sexta-feira, 2 de junho de 2006

Ronda



Paulo Vanzolini
Se alguém realizasse um concurso para eleger a canção mais executada nos bares noturnos de São Paulo, a vencedora seria muito certamente “Ronda”, do biólogo-compositor Paulo Vanzolini, cuja obra gravada não chega a cinqüenta músicas. “Ronda” traduz na letra e na melodia o que há de mais comovedor para a alma do boêmio, com a história da mulher — naturalmente, também freqüentadora da noite — que, “com perfeita paciência”, segue em busca do amante, ainda que na convicção de um dia encontrá-lo “bebendo com outras mulheres, rolando um dadinho, jogando bilhar...” “E nesse dia então”, promete a personagem “vai dar na primeira edição: cena de sangue num bar da Avenida São João”.

Sem dúvida, este samba-canção é uma obra-prima condensada em poucos versos, sob a forma de uma narrativa cinematográfica. Inspirada e composta na época em que o autor, ainda jovem, servia no exército e costumava arrebanhar soldados bêbados em bares e prostíbulos, teve a sua primeira gravação em agosto de 53, no Rio, com a cantora Inezita Barroso, em disco RCA cujo lado A trazia a moda “Marvada Pinga". O problema era que não tinha sido escolhida uma música para o lado B. Então, como Paulo Vanzolini e sua mulher estavam no estúdio, acompanhando Inezita, foi sugerido que se incluísse uma composição de sua autoria, pois não havia tempo a perder.

Assim, de forma improvisada, “Ronda” foi gravada com a cantora sendo apoiada por um grupo de músicos de primeira, entre os quais Garoto, Zé Menezes, Bola Sete, Chiquinho do Acordeom e Abel Ferreira, tendo este inventado uma introdução na hora. Entretanto, o disco não despertou o menor interesse e “Ronda” permaneceu desconhecida, menos pelos boêmios, companheiros de noitadas do autor.

Quatorze anos depois, ao realizar o disco-brinde Onze sambas e uma capoeira, apenas com canções de Vanzolini, o produtor Marcus Pereira escolheu “Ronda” para uma das faixas, entregando-a a Cláudia Moreno. Isso marcou o começo de sua escalada para o sucesso consagrador, atingido pela calorosa versão da cantora Márcia, e de outras também expressivas gravações como as de Carmen Costa, Ângela Maria, Nora Ney e Maria Bethânia.

Precedida pela clássica introdução que reproduz seus compassos finais, “Ronda” tem a virtude de conquistar o ouvinte logo a partir das notas iniciais, o que se deve ao charme produzido pela descida de meio em meio tom, nas notas mi, mi bemol e ré, que recaem sobre as sílabas “da”, de “ci-da-de” , no primeiro verso, “rar” e “trar” das palavras “pro-cu-rar” e “en-con-trar”, no segundo, respectivamente harmonizadas com acordes de lá menor com sétima, dó menor com lá no baixo e ré com sétima.

Em 1978, Caetano Veloso utilizou a melodia de sua frase final para arrematar a sua canção “Sampa”. Pertencente à casta dos bons compositores que não sabem tocar instrumento algum, Paulo Vanzolini não se envergonha de confessar que não consegue distinguir a diferença entre os modos maior e menor da música (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Ronda (samba-canção, 1951 - sucesso em 1967) - Paulo Vanzolini - Intérprete: Márcia
Tom: G
G                      Bm
De noite, eu rondo a cidade,
         F               E
a te procurar, sem encontrar.
  Am                  Am7+
No meio de olhares, espio
              Am7             D7
em todos os bares, você não está.
G                  Bm  E
Volto prá casa abatida,
Am              Cm
desencantada da vida,
G       E          Eb7
o sonho alegria me dá,
       D7    G Bm Bbº
nele você está.
Am
Ah, se eu tivesse
D7
quem bem me quisesse,
 G
esse alguém me diria:
  F#m                   B7
Desiste, esta busca é inútil,
            Em Am D7
eu não desistia.
  G                      Bm
Porém, com perfeita paciência,
       F                        E
sigo a te buscar, hei de encontrar,
   Am                  Am7+
bebendo com outras mulheres,
               Am7             D7
rolando um dadinho, jogando bilhar.
 G             Bm
E nesse dia, então,
E    Am               Cm   F
vai dar na primeira edição:
G           E       Eb7
Cena de sangue num bar
       D7/5+    G7+
da Avenida São João.
 
 
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