quinta-feira, 13 de abril de 2006

A seresta


Seresta foi um nome surgido no século XX, no Rio de Janeiro, para rebatizar a mais antiga tradição de cantoria popular das cidades: a serenata. Ato de cantar canções de caráter sentimental a noite, pelas ruas, com parada obrigatória diante das casas das namoradas, a serenata já apareceria descrita em 1505 em Portugal por Gil Vicente na farsa Quem tem farelos?. No Brasil, o costume das serenatas seria referido pelo viajante francês Le Gentil de la Barbinais, de passagem por Salvador em 1717, ao contar em seu livro Nouveau voyage autour du monde que “à noite só se ouviam os tristes acordes das violas”, tocadas por portugueses (espadas escondidas sob os camisolões) a passear “debaixo dos balcões de suas amadas” cantando, de instrumento em punho, com “voz ridiculamente terna”.

Mais compreensivo, outro francês, o estudioso de literatura luso-brasileira Ferdinand Denis, registraria em livro de 1826 que “gente simples, trabalhadores, percorrem as ruas à noite repetindo modinhas comoventes, que não se consegue ouvir sem emoção”.

Com a transformação dessa modinha, a partir do Romantismo, em cançao sentimental típica das cidades em todo o Brasil (alguns poetas românticos foram compositores, outros tiveram seus versos musicados), tal tipo de canto, transformado desde o séc. XVIII quase em canção de câmara, volta a popularizar-se com a voga das serenatas acompanhadas por músicos de choro, a base de flauta, víolao e cavaquinho.

Influenciadas pelas valsas, as modinhas têm então realçado seu tom de lamento na voz dos boêmios e mestiços capadócios cantadores de serenatas, por isso chamados de serenatistas e serenateiros. Assim, quando no séc. XX a serenata passa por evolução semântica a seresta (para confundir agora sob esse nome, muitas vezes, o ato de cantar com o gênero cantado), os cantores com voz apropriada ao sentimentalismo de serenatas ou serestas transformam-se, finalmente, em seresteiros.

A seresta

Conforme nos lembra o grande flautista brasileiro Carlos Poyares - na apresentação de seu disco Brasil, Seresta -, no passado, grupos de músicos, saindo das festas, detinham-se às janelas de suas pretendidas, para tocar e cantar madrugada a dentro, constituindo um costume boêmio que nós herdamos, como tantos outros, da Península Ibérica. Passando a denominar-se seresta, serenata ou sereno, essas primeiras manifestações, no Brasil, fizeram-se muito antes do lampião de gás... à luz da lua...

De fato, a origem desse costume - de se evocar alguém (especialmente a pessoa amada) através dos versos - vem de tempos passados, de épocas remotas, muitos séculos atrás. Conforme o testemunho de cronistas medievais, na Pesínsula Ibérica (Portugal e Espanha), desde a Idade Média, os trovadores e menestréis já costumavam entoar as famosas Cantigas ou Cantares, que compõem um vasto repertório lírico e também satírico: as Cantigas nem sempre tinham tom de romantismo, pois havia as Cantigas de Amigo, de Amor, destinadas aos amigos ou à amada, mas também as Cantigas de Escárnio e Cantigas de Mal-dizer, nas quais enviavam-se recados indelicados a desafetos pessoais, inclinando para o tom humorístico.

As cantigas líricas medievais constituíam, inicialmente, atividades palacianas, cantadas para as damas dos castelos e palácios. Por essa razão, eram encaradas como hábitos aristocráticos, entoadas ao som de instrumentos denominados guitarras (século XIII) ou vihuela - viola espanhola (séculos XIV e XV), considerando-se um hábito de bom-gosto. Aos poucos, entretanto, foram extrapolando os muros dos palácios e mesclando-se com manifestações populares, entre as novas camadas sociais urbanas que se formavam.

Em Portugal, no início do século XVI, o autor teatral Gil Vicente compôs peças que mostravam cenas do processo de popularização, como os autos Quem tem Farelos? e Auto de Inês Pereira . Esse processo, entretanto, crescia na mesma proporção de uma visão social preconceituosa.

Os instrumentos também foram se modificando, surgindo uma variante simplificada da viola, tão difundida popularmente que, por volta de 1650, “D. Francisco Manuel de Melo já podia acusar a perda de prestígio do instrumento junto às pessoas de melhor qualificação da cidade, tão baixo descera seu uso na escala social (....) As novidades de uma música produzida pela gente do povo das cidades, para atender às expectativas do lazer urbano, estava nascendo em Portugal de Quinhentos. E, tal como mais tarde viria a confirmar-se no Brasil, essa música popular surgia como criação das camadas mais humildes dos negros e brancos pobres das cidades, talvez por isso mesmo chamados de patifes”. (Em: História Social da Música Popular Brasileira, de José R. Tinhorão).

Algumas músicas seresteiras:

A casinha da colina - A deusa da minha rua - A namorada que sonhei - A noite do meu bem - A saudade mata a gente - A última canção - Adeus - Além - Alguém como tu - Amendoim torradinho - Amo-te muito - As rosas não falam - Ave Maria (Vicente Paiva) - Azulão - Balada triste - Bar de noite - Bom dia tristeza - Brasileirinho - Cabecinha no ombro - Canção da manhã feliz - Canção da volta - Canção de amor - Cansei de ilusões - Carinhoso - Castigo (Dolores Duran) - Chalana - Chão de estrelas - Choro chorão - Chove lá fora - Chuvas de verão - Cinco letras que choram (Adeus) - Conceição - Cordas de aço - Da cor do pecado - Dá-me tuas mãos - De cigarro em cigarro - Dó-ré-mi - Dos meu braços não sairás - Duas contas - É a ti flor do céu - Ébrio - Esmeralda - Eu sou a outra - Favela - Fim de caso - Franqueza - Garoto da rua - Gente humilde - Graças a Deus - Helena, Helena, Helena - Índia - Ingênuo - Lama Laura - Lembranças - Linda flor - Malandrinha - Mané fogueteiro - Manias - Maria dos meus pecados - Matriz ou filial - Memórias do Café Nice - Mensagem - Meu mundo caiu - Meu primeiro amor (Lejania) - Minha rainha - Modinha - Molambo - Mulher - Nada além - Naquela mesa - Neste mesmo lugar - Ninguém me ama - Noite cheia de estrelas - Nossos momentos - Número um - Joga a rede no mar - Meu nome é ninguém - O mundo é um moinho - O trovador - Ouça - Patativa - Perdido de amor - Porta aberta - Pra você - Prece ao vento - Quem é? - Quem sabe? - Quero beijar-te as mãos - Ronda - Rosa - Rosa de Maio - Saia do caminho - Samba quadrado - Serenata do adeus - Serra da Boa Esperança - Sertaneja - Suas mãos - Tango pra Tereza - Ternura antiga - Travessia - Tudo acabado - Tudo ou nada - Vida de bailarina - Violão - Violões em funeral

Mais miscelânea seresteira, porque em uma roda de seresta dá de tudo, inclusive músicas cômicas:

Ai! Minha mãe - Alecrim - Azul da cor do mar - Balada Número 7- Mané Garrincha - Boneca cobiçada - Calúnias - Telma eu não sou gay - Caminhando (Prá não dizer que não falei das flores) - Chuva de prata - Como uma onda (Zen surfismo) - Cuitelinho - De volta pro aconchego - Enquanto houver saudade - Eu nunca mais vou te esquecer - Falando sério - Fiz a cama na varanda - Fogo e paixão - Foi Deus quem fez você - Frevo mulher - Gostoso demais - Hoje - Kalu - Marylou - Memórias - Moça - Mon amour, meu bem, ma femme - Na rua, na chuva, na fazenda - Nesta rua - Nossa canção - Nuvem passageira - O menino de Braçanã - O moço velho - O patrão nosso de cada dia - Peixe vivo - Preta Pretinha - Que pena - Rosa de Hiroshima - Sangue latino - Sereno - Sintonia - Sobradinho - Tudo passará - Um dia de domingo - Um jeito estúpido de te amar - Viagem - Vira virou - Whisky a go go

E para rir um pouco também podemos tocar Ary Toledo:


E o jeitinho especial das músicas de Juca Chaves, o menestrel do Brasil:


Anos 60 também pega bem numa seresta:


Que saudade dos Mamonas! Também vale numa seresta:



Fonte: Origens do gênero “Seresta”
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