quarta-feira, 14 de junho de 2006

Meditação

João Gilberto
Antecedendo em alguns meses a versão de João Gilberto, que imprimiu à canção sua marca definitiva, “Meditação” seria gravada com sucesso por Isaura Garcia. Embora acompanhada pelo conjunto do marido, Walter Wanderley, um músico avançado que participaria em 61 do terceiro elepê do João, não havia na interpretação de Isaurinha a menor conotação de bossa nova. Era, isto sim, totalmente coerente com a personalidade da cantora (o álbum chamava-se Sempre personalíssima) de sotaque ítalo-paulistano, mas, que, em compensação, exibia um extraordinário senso de divisão, incomum para quem nascera no Brás. Além do mais era passional ao extremo, o que até justifica o “ai-ai-ai” que ela comete depois do verso “e tanto que seu pranto já secou...”.

Assim se entende por que sua interpretação seria praticamente o oposto da do João, a partir do andamento, mais rápido. Com um acompanhamento de cordas, um piano discreto, um trombone — na introdução que se tornaria clássica — e uma flauta — apenas na segunda parte e no final —, a versão do cantor dá bem um exemplo da economia que caracterizou a bossa nova em vários aspectos, da 0rquestraçao à duração da faixa.

Com a participação de Tom e Newton tanto na letra como na música, conforme era próprio da parceria, “Meditação” tem a estrutura A1 - A1 - B - A2, com 16 compassos em A e oito em B. O que ressalta na composição são as sofisticadas alterações diatônicas em sílabas como “di” (“quem a-cre-ditou”), “no” (“no amor”), “a” (“e perdeu a paz”), “so” (“o amor, o sor-ri-so”) e “sa” (“se transformam de-pres-sa demais”).

Já a letra, que lançou a expressão “o amor, o sorriso e a flor” — logo vinculada à bossa nova, a princípio positivamente, mais tarde, pejorativamente —, percorre as etapas de uma tradicional história de amor: o sonho inicial, a perda, a solidão, a privação e, por fim, o reencontro como amor verdadeiro.

O enfoque de João Gilberto e o arranjo de Tom Jobim exerceram forte influência no padrão da maioria das gravações que se seguiram, fazendo de “Meditação” (“Meditation”, na versão em inglês) a terceira composição em popularidade na pequena, mas importante, obra da dupla Jobim-Mendonça (A Canção no Tempo - Vol. 2 - Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello - Ed. 34).

Meditação (samba bossa, 1960) - Newton Mendonça e Tom Jobim - Interpretação: João Gilberto




A6           A6
Quem acreditou    no amor  no sorriso na flor
C#m7            F#7(-13)
Então sonhou sonhou
Bm7  Dm7
E perdeu a paz
  C#m7               F#7(-13)
O amor o sorriso e a flor
           Bm7        E5+
Se transformam depressa demais

A6     
Quem no coração
  A6
Abrigou a tristeza de ver
    C#m7      F#7(-13)
Tudo isso se perder
  Bm7    Dm7
E na solidão
     C#m7              F#7(-13)
Procurou a caminho a seguir
       Bm7         E5+
Já descrente de um dia feliz

D7+     Dm7
Quem chorou chorou
C#m7                      Bm7    E5+
E tanto que o seu pranto já secou

  A6  
Quem depois voltou
    A6
Ao amor ao sorriso e a flor
C#m7           F#7(b13)
Então tudo encontrou
Bm7      Dm7
Pois a própria dor
C#m7       F#7(-13)     Bm7     E7(9b)     Am7
Revelou o caminho do amor e a tristeza acabou



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