segunda-feira, 17 de julho de 2006

Desafinado

João Gilberto
Soando como a coisa mais estranha que aparecera até então na música brasileira, a primeira gravação de “Desafinado” (Odeon, 14426-b), lançada em fevereiro de 59, já mostrava tudo o que a bossa nova oferecia de inovador e revolucionário: o canto intimista, a letra sintética, despojada, o emprego de acordes alterados e, sobretudo, um extraordinário jogo rítmico entre o violão, a bateria e a voz do cantor.

Responsável por este jogo rítmico, seu interprete, João Gilberto, assumia assim de imediato um papel destacado no trio — completado pelo compositor Tom Jobim e o poeta Vinícius de Moraes que, criando a bossa nova, alteraria de forma irreversível o curso de nossa música popular. Apenas com Tom e Vinicius teríamos certamente uma música moderna, sofisticada, renovadora, mas que não seria o que se chamou bossa nova.

A melodia de “Desafinado” é bastante “torta” (“era mais ainda na concepção original, O João é que alterou alguma coisa na hora de gravar”, informa Tom Jobim) em razão principalmente de uma engenhosa alteração no quinto e sexto graus da escala na frase inicial (“Se você disser que eu desafino, amor”) que recai sobre as sílabas “de” (de “de-sa-fino”), “a” e “mor” (de “a-mor”).

Ao sustenizar a dominante e bemolizar a super-dominante, foram produzidos intervalos melódicos inusitados para os padrões da música brasileira da época, a ponto de dificultar a interpretação de alguns cantores menos dotados. Localizando essa alteração sobre a palavra “desafino”, os autores criaram a impressão de que o cantor semitonava, ou seja desafinava, o que levou muita gente a achar João Gilberto um cantor desafinado. Ao mesmo tempo, a batida deslocada do violão e o contratempo da percussão confundiram os músicos, provocando estupefação geral.

Tanta novidade apresentada numa única composição a levaria inevitavelmente ao sucesso, que se estenderia ao exterior. Nos Estados Unidos, por exemplo, o single de “Desafinado”, com Stan Getz e Charlie Byrd, gravado em 1962, ultrapassou a marca de um milhão de cópias e recebeu o prêmio Grammy de melhor performance de jazz. O fonograma foi extraído do álbum Jazz samba, que permaneceu setenta semanas no hit-parade americano e também ultrapassou a marca de um milhão de cópias. Esta gravação é considerada o marco inicial da bossa nova nos Estados Unidos. (A Canção no Tempo - Vol.2 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Editora 34).

Desafinado (samba bossa, 1959) - Newton Mendonça e Tom Jobim - Interpretação: João Gilberto



Tom: F7+
 F7+                          G7/5-
Se você disser que eu desafino amor
Gm7                  Bb/C         Cm7      D7/9-
Saiba que isso em mim provoca imensa dor
Gm7     A7/5+       D7+           D7/9-
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
G7                       Bb/C     Gb7/13
Eu possuo apenas o que Deus me deu
 F7+                      G7/5-
Se você insiste em classificar
Gm7            Bb/C          Cm7     D7/9-
Meu comportamento de anti-musical
Gm7            A7/5+        F6/9    E7/9+
Eu mesmo mentindo devo argumentar
A7+           G#7/5+       Em/G      D/E
Que isto é bossa-nova, isto é muito natural
   A7+          Bbº        Bm7/4         E7
O que você não sabe nem sequer pressente
A7+       Am7          Bm7/4      E7
É que os desafinados também têm um coração

C7+             C#º         Dm7/4
Fotografei você na minha Roleiflex
G7    Gm7           D7/9-        G7  Gb7/13
Revelou-se a sua enorme ingratidão
F7+                    G7/5-
Só não poderá falar assim do meu amor
Gm7         Bb/C         Cm7         D7/9-
Este é o maior  que você pode encontrar
Gm7           Bbm7         Am7         G7
Você com sua música esqueceu o principal
G7
Que no peito dos desafinados
Bbm7         Eb7/9
No fundo do peito bate calado
G7             Gb7/13
Que no peito dos desafinados
F6/9    Bbm6 F6/9
Também bate um coração

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