sábado, 29 de julho de 2006

O estrangeiro

Caetano Veloso
( Dm Am )
O pintor Paul Gauguin
 amou a luz da Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter 
 adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara:
Pareceu-lhe uma boca banguela.
E eu menos a conhecera mais a amara?
Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela
O que é uma coisa bela?
F         
O amor é cego
     Gm       C7
Ray Charles é cego
Cm               F7
Stevie Wonder é cego
             Bbm7                           D7/9
E o albino Hermeto não encherga mesmo muito bem
( Dm Am )
Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?
Uma arara?
Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara
Em que se passara passa passará o raro pesadelo
Que aqui começo a construir sempre buscando o belo e o amaro
Eu não sonhei que a praia de Botafogo
     era uma esteira rolante de areia branca e de óleo diesel
Sob meus tênis
E o Pão de Açucar menos óbvio possível
À minha frente
Um Pão de Açucar com umas arestas insuspeitadas
À áspera luz laranja contra a quase não luz quase não púrpura
Do branco das areias e das espumas
                                      F
Que era tudo quanto havia então de aurora
( Dm Am ) 
Estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas
E uma menina ainda adolescente e muito linda
Não olho pra trás mas sei de tudo
Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
Mas eu não desejo ver o terno negro do velho
Nem os dentes quase não púrpura da menina
(pense Seurat e pense impressionista
Essa coisa de luz nos brancos dentes e onda
Mas não pense surrealista que é outra onda)
F         
E ouço as vozes
   Gm        C7
Os dois me dizem
Cm         F7
Num duplo som
         Bbm7               D7/9
Como que sampleados num sinclavier:
( Dm Am ) 
"É chegada a hora da reeducação de alguém
Do Pai do Filho do espirito Santo amém
O certo é louco eletrochoque
O certo é saber que o certo é certo
O macho adulto branco sempre no comando
E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
Reconhecer o valor necessário do ato ipócrita
Riscar os índios, nada esperar dos pretos"
E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento
Sigo mais sozinho caminhando contra o vento
E entendo o centro do que estão dizendo
Aquele cara e aquela:
F           
É um desmascaro
  Gm     C7
Singelo grito:
  Cm        F7
"O rei está nu"
         Bbm7
Mas eu desperto porque tudo cala 
                                              D7/9
     frente ao fato de que o rei é mais bonito nú
( Dm Am ) 
E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo
E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo.
("Some may like a soft brazilian singer
but i've given up all attempts at perfection").

Nenhum comentário: