quarta-feira, 14 de junho de 2006

Beatriz

Milton Nascimento
“O médico de câmara da imperatriz Teresa — Frederico Knieps / resolveu que seu filho também fosse médico / mas o rapaz fazendo relações com a equilibrista Agnes / com ela se casou, fundando a dinastia do Circo Knieps.” Com esses versos Jorge de Lima começava em 1938 o poema surrealista “O Grande Circo Místico”, inspirado num fato real ocorrido na Áustria no século XIX.

Quarenta e cinco anos depois, Edu Lobo e Chico Buarque criariam a trilha musical para um bailado homônimo, baseado no poema, atendendo a uma encomenda do Balé Guaíra, do Paraná. No repertório composto, com relevantes arranjos do maestro Chiquinho de Morais, destacou-se a valsa “Beatriz”, uma metáfora da vida de atriz, também surrealista e de excepcional qualidade: “Olha / será que é uma estrela / será que é mentira / será que é comédia / será que é divina / a vida da atriz...”

De interpretação difícil, em razão de sua extensão vocal, dos intervalos melódicos e das modulações, “Beatriz” ganhou uma gravação definitiva de Milton Nascimento, que afirma: “Beatriz’ é minha.” Edu fez a música em tempo relativamente curto, com “a certeza de que ia ficar legal”, ao contrário de Chico, que demorou para completar a letra, sendo a composição uma das últimas do bailado a ser concluída.

A escolha de Milton para intérprete foi resolvida de imediato pelos autores, pois somente ele, com a naturalidade de que é capaz de fazer a passagem da voz normal para o falsete, poderia gravar “Beatriz”. Na hora da gravação, Milton ficou no estúdio apenas com o pianista Cristóvão Bastos e na terceira tomada cantou a versão escolhida. Posteriormente, foram acrescentadas umas pinceladas de cordas pelo arranjador Chiquinho de Morais.

Sem jamais ter entrado em paradas de sucesso, “Beatriz” acumulou prestígio ao longo do tempo, impondo-se por sua beleza como um clássico da moderna música brasileira. Do começo ao fim, sua partitura tem um desenvolvimento encantador, no mesmo nível de criação dos grandes compositores de qualquer época ou país. No formato A-A-B-A, a melodia de A parte de uma célula (“será que ela é moça”), aproveitada cinco vezes em movimento harmônico ascendente, com pequenas alterações, destacando-se os acidentes na última, sobre as sílabas “ros-to”, do verso “o rosto da atriz”. Segue-se ainda em A uma sucessão de colcheias (“se ela dança no sétimo céu”), culminando em duas notas longas (semínimas pontuadas na palavra “vida”), que funcionam como uma pausa e, na repetição de A, como preparação para a segunda parte.

Em B a tonalidade sobe uma quinta aumentada, pois a modulação que vem de mi bemol passa a si natural. Neste ponto a interpretação se torna ainda mais difícil, tanto por se atingir a nota mais grave da composição, na palavra “chão” (da frase “me ensina a não andar com os pés no chão”), quanto pelos saltos melódicos, acrescidos de outros acidentes primorosamente colocados, como no verso “quantos desastres tem na minha mão”.

Tempos depois de a música gravada, Edu e Chico descobriram uma coincidência: a nota mais grave da canção cai na palavra “chão” e a mais aguda na palavra “céu” (A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34).

Beatriz (1983) - Chico Buarque e Edu Lobo

[Intro:] E

                    F#m7(9)
Olha será que ela é moça
                G#m7                    A7M
Será que ela é triste, será que é o contrário
           Bbº C#º             E
Será que é pintura o rosto da atriz
                     C#m7
Se ela dança no sétimo céu
           E/D               B/D#
Se ela acredita que é outro país
  G#m7     F#m7
E se ela só decora o seu papel
          A/B       B7(b9)
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha será que é de louça
Será que é de éter, será que é loucura
Será que é cenário a casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
          A/B       B7(b9) G7(9) G7
E se eu pudesse entrar na sua vida

C7M                         F7M(9)
Sim, me leva pra sempre, Beatriz
                                     C7M
Me ensina a não andar com os pés no chão
             F7M(9)  Bb7
Para sempre é sempre por um triz
Eb7M(9)                            Dm7 G7
Diz quantos desastres tem na minha mão
C7M(9)             Bm7(b5) E7(b13)
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha será que ela é uma estrela
Será que é mentira, será que é comédia
Será que é divina a vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem biz
E se um arcanjo passar o chapéu
          A/B         A E
E se eu pudesse entrar na sua vida

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