um maracatu  
        D        A7(#5)    D7(b9/b13)            G6    
Te conheci no Recife   dos rios      cortados de pontes  
                 A7/E   A7        D6/9   D7M(9)   
Dos bairros, das fontes    coloniais   
 Em7   A7(13)         D7M(9)  D6/9 
-Dora!        chamei  
  Em7   A7(13)    D7M(9) 
Ô Dora!        Ô Do--ra!... 
   D6/9    A7(#5)     D7/4(9)         D7(b9)        G6 
Eu vim à cidade   Pra ver      meu bem       passar 
  A7(13) 
Ô Dora!  
 D6/9       Em6                      A7(13)      D6/9    
Agora... no meu pensamento eu te vejo     requebrando  
               Em6         A7(13)         D7M(9)  D6/9  
Pra cá,        Ora prá lá,        meu bem   
  
      Am7            D7(9)   Am7  D7(9)            D7(b9)  G6 G7M 
Os clarins da banda militar,           tocam para anunciar: 
    Gm7            C7(9)  
Sua Dora, agora vai    passar!... Gm7  C7(9)     
       C7(b9)             F6  Em7  D7M(9) 
Venham ver o que é bom!...  
   G6     C7(9)    F6         Bb7(9)  Eb7M  D7M 
Ô Dora, rainha  do frevo e do maraca--tu  
G6        C7(9)       F6       Bb7(9)   Eb7M  D6 
Ninguém requebra, nem dança, melhor que tu 
 G6     C7(9)    F6         Bb7(9)  Eb7M  D7M 
Ô Dora, rainha  do frevo e do maraca--tu  
G6        C7(9)       F6       Bb7(9)   Eb7M  D6 
Ninguém requebra, nem dança, melhor que tu 
    G6          D7M  
Ô Do---ra!  Ô Do---ra! 


Fonte: A Canção no Tempo - Vol. 1 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34.

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